ATL
2026: indígenas cobram proteção às suas terras e querem ampliar a “bancada do
cocar”
Debates
simultâneos, discursos, eventos culturais e, no centro de tudo, uma palavra em
comum – cobrança. O Acampamento Terra Livre (ATL) reúne, em Brasília, mais de 7
mil indígenas que, diante do ano eleitoral, cobram mais ações de proteção,
demarcação e desintrusão (remoção de invasores de Terras Indígenas) nos
territórios, além de maior representatividade no parlamento e em cargos
estratégicos do governo federal.
As
operações de desintrusão contra o crime organizado em terras indígenas avançam
desde 2023 com ações de órgãos federais em nove territórios, alcançando quase
19 milhões de hectares. Dados oficiais do Governo Federal apontam que, nos
últimos três anos, foram apreendidos 249 kg de ouro, 240 kg de mercúrio, além
da destruição de mais de 900 acampamentos, 44 aeronaves e outras estruturas
usadas no garimpo ilegal.
Apesar
disso, indígenas continuam apreensivos com a segurança constante das regiões e
uma futura legalização, por meio de projetos aprovados no Congresso Nacional,
de práticas hoje consideradas criminosas. Em 2024, Terras Indígenas (TIs) com
povos isolados perderam mais de 2 mil hectares para o desmatamento, proveniente
de atividades ilegais como mineração e exploração madeireira, alerta o
relatório Sirad-I: Sistema de Alerta de Desmatamento em Terras Indígenas com
Registros de Povos Isolados. Já o relatório da plataforma Amazon Mining Watch,
lançado em março deste ano, aponta que entre outubro e dezembro de 2025, cerca
de 6 mil hectares foram desmatados na Floresta Amazônica em razão da atividade
de mineração, com destaque para a mineração ilegal de ouro.
Para
dar visibilidade às demandas, participantes do ATL chegaram a realizar um ato
simbólico queimando pneus, madeira e esculturas de caveira na Esplanada dos
Ministérios. O tensionamento com os Poderes Legislativo e Executivo não ocorre
por acaso.
O atual
governo do presidente Lula, apesar de conseguir diminuir o desmatamento na
região amazônica, atuou em conjunto com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre
(União-AP) e outros interlocutores, a exemplo do ministro de Minas e Energia,
Alexandre Silveira (PSD), e do próprio líder do governo no Congresso, senador
Randolfe Rodrigues (PT-AP), para liberar a exploração de Petróleo na foz do Rio
Amazonas, em outubro do ano passado – mesmo sob protestos de entidades
ambientais. Pouco tempo depois, em janeiro de 2026, ocorreu um vazamento
durante a atividade de perfuração. O fluído vazado, segundo o Ibama, representa
risco médio à saúde humana e ao ecossistema marinho.
Liderança
indígena de Oiapoque (AP), município afetado pela exploração de Petróleo e
garimpo ilegal, Luene Karipuna afirma que a narrativa de “soberania nacional”
para justificar projetos exploratórios geram problemas num “efeito dominó” às
comunidades.
“Todo
mundo vai para lá [Oiapoque] em busca de emprego [por conta da atuação da
Petrobras] e isso é muito legítimo. Mas isso acaba levando as pessoas para um
“favelão”, por exemplo, já se criaram oito bairros novos em Oiapoque. A maioria
dessas pessoas não irá acessar os empregos da Petrobras e isso acaba levando as
pessoas para o garimpo ilegal”, disse.
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Por que isso importa?
• Relatório da Apib lançado na ATL 2026
aponta que entre 2016 e 2024 cerca de US$ 493 bilhões (cerca de R$ 2,5
trilhões) foram injetados por grandes bancos em mineradoras ligadas à transição
energética.
• Entre as empresas beneficiárias
destacam-se conglomerados como Glencore, BHP e Vale S.A., apesar do histórico
de denúncias de crimes ambientais e violações de direitos ligado a essas
companhias.
Outra
insatisfação está na criação de um grupo de trabalho (GT) no Senado para
regulamentar a mineração em terras indígenas. Instalado em outubro do ano
passado, o GT é presidido pela senadora Tereza Cristina (PP–MS) e criado pelo
presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).
