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dentro da diplomacia de alto risco que levou o Paquistão a sediar negociações
de paz entre EUA e Irã
O Paquistão comemora seu
sucesso ao ajudar a negociar um cessar-fogo de duas semanas
entre os Estados Unidos e o Irã. E seus líderes, agora, se preparam para
receber as negociações de paz.
O país
declarou dois dias de feriado na sua capital, Islamabad, antes das
conversações, que devem começar neste sábado (11/4).
O
vice-presidente dos EUA, JD Vance, já foi recebido pelo ministro das Relações
Exteriores do Paquistão, Ishaq Dar, e pelo marechal de campo Asim Munir, ao
desembarcar em Islamabad.
Já o
presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, que recentemente
se tornou uma figura proeminente do governo, e o ministro das Relações
Exteriores, Abbas Araghchi, chegaram no meio da noite.
O risco
para o mundo é alto. Países de todo o planeta estão ansiosos para ver o fim dos
combates e a reabertura do estreito de Ormuz, uma artéria vital,
por onde costumava fluir cerca de 20% do abastecimento global de petróleo, até
o início da guerra.
Mas
existem também altos riscos para o Paquistão, de outras formas.
A nação
do sul da Ásia enfrentará um possível "cenário de pesadelo" se as
negociações entrarem em colapso. E será arrastada ao combate com seu vizinho, o
Irã, segundo o especialista na Ásia meridional Abdul Basit, da Universidade de
Tecnologia Nanyang, em Singapura.
Esta é
uma possibilidade, pois o Paquistão assinou um pacto de defesa mútua com a
Arábia Saudita no ano passado. Desde então, Islamabad "deixou claro que
honraria seu compromisso oferecido aos sauditas", afirma Basit.
Isso
poderá resultar no "aquecimento de três fronteiras do Paquistão",
explica ele, em referência às tensões já existentes entre o Paquistão e seus
outros vizinhos, o Afeganistão e a Índia.
"E
o Paquistão combate duas insurgências reais em duas das quatro províncias. O
país não pode suportar isso", segundo Basit.
Mas o
orgulho e o entusiasmo estão tomando conta das redes sociais paquistanesas, com
diversos memes viralizando.
"É
uma vitória, no sentido de que nenhum outro país do mundo conseguiu negociar o
cessar-fogo e estávamos à beira de uma possível catástrofe", prossegue o
especialista. "O Paquistão evitou isso."
Este
sucesso é muito necessário para um país que enfrentou anos de inquietação
política, uma economia frágil próxima da moratória da dívida apenas dois anos
atrás e sua intensa rivalidade com a Índia.
Mas
como o Paquistão conseguiu este feito?
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Favorito de Trump
O
Paquistão ocupa uma posição única. O país conta com a confiança dos Estados
Unidos, do Irã e das nações do Golfo.
O
processo de reconciliação é liderado pelo chefe militar paquistanês Asim Munir,
que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chama de seu
"marechal-de-campo favorito", segundo o senador paquistanês Mushahid
Hussain Syed, do partido governista Liga Muçulmana do Paquistão.
Munir,
sem dúvida, é o homem mais poderoso do Paquistão, um país em que o exército
desempenha papel predominante na política há muito tempo.
Logo
depois do início do segundo mandato de Trump, no ano passado, Munir começou a
construir um relacionamento com o presidente americano e forneceu a ele
"duas vitórias iniciais", segundo a ex-embaixadora do Paquistão nos
Estados Unidos e na ONU, Maleeha Lodhi.
O
marechal-de-campo, agindo sobre a inteligência da CIA, entregou o suposto
responsável por planejar o bombardeio do aeroporto de Cabul, no Afeganistão em
2021, quando os americanos estavam saindo do país. O ataque suicida matou pelo
menos 170 afegãos e 13 militares dos Estados Unidos.
"Trump
ficou tão agradecido que mencionou este episódio no seu primeiro discurso para
o Congresso americano", relembra Lodhi.
A
segunda vitória, segundo Lodhi, foi "a forma como o Paquistão transmitiu a
ele que havia desempenhado papel central para evitar uma guerra maior com a
Índia".
O
Paquistão é um dos poucos países que indicaram Trump para o Prêmio Nobel da
Paz, que ele deseja há muito tempo.
