Roberto
Amaral: Com os pés no chão, celebremos a resistência iraniana
Aos
analistas da crise internacional, a boa prudência aconselha parcimônia na
projeção de seus desdobramentos, mesmo no curtíssimo prazo.
A
promessa de paz, ainda que a tempo medido, um pequeno armistício, uma curta
suspensão das hostilidades por breves duas semanas para ensejar um mínimo de
diálogo, consumou-se em poucas horas como se tudo não passasse de uma trampa.
E não
poderia ser diferente, pois um dos principais agentes da guerra e do
cessar-fogo, o mais belicoso e o mais poderoso — os Estados Unidos da América
do Norte — são um negociador de má-fé, e Israel, seu principal associado nesta
guerra suja, é comandado por um criminoso de guerra com mandado de prisão
emitido pelo Tribunal Penal Internacional, o que ameaça fazer da negociação a
ser retomada uma não-negociação, um ilusionismo para acalmar o mercado global
em crise e dar fôlego ao complexo industrial dos EUA, metido numa guerra muito
mais custosa do que calculara a princípio (se é que houve cálculo), e as forças
da ocupação israelense, que um alto comandante chegou a anunciar que estavam
próximas da exaustão.
O
negociador de má-fé a que me refiro não é o bilionário incorporador de
Manhattan, parceiro de Jeffrey Epstein em trampolinagens heterodoxas, mas o
Estado norte-americano; refiro-me ao seu sistema político-social, os EUA
profundos que elegeram o atual inquilino da Casa Branca por notável maioria de
votos.
Nas
negociações intermediadas pelo Paquistão, os EUA puseram à mesa uma proposta
que não pretendiam levar a cabo — uma trégua mútua de duas semanas — na
contrapartida de concessões humilhantes e, portanto, inaceitáveis, e só
apresentadas na suposição de que seriam rejeitadas.
Mesmo
assim, leonina, a proposta era uma farsa, porque, enquanto falava em
cessar-fogo, a Casa Branca instruía Israel — seu associado nessa sequência de
arrogância militar e crimes de guerra impunes — a invadir o Líbano.
As
falanges sionistas, lembrando as Blitzkriegs de Hitler, realizaram, na última
quarta-feira (08/04), 100 ataques em dez minutos, deixando o rastro de sangue
de centenas de civis assassinados, algo como 300 seres humanos, mais de 130
crianças.
Os
bombardeios — o alvo é um país sem qualquer sorte de defesa — visam a destruir
sua infraestrutura civil (compreendendo hospitais e escolas, estradas e
indústrias) e, mais uma vez, rapinar o território, agora na fronteira sul.
Segundo
o The Economist, o criminoso regime sionista é apoiado por algo variante entre
70 e 75% da população. Eis a base da infâmia.
O
presidente dos EUA diz que o fim dos ataques ao Líbano não havia sido cogitado
nas tratativas com o Irã. Shehbaz Sharif, primeiro-ministro do Paquistão que
aproximou as partes e intermediou as negociações, afirma que estavam. Não há
dúvida sobre quem está mentindo.
Não
obstante o quadro movediço da realidade, alguns juízos podem ser arriscados, e
o primeiro deles afirma que os EUA, quaisquer que sejam seus ganhos, saem
politicamente derrotados, o que é uma boa notícia para a humanidade.
Nada
lembra a derrota no Vietnã — indiscutível sob todos os aspectos consideráveis
—, mas a resistência do governo-Estado e do povo iraniano é algo a ser
celebrado.
Na sua
onipotência de gendarme do mundo, que forceja por submeter aos seus interesses
estratégico-militares e aos seus valores, os Estados autoritários descuidam
sempre que as guerras, quaisquer, se estribam na tríade governo–forças
armadas–povo e, muitas vezes, ator decisivo, acicatado pelo agressor, o povo, é
levado a unir-se ao governo e ao seu exército em simples mecanismo de
autodefesa, defesa de sua vida, defesa de sua gente, de suas crenças, de sua
história.
Os
iranianos, que os EUA viam como potenciais adversários do regime dos aiatolás,
uniram-se em sua defesa, pois essa defesa passou a confundir-se com sua própria
defesa, pessoal e coletiva, a defesa da nação contra o invasor bárbaro, que
prometia fazer retornar “à idade da pedra lascada” a civilização persa, um
fenômeno de mais de quatro milênios.
Sem
descuidar de que a guerra ao Irã, travada pelos EUA e por Israel (mesmo
consideradas motivações distintas), jamais pode ser vista como uma guerra-fim,
posto que o alvo do imperialismo é a contenção da China como ameaça à sua
hegemonia, a Casa Branca anunciou como objetivos imediatos das operações
presentes a derrubada do regime de Teerã, a ser substituído por um governo
“amigável”, com o qual, por diversas vezes, foi veiculado, já estaria
dialogando.
