Henrique
Cortez: As mudanças climáticas já afetam nossas vidas
Esta
semana, enquanto esperava o busão, debaixo de um sol que parecia querer
literalmente me derreter, me peguei pensando: isso não é normal! Quase quarenta
graus, sem sombra, sem vento. E eu, como milhões de brasileiros(as),
simplesmente tentando chegar ao trabalho.
Não é
normal. E provavelmente você já sabe disso, mas talvez ainda não tenha parado
para conectar os pontos do calor absurdo, da conta do mercado que não para de
subir e das enchentes que todo ano destroem cidades inteiras. Tudo isso tem um
nome. E esse nome é crise climática.
Quero
conversar com você sobre isso de um jeito diferente. Sem gráficos assustadores,
sem o tom catastrófico que às vezes paralisa mais do que mobiliza. Quero falar
sobre o que acontece quando olhamos para além dos números e, como essa crise já
está dentro da nossa rotina, da nossa mesa, do nosso bolso.
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Quando 40°C viram uma sentença. O calor que mata em silêncio
O nosso
corpo foi feito para funcionar nos 37°C internos. Quando a temperatura ambiente
começa a rivalizar com a do nosso organismo, algo muda e não para o bem. A
partir dos 40°C, o risco de dano real a órgãos como o coração e o cérebro deixa
de ser teórico e se torna assustadoramente concreto.
Cidades
como Manaus, Belém e Porto Velho já estão se tornando o que os cientistas
chamam de epicentros globais de estresse térmico. E aqui está o dado que mais
me incomoda: estima-se que, até 2050, mais da metade da população mundial vai
enfrentar pelo menos um mês de calor extremo por ano. Todo ano.
Mas
quem são as pessoas que mais sofrem com isso? Não são os que podem trabalhar
com ar-condicionado. São os trabalhadores da construção civil que não podem
parar, os agricultores que dependem do campo, os entregadores de aplicativo que
pedalam embaixo do sol para colocar comida na nossa mesa e na deles. O calor
extremo é um assassino silencioso com alvos muito bem definidos.
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O preço que você paga no mercado tem nome: crise climática
Você
reparou que os alimentos estão mais caros? Que os vegetais e frutas estão em
quantidades menores, mesmo nas safras? Que a conta do mercado parece não ter
teto? Não é só inflação genérica. Há algo estrutural acontecendo com a nossa
comida.
A
agricultura é, talvez, o setor mais dependente do clima que existe. Uma semana
sem chuva na época errada pode destruir meses de trabalho. O milho e o trigo,
culturas fundamentais para alimentar o planeta, já apresentam produtividade
menor por causa do aquecimento. Em um cenário de altas emissões, projeta-se uma
redução de 24% na produção global de calorias até o fim do século.
E a
água? Aquela que sempre pareceu abundante está se tornando um bem cada vez mais
escasso. Até 2050, a seca pode ameaçar 80% das terras agrícolas do mundo.
Oitenta por cento. Quando leio esse número, não consigo deixar de pensar em
quanto isso vai custar em dinheiro, em vidas, em dignidade.
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Ignorar o clima é o pior investimento que um país pode fazer
Há
sempre quem argumente que cuidar do clima é caro demais, que a economia vem
primeiro. Mas os dados contam uma história diferente e perturbadora. Estudos
indicam que apenas 1°C de aquecimento global já reduziu o PIB mundial em 12%.
Não é um custo futuro. É uma conta que já estamos pagando.
O
paradoxo é elegante na sua crueldade: investir em adaptação climática, como
proteção de costas, agricultura resiliente, infraestrutura urbana preparada, é
extremamente rentável. Cada dólar investido pode gerar até dez dólares em
benefícios, ao evitar perdas que seriam catastróficas. É, literalmente, a
aposta mais segura que qualquer governo ou empresa pode fazer hoje.
Mas a
inação continua sendo escolhida e nós pagamos o preço todos os dias, na nossa
qualidade de vida, na saúde e em cada nota fiscal.
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Quem paga a conta não é quem aquece o planeta
Essa é
a parte que mais pesa para mim. A face mais cruel da crise climática é que ela
penaliza com muito mais força quem menos contribuiu para criá-la.
Até
2050, 80% das pessoas expostas ao calor extremo estarão em países pobres.
Apenas 2% estarão em nações ricas. Os países que mais emitiram CO₂ ao longo da
história são, em grande parte, os mais protegidos dos efeitos mais
devastadores.
No
Brasil, isso fica evidente de um jeito doloroso. As tragédias de Petrópolis e
do Rio Grande do Sul não foram “desastres naturais”, foram desastres
socioambientais. A diferença importa porque ela revela décadas de falta de
investimento em moradia digna, em planejamento urbano, em infraestrutura de
drenagem. A chuva foi o gatilho; a desigualdade foi a pólvora.
