Paulo
Motoryn: Médica que defendeu ‘tratamento precoce’ na pandemia entra no PL e
ganha vídeo de Flávio Bolsonaro
É
provável que você se lembre. Durante a pandemia, uma parte relevante das
decisões do governo do então presidente Jair Bolsonaro não passava pelos canais
formais do Ministério da Saúde. Não era registrada em agendas oficiais, não era
comunicada publicamente e, muitas vezes, contrariava as recomendações
produzidas pelo corpo técnico da pasta.
Esse
arranjo, que veio a ser descrito por autoridades e pela CPI da Covid no Senado
como um “gabinete paralelo”, funcionava à margem da estrutura institucional,
mas com acesso direto ao centro do poder. Nos últimos dias, um episódio
aparentemente corriqueiro da política partidária trouxe esse passado de volta
ao presente.
No dia
25 de março, o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da
República, e o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, gravaram um vídeo
celebrando a filiação e a pré-candidatura da médica Nise Yamaguchi à Câmara dos
Deputados nas eleições de outubro.
A cena,
registrada e divulgada como um gesto de apoio eleitoral, recoloca no debate
público uma personagem que teve atuação relevante — e pouco transparente — nos
bastidores do governo de Jair Bolsonaro durante o período mais crítico da crise
sanitária.
A
lembrança é especialmente significativa porque, em janeiro deste ano, o
Ministério Público Federal, o MPF, decidiu arquivar um pedido de investigação
sobre a conduta de Bolsonaro na pandemia.
No
despacho, a procuradoria afirmou que as acusações apresentadas eram genéricas e
não estavam acompanhadas de elementos mínimos que justificassem a abertura de
um inquérito.
A
decisão encerrou, no âmbito do MPF, uma frente de questionamento que dialogava
diretamente com os fatos revelados ao longo de 2020 e 2021 — entre eles, a
existência de um núcleo informal de aconselhamento que operava fora das
estruturas oficiais. Mas tem coisas que não podemos esquecer. Vamos aos fatos.
A
primeira reportagem que publiquei no Intercept Brasil, ainda como freelancer,
em maio de 2021, revelou que Nise Yamaguchi frequentou o Ministério da Saúde em
reuniões que não constavam em agendas públicas, mesmo quando envolviam as
principais autoridades da pasta. Os
dados vieram de registros de entrada e circulação que obtive via Lei de Acesso
à Informação, listando visitantes do prédio do ministério em Brasília ao longo
de 2020. De acordo com esses documentos, Nise esteve na sede da pasta em pelo
menos quatro datas — em junho, julho e dezembro daquele ano. Em duas dessas
ocasiões, entrou mais de uma vez no mesmo dia, nos períodos da manhã e da
tarde, o que indicava reuniões prolongadas, distribuídas ao longo de várias
horas.
Em 10
de junho de 2020, por exemplo, ela acessou o prédio às 9h41 e foi encaminhada
ao gabinete do ministro interino Eduardo Pazuello. Retornou às catracas às
14h50, desta vez direcionada à secretaria-executiva, então comandada pelo
coronel Elcio Franco. Nenhuma dessas reuniões aparecia nas agendas oficiais de
Pazuello ou de Franco. Pela legislação brasileira, compromissos de ministros e
secretários-executivos devem ser registrados e divulgados, inclusive quando se
trata de despachos internos. A ausência de qualquer menção a esses encontros
indicavam que eles foram deliberadamente omitidos da publicidade exigida para
cargos dessa natureza.
Os
registros mostravam ainda que Nise não atuava isoladamente. Em algumas visitas,
esteve acompanhada de sua irmã, a administradora de empresas Greice Naomi
Yamaguchi. Em outra visita, Greice já havia estado no prédio dias antes, ao
lado de outro irmão, o cirurgião plástico Charles Takahito Yamaguchi. Essa
circulação familiar dentro de áreas sensíveis da pasta coincide com um momento
em que o governo federal discutia e implementava mudanças importantes na
política de enfrentamento à covid-19.