Conforme
Alcebias Sabará, vice-coordenador geral da Coiab (Coordenação das Organizações
Indígenas da Amazônia Brasileira), o Congresso Nacional está incentivando a
invasão aos territórios. “Independentemente de governo, seja esse ou outro, o
movimento indígena sempre vai bater firme na demarcação e principalmente
segurança para os nossos territórios. A gente está num processo de colonização
de mais de 526 anos e ainda não se tem totalmente a segurança dos nossos
povos”, frisou.
A
aprovação da Lei Geral de Licenciamento Ambiental, em julho de 2025, pelo
Congresso Nacional ainda é um ponto de preocupação e debate entre as lideranças
presentes no acampamento. Embora tenha as justificativas de “segurança
jurídica”, a legislação, na prática, fragiliza as regras de licenciamento e
fiscalização de obras de grande impacto. O presidente Lula chegou a vetar 63
itens da proposta, mas os congressistas derrubaram 52 vetos e os dispositivos
mais polêmicos permaneceram.
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Mais voz na política
O maior
consenso entre as lideranças do ATL habita na necessidade de mais
representatividade política. A chamada Bancada do Cocar se resume hoje a três
parlamentares entre 594 congressistas, 81 senadores e 513 deputados. Isso
reflete em dificuldades no avanço de pautas sustentáveis e de preservação.
“Até
mesmo na audiência na Câmara [destinada aos povos indígenas] a gente tinha só
um minuto para falar. Acho que nós devemos votar no nosso povo e o nosso povo
reconhecer os povos indígenas e não ler por trás, ter espaço para falar e
contar a sua dor”, pontuou a cacique Maria da Conceição Akroá-Gamella. Ela mora
em Uruçuí, no Piauí, estado onde não há território indígena oficialmente
demarcado pela União.
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O Alerta no Governo Bolsonaro
A
importância de eleger parlamentares indígenas ficou ainda mais latente em 2019,
início do Governo de Jair Bolsonaro (PL), pontuou José Luis Cassupá,
coordenador da Organização dos Povos Indígenas do Estado de Rondônia e Noroeste
do Mato Grosso (Opiroma). A gestão do principal líder da extrema direita no
Brasil ficou marcada pela precarização de órgãos ambientais, estímulo à
mineração, hidrelétricas e agronegócio em comunidades tradicionais.
“A
partir do momento em que a primeira indígena mulher é eleita no Congresso
Nacional, que é a Joênia Wapichana [ex-deputada federal e ex-presidente da
Fundação Nacional dos Povos Indígenas] dá essa visão de que nós realmente
precisamos trabalhar a nossa participação no Congresso. Quando você olha, as
pautas do Congresso Nacional são para discutir empreendimento, garimpo,
negócios, apoio ao agro. E para a questão ambiental?”, indagou Cassupá.
A falta
de participação na discussão de projetos de exploração, conforme lideranças
indígenas ouvidas pela Pública, não está ocorrendo nas diretrizes da Convenção
169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que trata, entre outras
questões, sobre consulta prévia, livre e informada aos povos tradicionais. A
reivindicação teve o apoio de figuras progressistas, como o jurista Carlos
Marés, que palestrou num dos eventos da Articulação dos Povos Indígenas do
Brasil (Apib).
O
problema da mineração é que essa sociedade, que o Davi Kopenawa [escritor, ator
e liderança política] chama de ‘sociedade da mercadoria’, só vê os bens da
terra como mercado, não vê como terra. O problema é que a mineração destrói a
floresta e a terra. (…) a lei existe, a lei protege, a lei garante que os povos
indígenas têm a total autonomia para decidir sobre o seu território. Mas não
podemos nos iludir. Os que aplicam a lei, os que têm a polícia, os que têm a
força, não querem cumprir a lei”.
• Nosso apoio demanda compromisso: Carta
aberta do ATL ao presidente Lula
Nós,
povos indígenas do Brasil, por meio da Articulação dos Povos Indígenas do
Brasil e de nossas organizações regionais, reunidos no Acampamento Terra Livre,
em Brasília, afirmamos que a eleição de 2026 coloca o país diante de uma
disputa direta entre o retorno de um projeto de morte e a continuidade de um
campo democrático, onde seguimos organizados para disputar os rumos da
sociedade e fortalecer a vida.
Hoje,
essa lógica se reorganiza no cenário nacional e internacional com o avanço da
extrema direita, que transforma direitos em alvo e territórios em mercadoria.
No Brasil, esse campo segue forte dentro do Congresso Nacional, que atua como
inimigo dos povos ao impulsionar leis e projetos que matam nossos povos.
