A
'estranha' estrutura da Rolex: a empresa de luxo que não pertence a nenhum
bilionário
Quando
Shakira quis expressar em uma canção sua dor por uma traição amorosa, recorreu
a uma comparação que não precisava de explicação: "Você trocou um Rolex
por um Casio".
A
segunda marca talvez pudesse ter sido outra, mas a primeira só poderia ser
essa: bastava invocá la para que sua audiência global a entendesse
imediatamente como sinônimo da coisa mais valiosa que alguém pode possuir… E
perder.
Poucas
marcas na história alcançaram esse nível de penetração cultural.
Seja um
relógio de pulso Rolex grande, robusto, de ouro polido e cravejado de diamantes
— que proclama sucesso aos quatro ventos — ou um modelo mais discreto, que
sussurra refinamento, todos falam o mesmo idioma.
E,
embora existam outras peças de relojoaria no mercado de luxo que marcam o tempo
com uma precisão respaldada por uma engenharia altamente sofisticada, a Rolex
tem sido líder incontestável há mais de meio século.
O mais
recente relatório Swiss Watcher 2025 da Morgan Stanley e da LuxeConsult, que
examinou as 50 principais marcas, confirma isso.
A Rolex
aparece no topo, com uma participação implícita no mercado varejista de 33%; a
segunda colocada na lista — a Richemont, com seus relógios Cartier — tem 9%.
O
relatório estima que cerca de 1,15 milhão de relógios Rolex foram vendidos no
ano passado, o que se traduz em receitas estimadas de cerca de US$ 14,8 bilhões
(R$ 74 bi) — um valor difícil de imaginar e, neste caso, difícil de confirmar,
já que a centenária relojoaria é singular.
A Rolex
não pertence a nenhum bilionário, não é negociada em bolsa nem responde a
acionistas.
Ela é
propriedade de uma fundação.
Essa
estrutura incomum, que seus admiradores — de entusiastas e colecionadores a
vendedores especializados — apresentam como um modelo quase virtuoso de
capitalismo com consciência, é complexa e intrigante.
Por
trás dela, há um homem chamado Hans Wilsdorf.
Como
ele conduziu o sucesso da marca e garantiu que ela perdurasse?
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O órfão bávaro com visão de marketing
Wilsdorf
nasceu em 1881 na Baviera, na Alemanha, e, após perder a mãe ainda criança e o
pai quando tinha 12 anos, seus tios venderam o negócio da família e o enviaram
para um internato.
Com uma
educação sólida e a capacidade de falar três idiomas — alemão, francês e inglês
—, Wilsdorf chegou à Suíça aos 19 anos para trabalhar em uma empresa
exportadora de relógios de bolso.
Em
1905, aos 24 anos, fundou com o cunhado, Alfred Davis, a empresa Wilsdorf &
Davis, em Londres, importando mecanismos de relógios suíços. Três anos depois,
registrou a marca Rolex, uma palavra inventada, fácil de pronunciar em qualquer
idioma e suficientemente curta para caber em um mostrador.
Ela
surgiu no momento em que a indústria apostava no relógio de pulso, e Wilsdorf
se uniu a essa tendência com uma obsessão particular: demonstrar que esses
pequenos objetos presos ao pulso podiam alcançar a precisão dos grandes
cronômetros marítimos, o mais alto padrão de exatidão da época.
Assim
como Omega, Longines e Zenith, a Rolex participou de competições de
cronometria, pois a precisão não era apenas um atributo técnico: era o
principal argumento de venda.
Mas era
preciso mais para se destacar.
Na
sucessão de inovações que transformaram a relojoaria, a Rolex nem sempre foi a
primeira a conceber uma ideia, mas frequentemente foi a primeira a levá la à
sua forma definitiva e a gravá la na memória coletiva.
Em
1926, lançou o Oyster, o primeiro relógio de pulso hermeticamente selado e
resistente à água.
Para
comprová lo, Wilsdorf não se limitou a afirmar: convenceu a nadadora britânica
Mercedes Gleitze a usar um Oyster preso ao pescoço durante sua "natação de
reivindicação" do Canal da Mancha, entre França e Reino Unido.
Gleitze
havia sido a primeira pessoa a atravessar o Canal, mas outra mulher alegou tê
lo feito em menos tempo — uma afirmação que acabou sendo uma farsa, mas que
obrigou Gleitze a repetir a travessia para reivindicar seu feito.
A
controvérsia garantia cobertura gratuita da mídia.
Embora
Gleitze tenha sido forçada a abandonar a natação devido ao frio extremo, o
relógio funcionava perfeitamente, como noticiou o jornal britânico The Times.
