segunda-feira, 13 de abril de 2026

Por dentro da diplomacia de alto risco que levou o Paquistão a sediar negociações de paz entre EUA e Irã

Paquistão comemora seu sucesso ao ajudar a negociar um cessar-fogo de duas semanas entre os Estados Unidos e o Irã. E seus líderes, agora, se preparam para receber as negociações de paz.

O país declarou dois dias de feriado na sua capital, Islamabad, antes das conversações, que devem começar neste sábado (11/4).

O vice-presidente dos EUA, JD Vance, já foi recebido pelo ministro das Relações Exteriores do Paquistão, Ishaq Dar, e pelo marechal de campo Asim Munir, ao desembarcar em Islamabad.

Já o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, que recentemente se tornou uma figura proeminente do governo, e o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, chegaram no meio da noite.

O risco para o mundo é alto. Países de todo o planeta estão ansiosos para ver o fim dos combates e a reabertura do estreito de Ormuz, uma artéria vital, por onde costumava fluir cerca de 20% do abastecimento global de petróleo, até o início da guerra.

Mas existem também altos riscos para o Paquistão, de outras formas.

A nação do sul da Ásia enfrentará um possível "cenário de pesadelo" se as negociações entrarem em colapso. E será arrastada ao combate com seu vizinho, o Irã, segundo o especialista na Ásia meridional Abdul Basit, da Universidade de Tecnologia Nanyang, em Singapura.

Esta é uma possibilidade, pois o Paquistão assinou um pacto de defesa mútua com a Arábia Saudita no ano passado. Desde então, Islamabad "deixou claro que honraria seu compromisso oferecido aos sauditas", afirma Basit.

Isso poderá resultar no "aquecimento de três fronteiras do Paquistão", explica ele, em referência às tensões já existentes entre o Paquistão e seus outros vizinhos, o Afeganistão e a Índia.

"E o Paquistão combate duas insurgências reais em duas das quatro províncias. O país não pode suportar isso", segundo Basit.

Mas o orgulho e o entusiasmo estão tomando conta das redes sociais paquistanesas, com diversos memes viralizando.

"É uma vitória, no sentido de que nenhum outro país do mundo conseguiu negociar o cessar-fogo e estávamos à beira de uma possível catástrofe", prossegue o especialista. "O Paquistão evitou isso."

Este sucesso é muito necessário para um país que enfrentou anos de inquietação política, uma economia frágil próxima da moratória da dívida apenas dois anos atrás e sua intensa rivalidade com a Índia.

Mas como o Paquistão conseguiu este feito?

<><> Favorito de Trump

O Paquistão ocupa uma posição única. O país conta com a confiança dos Estados Unidos, do Irã e das nações do Golfo.

O processo de reconciliação é liderado pelo chefe militar paquistanês Asim Munir, que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chama de seu "marechal-de-campo favorito", segundo o senador paquistanês Mushahid Hussain Syed, do partido governista Liga Muçulmana do Paquistão.

Munir, sem dúvida, é o homem mais poderoso do Paquistão, um país em que o exército desempenha papel predominante na política há muito tempo.

Logo depois do início do segundo mandato de Trump, no ano passado, Munir começou a construir um relacionamento com o presidente americano e forneceu a ele "duas vitórias iniciais", segundo a ex-embaixadora do Paquistão nos Estados Unidos e na ONU, Maleeha Lodhi.

O marechal-de-campo, agindo sobre a inteligência da CIA, entregou o suposto responsável por planejar o bombardeio do aeroporto de Cabul, no Afeganistão em 2021, quando os americanos estavam saindo do país. O ataque suicida matou pelo menos 170 afegãos e 13 militares dos Estados Unidos.

"Trump ficou tão agradecido que mencionou este episódio no seu primeiro discurso para o Congresso americano", relembra Lodhi.

A segunda vitória, segundo Lodhi, foi "a forma como o Paquistão transmitiu a ele que havia desempenhado papel central para evitar uma guerra maior com a Índia".

O Paquistão é um dos poucos países que indicaram Trump para o Prêmio Nobel da Paz, que ele deseja há muito tempo.

