Os
boatos, os lacradores e os cidadãos
Entre
os boatos das redes e os lacradores de ocasião, perde-se de vista que a
cidadania não nasceu pronta — foi forjada em séculos de revoluções,
contradições e violência, e seu aperfeiçoamento exige mais do que indignação
instantânea
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Pragmatismo com desorientação?
Entre
as preocupações não exageradas, mas pertinentes aos negócios humanos que
envolvam a economia política, a história e as instituições do Estado, se
destacam as formas de reinterpretação do passado à luz dos interesses
ideológicos do presente. Vive-se o tempo do cérebro eletrônico e, daqui há
alguns anos, não serão os documentos históricos, os estudiosos ou os livros que
irão esclarecer o que é dificilmente apropriável em razão da passagem do tempo.
Cada
povo tem o governo que merece é frase atribuível ao monarquista e anti-moderno
Joseph de Maistre. Esta frase é tão contundente quanto repetida, de modo
irrefletido e quase sempre solícito, assemelhando-se até mesmo com algum dito
popular.
No
Brasil, é possível afirmar, parece ter se fixado entre as pessoas comuns, e
diante disso, sua origem e autoria não importam. De igual sorte, se não escolhe
classe social para ser proferida, suas funções coletivas não são simples eco
dos descontentes. É replicada socialmente e, de repente, nos deparamos com ela,
no fim de um diálogo de elevador ou de cafezinho o qual tenha envolvido a
política e políticos. Os efeitos de imperativo, de (sic) desconvite, de fim dos
argumentos, finita la parole, sugerem rispidez.
Entre
tais coisas da comunicação humana, a utilização leiga da herança e das
reminiscências universais de eventos históricos, somadas à intencionalidade das
mensagens, não são meras derivações naturais dos interesses que sempre rondam
as mais diversas situações, tanto os nítidos ou mesmo os disfarçados. Há mais
que simples palavras.
O
iluminismo foi um movimento intelectual cujos protagonistas estiveram distantes
socialmente dos cidadãos comuns. E os nobres, ainda mais distantes, estavam
interessados em manter o estado político das coisas, fossem as de governo,
fossem as da sociedade, tais como existiam, em uma espécie de devir
inquestionável, de ordem natural e social espontâneas.
As
principais ideias de Voltaire, Montesquieu e Rousseau foram apropriadas por
diferentes facções e, ao longo da Revolução Francesa, foram por meio dela
expressadas, divulgadas, debatidas politicamente. O centro foi a palavra, por
meio de um estoque de imagens, formulações intelectuais e modelos de
conhecimento que se valeram (…) das brechas institucionais do Antigo Regime,
entre elas os salões, jornais, livros, brochuras e correspondência pessoal que
preencheram a sociedade (…)com suas abstrações.
As
dimensões dos acontecimentos contribuíram para que a expressão subversão não
demorasse a ser utilizada. Eram as aproximações indevidas, a confusão, o
protagonismo dos discursos que constituíram espaço para os interesses de
camponeses, artesãos e pequenos comerciantes que iriam acumular-se na tradução
das reservas mentais e políticas dos conservadores.
Mas os
historiadores, com auxílio dos seus métodos de exploração, elucidação e
interpretação, conseguem demonstrar as manobras estratégicas manifestadas nos
discursos, nos documentos e nos panfletos daquele tempo. Quais os riscos
resultantes da apropriação do passado praticada como mero argumento de
autoridade por um não especialista?
Imediatamente
a comparação relacionará as mais distintas e desconexas ideias, os mais
distintos personagens e espécie de transe discursivo contribuirá, também, para
atribuir aos eventos históricos, lições que neles não se encontram. Nas ideias
que justificaram a instituíram a guilhotina para a libertação da nação estão
considerados os interesses burgueses, mas entre estes, pode-se indagar,
estiveram os do povo? Se sim, como interpretá-los à época dos acontecimentos
assumindo-se que toda uma complexidade teórica e histórica para tanto são
necessárias neste esforço.