Nada
disso se evidenciou, e o pouco do que se pode apurar do noticiário
internacional que nos chega (notoriamente enviesado) é, em contrário senso, o
fortalecimento, no controle do regime, das alas mais conservadoras e radicais,
do clero e das forças armadas, notadamente do Comando da Guarda Revolucionária
Islâmica (IRG).
E será
com essa nova direção, que vem à tona muito puxada pelos assassinatos seletivos
de Israel, que os EUA terão de conversar, para acalmar seus aliados no Golfo e
em todo o Oriente, que, como o Paquistão, repelem a guerra que destrói suas
economias e desestabiliza seus regimes, em regra autocráticos.
De par
com a crise imposta à ordem mundial, abalando a economia dos países com a
expectativa de inflação e queda do PIB, os EUA, nesses quase dois meses de
guerra, descontentaram velhos aliados políticos e militares e desestabilizaram
a OTAN, uma invenção da Guerra Fria.
Ao
cabo, mas não ainda por fim, revelaram-se aliados inconfiáveis, o que, para
eles, é péssimo, seja na paz, seja na guerra.
De
outra parte, ativa, mas comedida em falas e ações, a China saiu incólume e
respeitada pela sua postura cautelosa. A Rússia festeja os muitos ganhos com a
alta do preço do petróleo.
Ambos
os países se apresentaram nos entremeios e no Conselho de Segurança da ONU como
aliados do Irã, que conquistou, por quanto tempo e em quais condições daqui
para a frente não se sabe, uma poderosa arma econômica: o controle da navegação
pelo estreito de Ormuz, que, para Teerã, não mais se configura, tão só, como
instrumento de barganha para encerrar o conflito, passando a ser elemento
permanente do cenário pós-guerra.
Ou
seja, da guerra que se sucederá, sejam quais forem seus meios.
Chamado
à ordem, o sionismo prometeu suspender os ataques ao Líbano, palavra que não
foi honrada, sob o pretexto, pretexto para tudo, da guerra particular ao
Hezbollah; mas, até aqui, tudo indica que terá de ir a Washington na próxima
semana para o início de uma rodada de conversas com as autoridades de Beirute.
O
imperialismo não logrou as façanhas que prometeu a si mesmo e anunciou ao
mundo, e, uma vez mais, a história registra os limites da força bruta.
É
justo, pois, celebrar a resistência e vitória tática do Irã, por pequena que
ainda seja, pois sua sobrevivência já é façanha notável (como a brava e
dolorida resistência de Cuba), representando não apenas a si mesmo, mas a
humanidade como um todo.
A
grande lição dos vietnamitas faz parte da história, nos campos de batalha em
sua terra calcinada pelo napalm e pelos bombardeios da maior potência bélica do
mundo, mas também esteve presente, viva e bela, nas ruas e nos espaços livres
dos EUA daquele então, quando a defesa da vida silenciou o apelo da morte.
Sem
pretender estabelecer comparações que o processo histórico não permite,
devemos, deve a esquerda, mesmo aquela sem intimidade com a dialética, entender
que o regime dos aiatolás, autocrata sim, teocrata sim, hoje, ajuda a
humanidade a manter viva, ainda que frágil, a chama da liberdade.
E os
EUA, dos filmes e canções que fazem nossos corações e mentes há mais de 80
anos, cantados e decantados em prosa e verso como baluartes da democracia, são
a promessa de atraso, por mais voltas que deem em torno da Lua. A vida é
complexa.
O
quadro que começa a se delinear não sugere a reconfiguração do poder mundial,
necessária para a paz e a sobrevivência da humanidade, e muitos são os abalos
sísmicos que nos aguardam.
No
mundo e na ordem internacional, ou seja, segundo as alterações táticas e
estratégicas que darão o rumo das disputas das potências pela hegemonia, parece
não mais haver espaço para sonhos como “convivência pacífica” entre ordens de
poder diversas, ainda quando as diferenciações ideológicas ou de sistema sejam
superficiais.
Moloch
insaciável, nenhuma guerra leva à paz, qualquer que seja ela.
A
Segunda Guerra Mundial nasceu como butim do conflito de 1914–1919 e ensejou o
rastilho das guerras por procuração que marcaram a Guerra Fria, travadas sob o
guarda-chuva da polaridade nuclear dos tempos que se findaram com a
autodissolução da URSS, abrindo caminho para o incontestado império planetário
do capitalismo, sob a regência dos EUA, assustados com a concorrência da China
na disputa pela hegemonia mundial.
É a
Guerra Fria dos tempos presentes, que dita os termos da paz e da guerra e move
os cordéis das peças que se articulam mundo afora, enlaçadas como numa teia de
aranha.
Nada
disso nos pode ser alheio.
Fonte:
Viomundo

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