Um mês
depois, a Rolex compraria a capa inteira do jornal Daily Mail com a manchete:
"O relógio que desafiou o Canal".
A
lendária casa de leilões Sotheby's descreveria essa colaboração, quase um
século depois, como "o nascimento do patrocínio esportivo moderno": a
primeira vez que a resistência física de um atleta foi usada para validar a
engenharia de um produto.
Nos
anos 1950, a Rolex e sua agência de publicidade, J. Walter Thompson,
protagonizaram um ousado golpe de marketing em um evento que mantinha o mundo
em suspense: a conquista do monte Everest.
A
relojoaria britânica Smiths, fornecedora histórica da Marinha Real e da família
real, era a patrocinadora oficial da expedição que alcançou o feito em 1953, e,
quando Edmund Hillary chegou ao cume, usava um Smiths De Luxe no pulso.
Mas
isso não impediu a Rolex de se apropriar da história: ela também havia
fornecido relógios aos integrantes da expedição e, no retorno, em Calcutá, na
Índia, o distribuidor local presenteou Edmund Hillary com um protótipo do
Explorer gravado, além de distribuir relógios à equipe.
Quando
os alpinistas chegaram a Londres, já eram embaixadores oficiais da Rolex, e
pouco se falou dos relógios Smiths.
Em
1960, em vez de disputar as alturas, a empresa se testou nas profundezas: um
relógio experimental da Rolex foi fixado do lado externo do batiscafo Trieste
durante sua descida ao fundo da Fossa das Marianas.
Jacques
Piccard, o oceanógrafo que comandou a descida, enviou um telegrama a Genebra,
na Suíça, sede da empresa: "Feliz em anunciar que seu relógio funciona tão
bem a 11 mil metros quanto na superfície".
Cada
feito resultava em um anúncio, reforçando o slogan associado à marca: "Uma
coroa para cada sucesso".
A linha
entre publicidade e demonstrações reais de desempenho era tênue, e a estratégia
deu frutos: desde 1953, a Rolex cresceu a um ritmo médio de 8% ao ano por quase
quatro décadas.
O
marketing era apenas metade da equação. A outra foi resumida por Wilsdorf em
uma carta sobre seus primeiros anos: "Não é com preços baixos, mas, ao
contrário, com maior qualidade que podemos não apenas sustentar o mercado, mas
ampliá lo".
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Um símbolo à prova do tempo
Wilsdorf
morreu em 1960, mas ainda estava por vir a transformação mais radical da Rolex:
de relógio de precisão a símbolo global de status.
Com o
apoio da mesma agência de publicidade que havia ajudado a consolidar o vínculo
entre a Rolex e a conquista humana do impossível no Everest, a J. Walter
Thompson, a estratégia evoluiu com precisão cirúrgica ao longo das décadas.
Os
anúncios já vinham se concentrando não nos relógios em si, mas nos homens
poderosos que os usavam: a Rolex era um símbolo de sucesso pessoal.
"Os
homens que guiam o destino do mundo usam relógios Rolex", dizia um anúncio
de 1959.
Quando
a sociedade deixou de admirar líderes mundiais ou militares, e atletas,
aventureiros e empreendedores passaram a ser os novos heróis, a Rolex se
associou a profissionais de elite.
A
"crise do quartzo" nos anos 1970 — quando os relógios japoneses a
bateria ameaçaram tornar obsoletos os mecanismos mecânicos suíços —, que para
muitas marcas foi um golpe letal, para a Rolex representou uma oportunidade.
Enquanto
concorrentes como a Omega fabricavam relógios de quartzo baratos, a Rolex
ressignificou seu mecanismo mecânico como uma virtude: não era tecnologia
antiga, mas artesanato atemporal.
A
decisão consolidou sua posição como o relógio de luxo por excelência, que vem
mantendo há mais de meio século.
Nos
anos 1980, quando os símbolos de status se tornaram culturalmente dominantes, a
Rolex voltou se para a opulência: o modelo Day Date tornou se "o relógio
presidencial", usado por líderes mundiais.
O
resultado foi o que especialistas em marcas chamam de uma armadilha
aspiracional perfeita: um objeto que aqueles que não podem tê lo desejam, e que
aqueles que podem tê lo precisam para sinalizar que chegaram lá.
A
mensagem constante, como observa o historiador Pierre Yves Donzé no livro La
fabrique de l'excellence: histoire de Rolex (A fábrica da excelência: história
da Rolex), era destilada, simples e poderosa: a Rolex é um produto excepcional,
desenvolvido por um empresário excepcional (Hans Wilsdorf) para pessoas
excepcionais.
