O
castelo de 250 quartos de família bilionária que conta como foi a Era Dourada
dos EUA
Quando
George W. Vanderbilt (1862-1914) convidou familiares e amigos para conhecer sua
casa recém-construída, na noite de Natal de 1895, eles chegaram em vagões de
trem particulares, por uma ferrovia construída especialmente para levar à sua
propriedade nas montanhas de Asheville, no Estado americano da Carolina do
Norte.
O
projeto da mansão com 250 quartos foi inspirado nos centenários castelos
franceses do vale do Loire. A escolha é evidente nas suas torres e pináculos.
O
brasão da família Vanderbilt estava presente em toda parte, desde uma mesa em
estilo renascentista até a decoração de uma lareira no salão de banquetes, com
altura de quatro andares.
A
criação de Vanderbilt foi "um castelo americano, construído na escala de
um palácio europeu", segundo o livro Biltmore House: The Interiors and
Collections of George W. Vanderbilt ("Biltmore House: o interior e as
coleções de George W. Vanderbilt", em tradução livre), um histórico
oficial da casa e do seu interior, escrito pelo curador-chefe da propriedade,
Darren Poupore, e pela historiadora de arte Laura C. Jenkins, com fotografias
de William Abranowicz.
Atualmente,
Biltmore é um destino turístico popular. Seus quartos são um autêntico reflexo
da época em que George W. Vanderbilt morou ali.
Entrar
na casa é como ingressar em uma versão real de Downton Abbey (2010-2015) ou da
série atual da HBO A Idade Dourada.
Mas ela
também é um avatar da cultura americana, com todas as aspirações e excessos da
verdadeira Era Dourada, na virada do século 20, marcada pelo repentino aumento
da riqueza de algumas poucas famílias — e que, hoje, chamaríamos de uma era de
grande desigualdade de renda.
Pouco
mais de um século depois da Guerra da Independência dos Estados Unidos
(1775-1783), que deu origem ao novo país, alguns americanos ansiavam pela
cultura aristocrática representada pelo Velho Mundo.
Por
isso, eles tentaram importar essa cultura, construindo mansões ostentosas,
trazendo móveis e obras de arte do exterior e alardeando sua vida de prazer e
riqueza.
É claro
que o brasão da família em Biltmore era totalmente novo. George era neto de
Cornelius Vanderbilt (1794-1877), conhecido como o Comodoro. Com origem
humilde, ele se tornou um magnata do transporte marítimo e ferroviário.
O
Comodoro personificou as impiedosas táticas dos "barões ladrões" do
início da Era Dourada, criando enormes monopólios com métodos questionáveis ou
antiéticos, como a manipulação das cotações nas bolsas, suborno de políticos e
exploração dos trabalhadores.
Acredita-se
que o brasão provenha da cunhada do construtor da casa, Alva Vanderbilt
(1853-1933).
Atualmente,
ela é mais conhecida como a inspiração da personagem Bertha Russel, a nova rica
da série A Idade Dourada. Interpretada pela atriz Carrie Coon, ela abre seu
próprio caminho para a alta sociedade.
Não é
por acaso que o brasão toma para si um pouco de história imerecida, com suas
bolotas e folhas de carvalho, dispostas para evocar a flor-de-lis da casa real
francesa de Valois.
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'A residência mais magnífica que existe'
Os
Vanderbilt, os Astor e outras famílias abastadas foram celebridades da sua
época. E os jornais acompanhavam com entusiasmo suas exibições de riqueza.
Meses
antes da inauguração da casa na véspera de Natal, o jornal The New York Times
escreveu que Biltmore House "se propõe a ser a residência mais magnífica
que existe". E muitos dos Vanderbilt, como Alva, buscavam essa
publicidade.
George
era diferente do resto da família.
"Ele
não se encaixa necessariamente no molde dos Vanderbilt", declarou Jenkins
à BBC. "Não participa ativamente da sociedade nova-iorquina. Não herda
nenhuma responsabilidade empresarial pelos interesses ferroviários da
família."
