Perfis
que não morrem: o luto em tempos de presença digital
A morte
nunca encerrou completamente uma história. No entanto, em um mundo atravessado
por redes sociais, mensagens e arquivos digitais, a ausência física de alguém
pode vir acompanhada de uma presença constante nas telas. Perfis permanecem
ativos, conversas seguem armazenadas e memórias aparecem a qualquer
notificação. Entre o conforto e a dor, cada pessoa encontra uma forma de lidar
com essa permanência.
Para o
coordenador comercial Caio Queiroz, de 22 anos, a relação com a presença
digital da irmã, Kawany, que faleceu aos 16 anos, em agosto de 2025, mudou com
o tempo. "No começo, eu evitei ver as redes sociais dela, doía muito a
ausência. Depois, eu comecei a entrar e ver que não tinha novas atualizações,
porque não tinha como haver novas postagens, eram só aqueles últimos
momentos", conta.
O
contato com os registros digitais, aos poucos, deixa de ser apenas dor e passa
a ocupar um espaço ambíguo no processo de luto, alternando entre lembrança,
saudade e tentativa de reconstrução emocional. "Todo santo dia eu vejo
todos os vídeos que eu tenho com ela. Com baixa frequência, eu leio as
conversas que tínhamos", relata. "Eu e a Kawany sempre fomos
extremamente próximos, não existiam segredos entre a gente, sempre fomos o
apoio um do outro e sempre ajudamos um ao outro", acrescenta.
Apesar
disso, o jovem nunca mandou mensagem para a irmã desde que ela se foi, pois
sabia que não teria resposta, mas se sente feliz quando o celular da irmã
recebe notificações. "Eu entro para ver e há algumas amigas dela que
mandam mensagem dizendo que sentem falta ou apenas uma figurinha boba. Eu acho
um gesto de carinho enorme quem faz isso. Eu não consigo, acho que mandar
mensagem e não ter uma resposta é como reabrir uma ferida e encarar a
realidade", diz. Apesar de não ter o hábito de enviar mensagens, Caio tem
escrito cartas para Kawany. "Eu escrevo cartas para ela em um papel e
depois rasgo e jogo fora, aprendi na terapia e tem me ajudado a lidar com o
luto."
Enquanto
no começo a presença digital da irmã de Caio gerou dor, atualmente é uma fonte
de conforto. "Eu vejo que a vida dela foi alegre, ela sofreu bastante com
a depressão, mas teve momentos genuinamente felizes. Eu vejo o sorriso dela, o
brilho no olhar, as coisas que ela gostava de fazer e às quais se dedicava, e
me conforta saber que, mesmo breve, ela aproveitou seus dias aqui",
destaca.
Publicar
nas redes também se tornou uma forma de ressignificar a perda e encontrar
outras pessoas atravessando experiências semelhantes. "No luto, mesmo
rodeado de parentes e amigos, chega uma hora em que cada um segue em silêncio,
e você se sente de lado, sente que está lidando com tudo sozinho. Nos meus
posts, inclusive, teve um que viralizou bastante, eu vi que havia mais gente
nesse barco, havia mais gente que, assim como eu, atravessava esse mar, e pude
conversar com algumas pessoas que se sentiam da mesma forma que eu."
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Quando ver machuca
Se,
para alguns, a presença digital se transforma em conforto, para outros, ela
intensifica a dor e exige distância como forma de proteção emocional. É o caso
da advogada Marcela Calegairo, de 31 anos, que perdeu a mãe, Sônia Calegario,
aos 51 anos, em 2025, após enfrentar um câncer metastático.
Ao
falar sobre a mãe, Marcela relembra a personalidade marcante e acolhedora.
"A minha mãe era uma mulher dócil, uma mulher cheia de fé, uma mulher
muito amável, acolhedora, caridosa, forte. Ela era única, tinha um brilho
surreal, todo mundo gostava dela."
Segundo
a advogada, o perfil da mãe permanece ativo, mas com restrições, pois alguns
posts sobre o falecimento viralizaram e ganharam uma exposição inesperada.
"O perfil dela continua ativo, mas eu o tranquei, porque a gente não
esperava essa repercussão toda", diz. "A gente ficou bem surpresa com
essa questão de viralizar, mas é muito ruim ter que ficar revendo os vídeos, as
fotos, porque isso machuca muito mais, dá muito mais saudade", enfatiza.
Diferentemente
de outras experiências, a família evita revisitar conteúdos digitais. "A
gente não costuma ficar revisando fotos, mensagens antigas, porque isso causa
mais questionamentos, mais dores, mais saudades, e acaba nos deixando mais
próximos da depressão."
A
possibilidade de transformar o perfil em memorial nunca foi uma opção,
inclusive, existe a vontade de desativar, mas os filhos ainda não conseguiram
salvar algumas fotos do perfil. Além disso, a interação com a conta foi
interrompida. "A gente não interage com o perfil dela, nem mensagens no
WhatsApp, nem no Instagram, nem curtir, nem ficar visualizando, nada disso,
porque machuca muito", conta.