Aparentemente
simples a questão, mas apenas aparentemente, se aprisionadas entre
historiadores as implicações culturais, simbólicas e políticas. Mas na
modernidade todas essas implicações materializaram-se nos direitos, nas
instituições e na compreensão da realidade e assim e estão por toda parte
sugerindo, insinuando, desencadeando variantes na comunicação humana. Tão só
historiadores versados e experientes acessam os problemas históricos e
identificam as tramas narrativas.
As
interpretações possíveis formarão materiais para debate e, para tanto,
releituras e versões adequadas apaziguam a malícia contida na possiblidade de
se dar crédito as transformações sociais revolucionárias, sem o rompimento da
lei e da ordem e, não por acaso, sem povo. Basta extirpar o inimigo e os
negócios humanos seguem? Nas especulações teóricas sobre a Revolução Francesa e
seu alicerce ideológico, fruto de variados esforços e insistentes narrações,
semeou-se a árvore genealógica liberal.
Esta
árvore frondosa teve como objetivo, por sua vez, tornado possível (e foi)
divulgar como história pública a energia revolucionária, que embora de origem
não nobre, porém abastada, fora complacente com camponeses, integrando-os de
tal modo a um mundo melhor. Mas para reconhecer ao camponês rústico e iletrado
o direito à participação política, não se tratou de comprovar-lhe as aptidões,
nem mesmo de educá-lo.
Elaborou-se
horizonte intelectual no qual estes teriam espaço tomando-os na sua condição
humana, que outrora servil era agora autônoma e esclarecida. Embora talvez
ardilosamente, o (…) mundo fosse percebido segundo categorias extraídas do
direito natural e do empirismo (…), e o que se construiu foi (…) um fundo
normativo que incluía pressupostos subjacentes e não questionados. Entre eles,
a autonomia da razão, sua universalidade, ainda que independente dos limites do
tempo e do espaço, era suficiente para abranger e fundar nova concepção sobre a
humanidade.
Nesta
vocação atribuível a todos os seres humanos para o entendimento pleno sobre as
coisas do mundo e da existência, se destacou a independência dos cidadãos como
requisito político. Aonde estaria seu corolário? Qual seria ele? Aquele segundo
o qual ninguém estaria sujeito a qualquer tutela e de que todos são competentes
para examinar todas as certezas.
Se o
conhecimento e a forma de conhecer da ilustração admitiram sujeitos que
descreveram o mundo e as suas distinções, explorando a riqueza das definições e
das identidades políticas na estruturação da vida, inclusive em terras
longínquas, cujas variáveis não eram nem normandas, gaulesas ou tampouco
saxônicas, ocorreu de estas abandonarem na penumbra aspectos peculiares, todos
imanentes e concorrentes para formação social e não ideal das pessoas.
As mais
agudas formas de percepção da época, sobremodo as notícias do Novo Mundo, ainda
não haviam se consolidado e a leitura de Rousseau, tal como feita por
Montaigne, além de exceção, parecia excentricidade. A sociologia iria se
constituir como saber ao longo de todo o século XIX. As interpretações críticas
sobre as relações econômicas derivadas da industrialização assumiriam
consistência somente após 1850. E a matéria, digamos assim, a matéria humana da
cidadania exigia correlação com a vida em transformação acelerada.
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Transformações históricas e cidadania
Nas
Universidades europeias e norte americanas a relevância da história política
oitocentista é aprofundada nas investigações dos sentidos e do alcance dos
documentos e das formas de publicização e atuação social do poder.
A
teorização política da modernidade não surgiu teórica. Ela é uma conformação
intelectual que se debruça sobre acontecimentos, personagens, documentos,
livros e instituições que estavam em formação. O estudo do constitucionalismo
em sua origem não ficou limitado, assim, às trocas simbólicas entre leitores
acadêmicos em seus gabinetes. O alicerce para indagações, até aonde isso é
possível, é a história que outrora foi viva, vivida e que constituiu o
presente.