"Lembre-se
que Trump, na verdade, não estava muito satisfeito com a guerra de tarifas que
ele impôs a praticamente todos os países do mundo", relembra a
embaixadora. "Por isso, ele realmente precisava do que recebeu do
Paquistão."
O
Paquistão também prometeu acesso aos seus minerais críticos, que os Estados
Unidos consideram um interesse de segurança nacional.
Em
setembro de 2025, a organização paquistanesa Frontier Works (a principal
mineradora de minerais críticos do país, sob o comando dos militares) assinou
um contrato de investimento de US$ 500 milhões (cerca de R$ 2,5 bilhões) com
uma empresa americana. A cerimônia teve lugar na casa do primeiro-ministro, na
presença de Munir.
Em
janeiro, o Paquistão também assinou um acordo com uma afiliada da World Liberty
Financials, a empresa de criptomoedas fundada por Trump e sua família.
O
acordo potencialmente integrará sua criptomoeda estável ao sistema de
pagamentos digitais do país, o que ampliou os laços do Paquistão com o círculo
de Trump.
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'Postura de princípios'
Estes
laços próximos não impediram o Paquistão de condenar oficialmente os primeiros
ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã.
Mas,
quando o Irã bombardeou os campos de petróleo da Arábia Saudita, seu aliado
militar, o Paquistão também publicou uma declaração forte contra os iranianos.
No dia
7 de abril, o Paquistão se absteve de uma resolução do Conselho de Segurança
das Nações Unidas, que pediria aos Estados que coordenassem seus esforços para
a reabertura do estreito de Ormuz. Syed chamou a resolução de
"unilateral", pois a solução não menciona que os Estados Unidos e
Israel atacaram em primeiro lugar.
Esta
"posição de princípios" e "abordagem equilibrada" ajudou a
aumentar a confiança do Irã e de outros países do Golfo, segundo Syed. E é com
estes países que o primeiro-ministro paquistanês Shehbaz Sharif desempenha
papel central nas negociações, segundo o ex-secretário de Relações Exteriores
do Paquistão, Aizaz Chaudhry.
Ao
longo das últimas cinco semanas, Sharif e seu vice, o ministro das Relações
Exteriores Ishaq Dar, conversaram com mais de uma dezena de líderes mundiais e
autoridades em Washington, Moscou, Pequim, nas principais capitais europeias,
Turquia, Egito e Estados do Conselho de Cooperação do Golfo, como a Arábia
Saudita e o Catar.
No dia
do anúncio do cessar-fogo, Sharif declarou ter tido uma "conversa calorosa
e substancial" com o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, que
"reafirmou a participação do Irã nas próximas negociações e expressou
apreço pelos esforços do Paquistão".
Aparentemente,
Sharif conseguiu promover as relações de longa data entre o Paquistão e o Irã
naquela ocasião. Os dois países compartilham uma fronteira de 920 km e vêm
cooperando há décadas, segundo o ex-embaixador paquistanês no Irã Asif Durrani.
E eles
também compartilham outras preocupações: os militantes e o seu
"instável" vizinho comum, o Afeganistão.
"Nas
últimas cinco décadas, ambos enfrentamos instabilidade nos nossos países, na
forma de refugiados", explica Durrani.
Também
não se pode subestimar o papel da religião ao fomentar a confiança e as
conexões.
O
Paquistão é um país de maioria sunita, mas tem uma das maiores populações
xiitas do mundo. E, todos os anos, milhares de paquistaneses viajam para o Irã,
o maior pais xiita, em peregrinação.
Mas não
se sabe ao certo se os esforços do Paquistão irão resultar nas prometidas
negociações de paz. Afinal, o cessar-fogo enfrenta tensão cada vez maior e
ainda não se sabe se os dois lados realmente irão comparecer.
"A
próxima fase, que é atingir um acordo abrangente, é difícil, e o Paquistão deve
continuar a facilitar o processo", afirma Chaudhry.
Israel
"já está tentando prejudicar o cessar-fogo, com este ataque violento ao
Líbano", destaca Lodhi. Os ataques israelenses da quarta-feira (8/4)
mataram mais de 300 pessoas no Líbano, que Israel afirma não estar incluído
pelo cessar-fogo com o Irã.
"Existe
certamente este receio no Paquistão entre as autoridades", prossegue ela.
"E, naquela frente de combate, é ônus e responsabilidade de Trump
restringir Israel."
O
Paquistão já "fez a sua parte" para fomentar a paz, segundo Durrani.