Há
ainda uma injustiça que atravessa gerações. Uma criança que nasce hoje vai
enfrentar sete vezes mais ondas de calor ao longo da vida do que seus avós
enfrentaram. Isso não é apenas injusto, é, também, um trauma coletivo
silencioso que já tem nome: eco-ansiedade. E ela atinge especialmente os
jovens, que crescem vendo o futuro ser hipotecado por decisões que não tomaram.
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Por que entender isso muda tudo?
Sei que
pode parecer pesado. Mas eu acredito que o diagnóstico honesto é o primeiro
passo para qualquer mudança real. A crise climática não é um problema ambiental
apenas, ela é uma crise de direitos humanos, de justiça social, de equidade
entre gerações.
Enquanto
a conversa ficar restrita a gráficos de temperatura e metas de emissão, ela
continuará parecendo distante. Quando começamos a falar sobre o trabalhador que
não pode parar no calor, sobre a família que perde tudo numa enchente, sobre a
jovem que sente ansiedade sobre um futuro que ainda tem chance de ser
diferente, aí a conversa muda de tom.
E é
essa mudança de tom que pode mover pessoas, políticas e prioridades. O próximo
passo, que explorarei aqui, em breve, é olhar para o vasto cardápio de soluções
que já temos à disposição. Porque sim, elas existem. E muitas delas são mais
acessíveis, mais rentáveis e mais urgentes do que nos fazem crer.
• Crise climática atinge a economia e
saúde brasileira
O
Brasil está enfrentando uma crise de saúde pública e econômica diretamente
ligada à emergência climática, com o calor extremo e a poluição do ar causando
perdas de bilhões de dólares e milhares de mortes prematuras anualmente, de
acordo com o novo Relatório Global 2025 da Lancet Countdown, um levantamento
que monitora os vínculos entre saúde e mudança climática.
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Onda de calor e colapso da produtividade
O
relatório, compilado para jornalistas, detalha como a mudança climática está
ceifando vidas e afetando os meios de subsistência no Brasil. Em 2024, a
população brasileira foi exposta a 15,6 dias de ondas de calor cada, em média,
sendo que 94% desses dias não seriam esperados sem a mudança climática.
O
impacto no trabalho é devastador: em 2024, a exposição ao calor resultou em uma
perda média de mais de 6,7 bilhões de horas de trabalho potencial, um aumento
de 51% em comparação com o período de 1990-1999. Essa perda de produtividade se
traduziu em um prejuízo financeiro potencial de US$ 17,7 bilhões, o que
equivale a quase 1% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.
Os
setores mais afetados foram o agrícola (36% das perdas) e o da construção
(34%).
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Aumento alarmante de mortes e doenças
O custo
humano do calor está em ascensão. De 2012 a 2021, o Brasil registrou uma
estimativa de 3.600 mortes anuais relacionadas ao calor, um aumento de 4,4
vezes em comparação com a década de 1990. Para a população idosa (acima de 65
anos), o valor monetário da mortalidade relacionada ao calor atingiu US$ 5,7
bilhões entre 2020 e 2024 – um aumento de 383% desde 2000–2004.
Paralelamente,
a poluição atmosférica antropogênica (PM2.5) foi associada a mais de 63.000
mortes em 2022, um aumento significativo em relação às 51.000 mortes
registradas em 2010. O valor monetário dessa mortalidade prematura devido à
poluição do ar chegou a US$ 50 bilhões em 2022, equivalente a 2,4% do PIB. O
diesel usado no setor de transporte foi identificado como o maior contribuinte
individual, associado a 22.000 mortes em 2022.
As
mudanças climáticas também estão ampliando a ameaça de doenças infecciosas: a
adequação climática para a transmissão da dengue pelo mosquito Aedes aegypti
aumentou em 30%.
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Inação energética e dependência fóssil
Apesar
dos riscos, o país demonstra um atraso na transição energética, o que “está
custando vidas e sobrecarregando a economia”. Em 2023, o Brasil apresentou uma
receita líquida negativa de carbono, gastando um total líquido de US$ 4,6
bilhões em subsídios a combustíveis fósseis.
A
dependência do transporte rodoviário é marcante, com 77% da energia consumida
pelo setor proveniente de combustíveis fósseis, e 0% de eletricidade em 2022.
Adicionalmente, a preparação do Brasil para a transição de baixo carbono
diminuiu 6,6% em 2024 em relação ao ano anterior.
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Impactos ambientais extremos
Os
dados ambientais refletem a gravidade da situação:
o A área de terra que experimenta pelo
menos um mês de seca extrema por ano aumentou quase 10 vezes, passando de 5,6%
em 1951-1960 para 72% em 2020-2024.
o O Brasil também viu um aumento de 10%
nos dias classificados como de alto risco de incêndios florestais (média de 41
dias por ano entre 2020 e 2024), associados a uma média anual de 7.700 mortes
causadas pela fumaça (PM2.5).
o Mais de um milhão de pessoas (1.087.390)
vivem atualmente a menos de 1 metro acima do nível do mar, estando em risco
devido à elevação marítima.
