Como
matemático superdotado que aterrorizou EUA com cartas-bomba foi preso há 30
anos
No dia
3 de abril de 1996, agentes federais americanos cercaram uma remota cabana de
madeira nos bosques do Estado de Montana, nos EUA.
Dali,
eles retiraram Theodore "Ted" Kaczynski (1942-2023), uma figura
despenteada que, até então, só existia na mente do público como um homem
encapuzado com óculos escuros, em um cartaz de "procura-se".
Por
quase 18 anos, o Unabomber foi um dos criminosos mais procurados dos Estados
Unidos — um sujeito misterioso que enviou bombas caseiras pelo correio, sem
motivo claro nem padrão regular.
Seus
próprios escritos foram responsáveis pela sua captura.
Dois
importantes jornais americanos, Washington Post e New York Times, concordaram
em publicar seu manifesto antitecnológico, se ele prometesse não voltar a
cometer homicídios.
Suas
palavras singulares foram identificadas, pela primeira vez, pela esposa do seu
irmão, que nem mesmo o conhecia.
Como
destacou o jornalista Krishnan Guru-Murthy, do programa de TV Newsnight, da
BBC, "o acadêmico que abandonou tudo para viver em uma cabana rústica
deixou um rastro até sua própria porta".
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O início da caçada
A busca
pelo Unabomber começou em maio de 1978, quando ele enviou pelo correio uma
bomba caseira rudimentar para a Universidade Northwestern, no Estado americano
de Illinois.
O
artefato foi seguido por um segundo ataque, quase um ano depois. Em novembro de
1979, uma bomba detonada pela altitude, enviada pelo correio, explodiu a bordo
de um voo da American Airlines.
O
artefato não funcionou conforme o esperado, mas 12 pessoas precisaram receber
tratamento por inalação de fumaça.
Como
seus objetivos aparentemente eram universidades e linhas aéreas, o FBI
americano atribuiu a ele o nome codificado UNABOM.
Nos
anos seguintes, ele utilizou bombas cada vez mais sofisticadas para atacar em
outras 13 ocasiões, matando três pessoas: Hugh Scrutton, proprietário de uma
loja de aluguel de computadores; Thomas Mosser, executivo do ramo da
publicidade; e Gilbert Murray, lobista da indústria madeireira.
Como
seus alvos eram basicamente aleatórios e suas bombas eram fabricadas com
objetos do dia a dia, como pedaços de madeira e fios de lâmpadas, os
pesquisadores contavam com muito poucas pistas para encontrá-lo.
O chefe
de investigação balística do FBI, Chris Ronay (1944-2024), o apelidou de
"bombardeiro dos reciclados".
"Ele
buscava em latas de lixo e materiais usados, onde encontrava coisas que poderia
usar para fabricar algo, como um neandertal", contou Ronay à BBC, em 1996.
Para
justificar sua violência, em abril de 1995, o Unabomber enviou para os jornais
americanos The New York Times e The Washington Post uma dissertação acadêmica
de 35 mil palavras, intitulada The Industrial Society and its Future ("A
sociedade industrial e seu futuro", em tradução livre).
No
ensaio, ele defendia que a vida moderna prejudicava a liberdade e a dignidade
humana. E afirmava que somente desmantelando os sistemas tecnológicos seria
possível evitar maiores danos sociais e psicológicos.
O
Unabomber se ofereceu a deixar de matar pessoas se o panfleto fosse publicado
pelos dois jornais de maior prestígio do país.
"A
ansiedade inicial era evidente", contou à BBC, em 2016, o então diretor do
The Washington Post, Donald Graham.
"Se
cedêssemos à exigência e aceitássemos publicar este documento, poderíamos abrir
espaço para outras exigências de publicação de documentos similares?
O
agente especial do FBI Terry Turchie declarou à BBC que os investigadores
pensaram inicialmente que a publicação do manifesto seria uma má ideia
"por ser insensato demais". Mas, depois, eles reconsideraram sua
posição.
Eles
defenderam que, se o manifesto fosse publicado, alguém quase certamente
reconheceria a voz por trás dele, "pois essas palavras são muito
apaixonadas".
Após
três meses de deliberações, seguindo o conselho do FBI, os diretores dos dois
jornais decidiram publicar o ensaio do Unabomber.
Muitos
americanos se perguntaram por que um fugitivo, cuja imagem encapuzada aparecia
em tantos cartazes do FBI, teria recebido o que eles consideravam um presente
para qualquer terrorista: uma plataforma pública para difundir suas ideias.
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200 suspeitos sérios
O FBI
ofereceu uma recompensa de um milhão de dólares por informações que levassem à
identificação e à condenação do Unabomber.
Sua
linha telefônica gratuita criada em 1993 (1-800-701-BOMB) recebeu mais de 50
mil alertas. E, com todas as novas pistas contidas no manifesto, a imagem do
misterioso terrorista começava a ganhar clareza.
"O
ego do Unabomber pode ter sido sua perdição", afirmou Guru-Murthy à BBC.
"Além
das ideias do tratado, descobriu-se mais sobre sua formação acadêmica, a partir
das suas cartas enviadas a cientistas importantes."
O grupo
de trabalho do FBI dedicado ao Unabomber elaborou uma lista com os 200
principais suspeitos. Cinco deles foram colocados sob vigilância constante,
todos no norte do Estado americano da Califórnia, onde os detetives acreditavam
que ele estaria se escondendo.