"Como
negociador, mediador ou facilitador, seu trabalho é levar o cavalo até a água.
Você não pode forçá-lo a beber. Cabe às partes fazer uso da oportunidade
oferecida pelo Paquistão."
¨
Exigências excessivas de Washington dificultam acordo de
cessar-fogo, diz agência iraniana
As negociações entre
os EUA e o Irã sobre
o Estreito de Ormuz estão paralisadas, segundo o Financial Times. No entanto, de
acordo com diversas autoridades que pediram para permanecer anônimas, alguns
progressos foram feitos em questões como os
ataques israelenses contra o Líbano, o desbloqueio de ativos iranianos e o
próprio Estreito de Ormuz, entre outros temas.
A
agência de notícias iraniana Tasnim declarou que Washington e
Teerã estão trocando textos em um esforço para “chegar a um quadro comum para
as negociações”. Citando seu correspondente na capital do Paquistão, a agência
afirmou que o progresso tem sido dificultado pelas “exigências excessivas de
sempre” de Washington.
Uma
fonte próxima à equipe de negociação iraniana disse à agência de notícias Tasnim que
outra rodada de conversas provavelmente ocorrerá hoje à noite ou amanhã
(12/04). Atualmente, equipes de especialistas de ambos os lados estão trocando
mensagens.
Enquanto
as negociações prosseguem em Islamabad, o Irã mantém contato com o Líbano para
garantir que os compromissos de cessar-fogo naquele
país sejam respeitados, disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores
iraniano, Esmail Baghaei, a repórteres no sábado.
Ainda
segundo a Tasnim, as consultas estão em andamento, mas “a questão
do Estreito de Ormuz é um dos pontos de séria divergência”. Nesse cenário, as
forças norte-americanas iniciaram no sábado uma missão para limpar o Estreito de Ormuz de minas,
informou o Comando Central dos EUA (CENTCOM).
“Hoje
iniciamos o processo de estabelecimento de uma nova rota e em breve
compartilharemos essa rota segura com o setor marítimo para incentivar o livre
fluxo do comércio”, disse o Almirante Brad Cooper, comandante do CENTCOM.
A
Marinha dos EUA disse mais tarde que dois de seus navios atravessaram o
estreito em uma operação para remover minas, mas o Irã negou a informação. A
emissora estatal do país diz ter emitido alerta a um navio militar dos EUA
avisando que a embarcação seria atacada em 30 minutos caso cruzasse o Estreito
de Ormuz. Pouco depois, segundo a rede de TV, a embarcação retornou.
Por sua
vez, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, declarou neste sábado
(11/04) que Israel continuará lutando contra o Irã e seus aliados, em uma
publicação que também criticou o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan.
“Sob
minha liderança, Israel continuará a lutar contra o regime terrorista do Irã e
seus aliados”, escreveu Netanyahu em uma publicação no X. Ele prosseguiu
acusando Erdogan de “acomodar” Teerã e de ser responsável por “massacres” de
cidadãos curdos.
A
publicação de Netanyahu, que é
procurado pelo Tribunal Penal Internacional por alegados crimes de guerra em
Gaza, ocorre em meio ao cessar-fogo no Irã e das negociações em curso com os
Estados Unidos.
¨
Trump faz novas ameaças ao Irã: ‘só deixamos vivos para
poderem negociar’
Em
declaração difundida nesta sexta-feira (10/04), o presidente dos Estados Unidos, Donald
Trump,
voltou a fazer ameaças ao Irã e alusões a uma possível destruição de grandes
proporções ao país persa, caso as negociações que vão se realizar no Paquistão
terminem sem um acordo para o fim da guerra e sem o desbloqueio do Estreito de Ormuz.
Segundo
o mandatário estadunidense uma possível ação militar contra Teerã poderia
acontecer a qualquer momento. “Nossos navios de guerra estão equipados com as
melhores munições”, disse Trump, sugerindo que estariam prontos para atacar.
O
presidente dos Estados Unidos alegou que seu país é quem supostamente controla
os rumos do conflito, e que “nós (Estados Unidos) só os deixamos vivos (os
iranianos) para que possam negociar (um acordo)”.
Sobre a
possibilidade de que o encontro Islamabad leve a um acordo real para o fim da
guerra, Trump disse que “saberemos nas próximas 24 horas, saberemos em breve”.