"Mas
ele começa a ser colecionador desde muito jovem. E, assim, durante a evolução
do projeto da casa, observamos suas viagens, sua formação e suas relações com
artistas e comerciantes de obras de arte."
Amante
dos livros, George Vanderbilt viajou, ao longo dos anos, para a Europa, Ásia,
Oriente Médio e norte da África, acumulando conhecimentos e obras de arte para
levar para casa.
Biltmore
House, segundo Jenkins, "acaba sendo uma espécie de retrato incrivelmente
pessoal de um homem" que participou do seu planejamento em cada detalhe.
Decidiu
construir sua mansão em um lugar isolado, longe das extravagantes casas dos
Vanderbilt na Quinta Avenida em Nova York e em Newport, no Estado americano de
Rhode Island.
Para
isso, contratou o renomado arquiteto Richard Morris Hunt (1827-1895), que havia
criado outras mansões com influência europeia para membros da sua família.
O
arquiteto e paisagista Frederick Law Olmsted (1822-1903), famoso pelo projeto
do Central Park em Nova York, criou os jardins solenes de Biltmore, as
paisagens dos terraços e um caminho sinuoso de 5 km que levava à propriedade.
O
caminho era rodeado de árvores e arbustos floridos que ocultavam a visão da
casa, até que uma das curvas a revelava repentinamente, em uma estratégia
criada para causar assombro e admiração.
Antes
que Hunt começasse seu projeto, ele e George Vanderbilt viajaram juntos pela
França, visitando castelos dos séculos 15 e 16.
O lado
externo de Biltmore foi especialmente inspirado no castelo de Blois, com sua
combinação de épocas.
Fotografias
do livro comparando as construções destacam a similaridade do seu estilo
neorrenascentista, que incorpora elementos medievais. Hunt acrescentou
gárgulas, com alguns rostos inspirados no seu — uma espécie de "ovo de
Páscoa" particular.
Em
outras viagens, Vanderbilt adquiriu 300 tapetes em uma única parada em Londres.
E, do Cairo, ele enviou palmeiras e outras plantas para o jardim de inverno de
Biltmore.
Além
disso, ele incorporou tecnologia de vanguarda em toda a casa. Uma grande escada
central se encontra ao lado de um estreito elevador, um dos primeiros em uma
casa particular.
Embora
a casa evoque uma certa nostalgia do passado europeu, ou de qualquer outro
passado marcado pela cultura, a combinação de épocas no seu interior não se
devia à ignorância, nem ao desespero.
Aquela
era característica dos designers do século 19, segundo Jenkins.
"Eles
decoravam quartos específicos de formas específicas, mas não há um estilo
unificador no interior", explica ele. "Por isso, você pode ter um
salão em estilo francês, uma sala de fumo de inspiração britânica e uma sala de
jantar renascentista."
"Eles
aproveitam esses momentos do passado e os utilizam no interior, de forma a
quase evocar uma residência já existente de longa data e que, de certa forma,
evoluiu com o passar do tempo."
Com
este espírito, a entrada dos quartos de hóspedes de Biltmore exibe retratos de
corpo inteiro de Hunt e Olmsted, de autoria de John Singer Sargent (1856-1925),
encomendados por Vanderbilt.
Um
opulento quarto de hóspedes em estilo Luís 16 contém móveis inspirados em
alguns do palácio de Versalhes, na França.
E o
salão de banquetes abriga um trono de madeira talhada em estilo gótico, um
tapete do século 17 com o brasão de armas do cardeal Richelieu (1585-1642) e
uma das obras mais importantes da coleção: um conjunto de tapetes flamengos do
século 16, feitos de lã, seda e ouro, contando a história de Vulcano e Vênus.
Alguns
dos elementos de Biltmore foram inspirados nas propriedades rurais da
Inglaterra.