O
grande avanço no caso veio de uma fonte inesperada: uma cidadã americana que
estava de férias na França com seu marido, David Kaczynski.
A
professora de Filosofia Linda Patrik havia lido uma série de artigos sobre o
Unabomber no jornal em inglês International Herald Tribune, publicado em Paris.
"Eu
lia aqueles artigos quase diariamente e meio que coçava a cabeça, pensando
'como isso se parece com o irmão de Dave'", contou ela à BBC em 2016.
Em uma
reportagem, eram mencionadas as habilidades de carpintaria do suspeito. Outra
descrevia sua aversão à tecnologia. Outros indicavam cidades onde haviam
explodido bomba - as mesmas onde seu cunhado havia morado ou trabalhado.
Somando
tudo, ficou impossível ignorar o padrão, segundo ela. E Patrik precisou fazer a
incômoda pergunta ao seu marido: "É possível que o seu irmão seja o
Unabomber?"
David
Kaczynski não acreditava que pudesse ser verdade, segundo ela. Mas, quando leu
o manifesto, ele ficou atônito.
"Dave
ficou sentado, olhando para a tela do computador", ela conta. "Eu o
vi ler a primeira página e sua expressão mudou radicalmente."
"Aquela
situação foi um pesadelo", contou David Kaczynski à BBC.
"Literalmente,
considerei a possibilidade de que meu irmão fosse um assassino em série, a
pessoa mais procurada dos Estados Unidos, talvez do mundo inteiro."
O
dilema da família era brutal. Se eles permanecessem em silêncio, sua omissão
poderia resultar em novas mortes. Mas, se Ted fosse o Unabomber, ele poderia
enfrentar a pena de morte.
"Como
eu poderia passar o resto da vida com o sangue do meu irmão nas mãos?",
questionou David Kaczynski.
A busca
pelo Unabomber durou 17 anos e Theodore Kaczynski foi o suspeito n° 2416.
A
agente especial do FBI Kathleen Puckett fez a seguinte declaração em 2025, ao
programa de rádio Witness History, do Serviço Mundial da BBC:
"Havia
um baú que sua mãe guardava em Chicago, na casa da família. Nele, encontramos a
versão original manuscrita do manifesto." Era um ensaio escrito por
Kaczynski em 1971, contendo muitas daquelas ideias.
Os
investigadores reuniram provas suficientes para obter um mandado de busca na
cabana de madeira de Kaczynski, localizada em uma zona rural, onde ele vivia
sem água corrente nem eletricidade.
"A
cabana estava repleta de provas", relembra Puckett. "Era uma mina de
ouro."
Entre
as descobertas, havia componentes de bombas, 40 mil páginas de diários
manuscritos detalhando experimentos com bombas e relatos dos crimes do
Unabomber, além de uma bomba pronta para ser enviada pelo correio.
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De prodígio da matemática a desertor
O irmão
de Kaczynski, David, ficou atônito ao ver a prisão no noticiário.
Em
2006, ele contou ao Serviço Mundial da BBC que "ele foi retirado da sua
cabana entre dois agentes federais e seu aspecto era horrível."
"Estava
totalmente desalinhado. Sua roupa era pouco mais que farrapos e ele não tomava
banho há meses."
"E
ainda ouvi-lo sendo descrito como um assassino em série, um terrorista?",
relembra ele. "As informações que as pessoas tinham não correspondiam com
as lembranças que eu tinha de Ted, sabe, o bom menino que foi meu irmão mais
velho."
A vida
e os antecedentes de Kaczynski logo ficaram conhecidos. Prodígio da matemática
com QI de 167, ele pulou dois anos para entrar na Universidade Harvard com
apenas 16 anos.
Depois
de se formar, aos 20 anos de idade, ele continuou seus estudos na Universidade
de Michigan, também nos Estados Unidos.
Segundo
seu antigo professor Peter Duren, "ele tinha muitas boas ideias, era um
matemático muito original e, graças à sua tese, conseguiu emprego em
Berkeley", na Universidade da Califórnia.
"Parecia
que ele se encaminhava rumo a uma brilhante carreira em matemática."
Mas
algo mudou a visão do mundo de Kaczynski, segundo Guru-Murthy.
"Ele
se rebelou contra a disciplina na qual se sobressaía e, em dois anos, abandonou
a vida acadêmica", ele conta.
"Depois
de passar um tempo em Utah, ele se mudou para Montana, onde começou uma vida
rural e isolada em uma pequena comunidade com cerca de 1 mil habitantes."
"Era
evidente que ele tinha uma mente excepcional", prossegue Guru-Murthy.
"Mas, se os investigadores tiverem razão, tudo aquilo só serviu para
alimentar a ira de um homem que desprezava o que representava seu
trabalho."
Kaczynski
foi condenado à prisão perpétua em 1996, sem possibilidade de liberdade
condicional. Ele passou as três décadas seguintes em prisões de todo o país,
principalmente na prisão federal de segurança máxima de Florence, no Estado
americano do Colorado.
Um
psiquiatra que o entrevistou na prisão diagnosticou Kaczynski com esquizofrenia
paranoide, mas ele afirmava sempre saber exatamente o que estava fazendo.
"Tenho
certeza de que estou são", declarou ele em entrevista à revista Time, em
1999.
Com a
saúde deteriorada, Kaczynski se suicidou em 2023, aos 81 anos.
Fonte:
BBC Culture

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