terça-feira, 14 de abril de 2026

Adilson Roberto Gonçalves: A direita sinistra deste país

A palavra candidato vem de cândido, limpo. A etimologia revela que o brasileiro subverte a língua a todo instante, haja vista a qualidade dos candidatos que a extrema direita está cogitando para disputar as eleições vindouras. Novamente, direita, extrema direita e fascistas se equivalem no momento.

Com as alternativas lançadas pela extrema direita por estes dias fazendo água no nascedouro, não surpreenderia se Tarcísio de Freitas ressuscitasse sua candidatura à presidência na Páscoa, renunciando ao governo do Estado. Motivos e pretensões não lhe faltam, a começar pelo surpreendente desempenho de Fernando Haddad na primeira sondagem de intenção de voto ao Palácio dos Bandeirantes, quase empatando com o governador, mesmo sem ter iniciado a campanha.

O bombeiro chegou com um galão de gasolina para apagar o incêndio. Assim é o tom do primeiro discurso do agora pré-candidato à presidência do País Ronaldo Caiado ao afirmar, sem medo, sem vergonha e sem escrúpulos, que seu primeiro ato quando empossado será anistiar Jair Bolsonaro e os demais criminosos condenados pela tentativa de golpe de Estado. Ou seja, diz-se de terceira via e democrático e afirma exatamente o contrário. Da mesma forma que Curupira e Papai Noel, há os que nele acreditam. Na mesma toada, Joel Pinheiro da Fonseca torce e distorce o discurso para justificar a escolha de seu candidato à presidência. A Folha também apoiará Ronaldo Caiado? Ou continuará a ladainha de isentona?

No estado nativo do governador paulista, a situação é ainda mais tenebrosa. Pelo jeito, o Rio de Janeiro procura a pessoa que será o próximo ex-governador preso. Os fluminenses devem sentir saudades do tempo de Benedita da Silva e Leonel Brizola, mostrando que a deterioração política no estado não é intrínseca, mas se deu ao longo das últimas décadas. Não se pode deixar de correlacionar o envolvimento de facções criminosas, milícias e políticos eleitos pelo estado – não apenas localmente, também no âmbito nacional – com a ascensão de práticas fascistas. Rio de Janeiro e Itália estão, portanto, conectados com mais de um século de distância.

Assim, o Rio de Janeiro continua “findo”. Parece que a sina de ter perdido a condição de capital federal há sete décadas se exacerba no momento com o crime organizado ocupando todos os espaços: periferias, morros e órgãos públicos, passando pela Alerj, Palácio das Laranjeiras e Palácio da Guanabara. Mais uma vez, o povo que se lasque.

Sendo próximos ao primeiro de abril, as mudanças partidárias, as candidaturas e os discursos podem ser apenas a verdade mentirosa de sempre.

•        Metade do Brasil é fascista? Por Paulo Ghiraldelli

Leio em alguns lugares que “a história é feita de repetições”. Essa é uma filosofia da história que me lembra o nazismo, que cultivava a ideia de história como ciclos de apogeu e decadência. Leio também que há uma “ameaça interna”, que está em nosso próprio povo. Esse modo de pensar reproduz o que o regime militar pós-64 dizia: há o inimigo interno, ele pode ser o seu vizinho.

O regime-militar falava que havia comunistas infiltrados em nossas famílias! Agora, há os que dizem que há fascistas! O triste dessas opiniões é que, no momento, elas estão sendo ditas por gente que é de esquerda, ou ao menos pensa ser de esquerda.

Quando não conseguimos analisar o novo, copiamos nossas análises velhas. Há intelectuais que são especialistas na arte de requentar teses. Muda-se aqui e acolá alguma frase e … pimba! Eis que o rapaz ou a rapariga aparece com novo livro para colocar na praça. Não há perdão para a floresta. A cada dia um bocado de árvores são deitadas para que essa gente ponha tinta pintada em papel para vender. São livros! A fúria de publicar é antiecológica.

Ver fascismo em tudo e disseminar que tal doutrina está ressurgindo internamente, pronta para nos devorar, é resultado da falta de ideias. Mais corretamente: falta de boas ideias. Um analista que não conversa com ninguém, que não tem o hábito de convivência com a população, que pertence ao grupo dos ricos e distantes, mas que adora produzir livros e mais livros, vai certamente ficar apto a acreditar em suas próprias invenções capengas. Não custa nada uma figura assim se tornar paranoico. Falta uma bolsa-namoro para esse tipo.

