O
que está por trás da guerra de farpas entre Trump e o papa Leão XIV
"Leão
é fraco."
"Não
tenho medo do governo Trump."
De um
lado, o presidente dos Estados Unidos. De outro, o papa.
Eles
são os norte-americanos mais poderosos do mundo. Ambos, chefes de Estado. E
subiram o tom as críticas mútuas.
Alçado
pela segunda vez ao poder, Donald John Trump, de 79 anos, preside
os Estados Unidos — potência econômica com mais de 340 milhões de habitantes —
desde janeiro de 2025.
Em maio
do mesmo ano, o conclave formado pela alta cúpula dos religiosos do catolicismo
elegeu Robert Francis Prevost como comandante da Igreja Católica. Sob o nome
de Leão 14, esse
norte-americano de 70 anos é chefe do pequeno Estado do Vaticano —micro-enclave
romano de apenas 800 habitantes. Mas, como lidera a poderosa religião que conta
com 1,4 bilhão de seguidores no planeta, é uma autoridade moral cujas opiniões
têm peso ideológico e social na geopolítica contemporânea.
Com
os mais recentes conflitos bélicos como
pano de fundo,
as discordâncias entre esses dois líderes vêm escalando para uma verdadeira
guerra discursiva, com trocas de farpas que escancaram a oposição de seus
pensamentos e interesses.
Para o
vaticanista Andrea Gagliarducci, do grupo ACI-EWTN de notícias católicas
globais, o que se vê não é uma mera guerra ideológica. "O papa faz o papel
de papa. E é óbvio que há questões nas quais não pode haver alinhamento",
comenta ele, à BBC News Brasil. "Não é apenas o tema da paz, que é central
para a Igreja, mas também as consequências civis, a gestão do poder que
frequentemente deixa de lado os excluídos, e a política migratória."
Professor
na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, e diretor no Lay Centre, também
em Roma, o vaticanista Filipe Domingues diz à BBC News Brasil que embora visões
diferentes entre governos e a Igreja não sejam incomuns, há dois pontos
inéditos na alta contenda entre Leão e Trump.
"Trump
atacou diretamente o papa, foi muito direto. Um post inteiro falando mal do
papa, esculachando alguém que é também chefe de Estado e ainda líder de uma das
principais religiões do mundo, uma figura de autoridade moral, talvez a maior
delas", pontua Domingues.
O outro
ponto é o fato de o papa, coincidentemente, ser cidadão norte-americano. Isso
daria a ele um lugar de fala privilegiado em um debate onde o alvo da crítica é
justamente a maneira como o governo norte-americano se movimenta na
geopolítica.
"Antes,
Francisco era acusado de não entender a Igreja dos Estados Unidos por ser
latino-americano. Agora temos um papa americano. Ninguém mais vai poder dizer
que ele está falando [sobre os Estados Unidos] sem conhecimento de causa",
compara Domingues. "Essa é a grande diferença."
Para o
vaticanista, pode-se dizer até mesmo que haja um aspecto religioso, uma questão
para quem crê. "Justamente em um momento em que os Estados Unidos se
tornam o principal inimigo de si mesmo, ou seja, alguém de dentro dos Estados
Unidos, o próprio presidente tentando corromper as instituições para se manter
no poder, justamente nesse momento a Igreja tem um papa norte-americano, alguém
que de fora dos Estados Unidos consegue ser uma voz com conhecimento de causa
sobre o contexto de lá", comenta.
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Uma escalada de atritos
No dia
31 de março, em conversa com jornalistas quando saía do Palácio Apostólico de
Castel Gandolfo, nos arredores de Roma, o posicionamento de Leão era coerente
com o discurso da Igreja: pedia a paz, cobrava a defesa da dignidade humana e
reforçava a necessidade de que as partes buscassem se sentar à mesa de
negociação.
No
entanto, vaticanistas e observadores notaram uma mudança de padrão. Em vez da
crítica indireta, falando sobre o problema sem mencionar o nome do chefe de
Estado envolvido, o sumo pontífice citou claramente Trump.
"Soube
que o presidente Trump declarou recentemente que gostaria de pôr fim à guerra.
Espero que ele esteja buscando uma saída. Espero que ele esteja buscando uma
maneira de diminuir a violência e os bombardeios, o que seria uma contribuição
significativa para eliminar o ódio que está sendo gerado e que aumenta
constantemente no Oriente Médio e em outros lugares", declarou o papa.
"Continuamente fazemos apelos pela paz, mas, infelizmente, muitas pessoas
querem promover o ódio, a violência, a guerra."
Os
recorrentes apelos pela paz nas celebrações do Vaticano se tornaram mais
evidentes. Na terça-feira passada, em entrevista a jornalistas, mais uma vez
ele externou a preocupação com a conduta externa norte-americana.
