segunda-feira, 13 de abril de 2026

Paulo Motoryn: Médica que defendeu ‘tratamento precoce’ na pandemia entra no PL e ganha vídeo de Flávio Bolsonaro

É provável que você se lembre. Durante a pandemia, uma parte relevante das decisões do governo do então presidente Jair Bolsonaro não passava pelos canais formais do Ministério da Saúde. Não era registrada em agendas oficiais, não era comunicada publicamente e, muitas vezes, contrariava as recomendações produzidas pelo corpo técnico da pasta.

Esse arranjo, que veio a ser descrito por autoridades e pela CPI da Covid no Senado como um “gabinete paralelo”, funcionava à margem da estrutura institucional, mas com acesso direto ao centro do poder. Nos últimos dias, um episódio aparentemente corriqueiro da política partidária trouxe esse passado de volta ao presente.

No dia 25 de março, o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República, e o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, gravaram um vídeo celebrando a filiação e a pré-candidatura da médica Nise Yamaguchi à Câmara dos Deputados nas eleições de outubro.

A cena, registrada e divulgada como um gesto de apoio eleitoral, recoloca no debate público uma personagem que teve atuação relevante — e pouco transparente — nos bastidores do governo de Jair Bolsonaro durante o período mais crítico da crise sanitária.

A lembrança é especialmente significativa porque, em janeiro deste ano, o Ministério Público Federal, o MPF, decidiu arquivar um pedido de investigação sobre a conduta de Bolsonaro na pandemia.

No despacho, a procuradoria afirmou que as acusações apresentadas eram genéricas e não estavam acompanhadas de elementos mínimos que justificassem a abertura de um inquérito.

A decisão encerrou, no âmbito do MPF, uma frente de questionamento que dialogava diretamente com os fatos revelados ao longo de 2020 e 2021 — entre eles, a existência de um núcleo informal de aconselhamento que operava fora das estruturas oficiais. Mas tem coisas que não podemos esquecer. Vamos aos fatos.

A primeira reportagem que publiquei no Intercept Brasil, ainda como freelancer, em maio de 2021, revelou que Nise Yamaguchi frequentou o Ministério da Saúde em reuniões que não constavam em agendas públicas, mesmo quando envolviam as principais autoridades da pasta.  Os dados vieram de registros de entrada e circulação que obtive via Lei de Acesso à Informação, listando visitantes do prédio do ministério em Brasília ao longo de 2020. De acordo com esses documentos, Nise esteve na sede da pasta em pelo menos quatro datas — em junho, julho e dezembro daquele ano. Em duas dessas ocasiões, entrou mais de uma vez no mesmo dia, nos períodos da manhã e da tarde, o que indicava reuniões prolongadas, distribuídas ao longo de várias horas.

Em 10 de junho de 2020, por exemplo, ela acessou o prédio às 9h41 e foi encaminhada ao gabinete do ministro interino Eduardo Pazuello. Retornou às catracas às 14h50, desta vez direcionada à secretaria-executiva, então comandada pelo coronel Elcio Franco. Nenhuma dessas reuniões aparecia nas agendas oficiais de Pazuello ou de Franco. Pela legislação brasileira, compromissos de ministros e secretários-executivos devem ser registrados e divulgados, inclusive quando se trata de despachos internos. A ausência de qualquer menção a esses encontros indicavam que eles foram deliberadamente omitidos da publicidade exigida para cargos dessa natureza.

Os registros mostravam ainda que Nise não atuava isoladamente. Em algumas visitas, esteve acompanhada de sua irmã, a administradora de empresas Greice Naomi Yamaguchi. Em outra visita, Greice já havia estado no prédio dias antes, ao lado de outro irmão, o cirurgião plástico Charles Takahito Yamaguchi. Essa circulação familiar dentro de áreas sensíveis da pasta coincide com um momento em que o governo federal discutia e implementava mudanças importantes na política de enfrentamento à covid-19.