"Lembre-se que Trump, na verdade, não estava muito satisfeito com a guerra de tarifas que ele impôs a praticamente todos os países do mundo", relembra a embaixadora. "Por isso, ele realmente precisava do que recebeu do Paquistão."

O Paquistão também prometeu acesso aos seus minerais críticos, que os Estados Unidos consideram um interesse de segurança nacional.

Em setembro de 2025, a organização paquistanesa Frontier Works (a principal mineradora de minerais críticos do país, sob o comando dos militares) assinou um contrato de investimento de US$ 500 milhões (cerca de R$ 2,5 bilhões) com uma empresa americana. A cerimônia teve lugar na casa do primeiro-ministro, na presença de Munir.

Em janeiro, o Paquistão também assinou um acordo com uma afiliada da World Liberty Financials, a empresa de criptomoedas fundada por Trump e sua família.

O acordo potencialmente integrará sua criptomoeda estável ao sistema de pagamentos digitais do país, o que ampliou os laços do Paquistão com o círculo de Trump.

<><> 'Postura de princípios'

Estes laços próximos não impediram o Paquistão de condenar oficialmente os primeiros ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã.

Mas, quando o Irã bombardeou os campos de petróleo da Arábia Saudita, seu aliado militar, o Paquistão também publicou uma declaração forte contra os iranianos.

No dia 7 de abril, o Paquistão se absteve de uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que pediria aos Estados que coordenassem seus esforços para a reabertura do estreito de Ormuz. Syed chamou a resolução de "unilateral", pois a solução não menciona que os Estados Unidos e Israel atacaram em primeiro lugar.

Esta "posição de princípios" e "abordagem equilibrada" ajudou a aumentar a confiança do Irã e de outros países do Golfo, segundo Syed. E é com estes países que o primeiro-ministro paquistanês Shehbaz Sharif desempenha papel central nas negociações, segundo o ex-secretário de Relações Exteriores do Paquistão, Aizaz Chaudhry.

Ao longo das últimas cinco semanas, Sharif e seu vice, o ministro das Relações Exteriores Ishaq Dar, conversaram com mais de uma dezena de líderes mundiais e autoridades em Washington, Moscou, Pequim, nas principais capitais europeias, Turquia, Egito e Estados do Conselho de Cooperação do Golfo, como a Arábia Saudita e o Catar.

No dia do anúncio do cessar-fogo, Sharif declarou ter tido uma "conversa calorosa e substancial" com o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, que "reafirmou a participação do Irã nas próximas negociações e expressou apreço pelos esforços do Paquistão".

Aparentemente, Sharif conseguiu promover as relações de longa data entre o Paquistão e o Irã naquela ocasião. Os dois países compartilham uma fronteira de 920 km e vêm cooperando há décadas, segundo o ex-embaixador paquistanês no Irã Asif Durrani.

E eles também compartilham outras preocupações: os militantes e o seu "instável" vizinho comum, o Afeganistão.

"Nas últimas cinco décadas, ambos enfrentamos instabilidade nos nossos países, na forma de refugiados", explica Durrani.

Também não se pode subestimar o papel da religião ao fomentar a confiança e as conexões.

O Paquistão é um país de maioria sunita, mas tem uma das maiores populações xiitas do mundo. E, todos os anos, milhares de paquistaneses viajam para o Irã, o maior pais xiita, em peregrinação.

Mas não se sabe ao certo se os esforços do Paquistão irão resultar nas prometidas negociações de paz. Afinal, o cessar-fogo enfrenta tensão cada vez maior e ainda não se sabe se os dois lados realmente irão comparecer.

"A próxima fase, que é atingir um acordo abrangente, é difícil, e o Paquistão deve continuar a facilitar o processo", afirma Chaudhry.

Israel "já está tentando prejudicar o cessar-fogo, com este ataque violento ao Líbano", destaca Lodhi. Os ataques israelenses da quarta-feira (8/4) mataram mais de 300 pessoas no Líbano, que Israel afirma não estar incluído pelo cessar-fogo com o Irã.

"Existe certamente este receio no Paquistão entre as autoridades", prossegue ela. "E, naquela frente de combate, é ônus e responsabilidade de Trump restringir Israel."

O Paquistão já "fez a sua parte" para fomentar a paz, segundo Durrani.