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Gabinete das sombras
Ao
longo de 2020, o Ministério da Saúde flexibilizou regras para prescrição de
medicamentos como cloroquina e hidroxicloroquina e, no início de 2021, lançou o
aplicativo TrateCov, que indicava automaticamente o uso desses fármacos em
casos suspeitos. Nise Yamaguchi foi uma das principais defensoras públicas
dessas estratégias. Em entrevistas, audiências e participações em comissões
legislativas, sustentou o uso do chamado “tratamento precoce” e chegou a
defender, em depoimento à CPI da Covid, que a ideia de imunização de rebanho
sem vacinação era “pertinente”, baseada na ampla exposição da população ao
vírus. Essas posições estavam em desacordo com o consenso estabelecido por
entidades científicas nacionais e internacionais, que apontavam a ineficácia
desses medicamentos contra a covid-19.
A
proximidade de Nise com o núcleo do governo não se restringia ao Ministério da
Saúde. Documentos entregues à CPI da Covid indicaram que Nise também esteve no
Palácio do Planalto em pelo menos quatro ocasiões ao longo de 2020. A CPI
reuniu depoimentos e evidências que apontavam para a existência de um grupo
informal de aconselhamento ao presidente, formado por médicos, empresários e
assessores, que atuava paralelamente à estrutura oficial do ministério. O
ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que atuou na pasta até abril de
2020, afirmou aos senadores que Bolsonaro recorria a “outras fontes” de
informação e utilizou o termo “assessoramento paralelo” para descrever esse
processo. Autoridades como o diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária,
a Anvisa, Antonio Barra Torres, também mencionaram a atuação de um núcleo
externo influenciando decisões estratégicas.
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Participação de peso
Nesse
arranjo, a presença frequente de Nise em reuniões não registradas com a cúpula
da pasta e com o entorno presidencial tinha um peso específico. Ela não ocupava
cargo formal no governo, mas tinha acesso a espaços decisórios e participava de
discussões que resultavam em políticas públicas de grande impacto.
A
ausência de transparência sobre esses encontros impediu a reconstrução completa
do conteúdo das reuniões, mas a coincidência temporal entre sua atuação e as
medidas adotadas pelo governo indica uma relação direta entre o aconselhamento
informal e a condução da política sanitária.
Esse
conjunto de decisões teve impacto letal. Estudos comparativos indicam que o
Brasil registrou um excesso de mortalidade significativamente acima da média
global durante a pandemia. O país figurou entre os que mais concentraram mortes
em termos absolutos e proporcionais, ultrapassando, em diferentes momentos, a
tendência internacional quando ajustada por população. Ao final da crise
sanitária, o Brasil somou mais de 700 mil mortes por covid-19 — um número que,
à luz de análises epidemiológicas, não pode ser dissociado das escolhas de
política pública adotadas naquele período.
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De volta à cena
O vídeo
recente em que a pré-candidatura de Nise Yamaguchi é celebrada por Flávio
Bolsonaro traz de volta ao centro da cena política uma figura associada ao
funcionamento desse circuito paralelo. Fora das sombras. O afago de Flávio em
Nise, sem nenhum constrangimento, dialoga com um padrão observado em outras
experiências recentes da extrema direita. Em governos como o de Donald Trump,
nos Estados Unidos, e o de Viktor Orbán, na Hungria, o segundo momento de poder
tende a ser menos contido na implementação de agendas que, no primeiro ciclo,
ainda encontravam freios institucionais ou resistências internas. Procurei a
médica Nise Yamaguchi pela primeira vez em 2021, à época das reportagens sobre
sua atuação durante a pandemia, mas não houve retorno. Agora, novamente
contatada para esta reportagem, também não respondeu aos questionamentos
enviados até o fechamento deste texto.
• O dia em que Jair Renan virou capa do
Globo. Por Moisés Mendes
É
intensa e trabalhada em mutirão, de forma articulada pelos jornalões, a
campanha para que, antes da ação dos marqueteiros, Flávio Bolsonaro consolide
sua imagem de moderado. Nesse esforço, até Jair Renan virou chamada de capa do
Globo.
Foi no
dia 8, em notícia que ficou em destaque até a noite no jornal online: “Flávio
tenta reaproximar Eduardo e Michelle e atua para conter críticas de Carlos e
Jair Renan a aliados”.
O
vereador Jair Renan, considerado medíocre até por parceiros da extrema direita
de Balneário Camboriú, virou protagonista no Globo, ao lado do irmão Carluxo,
para que Flávio se apresente como conciliador.
Jair
Renan e Carluxo são radicais, não Flávio. É essa a palavra – conciliador – que
a Folha também repete em texto deste sábado, dia 11, com chamada de capa, ao
fazer o agrupamento das opiniões de meia dúzia de marqueteiros sobre o filho
ungido.