Antes
da despedida, no entanto, a família criou um registro que hoje atravessa o
tempo como memória e afeto, uma viagem para Maceió e uma sessão de fotos que
acabou se transformando em um último encontro. A iniciativa partiu da irmã de
Marcela, diante do agravamento do quadro de saúde da mãe.
"Nós
fizemos essa sessão de fotos justamente porque a minha mãe estava naquela
situação de metástase e a ideia foi da minha irmã. Ela falou assim: 'vamos
viajar, porque a gente não sabe quando vai conseguir viajar em família de novo,
se é que vamos conseguir, porque, pelo andamento, a mãe está indo, então a
gente precisa aproveitar esse momento'. Então decidimos viajar e fazer uma
sessão de fotos para termos uma recordação gostosa", explica a advogada.
Durante
o ensaio, o momento planejado se transformou em despedida. "Inicialmente,
a gente foi conduzida pela fotógrafa — faz a pose assim, junta a família — mas,
no decorrer do ensaio, tudo aconteceu muito rápido. Começamos com fotos
individuais, a mãe com a filha mais velha, depois com o filho mais novo. E aí
começou aquela conexão, aquela despedida mesmo, literalmente despedida:
abraçar, chorar, dizer que ama, dizer que estaria ali para tudo, até o fim da
vida dela, que a gente iria viver bem, apesar de não acreditar nisso, mas
dissemos para que ela pudesse ir em paz", relata.
Apesar
da dificuldade atual em revisitar esses registros, Marcela reconhece o valor
dessas memórias no futuro. "A gente estava vivendo o luto antes de ela
morrer, no período em que ela estava sofrendo, no finalzinho da sua vida. E
agora, após a partida, as fotos ajudam muito, porque não é somente a foto, ela
se torna lembrança. A gente tem vídeos, fotos, muita coisa nossa aqui. Eu tenho
vídeos da minha irmã com a minha mãe, tenho vídeos do meu filho com a minha
mãe. Vai chegar um tempo em que a gente vai precisar dessas fotos para matar um
pouco da saudade, vamos olhar sem sentir tanto."
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Impactos do virtual
Na
análise de especialistas, essa relação com o digital revela uma transformação
profunda na forma como a sociedade lida com a morte e com a memória. Segundo as
psicólogas Anna Gianasi e Karoline Miranda, o impacto pode variar bastante.
Para
Anna, a permanência digital levanta questionamentos inéditos. "O impacto
das tecnologias na subjetividade é assunto de primeira ordem quando falamos
sobre os lutos. O que fazer com o patrimônio biográfico on-line, o chamado
legado digital, tem sido objeto de importantes reflexões."
Já
Karoline destaca a dimensão emocional desse processo. "O luto não é uma
doença, é o custo do amor. É uma dor invisível, e cada pessoa precisa respeitar
o seu tempo e a sua forma de lidar com a perda."
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O que diz a lei
No
campo jurídico, o tema ainda está em construção e levanta dúvidas sobre
privacidade, acesso e herança. De acordo com a advogada Adriana Monteiro, não
há uma legislação específica no Brasil que trate de forma completa da herança
digital. "No Brasil, a regra geral é que os direitos sobre bens —
inclusive digitais — são transmitidos aos herdeiros. No entanto, quando se
trata de redes sociais, a situação é mais complexa, pois envolve também
direitos de personalidade, como privacidade e intimidade, que não se transferem
automaticamente."
Outro
ponto delicado envolve o acesso a conteúdos privados deixados pela pessoa
falecida. Segundo Adriana, nem tudo pode ser acessado pelos familiares.
"Dados sensíveis, como mensagens privadas no WhatsApp, e-mails ou arquivos
pessoais, são protegidos pelo direito à privacidade e pelo sigilo das
comunicações. Em regra, esses conteúdos não podem ser acessados pelos
familiares sem autorização judicial", afirma. A advogada destaca que,
mesmo com decisão judicial, o acesso pode ser limitado, justamente para preservar
a intimidade do falecido e de terceiros envolvidos nas conversas.
Entre
memórias, telas e silêncios, o luto contemporâneo revela que, mesmo após a
morte, algo permanece e continua vivo, dia após dia, no espaço digital. Apesar
dessa forte presença virtual ter se tornado uma realidade quase unânime, ainda
existem os que preferem manter os que se foram nos "melhores amigos"
das redes sociais e nunca remover os perfis, os que preferem desativar tudo e
também os que gostam de ver, mas preferem não interagir.
<><>Justiça
e legado digital
Uma
decisão recente do Tribunal de Justiça de São Paulo reacendeu o debate sobre os
limites da herança digital no Brasil. No caso, uma mãe tentou acessar o perfil
do filho falecido em uma rede social para recuperar fotos e preservar memórias
da família.
O
pedido foi negado pela Justiça, que entendeu que permitir o acesso, mesmo com
finalidade afetiva, pode violar o direito à intimidade. O relator, Marcus
Vinicius Rios Gonçalves, destacou que dados digitais estão ligados aos direitos
da personalidade e permanecem protegidos mesmo após a morte.
Fonte:
Correio Braziliense

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