Ideias
em contexto ou sentido e compreensão de textos políticos não se afastam de
possíveis formulações de hipóteses de trabalho. Por sua vez, especialistas se
dedicam operosamente no sentido de que suas intervenções não impliquem
distorções. Esta forma de compreensão é muito fecunda e interessante. Joseph de
Maistre provavelmente não tenha concordado integralmente com Edmund Burke. É
possível que tenha também ignorado Thomas Paine. Burke desprezava Karl Marx e
entre os três, qual deles teria se ocupado detidamente com Jean-Jacques
Rousseau?
Escritores
políticos não foram compadres. Não escreviam uns para os outros. Joseph de
Maistre não manifestou interesse em romper ou manejou os sentidos das
representações medievais para as quais tão somente o rei corporificava Deus? E,
diante disso, admitindo-as nos limites dos seus interesses e compreendendo-as
de acordo com seu cabedal intelectual, se o fizesse, isto é, se propusesse o
ocaso da monarquia francesa, como iria explicar a representação de interesses
humanos de outros povos, como os do Novo Mundo, que não sabiam quem eram e o
que eram tanto o Papa como os significados das dinastias europeias?
Debatidos
em uma assembleia, sendo os interesses formados por múltiplos sujeitos, estes
jamais poderiam se aproximar de algo sensato e racional. Teria sido isso
possível apenas nas cidades antigas da Grécia e de Roma, pois pequenos
contingentes humanos poderiam reconhecer e serem reconhecidos no corpo de
legisladores. Mas o percurso da representação política na modernidade foi
acontecimento diverso, e este está longe de seu ponto final.
Para
seu estudo, a compreensão do governo misto na Inglaterra, os acontecimentos nas
Colônias na América do Norte e a Revolução Francesa constituíram-se nos
alicerces para tornar possível as primeiras aproximações sobre a formação do
poder civil. Já no tocante aos cidadãos brasileiros comuns, nós entre eles, que
torcem o nariz nutridos os seus cérebros tão só por notícias negativas quanto
aos seus representantes, tendo em vista a exploração intensa dos limites e dos
problemas correlatos à representação política, considere-se o padecimento de
espécie de anacronismo sem conteúdo.
Não
compartilhar o tempo do absolutismo europeu, tampouco o do Império brasileiro,
apenas nos dá uma saída: O conhecimento de historiadores políticos que se
dedicaram ao período fundador da modernidade política, inclusive da nossa, que
não foi linear ou constituída por personagens livres de contradições. De igual
modo, não se dedicar a compreender o tempo no qual vivemos, buscando tão só
numa espécie de reticência nas querelas narradas com intenções duvidosas, tais
como veiculadas por meios de comunicação tendenciosos, resulta em permutar a
razão do entendimento por versões dos problemas nacionais.
Em se
tratando de relações de poder e seus impasses, o modo de indagar deve ser
diverso, a não ser que se admita ser a existência humana, que é política, algo
desprezível. A representação política tornou-se enunciável no horizonte aberto
por uma revolução, porquanto ao longo do tempo da história do poder entre os
cidadãos, os eventos históricos moldaram aquilo que se compreende como o
domínio público da representação. Nele existe – pois foi instituído – um
sistema normativo em tese ocupado com o aperfeiçoamento das relações políticas,
nas quais todos os cidadãos devem ser considerados.
Toda
sociedade na modernidade deve contar com um estatuto ‘sui generis’ que se
qualifica como poder constituinte. Se as abstrações são a face ‘anversa’ do
Estado moderno, nada nisso é fácil, óbvio ou inocente. Os séculos da história
política depositaram nas estruturas representativas tanto as configurações
formais que instrumentalizam a participação dos cidadãos – como por exemplo as
formas de sufrágio universal – não sem imputar, também, ao Estado, as
configurações materiais do poder, com seu caráter público de ações
governamentais, bens públicos e aparatos bélicos.