O
jornal foi ouvir fabricantes de imagens para produzir essa mensagem de
assessoria de imprensa: “Flávio Bolsonaro busca marqueteiros que evitem
radicalização na campanha”.
O que
importa é o marqueteiro. É quem vai fazer o molde para a nova face de Flávio
Bolsonaro, o candidato que, por pressão das redes sociais, volta a ter pai e
sobrenome nos jornalões.
A
manchete que transforma Jair Renan Bolsonaro em personagem da eleição foi
publicada na quarta-feira. Na sexta-feira, Flávio, o moderado, fez essa
afirmação no Fórum da Liberdade, em Porto Alegre:
"Um
dos principais fatores que têm que ser levados em consideração na hora de
escolher seu senador é: você é a favor ou contra o impeachment de ministros do
Supremo. Não tenho dúvida de que o Senado, que vai ter dois terços renovados,
vai ser majoritariamente a favor dessa pauta".
O
moderado defendeu a interdição de ministros do STF e foi aplaudido de pé pela
plateia de 'liberais' absorvidos pelo bolsonarismo. E depois afirmou: "Se
tem uma coisa que todos nós, pré-candidatos, temos que ser é radicais nessa
parte da segurança pública, em defesa de nossa soberania".
No dia
28 de março, em palestra no Texas, Flávio, o defensor da soberania brasileira,
havia oferecido, como compromisso de candidato, acesso dos Estados Unidos às
terras raras do Brasil, para que assim os americanos enfrentem a China.
No
texto deste sábado na Folha, a repórter Carolina Linhares apresenta Flávio, a
partir do consenso dos marqueteiros ouvidos, como um político de “perfil
conciliador” em relação ao pai.
Um dos
marqueteiros afirma que o eleitor brasileiro busca mudanças e, por isso,
defende que Flávio – escreve Carolina Linhares – “apresente um projeto de
futuro”.
O que
vem aí, e cabe num projeto desse tipo, é vasto e ameaçador. Não no sentido da
repetição do que o pai já foi e já fez, mas do que o filho pode apresentar como
a nova face fofa do bolsonarismo.
A cara
de Flávio será remodelada pelos marqueteiros, de acordo com a lição mais
consagrada da política de que é preciso fazer concessões e dar a entender que
há mudanças para que nada mude. É o momento da harmonização facial.
O
marketing vai sugerir que Flávio Bolsonaro é hoje outra criatura da extrema
direita, e metade do país irá fingir que pode vê-lo assim. É como boa parte dos
brasileiros ainda vê a Terra plana, mesmo depois da Artemis II.
• Queiroz assume cargo em segurança de
Saquarema, no Rio, e mantém influência política
Fabrício
Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e personagem central
nas investigações sobre rachadinha na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj),
voltou a ocupar posição de destaque na administração pública ao assumir a
subsecretaria de Segurança e Ordem Pública de Saquarema, na Região dos Lagos. O
movimento reforça sua permanência no cenário político, mesmo anos após as
denúncias que o colocaram no centro de um dos casos mais emblemáticos da
política fluminense, relata o jornal O Globo.
A
nomeação ocorreu com apoio de aliados políticos ligados ao PL, incluindo o
ex-prefeito Antonio Peres, responsável pelo diretório municipal do partido. A
articulação teria contado também com o respaldo de Flávio Bolsonaro, com quem
Queiroz mantém proximidade política.
Desde
2024 no cargo, o ex-policial militar reformado atua diretamente na supervisão
da Guarda Municipal e participa de agendas institucionais dentro e fora do
município. Internamente, sua atuação lhe rendeu a reputação de uma espécie de
“xerife” da segurança local, com presença constante em eventos públicos e
operações ligadas à área.
A
chegada de Queiroz à prefeitura de Saquarema ocorre após tentativas frustradas
de alocação em outras cidades, como Campos dos Goytacazes. Na avaliação de
interlocutores ouvidos pela reportagem, o cargo também representou uma forma de
estabilizar sua posição política após a candidatura sem sucesso a deputado
estadual em 2022.
Em
2024, Queiroz disputou uma vaga na Câmara Municipal de Saquarema pelo PL e
terminou como primeiro suplente. Durante a campanha, recebeu apoio explícito de
Flávio Bolsonaro, que declarou: “Para entrar na política tem que ter couro
grosso, e o Queiroz tem. A gente está do lado certo da história. (...) Quero
voltar com o presidente Bolsonaro aqui em Saquarema para dar um abraço na
(atual prefeita) Lucimar e no Queiroz”.