<><> Gabinete das sombras

Ao longo de 2020, o Ministério da Saúde flexibilizou regras para prescrição de medicamentos como cloroquina e hidroxicloroquina e, no início de 2021, lançou o aplicativo TrateCov, que indicava automaticamente o uso desses fármacos em casos suspeitos. Nise Yamaguchi foi uma das principais defensoras públicas dessas estratégias. Em entrevistas, audiências e participações em comissões legislativas, sustentou o uso do chamado “tratamento precoce” e chegou a defender, em depoimento à CPI da Covid, que a ideia de imunização de rebanho sem vacinação era “pertinente”, baseada na ampla exposição da população ao vírus. Essas posições estavam em desacordo com o consenso estabelecido por entidades científicas nacionais e internacionais, que apontavam a ineficácia desses medicamentos contra a covid-19.

A proximidade de Nise com o núcleo do governo não se restringia ao Ministério da Saúde. Documentos entregues à CPI da Covid indicaram que Nise também esteve no Palácio do Planalto em pelo menos quatro ocasiões ao longo de 2020. A CPI reuniu depoimentos e evidências que apontavam para a existência de um grupo informal de aconselhamento ao presidente, formado por médicos, empresários e assessores, que atuava paralelamente à estrutura oficial do ministério. O ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que atuou na pasta até abril de 2020, afirmou aos senadores que Bolsonaro recorria a “outras fontes” de informação e utilizou o termo “assessoramento paralelo” para descrever esse processo. Autoridades como o diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, Antonio Barra Torres, também mencionaram a atuação de um núcleo externo influenciando decisões estratégicas.

<><> Participação de peso

Nesse arranjo, a presença frequente de Nise em reuniões não registradas com a cúpula da pasta e com o entorno presidencial tinha um peso específico. Ela não ocupava cargo formal no governo, mas tinha acesso a espaços decisórios e participava de discussões que resultavam em políticas públicas de grande impacto.

A ausência de transparência sobre esses encontros impediu a reconstrução completa do conteúdo das reuniões, mas a coincidência temporal entre sua atuação e as medidas adotadas pelo governo indica uma relação direta entre o aconselhamento informal e a condução da política sanitária.

Esse conjunto de decisões teve impacto letal. Estudos comparativos indicam que o Brasil registrou um excesso de mortalidade significativamente acima da média global durante a pandemia. O país figurou entre os que mais concentraram mortes em termos absolutos e proporcionais, ultrapassando, em diferentes momentos, a tendência internacional quando ajustada por população. Ao final da crise sanitária, o Brasil somou mais de 700 mil mortes por covid-19 — um número que, à luz de análises epidemiológicas, não pode ser dissociado das escolhas de política pública adotadas naquele período.

<><> De volta à cena

O vídeo recente em que a pré-candidatura de Nise Yamaguchi é celebrada por Flávio Bolsonaro traz de volta ao centro da cena política uma figura associada ao funcionamento desse circuito paralelo. Fora das sombras. O afago de Flávio em Nise, sem nenhum constrangimento, dialoga com um padrão observado em outras experiências recentes da extrema direita. Em governos como o de Donald Trump, nos Estados Unidos, e o de Viktor Orbán, na Hungria, o segundo momento de poder tende a ser menos contido na implementação de agendas que, no primeiro ciclo, ainda encontravam freios institucionais ou resistências internas. Procurei a médica Nise Yamaguchi pela primeira vez em 2021, à época das reportagens sobre sua atuação durante a pandemia, mas não houve retorno. Agora, novamente contatada para esta reportagem, também não respondeu aos questionamentos enviados até o fechamento deste texto.

•        O dia em que Jair Renan virou capa do Globo. Por Moisés Mendes

É intensa e trabalhada em mutirão, de forma articulada pelos jornalões, a campanha para que, antes da ação dos marqueteiros, Flávio Bolsonaro consolide sua imagem de moderado. Nesse esforço, até Jair Renan virou chamada de capa do Globo.

Foi no dia 8, em notícia que ficou em destaque até a noite no jornal online: “Flávio tenta reaproximar Eduardo e Michelle e atua para conter críticas de Carlos e Jair Renan a aliados”.

O vereador Jair Renan, considerado medíocre até por parceiros da extrema direita de Balneário Camboriú, virou protagonista no Globo, ao lado do irmão Carluxo, para que Flávio se apresente como conciliador.

Jair Renan e Carluxo são radicais, não Flávio. É essa a palavra – conciliador – que a Folha também repete em texto deste sábado, dia 11, com chamada de capa, ao fazer o agrupamento das opiniões de meia dúzia de marqueteiros sobre o filho ungido.