"Como negociador, mediador ou facilitador, seu trabalho é levar o cavalo até a água. Você não pode forçá-lo a beber. Cabe às partes fazer uso da oportunidade oferecida pelo Paquistão."

¨      Exigências excessivas de Washington dificultam acordo de cessar-fogo, diz agência iraniana

As negociações entre os EUA e o Irã sobre o Estreito de Ormuz estão paralisadas, segundo o Financial Times. No entanto, de acordo com diversas autoridades que pediram para permanecer anônimas, alguns progressos foram feitos em questões como os ataques israelenses contra o Líbano, o desbloqueio de ativos iranianos e o próprio Estreito de Ormuz, entre outros temas.

A agência de notícias iraniana Tasnim declarou que Washington e Teerã estão trocando textos em um esforço para “chegar a um quadro comum para as negociações”. Citando seu correspondente na capital do Paquistão, a agência afirmou que o progresso tem sido dificultado pelas “exigências excessivas de sempre” de Washington.

Uma fonte próxima à equipe de negociação iraniana disse à agência de notícias Tasnim que outra rodada de conversas provavelmente ocorrerá hoje à noite ou amanhã (12/04). Atualmente, equipes de especialistas de ambos os lados estão trocando mensagens.

Enquanto as negociações prosseguem em Islamabad, o Irã mantém contato com o Líbano para garantir que os compromissos de cessar-fogo naquele país sejam respeitados, disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmail Baghaei, a repórteres no sábado.

Ainda segundo a Tasnim, as consultas estão em andamento, mas “a questão do Estreito de Ormuz é um dos pontos de séria divergência”. Nesse cenário, as forças norte-americanas iniciaram no sábado uma missão para limpar o Estreito de Ormuz de minas, informou o Comando Central dos EUA (CENTCOM).

“Hoje iniciamos o processo de estabelecimento de uma nova rota e em breve compartilharemos essa rota segura com o setor marítimo para incentivar o livre fluxo do comércio”, disse o Almirante Brad Cooper, comandante do CENTCOM.

A Marinha dos EUA disse mais tarde que dois de seus navios atravessaram o estreito em uma operação para remover minas, mas o Irã negou a informação. A emissora estatal do país diz ter emitido alerta a um navio militar dos EUA avisando que a embarcação seria atacada em 30 minutos caso cruzasse o Estreito de Ormuz. Pouco depois, segundo a rede de TV, a embarcação retornou.

Por sua vez, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, declarou neste sábado (11/04) que Israel continuará lutando contra o Irã e seus aliados, em uma publicação que também criticou o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan.

“Sob minha liderança, Israel continuará a lutar contra o regime terrorista do Irã e seus aliados”, escreveu Netanyahu em uma publicação no X. Ele prosseguiu acusando Erdogan de “acomodar” Teerã e de ser responsável por “massacres” de cidadãos curdos.

A publicação de Netanyahu, que é procurado pelo Tribunal Penal Internacional por alegados crimes de guerra em Gaza, ocorre em meio ao cessar-fogo no Irã e das negociações em curso com os Estados Unidos.

¨      Trump faz novas ameaças ao Irã: ‘só deixamos vivos para poderem negociar’

Em declaração difundida nesta sexta-feira (10/04), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a fazer ameaças ao Irã e alusões a uma possível destruição de grandes proporções ao país persa, caso as negociações que vão se realizar no Paquistão terminem sem um acordo para o fim da guerra e sem o desbloqueio do Estreito de Ormuz.

Segundo o mandatário estadunidense uma possível ação militar contra Teerã poderia acontecer a qualquer momento. “Nossos navios de guerra estão equipados com as melhores munições”, disse Trump, sugerindo que estariam prontos para atacar.

O presidente dos Estados Unidos alegou que seu país é quem supostamente controla os rumos do conflito, e que “nós (Estados Unidos) só os deixamos vivos (os iranianos) para que possam negociar (um acordo)”.

Sobre a possibilidade de que o encontro Islamabad leve a um acordo real para o fim da guerra, Trump disse que “saberemos nas próximas 24 horas, saberemos em breve”.