Apesar
da visibilidade, Queiroz evitou conceder entrevistas. Em contato telefônico com
o jornal, afirmou: “Por mim, não teria problema nenhum falar, mas esse é um ano
eleitoral e não quero correr o risco de perder o cargo no município”.
Na área
de segurança, o subsecretário já defendeu propostas como o armamento da Guarda
Municipal, embora a medida ainda não tenha sido implementada. A pasta também
lançou iniciativas como uma ronda ostensiva municipal, com características
semelhantes às operações da Polícia Militar.
O
histórico de Queiroz inclui denúncia do Ministério Público do Rio por suposta
participação em um esquema de recolhimento irregular de salários de assessores
no gabinete de Flávio Bolsonaro. O caso, no entanto, foi arquivado na esfera
criminal após decisões judiciais que anularam provas obtidas durante a
investigação.
Durante
o processo, o próprio Queiroz afirmou à Justiça que os repasses ocorreram “sem
anuência” de Flávio Bolsonaro. O Ministério Público, por sua vez, apresentou
elementos que indicariam o contrário, incluindo mensagens nas quais o
ex-assessor mencionava a necessidade de prestar contas a superiores.
A
prefeitura de Saquarema declarou, em nota, que a nomeação do subsecretário
seguiu critérios técnicos, destacando sua trajetória de três décadas na Polícia
Militar. Já a secretaria estadual de Ciência e Tecnologia não comentou a
nomeação de Felipe Queiroz, filho do ex-assessor, para um cargo na pasta.
• Ex-assessora de Flávio Bolsonaro é
denunciada por lavagem de dinheiro
Uma ex-assessora do senador Flávio Bolsonaro
(PL-RJ) na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro foi denunciada sob acusação
de participação em um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao miliciano
Adriano da Nóbrega, morto em 2022 durante uma operação policial na Bahia. As
informações foram divulgadas nesta quinta-feira (19) pelo Ministério Público do
Estado do Rio de Janeiro e publicadas originalmente pela Folha de S.Paulo.
De
acordo com a denúncia, Raimunda Veras Magalhães integrou uma rede composta por
pessoas físicas e jurídicas destinada a “receber, movimentar e ocultar valores
oriundos do jogo do bicho”. A Promotoria sustenta que o grupo operava por meio
de empresas de fachada para dar aparência de legalidade aos recursos ilícitos.
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A
reportagem procurou a advogada Manoela Santos, que já representou Raimunda em
outros processos, mas não houve retorno até a publicação. Já Flávio Bolsonaro,
que é pré-candidato à Presidência da República, afirmou que não comentaria o
caso por não ter conhecimento prévio da acusação.
Raimunda
já havia sido denunciada anteriormente no esquema de “rachadinha” atribuído a
Flávio Bolsonaro durante o período em que o parlamentar atuou na Alerj. Esse
processo, no entanto, foi arquivado após decisões do Superior Tribunal de
Justiça e do Supremo Tribunal Federal que anularam provas da investigação.
Segundo
o MP-RJ, Adriano da Nóbrega controlava pontos de exploração do jogo do bicho em
Copacabana em associação com o bicheiro Bernardo Bello. As investigações
indicam que quatro empresas foram responsáveis por movimentar cerca de R$ 8,5
milhões.
“Entre
os empreendimentos de fachada constam um depósito de bebida, um bar e um
restaurante. Os investigadores se depararam com um quiosque de serviços de
sobrancelha localizado em um shopping na zona norte, cuja conta registrou, em
seis meses, aproximadamente R$ 2 milhões em créditos”, informou o MP-RJ.
Raimunda
atuou como assessora de Flávio Bolsonaro entre abril de 2016 e novembro de
2018. O Ministério Público não detalhou, contudo, o período específico em que
ela teria participado do suposto esquema de lavagem de dinheiro.
Além
dela, o MP-RJ também denunciou o deputado federal Juninho do Pneu (União
Brasil-RJ). De acordo com a Promotoria, ele adquiriu bens de Adriano da Nóbrega
após a morte do miliciano, avaliados em R$ 3,5 milhões.
A
acusação afirma que o parlamentar e a viúva de Adriano, Julia Lotuffo, também
denunciada no caso, tinham conhecimento da origem ilícita do imóvel e das
irregularidades na transação.
Fonte:
The Intercept/Brasil 247

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