O jornal foi ouvir fabricantes de imagens para produzir essa mensagem de assessoria de imprensa: “Flávio Bolsonaro busca marqueteiros que evitem radicalização na campanha”.

O que importa é o marqueteiro. É quem vai fazer o molde para a nova face de Flávio Bolsonaro, o candidato que, por pressão das redes sociais, volta a ter pai e sobrenome nos jornalões.

A manchete que transforma Jair Renan Bolsonaro em personagem da eleição foi publicada na quarta-feira. Na sexta-feira, Flávio, o moderado, fez essa afirmação no Fórum da Liberdade, em Porto Alegre:

"Um dos principais fatores que têm que ser levados em consideração na hora de escolher seu senador é: você é a favor ou contra o impeachment de ministros do Supremo. Não tenho dúvida de que o Senado, que vai ter dois terços renovados, vai ser majoritariamente a favor dessa pauta".

O moderado defendeu a interdição de ministros do STF e foi aplaudido de pé pela plateia de 'liberais' absorvidos pelo bolsonarismo. E depois afirmou: "Se tem uma coisa que todos nós, pré-candidatos, temos que ser é radicais nessa parte da segurança pública, em defesa de nossa soberania".

No dia 28 de março, em palestra no Texas, Flávio, o defensor da soberania brasileira, havia oferecido, como compromisso de candidato, acesso dos Estados Unidos às terras raras do Brasil, para que assim os americanos enfrentem a China.

No texto deste sábado na Folha, a repórter Carolina Linhares apresenta Flávio, a partir do consenso dos marqueteiros ouvidos, como um político de “perfil conciliador” em relação ao pai.

Um dos marqueteiros afirma que o eleitor brasileiro busca mudanças e, por isso, defende que Flávio – escreve Carolina Linhares – “apresente um projeto de futuro”.

O que vem aí, e cabe num projeto desse tipo, é vasto e ameaçador. Não no sentido da repetição do que o pai já foi e já fez, mas do que o filho pode apresentar como a nova face fofa do bolsonarismo.

A cara de Flávio será remodelada pelos marqueteiros, de acordo com a lição mais consagrada da política de que é preciso fazer concessões e dar a entender que há mudanças para que nada mude. É o momento da harmonização facial.

O marketing vai sugerir que Flávio Bolsonaro é hoje outra criatura da extrema direita, e metade do país irá fingir que pode vê-lo assim. É como boa parte dos brasileiros ainda vê a Terra plana, mesmo depois da Artemis II.

•        Queiroz assume cargo em segurança de Saquarema, no Rio, e mantém influência política

Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e personagem central nas investigações sobre rachadinha na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), voltou a ocupar posição de destaque na administração pública ao assumir a subsecretaria de Segurança e Ordem Pública de Saquarema, na Região dos Lagos. O movimento reforça sua permanência no cenário político, mesmo anos após as denúncias que o colocaram no centro de um dos casos mais emblemáticos da política fluminense, relata o jornal O Globo.

A nomeação ocorreu com apoio de aliados políticos ligados ao PL, incluindo o ex-prefeito Antonio Peres, responsável pelo diretório municipal do partido. A articulação teria contado também com o respaldo de Flávio Bolsonaro, com quem Queiroz mantém proximidade política.

Desde 2024 no cargo, o ex-policial militar reformado atua diretamente na supervisão da Guarda Municipal e participa de agendas institucionais dentro e fora do município. Internamente, sua atuação lhe rendeu a reputação de uma espécie de “xerife” da segurança local, com presença constante em eventos públicos e operações ligadas à área.

A chegada de Queiroz à prefeitura de Saquarema ocorre após tentativas frustradas de alocação em outras cidades, como Campos dos Goytacazes. Na avaliação de interlocutores ouvidos pela reportagem, o cargo também representou uma forma de estabilizar sua posição política após a candidatura sem sucesso a deputado estadual em 2022.

Em 2024, Queiroz disputou uma vaga na Câmara Municipal de Saquarema pelo PL e terminou como primeiro suplente. Durante a campanha, recebeu apoio explícito de Flávio Bolsonaro, que declarou: “Para entrar na política tem que ter couro grosso, e o Queiroz tem. A gente está do lado certo da história. (...) Quero voltar com o presidente Bolsonaro aqui em Saquarema para dar um abraço na (atual prefeita) Lucimar e no Queiroz”.