Esse
rigor e clareza de visão devem se em grande parte à Fundação Hans Wilsdorf — o
que nos leva de volta ao seu criador.
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A coroa e suas sombras
Após a
morte de sua esposa, em 1945, Wilsdorf criou a fundação que leva seu nome e, ao
morrer, legou a ela todas as suas ações. O casal não teve filhos.
Seu
objetivo principal — segundo seus estatutos — é "garantir a salvaguarda, a
manutenção e a rentabilidade dos bens que lhe são confiados".
"Se
possível", acrescentam, apoiar iniciativas sociais, educacionais,
culturais e humanitárias, principalmente em Genebra, bem como contribuir para a
proteção dos animais e do meio ambiente em nível global.
Tudo
isso, sem dúvida, foi cumprido — embora não haja registros precisos a respeito.
Embora
seus fins filantrópicos estejam subordinados à disponibilidade de recursos
excedentes, esses recursos permitiram beneficiar tantas pessoas e projetos que
é impossível enumerá los.
Na
cidade suíça, a presença da fundação é onipresente: da preservação e reinvenção
do histórico cinema Le Plaza ao apoio à modernização da Escola Profissional de
Genebra, da renovação do asilo de idosos de Champel à restauração da biblioteca
da cidade e à conservação do Jardim Botânico, são muitos os projetos que talvez
não tivessem visto a luz do dia sem o apoio da Rolex.
Além do
que é visível, a fundação concentra se em apoiar indivíduos, perdoando dívidas,
ajudando a pagar aluguéis ou concedendo bolsas de estudo.
E há
relatos de que as milhares de solicitações que recebem são analisadas
rapidamente e sem excessiva burocracia.
Tudo
isso lhe confere um poder tão vasto que, em Genebra, alguns a descrevem como um
"Estado dentro do Estado", como observa o escritor Dan Crivello no
blog Coronet, especializado em Rolex.
O
modelo que torna isso possível, no entanto, não é exclusivo da Rolex.
A Rolex
não é a única empresa com essa estrutura.
A
cervejaria dinamarquesa Carlsberg, a multinacional alemã de engenharia Bosch, o
conglemerado alemão de mídia Bertelsmann, a farmacêutica dinamarquesa Novo
Nordisk e a empresa sueca de mobiliário IKEA, entre outras, também pertencem a
fundações.
Mas a
Rolex tem duas particularidades: sua fundação detém 100% das ações, em uma
estrutura que a legislação suíça torna permanente — ou seja, ninguém pode vendê
la, abri la em bolsa ou transferi la para mãos privadas.
E ela
opera na indústria do luxo, onde a maioria de seus concorrentes pertence a
conglomerados listados em bolsa ou a famílias acionistas. Nesse universo, a
Rolex é uma anomalia.
Isso
faz com que a Rolex não seja apenas incomum, mas o exemplo mais visível e
rentável desse modelo — e o mais debatido.
Suas
vantagens são reais: sem a pressão de acionistas, as decisões podem ser mais
voltadas ao longo prazo; sem cotação em bolsa, a empresa é imune a oscilações
especulativas; com uma fundação como proprietária, parte dos lucros vai para
causas sociais.
O
historiador Donzé argumenta que essa estrutura foi fundamental para que a Rolex
mantivesse sua independência e a coerência de sua marca por mais de um século.
Mas as
sombras também são reais.
A Rolex
não publica resultados detalhados, não presta contas a investidores e oferece
pouca visibilidade sobre o alcance real de sua atividade filantrópica.
Analistas
e historiadores do setor apontam que essa opacidade não é um traço acessório,
mas estrutural: ela permite acumular capital, tomar decisões de muito longo
prazo e exercer influência significativa sem os mecanismos habituais de
supervisão.
O
resultado não é tanto uma anomalia ética quanto institucional: uma organização
que, sem infringir as regras, opera em grande medida à margem delas.
Ainda
assim, nada disso obscureceu o que a Rolex representa para o mundo: essas
sombras raramente chegam à vitrine.
Shakira
não cantou sobre uma fundação. Cantou sobre um relógio. Mas esse relógio é há
décadas muito mais do que um objeto: é o resultado de uma construção
deliberada, inteligente, por vezes opaca, do que significa o sucesso.
E a
empresa que o fabrica conseguiu algo que pouquíssimas alcançam: fazer com que
ninguém precise explicar o que significa quando se pronuncia seu nome.
Fonte:
BBC News Mundo

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