¨      Ormuz fechado: a violação de Israel e o risco de choque global do petróleo. Por Paulo Cannabrava Filho

O mundo volta a assistir, com apreensão, a mais uma escalada no Oriente Médio — e, mais uma vez, o que se apresenta como tentativa de estabilização desmorona diante da violação de acordos. O cessar-fogo firmado entre Irã e Estados Unidos, que previa a reabertura do estratégico Estreito de Ormuz, foi rompido na prática quando Israel decidiu ampliar sua ofensiva sobre o Líbano.

A consequência foi imediata. O Irã, que havia sinalizado disposição para aliviar a tensão e permitir o fluxo marítimo, voltou a fechar o estreito — por onde circula cerca de 20% de todo o petróleo e derivados do planeta. Não se trata de um detalhe regional: é uma artéria vital da economia global. Ao interromper esse fluxo, ainda que parcialmente, o impacto se espalha pelos mercados internacionais.

A ruptura do cessar-fogo deixou de ser hipótese para se tornar fato. Após os bombardeios israelenses no Líbano, o Irã não apenas voltou a fechar o Estreito de Ormuz, como passou a exercer controle seletivo da passagem de navios, transformando a rota em instrumento direto de pressão política. O estreito deixa de ser apenas uma via estratégica e passa a ser uma peça ativa no tabuleiro da guerra.

O argumento iraniano é direto: não há como sustentar um acordo quando um dos lados, ainda que não signatário formal, atua para desestabilizá-lo. A ofensiva israelense no Líbano — com bombardeios contínuos — é interpretada por Teerã como violação do entendimento. E, diante disso, o Estreito de Ormuz torna-se novamente um ponto de estrangulamento deliberado.

Enquanto isso, a guerra segue em múltiplas frentes. O Irã mantém ataques com mísseis e drones, atingindo Israel e também posições em países do Golfo, ampliando o alcance do conflito. Israel, por sua vez, intensifica sua estratégia militar, ao mesmo tempo em que, pressionado pelos Estados Unidos e por Donald Trump, aceita abrir conversas com o Líbano para discutir o desarmamento do Hezbollah — sem, contudo, interromper os bombardeios.

O cenário revela uma contradição evidente: negocia-se enquanto se ataca. E isso corrói qualquer possibilidade real de estabilização.

Ao mesmo tempo, mesmo sob forte pressão estadunidense e sionista, o Irã reafirma que seguirá com o enriquecimento de urânio. A mensagem é clara: não haverá recuo estratégico diante da escalada militar e da tentativa de contenção externa.

Mas o ponto central não está apenas no confronto militar direto. Está no efeito sistêmico. O bloqueio do estreito já pressiona os preços do petróleo, encarece combustíveis, fertilizantes e insumos industriais, atingindo com força especial a Europa — altamente dependente dessa rota energética. O impacto recai também sobre países periféricos, que sofrem com inflação importada e deterioração das condições econômicas.

O que se desenha é um cenário em que a guerra deixa de ser apenas territorial e se converte em guerra econômica global. O controle das rotas energéticas passa a ser arma estratégica, e o Estreito de Ormuz assume papel central nesse tabuleiro.

Nesse contexto, ganha relevância a tentativa de mediação por parte do Paquistão, que busca manter algum canal de diálogo entre Washington e Teerã. Mas a fragilidade do cessar-fogo evidencia um problema maior: a ausência de compromisso real com a estabilidade por parte de atores que operam à margem ou acima dos acordos.

Israel, ao agir fora do entendimento estabelecido, coloca em xeque qualquer tentativa de desescalada. Mais do que isso, reforça uma lógica de ação unilateral que alimenta o ciclo de violência e retaliação. O resultado é um mundo mais instável, mais caro e mais próximo de um conflito de proporções imprevisíveis.

No fim das contas, o que está em jogo não é apenas o Oriente Médio. É a própria capacidade do sistema internacional de sustentar acordos mínimos de convivência. Quando esses acordos deixam de ser respeitados, o que prevalece é a força — e o preço, como sempre, é pago por todos.

 

Fonte: Por Umer Nangiana, Role,BBC News e Author,Sarah Hasan, Role,De Islamabad (Paquistão) para a BBC News Urdu/Opera Mundi/Diálogos do Sul Global

 

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