Essa
mesma força política já governou o país e deixou marcas profundas. Paralisou
demarcações, incentivou violências e operou uma política genocida, agravada com
a pandemia da COVID-19. Esse projeto segue organizado e busca retomar o poder
com a mesma base de atuação.
Também
se expressa na tentativa de entregar riquezas estratégicas a interesses
estrangeiros. Declarações sobre a entrega de terras raras ao regime autoritário
de Donald Trump apontam esse caminho. Esse mesmo regime já atuou militarmente,
neste ano, na Venezuela para roubar o petróleo existente na Amazônia. Essa
disputa incide diretamente sobre nossos territórios.
Hoje
existem mais de 5 mil pedidos de exploração mineral na Amazônia, sendo mais de
1.300 sobre terras indígenas, como aponta o relatório “Desmascarando o Lobby
Mineral em Terras Indígenas no Brasil”, da APIB, lançado no ATL 2026.
Para
nós, povos indígenas, soberania é demarcar todas as Terras Indígenas e garantir
a proteção física e cultural dos nossos povos.
Diante
desse cenário, afirmamos nosso apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula
da Silva nas eleições de 2026.
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Nosso apoio não é cego.
Seguimos
com autonomia para cobrar e pressionar politicamente os rumos das decisões que
afetam nossas vidas. O que queremos está colocado com nitidez e precisa ser
assumido como política de Estado. A demarcação de todas as Terras Indígenas
deve ser tratada como base da soberania nacional, com garantia de proteção e
desintrusão dos territórios. Esse caminho deve avançar junto com o
fortalecimento das políticas indígenas, com estrutura, orçamento e governança
permanente, assegurando a vida, a segurança e o bem viver nos territórios.
Também
afirmamos o fortalecimento do Brasil nas respostas às crises do clima, com
reconhecimento dos territórios indígenas como eixo central da política
climática e respeito à biodiversidade. Esse compromisso precisa caminhar junto
com o fim dos combustíveis fósseis, a partir dos caminhos já apontados pelos
povos indígenas, e com o respeito aos direitos de consulta, participação e
autodeterminação em todas as decisões que nos afetem.
É
fundamental garantir a participação das organizações de base da APIB na
indicação de pessoas que serão nomeadas no próximo governo e que irão ocupar
cargos que decidem as políticas públicas aos povos indígenas.
Reconhecemos
mudanças importantes no período recente. A criação do Ministério dos Povos
Indígenas, a presença de lideranças indígenas na Funai e na Sesai, a retomada
de demarcações e a reabertura de espaços de diálogo expressam avanços
construídos pela luta dos nossos povos.
Esses
avanços ainda não respondem à urgência do momento. A coalizão que sustenta o
governo reúne setores que seguem impulsionando uma agenda anti-indígena. Isso
se reflete no ritmo das demarcações e na violência nos territórios. A
reconstrução institucional precisa se traduzir em proteção efetiva e contínua.
Persistem
contradições em temas estratégicos. Ao mesmo tempo em que há compromisso
ambiental, seguem pressões por grandes empreendimentos e novas frentes de
exploração, como o petróleo na foz do Amazonas. Essa lógica mantém a exploração
dos territórios sob nova linguagem e exige uma posição firme que coloque a
demarcação no centro da política climática.
Esperamos
que a agenda anti-indígena no Congresso Nacional seja barrada com firmeza!
Nossa
expectativa segue para o próximo ciclo com mais estrutura, orçamento, presença
das políticas nos territórios e participação indígena na formulação e decisão.
Nossos
direitos são obrigações do Estado e precisam se consolidar como política
permanente.
Seguiremos
em mobilização. Nosso futuro não está à venda. A resposta somos nós.
A
resposta para transformar a política somos nós!
Acampamento
Terra Livre, Brasília, 06 de abril de 2026
#
Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB)
#
Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e
Espírito Santo (APOINME)
#
Articulação dos Povos Indígenas da Região Sudeste (ARPINSUDESTE)
#
Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul (ARPINSUL)
#
Comissão Guarani Yvyrupa (CGY)
#
Conselho do Povo Terena (CONSELHO TERENA)
#
Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB)
#
Grande Assembleia do Povo Guarani e Kaiowá (ATY GUASU)
Fonte:
Por Dyepeson Martins, da Agência Pública/Racismo Ambiental

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