Fora
dos portões de entrada, no caminho que leva até a mansão, Vanderbilt construiu
moradias para os trabalhadores, similares a um povoado inglês, com escola e
capela.
Biltmore
House tem uma sala de bilhar, uma sala para fumo e um depósito de armas, embora
seu proprietário não gostasse de caçar. E os empregados trabalhavam em enormes
cozinhas e lavanderias no porão.
"Acredito
que exista interesse em saber como viviam as pessoas mais abastadas",
declarou Poupore, sobre a atração de Biltmore para os visitantes.
Mas ele
destaca que "muitos dos nossos hóspedes nos comentam que se identificam
mais com os trabalhadores domésticos."
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'A incômoda realidade'
Durante
a Era Dourada, surgiram descontentamentos contra os muito ricos em alguns
setores. Afinal, eles eram a prova viva da enorme desigualdade entre ricos e
pobres.
Mas a
economia, mais que a indignação pública, veio cobrar a conta. Após a Grande
Depressão, nem mesmo os Vanderbilt conseguiram continuar sendo suficientemente
ricos.
Em
1930, como tantas propriedades britânicas imitadas por George Vanderbilt,
Biltmore abriu as portas ao público, para evitar sua venda. Ele morreu em 1914,
mas sua viúva Edith (1873-1958) e a filha Cornelia (1900-1976) continuaram
morando em Biltmore.
Cornelia
Vanderbilt foi uma das mulheres mais curiosas da família. Ela se casou (talvez
de forma não surpreendente) com o aristocrata britânico John Cecil (1890-1954),
mas depois deixou o marido e seus dois filhos pequenos em Biltmore, fugindo
para sempre.
Uma
reportagem não confirmada afirmou que, em Nova York, Cornelia Vanderbilt tingiu
seu cabelo de rosas e se identificava com o nome de Nilcha.
Dali,
ela se mudou definitivamente para a Inglaterra, onde se casou outras duas vezes
e prosseguiu discretamente com seu trabalho filantrópico.
Cecil
permaneceu em Biltmore e administrou a propriedade, que ainda é mantida pelos
seus descendentes. Eles expandiram os negócios, com pousadas, lojas e uma
vinícola.
Um
Natal em Biltmore (2023), um filme romântico de viagem no tempo filmado no
local, fez tanto sucesso no canal americano Hallmark que um segundo filme já
está sendo produzido na propriedade, para lançamento no final deste ano.
De
certa forma, a fascinação do século 19 pelos ricos da Era Dourada é diferente
da nossa atual conexão com as celebridades.
Atualmente,
podemos comprar maquiagem e modeladores da marca Kardashian ou a linha de
geleias e conservas de Meghan Markle e, assim, adquirir um pouco do seu
glamour. E nenhum americano médio conseguia sequer sonhar em entrar no mundo
dos Vanderbilt no seu apogeu.
Mas
algumas coisas nunca mudam.
O
apresentador da rede de TV CNN Anderson Cooper é tataraneto do Comodoro e filho
da atriz e estilista Gloria Vanderbilt (1924-2019). Ele contou a história da
sua família no livro Vanderbilt: The Rise and Fall of an American Dynasty
("Vanderbilt: ascensão e queda de uma dinastia americana", em
tradução livre).
Ele
também retratou outra família no seu livro Astor. Nesta obra, Cooper afirma que
a extravagância e os gastos com ostentação da Era Dourada têm reflexos no mundo
atual.
"Agora,
observamos os ultrarricos com trajes espaciais feitos sob medida, viajando em
foguetes financiados com fundos privados", escreve ele.
Como no
filme do Hallmark, Biltmore House é uma espécie de fantasia para viajar no
tempo, que nos permite escapar das dificuldades atuais rumo a um passado de
arte e luxo, sem a incômoda realidade de vivermos no porão do 1% mais rico da
população.
Fonte:
BBC Culture

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