Horas
após Trump ter ameaçado destruir toda a civilização iraniana "em uma
noite", Leão preferiu mobilizar seus conterrâneos. Disse que além de rezar
era preciso "procurar formas de se comunicar, talvez com os congressistas,
com as autoridades, para dizer que não queremos a guerra, queremos a paz".
"Trump
não é um presidente católico, e a sua não é uma administração católica, apesar
da presença de católicos no governo, e é evidente que o papa, sendo católico,
não pode silenciar diante dos problemas. Considero isso normal, e nem sequer
surpreendente", comenta Gagliarducci.
O
vaticanista enfatiza que as prioridades do sumo pontífice são a "defesa da
vida e da dignidade humana" e que Leão não está entrando "no
tabuleiro geopolítico" e sim, buscando "orientar um debate".
No
último sábado, um gesto de Leão demonstrou que a grave situação global exige
mais do que os espaços nos protocolos ordinários. O religioso convocou uma
vigília de oração para aquela noite, apelando para a paz e criticando aqueles
que "pretendem recrutar Deus" para o lado da guerra, exercendo o que
ele qualificou de "ilusão da onipotência".
"Basta
de idolatria de si mesmo e do dinheiro, basta de exibição de força, basta de
guerra", clamou o líder católico, que ressaltou que é preciso
"enfrentar juntos, como humanidade e com humanidade, este momento
dramático da história".
Para
Domínguez, o papa foi claro ao falar sobre o egoísmo dos poderosos, criticando
o uso do poder e das armas, colocando a vida dos doutros em risco para se
autopromover.
"A
carapuça serviu, e muito, para Trump. Agora não é mais o papa que está
respondendo ao Trump, mas é o Trump que está respondendo ao papa",
completa o vaticanista.
Na
tradicional oração realizada pelo papa ao meio-dia de domingo no Vaticano, Leão
seguiu com o tema em pauta. Pediu pelo cessar-fogo no Oriente Médio e afirmou
se sentir próximo do "amado povo libanês". Também argumentou que há
uma "obrigação moral de defender os civis dos efeitos atrozes da
guerra".
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A resposta de Trump
A Casa
Branca não deixou o mais ilustre expatriado norte-americano sem resposta. Em
sua própria rede social, e abusando de palavras em caixa-alta, Trump definiu
seu conterrâneo como alguém "fraco no combate ao crime e péssimo em
política externa".
"Ele
fala sobre o medo do governo Trump, mas não menciona o medo que a Igreja
Católica e todas as outras organizações cristãs tiveram durante a covid",
escreveu o presidente americano.
Trump
ainda disse que gosta "muito mais" do irmão do papa, que seria
"totalmente MAGA". Trata-se do acrônimo da expressão, em inglês,
"tornar a América grande novamente", plataforma político-eleitoral
trumpista. Quando Robert Prevost se tornou papa, vieram à tona posts de seu
irmão, Louis, apoiando pautas de direita no Facebook. "Ele entende. Leão,
não", escreveu o presidente no post de domingo.
"Eu
não quero um papa que ache que tudo bem o Irã ter uma arma nuclear. Não quero
um papa que ache terrível que os Estados Unidos tenham atacado a Venezuela, um
país que estava enviando enormes quantidades de drogas para os Estados
Unidos", acrescentou Trump.
Não há
nenhum registro de nenhuma declaração pública ou documento emitido pelo
Vaticano ou pelo papa Leão 14 defendendo o direito de o Irã ter arsenal
nuclear.
"E
não quero um papa que critique o presidente dos Estados Unidos por eu estar
fazendo exatamente aquilo para o qual fui eleito, com uma vitória
arrasadora", disse ainda Trump. "Leão deveria ser grato pois, como
todos sabem, ele foi uma surpresa impressionante. Ele não estava em nenhuma
lista de papáveis e só foi colocado lá pela Igreja porque era americano. E
acharam que essa seria a melhor forma de lidar com o presidente Donald J.
Trump."
"Se
eu não estivesse na Casa Branca, Leão não estaria no Vaticano", argumentou
o presidente. Prevost é norte-americano de Chicago e foi criado em Dolton,
Illinois. Sua carreira religiosa, entretanto, se tornou mais relevante pelas
duas longas temporadas em que ele viveu no Peru — primeiramente entre as
décadas de 1980 e 1990 e, por fim, entre 2015 e 2021. Quando foi eleito papa
ele ocupava um dos cargos mais importantes na hierarquia do Vaticano: o cardeal
era prefeito do Dicastério para os Bispos, nomeado para a função por seu
predecessor, papa Francisco (1936-2025).
