Direita
ensaia pressão sobre o Supremo
O
avanço de propostas para rever prerrogativas do Supremo Tribunal Federal (STF)
ganhou força entre parlamentares da oposição e deve ocupar espaço central no
debate eleitoral ao Senado em 2026, fortalecendo candidaturas ancoradas em
críticas à atuação da Corte e na defesa de mudanças institucionais.
Impulsionados
por decisões recentes envolvendo aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro,
parlamentares da oposição defendem mudanças como a adoção de mandatos para
ministros, maior objetividade nos processos de impeachment e a revisão de
competências institucionais. A agenda, além de ganhar força na disputa
eleitoral, já repercute em momentos-chave no Congresso, como na sabatina de
Jorge Messias para o tribunal.
Entre
as vozes mais enfáticas está o senador Eduardo Girão (Novo- CE), que defende
uma ampla reforma do Judiciário. Na avaliação dele, o atual modelo de indicação
de ministros favorece vínculos políticos e fragiliza a independência
institucional da Corte. "Tem que ser critério técnico, tem que ter
mandatos, ninguém está acima da lei", afirmou ao Correio.
Girão
também criticou o que considera omissão do Senado diante de pedidos de
impeachment de ministros, ao apontar que dezenas de requerimentos seguem sem
avanço. Segundo ele, a falta de reação do Parlamento contribui para um cenário
de "insegurança jurídica" e para o desequilíbrio entre os Poderes.
Na
mesma linha, o senador Magno Malta (PL-ES) afirma que as críticas ao STF não
são recentes nem se limitam ao calendário eleitoral. Ele reconhece que ainda
não há um pacote fechado dentro da oposição, mas destaca a existência de
convergência em torno de propostas como a adoção de mandatos para ministros e
maior clareza em decisões sensíveis.
Malta
também contesta a ideia de que críticas ao Judiciário representem uma ameaça
institucional. "Questionar, dentro da Constituição, é prerrogativa do
Parlamento", disse, defendendo que o debate ocorra dentro dos limites do
Estado de Direito.
<><>
PECs
A
senadora Damares Alves (Republicanos-DF), por sua vez, tem adotado uma atuação
mais estruturada na formulação de propostas. Autora de três Propostas de Emenda
à Constituição (PECs), ela defende mudanças que vão desde a delimitação das
competências investigativas dos tribunais até a ampliação das prerrogativas do
Congresso para sustar atos de outros Poderes.
Damares
também defende explicitamente o fim do caráter vitalício dos cargos no STF.
"O mandato vitalício é prejudicial à República", afirmou,
argumentando que a renovação periódica da Corte é compatível com o regime
democrático.
No
debate sobre o equilíbrio entre os Poderes, o senador Rogério Marinho (PL-RN)
adota um tom mais institucional e defende que o foco permaneça no cumprimento
da Constituição. Segundo ele, discutir eventuais mudanças no funcionamento do
STF é legítimo, desde que o tema não seja interditado no campo político. A
posição reflete uma tentativa de parte da oposição de reduzir o tom de
confronto direto com o Judiciário e reforçar uma abordagem mais técnica e
legislativa.
Apesar
das críticas, parlamentares rechaçam a tese de que as propostas tenham como
objetivo enfraquecer o Judiciário. O argumento predominante é o de que as
mudanças buscam restabelecer o equilíbrio entre os Poderes e fortalecer a
credibilidade das instituições.
Damares,
por exemplo, classifica como "falácia" a narrativa de ataque ao STF e
afirma que o objetivo é promover um "rearranjo institucional" que
estimule, inclusive, mecanismos de autocontenção dentro da própria Corte.
<><>
Eleitorado
Nos
bastidores, porém, a estratégia da oposição revela um cálculo político mais
amplo. Interlocutores afirmam que o tema do STF passou a ser visto como uma
pauta capaz de mobilizar diferentes segmentos do eleitorado, especialmente fora
dos grandes centros. A avaliação é de que críticas à Corte "furaram a
bolha" e hoje aparecem com frequência em conversas populares, o que
incentiva sua exploração no discurso eleitoral.
Além
disso, há uma articulação em curso para vincular o debate institucional a
episódios concretos, sobretudo decisões envolvendo aliados de Jair Bolsonaro.
Embora parte dos parlamentares defenda separar os casos jurídicos das propostas
estruturais, outro grupo avalia que esses episódios ajudam a dar
"materialidade" ao discurso e reforçam a percepção de desequilíbrio
entre os Poderes.