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Potenciais benefícios da transição alimentar
O
relatório também aponta que mudanças nos setores de alimentação e agricultura
poderiam gerar grandes benefícios para a saúde. Em 2022, a carne vermelha e
laticínios foram responsáveis por 87% de todas as emissões associadas ao
consumo de produtos agrícolas.
O
consumo insuficiente de alimentos à base de plantas (frutas, vegetais, legumes,
etc.) foi associado a 140.000 mortes em 2022, enquanto o consumo excessivo de
carne vermelha, laticínios e carne processada contribuiu para 70.000 mortes.
Apesar
da perda acumulada de 69 milhões de hectares de cobertura arbórea entre 2001 e
2023, há um sinal encorajador de que a tendência de desmatamento foi revertida,
com uma queda de 15% na perda de cobertura arbórea entre 2022 e 2023.
Apesar
da urgência dos dados, a cobertura jornalística sobre a relação entre clima e
saúde no Brasil caiu 79% em 2024 em relação a 2023. O maior foco da pesquisa
científica no país é sobre os impactos do clima na saúde (91% dos artigos), com
pouca atenção dada à adaptação (9% dos artigos).
• Mudança climática pode piorar a situação
de fome no mundo
Relatório
divulgado pela Visão Mundial – ONG humanitária de proteção da infância e da
adolescência – aponta que 26% das crianças em todo o mundo sofreram de
má-nutrição em 2020 e que a situação pode piorar se o quadro atual de mudanças
climáticas não for revertido. De acordo com o estudo, o número de pessoas que
enfrentam crises de fome aumentou de forma constante nos últimos cinco anos
pela primeira vez em décadas. Se a mesma trajetória dos últimos for mantida, a
entidade prevê que mais de 300 milhões de pessoas enfrentarão a insegurança
alimentar até 2030.
O
documento foi publicado faltando poucos dias para o encerramento da COP26, como
forma de alertar líderes globais sobre as consequências desastrosas que um
fracasso nas negociações em Glasgow pode ter sobre populações de todo o
planeta. Intitulado “Mudança Climática, Fome e Futuros das Crianças”, o
relatório estuda a ligação entre as alterações no clima e o risco de fome nas
populações, em especial as consequências a longo prazo na desnutrição de
crianças.
“Crianças
em todo o mundo têm relatado que experimentam o impacto devastador das mudanças
climáticas todos os dias – e seus avisos devem ser ouvidos em alto e bom som
pelos líderes da COP26”, diz o CEO e presidente internacional da Visão Mundial,
Andrew Morley.
“Ouvimos
histórias de partir o coração, de que a água está se tornando escassa e os
meios de subsistência das famílias destruídos por tempestades, enchentes e
secas recorrentes, que podem levar à fome e à desnutrição com riscos para a
vida. As crianças muitas vezes não têm escolha a não ser abandonar a escola e
são forçadas a trabalhar ou se casar por seus pais, que lutam para sobreviver”,
completa.
Segundo
o estudo, enquanto os países economicamente mais ricos produzem a grande
maioria das emissões de gases de efeito estufa, os eventos climáticos extremos
impactam, desproporcionalmente, os países de baixa renda de maneira mais aguda.
Em
2018, Madagascar contribuiu com apenas 0,06% das emissões globais de gases de
efeito estufa, mas está enfrentando o que poderia ser o primeiro quadro de fome
na história moderna causado pelas mudanças climáticas, com a insegurança
alimentar afetando um total estimado de 1,14 milhão de pessoas.
Para
comunidades em países em desenvolvimento, em especial na África e na América
Latina, uma alta dependência da produção agrícola local se traduz um alto risco
de devastação devido a eventos meteorológicos extremos. “Uma colheita que não
dê certo pode ter resultados imediatos e consequências no comércio local, além
de danos a longo prazo, limitando o acesso a alimentos nutritivos”, alerta i
relatório, elaborado a partir de estatísticas de entidades como o Programa
Alimentar Mundial e a Organização das Nações Unidas para Alimentação e
Agricultura.
Em
comparação com 2019, houve um acréscimo de pessoas afetadas pela fome, em 2020,
de 46 milhões África, 57 milhões na Ásia e cerca de 14 milhões na América
Latina e Caribe. “Quase uma em cada três pessoas no mundo (2,37 bilhões) não
teve acesso a alimentos adequados em 2020 – um aumento de quase 320 milhões de
pessoas em apenas um ano”, revela o documento da Visão Mundial.
“Conflitos,
Covid-19 e mudança climática estão interagindo para criar novos e agravantes
focos de fome e estão revertendo os ganhos que as famílias tiveram para escapar
da pobreza”, explica o diretor de Advocacy e Relações Institucionais da Visão
Mundial, Welinton Pereira.
Fonte: EcoDebate

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