"Infelizmente,
Leão é fraco no combate ao crime e fraco em relação a armas nucleares — e isso
não me agrada. Também não me agrada o fato de ele se reunir com simpatizantes
de Obama, como David Axelrod, um perdedor da esquerda, que é um daqueles que queriam
que fiéis e membros do clero fossem presos", continuou Trump.
Depois,
Trump publicou uma imagem gerada por inteligência artificial em que ele aparece
como Jesus abençoando um doente. A publicação foi apagada horas depois.
Membro
do Partido Democrata, de oposição a Trump, o consultor político Axelrod foi
conselheiro da Casa Branca durante os dois primeiros anos do primeiro mandato
de Barack Hussein Obama na presidência — entre 2009 e 2011. Durante a pandemia,
como comentarista político de uma emissora de TV, ele defendeu maior restrição
a atividades religiosas para conter aglomerações. Axelrod teve uma audiência
com o pontífice neste mês de abril.
"Leão
deveria se recompor como papa, usar o bom senso, parar de agradar a esquerda
radical e focar em ser um grande papa, não um político", avaliou Trump.
"Isso está prejudicando muito ele e, mais importante, está prejudicando a
Igreja Católica."
Trump
ainda publicou uma imagem gerada por inteligência artificial em que ele aparece
vestido como uma túnica em estilo típico da iconografia cristã, como se fosse
Jesus curando um doente. Na época do conclave, o presidente norte-americano
também havia postado uma imagem em que ele era representado com as vestes
papais.
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No avião, papa mantém o tom
Na
manhã desta segunda, no voo que o levava para a Argélia — início de uma viagem
de 10 dias por países africanos — Leão 14 respondeu a jornalistas sobre os
desentendimentos com o presidente de seu país natal. "Não tenho medo do
governo Trump", afirmou ele.
"Colocar
minha mensagem no mesmo patamar do que o presidente tentou fazer, creio eu, é
não compreender qual é a mensagem do Evangelho. Lamento ouvir isso, mas
continuarei com o que acredito ser a missão da Igreja no mundo hoje",
declarou. "Não hesitarei em anunciar a mensagem do Evangelho e em convidar
todas as pessoas a procurarem maneiras de construir pontes de paz e
reconciliação, e a buscarem formas de evitar a guerra sempre que
possível."
"Basicamente,
digo que a mensagem da Igreja, a minha mensagem, é a mensagem do Evangelho:
bem-aventurados os pacificadores. Não encaro o meu papel como sendo político,
nem como o de um político. Não quero entrar num debate com ele", disse
Leão.
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Uma voz que ruge
Este
episódio é o primeiro grande momento político do pontificado de Leão, que tem
sido visto como discreto e muito cuidadoso em suas declarações — principalmente
quando comparado ao seu predecessor. "Esse tipo de evento que ele fez
agora [a vigília de sábado], ele precisa criar e criou. São situações para que
ele seja ouvido", diz Domingues. "No caso, uma situação certa, em um
ambiente seguro. Foi uma decisão sábia e ele falou de um jeito muito forte, sem
citar nomes nem países, mas passando claramente a mensagem."
"Ele
conquistou espaço como voz importante no contexto geopolítico internacional. Se
isso vai gerar mudanças [no cenário] ou se ele vai conseguir continuar manter
[essa evidência], não sabemos ainda, pois Leão é muito reservado", afirma
Domingues. "Acho que ele não quer ser um comentarista do governo Trump,
mas vai seguir falando dos pontos que são importantes para a Igreja e para a
sociedade de hoje."
Para o
vaticanista Gagliarducci, tanto a oração da vigília no sábado quanto o pedido
para que os americanos escrevessem aos congressistas pedindo paz são
"formas de chamar os católicos à responsabilidade".
Por
outro lado, ele entende que Trump vem perdendo "muito eleitorado
católico" e esses eleitores "não voltarão". "Não irão para
o Partido Democrata, mas também não regressarão a Trump", acredita ele.
Para o
vaticanista, a maneira enfática como Leão vem se posicionando e a presença de
cardeais americanos debatendo o tema nas TVs dos Estados Unidos obrigaram com
que o presidente se posicionasse — e seu post poderia ser classificado como
eleitoreiro. "Essencialmente, ele diz que está cumprindo as promessas de
campanha e se o papa ou os católicos não compreendem, azar o deles, porque não
estariam defendendo os interesses americanos", analisa Gagliarducci.
"Ele diz aos católicos americanos que podem até ouvir o papa, mas que se
não votarem nele, estão errando. Este é o recado, penso eu."
"Naturalmente,
Leão 14 tem uma atenção particular aos Estados Unidos: conhece o país, é
cidadão norte-americano", diz Gagliarducci. "Mas definir as suas
respostas ou declarações com base nisso seria redutor. Ele é o Papa: fala aos
católicos e a todas as pessoas de boa vontade."
Fonte:
BBC News Brasil

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