Reservadamente,
senadores admitem que o tema também funciona como instrumento de pressão
interna no próprio Congresso. A insatisfação com a condução de processos e com
a atuação do Supremo tem sido usada para impulsionar outras pautas, como CPIs e
revisões legislativas. Há, inclusive, expectativa de que uma nova composição do
Senado em 2027 seja mais favorável ao avanço dessas propostas, especialmente
diante da renovação de dois terços das cadeiras.
Líderes
da oposição avaliam que o principal desafio será ajustar o tom do discurso para
evitar desgaste institucional. A aposta é fazer críticas firmes, mas com
linguagem técnica e propostas concretas, sem ampliar a polarização. Ainda
assim, o tema deve se firmar como um dos principais eixos da disputa eleitoral,
levando o papel do STF para o centro do debate político nacional.
<><>
Esperança no TSE
O
Tribunal Superior Eleitoral (TSE) se prepara para uma mudança de comando que
desperta expectativa em setores da direita. A partir de junho, o ministro
Kassio Nunes Marques assume a presidência da Corte eleitoral por um ano. O vice
será André Mendonça, que deve comandar o tribunal a partir de 2027. Ambos foram
indicados ao STF pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, em 2020 e 2021.
A nova
composição é vista por lideranças conservadoras como uma oportunidade de
reorientação na atuação da Justiça Eleitoral. Em julgamentos sobre os atos de 8
de janeiro, por exemplo, Nunes Marques e Mendonça defenderam penas mais
brandas, em contraste com a maioria da Corte.
Na área
eleitoral, Nunes Marques já adotou posições divergentes em casos de grande
repercussão. Em 2023, votou contra a inelegibilidade de Bolsonaro, diferindo da
posição majoritária liderada pelo ministro Alexandre de Moraes. Mendonça, por
sua vez, também tem se destacado por posições independentes em temas sensíveis,
como regulação das redes sociais, aborto e porte de armas.
À
frente do TSE, caberá a Nunes Marques definir a pauta de julgamentos e o ritmo
de análise dos processos, papel considerado estratégico em um cenário político
ainda polarizado. Nos bastidores, o ministro sinaliza a intenção de adotar uma
atuação mais contida, com menor interferência do Judiciário nas disputas
políticas e foco na estabilidade institucional.
A
possível mudança de postura contrasta com a gestão anterior, marcada por
protagonismo no enfrentamento de ataques ao sistema eleitoral. Em declarações
públicas, Mendonça também indica que a futura condução do tribunal deve
enfatizar a isonomia entre os atores políticos, sugerindo uma inflexão no
estilo de atuação da Corte.
• Fachin ameniza choque no STF
O
ministro Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), admitiu
ontem que houve divergências entre os ministros da Corte durante o julgamento
do mandato-tampão para o governo do Estado do Rio de Janeiro, na quinta-feira.
Ele amenizou o mal-estar durante a sessão, em que os ministros que integram o
Tribunal Superior Eleitoral — Cármen Lúcia, Kássio Nunes Marques e André
Mendonça — deixaram clara a contrariedade deles diante da possibilidade de o
STF reformar a decisão do TSE. Segundo Fachin, houve "compreensões
distintas" entre os magistrados.
Para
sustentar o que dissera, o ministro comparou o Supremo às redações de veículos
de imprensa, onde vários profissionais atuam ao mesmo tempo e têm opiniões
distintas sobre um mesmo assunto. "Imagino que todo o colegiado tenha,
obviamente, compreensões distintas. Os repórteres, quando estão na redação do
jornal, nem todos têm a mesma compreensão sobre os mesmos fatos. Imaginem
magistrados julgando essa matéria [a sucessão no governo fluminense]. Mas o que
é importante é que o colegiado se pronunciou. E sístoles e diástoles têm tanto
para o cardiologista quanto para o juiz", disse Fachin, no Rio de Janeiro,
em evento do Observatório de Direitos Humanos, do Conselho Nacional de Justiça,
que o ministro também preside.
O
julgamento, que está em 4 x 1 pela eleição indireta e secreta para a escolha do
governador que completará o atual mandato, definirá o formato do pleito, mas
foi interrompido pelo pedido de vista do ministro Flávio Dino. Ele só decidirá
depois de publicado o acórdão do TSE que tornou o ex-governador fluminense
Cláudio Castro inelegível até 2030, apesar de ele ter renunciado ao Palácio
Guanabara.