Assim
como há formas e há símbolos que fazem alusão ao povo, há as abstrações que
(re)significam o poder político de modo não ocasional, entre elas uma bandeira
ou um hino. E há, como percebemos em nossos dias, a exploração sistemática e
ideológica de tópicos discursivos e de lugares comuns retóricos que são a
substância ou do discurso oficial do poder ou da propaganda partidária, ou mais
ainda: da leiga e apenas aparentemente neutra interação que se transformou, nas
redes sociais, em antiquadas, as outrora mensagens de marketing.
A
virulência, a sugestibilidade e a manipulação lançaram a comunicação humana a
outro patamar. O cidadão livre de toda forma de tutela jamais foi
ideologicamente livre. Daquilo que é correlato à vida política, passou a se ver
inserido, cada vez mais, nos tempos da tecnologia agressiva e sem limites, em
um universo de atribuições de sentido diversos às coisas tais quais elas são.
As palavras não correspondem mais as coisas. Não pode existir correspondência
entre as coisas e as suas descrições.
Esses
tópicos e lugares reconhecem, desvirtuam ou neutralizam os mecanismos de
comunicação e no tocante à representação política impedem a continuidade da
(…)reduplicação e de reapresentação da identidade social, que ainda pode ser
admitida, nessa terceira década do século XXI, como (…) a manifestação mais
explícita e clara da sociedade toda ou a instituição popular de um organismo
representativo no qual poderes, encargos e a criação de leis fundamentais
contribuem para as relações e interesses sociais.
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As armadilhas das mensagens
Romantismo
político ou intelectual? Os totalitarismos europeus do século XX erodiram
aquilo que os ideais revolucionários tentaram construir. Embora tenham sido
deixadas na penumbra, não só desta vez, as totalidades sociais não homogêneas
das nações, e que estas tenham se tornado instâncias de conflituosidade urbana
crescente, de preconceito, de desemprego e de pauperização, constituiu-se nisso
o material social para caricaturização reiterada do discurso conservador.
O fato
é que no mundo pós-industrial, e também na periferia do capitalismo, a
representação contém resoluções fictícias, não por constituir engenharia social
utópica, mas por ser fustigada e colonizada por interesses que a abalam
continuamente. A autonomia individual e as pluralidades das vontades e opiniões
foram compreendidas como (…) escórias do liberalismo oitocentista, pois
pareciam incompatíveis com a nova ordem.
A
captura da democracia europeia pelos totalitarismos mirou suas fragilidades por
meio da ridicularização de suas imagens e abstrações. Outros símbolos foram
impostos pelo fascismo e pelo nazismo. E todo um arcabouço de tópicos
discursivos e lugares comuns retóricos tensionaram as relações de poder.
Com a
percepção da profundidade das diferenças históricas que haviam se concretizado
em menos de um século, passou-se a contar com intensas formas influência (…)
sobre as orquestrações da representação: de um lado a impressão de que a
relação com uma sociedade de massa a qual pede para ser, de algum modo,
agregada e integrada às novas estruturas estatais, por outro lado, a convicção
de que para a integração das massas, o partido é uma via obrigatória.
Os
tempos interessantes do século XX se foram. Nele se dilataram os alicerces dos
séculos XVIII e XIX. Mas isso não admite, sem grandes riscos, afirmar que estas
bases foram implodidas. Se a crise da representação se tornou também um lugar
comum retórico disponível, no Brasil, desde a Nova República, entre
compreendê-la ou aperfeiçoá-la em suas vicissitudes a opção é a sua
criminalização. Se mira a representação, não os sujeitos que dessa construção
formal moderna se valem negativamente.
Diante
das novas armas que foram criadas para acentuar os sentidos da crise, sua
disposição é pelo autoritarismo e com isso, presta-se intencionalmente
homenagem às não inocentes palavras de Joseph de Maistre, já que (…) o mesmo
acontece aqui, pois subdividindo essas sutilezas ensina-se aos homens
aumentarem suas dúvidas: colocam-nos em posição de estender e diversificar as
dificuldades: prolongam-nas, dispersam-nas. Semeando questões e retalhando-as,
fazem frutificar e pulular no mundo as incertezas e as querelas.
Fonte:
Por Eduardo Figueiredo e João Luiz Esteves , em A Terra é Redonda

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