¨ Ormuz fechado: a
violação de Israel e o risco de choque global do petróleo. Por Paulo Cannabrava
Filho
O mundo
volta a assistir, com apreensão, a mais uma escalada no Oriente Médio — e, mais uma
vez, o que se apresenta como tentativa de estabilização desmorona diante da
violação de acordos. O cessar-fogo firmado entre Irã e Estados Unidos, que previa a
reabertura do estratégico Estreito de Ormuz, foi rompido na prática quando
Israel decidiu ampliar sua ofensiva sobre o Líbano.
A
consequência foi imediata. O Irã, que havia sinalizado disposição para
aliviar a tensão e permitir o fluxo marítimo, voltou a fechar o estreito — por
onde circula cerca de 20% de todo o petróleo e derivados do planeta. Não se
trata de um detalhe regional: é uma artéria vital da economia global. Ao
interromper esse fluxo, ainda que parcialmente, o impacto se espalha pelos
mercados internacionais.
A
ruptura do cessar-fogo deixou de ser hipótese para se tornar fato. Após os
bombardeios israelenses no Líbano, o Irã não apenas
voltou a fechar o Estreito de Ormuz, como passou a exercer controle seletivo da
passagem de navios, transformando a rota em instrumento direto de pressão
política. O estreito deixa de ser apenas uma via estratégica e passa a ser uma
peça ativa no tabuleiro da guerra.
O
argumento iraniano é direto: não há como sustentar um acordo quando um dos
lados, ainda que não signatário formal, atua para desestabilizá-lo. A ofensiva
israelense no Líbano — com bombardeios contínuos — é interpretada por Teerã
como violação do entendimento. E, diante disso, o Estreito de Ormuz torna-se
novamente um ponto de estrangulamento deliberado.
Enquanto
isso, a guerra segue em múltiplas frentes. O Irã mantém ataques com mísseis e
drones, atingindo Israel e também posições em países do Golfo, ampliando o
alcance do conflito. Israel, por sua vez,
intensifica sua estratégia militar, ao mesmo tempo em que, pressionado pelos
Estados Unidos e por Donald Trump, aceita abrir
conversas com o Líbano para discutir o desarmamento do Hezbollah — sem, contudo,
interromper os bombardeios.
O
cenário revela uma contradição evidente: negocia-se enquanto se ataca. E isso
corrói qualquer possibilidade real de estabilização.
Ao
mesmo tempo, mesmo sob forte pressão estadunidense e sionista, o Irã reafirma
que seguirá com o enriquecimento de urânio. A mensagem é clara: não haverá
recuo estratégico diante da escalada militar e da tentativa de contenção
externa.
Mas o
ponto central não está apenas no confronto militar direto. Está no efeito
sistêmico. O bloqueio do estreito já pressiona os preços do petróleo, encarece
combustíveis, fertilizantes e insumos industriais, atingindo com força especial
a Europa — altamente dependente dessa rota energética. O impacto recai também
sobre países periféricos, que sofrem com inflação importada e deterioração das
condições econômicas.
O que
se desenha é um cenário em que a guerra deixa de ser apenas territorial e se
converte em guerra econômica global. O controle das rotas energéticas passa a
ser arma estratégica, e o Estreito de Ormuz assume papel central nesse
tabuleiro.
Nesse
contexto, ganha relevância a tentativa de mediação por parte do Paquistão, que busca manter
algum canal de diálogo entre Washington e Teerã. Mas a fragilidade do
cessar-fogo evidencia um problema maior: a ausência de compromisso real com a
estabilidade por parte de atores que operam à margem ou acima dos acordos.
Israel,
ao agir fora do entendimento estabelecido, coloca em xeque qualquer tentativa
de desescalada. Mais do que isso, reforça uma lógica de ação unilateral que
alimenta o ciclo de violência e retaliação. O resultado é um mundo mais
instável, mais caro e mais próximo de um conflito de proporções imprevisíveis.
No fim
das contas, o que está em jogo não é apenas o Oriente Médio. É a própria
capacidade do sistema internacional de sustentar acordos mínimos de
convivência. Quando esses acordos deixam de ser respeitados, o que prevalece é
a força — e o preço, como sempre, é pago por todos.
Fonte: Por
Umer Nangiana, Role,BBC News e Author,Sarah Hasan, Role,De Islamabad
(Paquistão) para a BBC News Urdu/Opera Mundi/Diálogos do Sul Global

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