O único
magistrado que votou pela realização de uma eleição direta, com participação
popular, foi Cristiano Zanin. Os demais — Luiz Fux, Cármen, Nunes Marques e
Mendonça — decidiram que o pleito deve ser indireto, ou seja, entre os
deputados estaduais da Assembleia Legislativa do Estado do Rio, e por votação
secreta. O presidente da Alerj é o terceiro na linha sucessória.
Fachin
compareceu ao evento ao lado do governador interino do Estado do Rio,
desembargador Ricardo Couto, presidente do Tribunal de Justiça do Rio de
Janeiro (TJ-RJ), que ocupa o cargo por causa da ausência de ocupantes nos três
postos anteriores da linha sucessória. O presidente do STF afirmou quea Corte
"chancelou a governadoria em exercício para a presidência do Tribunal de
Justiça do Estado", cuja decisão prevê que permaneça no cargo até o fim do
julgamento.
"O
Supremo Tribunal Federal foi até onde nós decidimos ontem. Ou seja, enquanto
aguardamos a publicação do acórdão do Tribunal Superior Eleitoral, o Supremo
entendeu que o governador em exercício é o presidente do Tribunal de Justiça do
Estado. Essa é a decisão do Supremo de ontem [quinta-feira], que me cabe como
presidente cumprir e farei isso", assegurou.
<><>
Supersalários serão cortados
Fachin
afirmou que pagamentos a membros do Judiciário e do Ministério Público que
desrespeitem as decisões da Corte sobre supersalários serão cortados. A
afirmação, porém, veio dois dias depois de o Conselho Nacional de Justiça
(CNJ), que é presidido pelo próprio Fachin, aprovar uma resolução conjunta que
mantém o pagamento de penduricalhos a juízes e procuradores, e que prevê novos
benefícios.
"Se
houver alguma questão que esteja desbordando do que o Supremo Tribunal Federal
decidiu, ou que não faça parte de sua decisão, evidentemente nós vamos cortar.
Queremos colocar ordem nessa matéria. Vamos colocar ordem com racionalidade,
com responsabilidade fiscal e, ao mesmo tempo, com respeito à
magistratura", garantiu Fachin, ao ser questionado.
Em 25
de março, o STF firmou uma tese determinando a extinção de 15 penduricalhos do
funcionalismo, mas permitiu que o somatório dos salários ultrapasse 70% do
teto, equivalente ao salário de um ministro do Supremo (R$ 46,3 mil). Isso
representa que a decisão da Corte permite elevar remunerações para até R$ 78,7
mil. Dentro desse "extrateto", segundo o STF, 35% devem ser
destinados ao adicional por tempo de carreira e 35% a outras verbas
indenizatórias.
Mas a
resolução do CNJ criou um novo penduricalho: gratificação de proteção à
primeira infância, que será de 3% do subsídio por dependente de até seis anos.
Esse pagamento não estava na lista de parcelas autorizadas pelo STF, que
determinou a extinção de verbas similares — como assistência pré-escolar,
auxílio-creche e auxílio-natalidade.
Ao
votar no CNJ, Fachin afirmou que o texto segue o "estrito cumprimento das
balizas fixadas pelo Supremo Tribunal Federal, sem inovar em relação ao quanto
decidido". A resolução foi aprovada por unanimidade pelos 11 conselheiros
presentes à sessão.
Já a
Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) afirmou que a decisão do CNJ
representa um avanço na organização do modelo remuneratório da magistratura.
Segundo a entidade, a resolução deve ser compreendida dentro de um contexto
histórico marcado por uma transição incompleta entre o antigo modelo de
vencimentos com gratificações e o regime de subsídio. A Ajufe destaca que esse
processo "nunca se completou de modo efetivo, sobretudo diante da ausência
da revisão anual constitucionalmente assegurada".
Segundo
a Ajufe, a norma editada pelo CNJ contribui para dar maior coerência e
uniformidade às regras. A entidade afirma que a resolução "confere
coerência e sistematicidade a práticas remuneratórias que se fragmentaram ao
longo de décadas entre mais de noventa tribunais e unidades do Ministério
Público".
As
parcelas mantidas, como a valorização por tempo de antiguidade e a gratificação
por acúmulo de jurisdição, são apontadas pela Ajufe como compatíveis com a
decisão do STF. A Associação dos Juízes Federais afirma que essas verbas
"exigem fato gerador específico e comprovável".
Fonte:
Correio Braziliense

Nenhum comentário:
Postar um comentário