Apesar da visibilidade, Queiroz evitou conceder entrevistas. Em contato telefônico com o jornal, afirmou: “Por mim, não teria problema nenhum falar, mas esse é um ano eleitoral e não quero correr o risco de perder o cargo no município”.

Na área de segurança, o subsecretário já defendeu propostas como o armamento da Guarda Municipal, embora a medida ainda não tenha sido implementada. A pasta também lançou iniciativas como uma ronda ostensiva municipal, com características semelhantes às operações da Polícia Militar.

O histórico de Queiroz inclui denúncia do Ministério Público do Rio por suposta participação em um esquema de recolhimento irregular de salários de assessores no gabinete de Flávio Bolsonaro. O caso, no entanto, foi arquivado na esfera criminal após decisões judiciais que anularam provas obtidas durante a investigação.

Durante o processo, o próprio Queiroz afirmou à Justiça que os repasses ocorreram “sem anuência” de Flávio Bolsonaro. O Ministério Público, por sua vez, apresentou elementos que indicariam o contrário, incluindo mensagens nas quais o ex-assessor mencionava a necessidade de prestar contas a superiores.

A prefeitura de Saquarema declarou, em nota, que a nomeação do subsecretário seguiu critérios técnicos, destacando sua trajetória de três décadas na Polícia Militar. Já a secretaria estadual de Ciência e Tecnologia não comentou a nomeação de Felipe Queiroz, filho do ex-assessor, para um cargo na pasta.

•        Ex-assessora de Flávio Bolsonaro é denunciada por lavagem de dinheiro

 Uma ex-assessora do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro foi denunciada sob acusação de participação em um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao miliciano Adriano da Nóbrega, morto em 2022 durante uma operação policial na Bahia. As informações foram divulgadas nesta quinta-feira (19) pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro e publicadas originalmente pela Folha de S.Paulo.

De acordo com a denúncia, Raimunda Veras Magalhães integrou uma rede composta por pessoas físicas e jurídicas destinada a “receber, movimentar e ocultar valores oriundos do jogo do bicho”. A Promotoria sustenta que o grupo operava por meio de empresas de fachada para dar aparência de legalidade aos recursos ilícitos.

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A reportagem procurou a advogada Manoela Santos, que já representou Raimunda em outros processos, mas não houve retorno até a publicação. Já Flávio Bolsonaro, que é pré-candidato à Presidência da República, afirmou que não comentaria o caso por não ter conhecimento prévio da acusação.

Raimunda já havia sido denunciada anteriormente no esquema de “rachadinha” atribuído a Flávio Bolsonaro durante o período em que o parlamentar atuou na Alerj. Esse processo, no entanto, foi arquivado após decisões do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal que anularam provas da investigação.

Segundo o MP-RJ, Adriano da Nóbrega controlava pontos de exploração do jogo do bicho em Copacabana em associação com o bicheiro Bernardo Bello. As investigações indicam que quatro empresas foram responsáveis por movimentar cerca de R$ 8,5 milhões.

“Entre os empreendimentos de fachada constam um depósito de bebida, um bar e um restaurante. Os investigadores se depararam com um quiosque de serviços de sobrancelha localizado em um shopping na zona norte, cuja conta registrou, em seis meses, aproximadamente R$ 2 milhões em créditos”, informou o MP-RJ.

Raimunda atuou como assessora de Flávio Bolsonaro entre abril de 2016 e novembro de 2018. O Ministério Público não detalhou, contudo, o período específico em que ela teria participado do suposto esquema de lavagem de dinheiro.

Além dela, o MP-RJ também denunciou o deputado federal Juninho do Pneu (União Brasil-RJ). De acordo com a Promotoria, ele adquiriu bens de Adriano da Nóbrega após a morte do miliciano, avaliados em R$ 3,5 milhões.

A acusação afirma que o parlamentar e a viúva de Adriano, Julia Lotuffo, também denunciada no caso, tinham conhecimento da origem ilícita do imóvel e das irregularidades na transação.

 

Fonte: The Intercept/Brasil 247

 

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