A votação recebida pela figura de Jair Bolsonaro é a emergência da extrema direita. Esta é a verdade do analista solipsista. Como a família Bolsonaro continua tendo voto, então, que tenhamos cuidado com cada pessoa dentro da nossa própria casa. Qualquer um pode ser um novo membro do Partido Integralista, e eis que do nosso lado há alguém na espreita para nos assassinar à noite.

Estamos com hitlerzinhos nos cercando. Cada filho nosso é um Plínio Salgado sangrento. Essa paranoia pode muito bem aparecer em gente sem contato com a população, intelectuais que se imaginam de esquerda e cujos colegas estão em algum clube hípico. Uma figura desse tipo, se se descuida dela, ela aparece em uma Hípica, onde só há ricos, com propaganda do PSOL! Juro! Na verdade, uma pessoa assim carece de terapia. O próprio pessoal da tal Hípica pensa isso, e nesse caso, acertam em cheio!

Jair Bolsonaro teve uma votação maior que a de Fernando Haddad, e depois, quando perdeu para Lula, foi por pouco. Seu filho Flávio está empatado com Lula nas pesquisas pré-eleitorais. Então, a boa conclusão dessa observação é que metade do Brasil é fascista? O Lula é presidente e, no entanto, metade do Brasil é fascista! Que conclusão heim?!

A cada dia que passa temos mais leis de proteção de minorias, mais tentativas de institucionalização de políticas públicas para os menos favorecidos pelo nascimento, e mesmo vendo tudo isso, chega-se à conclusão que o fascismo está emergente? Nosso Congresso é conservador em sua maior parte, mas é fascista?

As redes sociais reverberam canais que não gostaram da lei contra a misoginia, e como há muita gente vendo tais canais, então o internauta é fascista? Aliás, esse tipo de intelectual que vê fascismo em tudo, também acha que o problema não é o Donald Trump, mas o povo americano. Povo fascista! Assim diz o intelectual carente de terapia. Ele não consegue enxergar as manifestações contra Donald Trump nas ruas das cidades americanas.

Do mesmo modo que ele não consegue ver o quanto temos conseguido, no Brasil, sensibilizar todo o país em favor dos mais pobres. A posse da Erika Hilton como presidente da Comissão da Mulher no Parlamento não significa nada. O fim do pagamento de imposto de renda para quem ganha até cinco mil reais é bobagem. Quanto mais avançamos em pauta social, mais o intelectual solipsista só vê fascismo. Será que esse tipo sabe o que é fascismo?

Esse tipo de intelectual está sempre pronto para arrumar na população seu sparring. Quer bater em alguém, e isso por conta de suas frustrações pessoais, inclusive algumas por culpa de ter sido abandonado pelo deus Eros. Ele passa o dia falando em ódio sem perceber que ele é o propagador do ódio. Não quer analisar de modo algum o senso comum da população, desconsidera quinhentos anos de hegemonia do liberalismo.

Desconsidera que muitos que votaram em Jair Bolsonaro simplesmente não querem um governo do PT, do Lula, das esquerdas. Não querem não por ódio, mas simplesmente porque desejam para o país um horizonte liberal. Identificam na esquerda a existência de pessoas que vão tirar do país algo caro a todos nós: o mérito pelo esforço individual.

É fácil compreender o liberalismo do brasileiro entranhado na população. Quando nos anos 1990 discutíamos sobre a política de cotas étnicas, vários alunos meus que teriam direito à cota diziam: ah, sou favorável, mas que fique bem claro que isso foi depois de mim, eu já entrei na faculdade, e não precisei de cota.

A maior parte desses meus alunos que diziam isso votavam no PT. Eles queriam que o estado participasse da integração étnica, mas tinham medo de perder o mérito de terem conseguido entrar na faculdade por conta de esforços relativamente próprios. Queriam manter a posse de algo valiosíssimo para todos os humanos, algo timótico, o orgulho.

Manter para o Brasil o horizonte liberal é um desejo de muitas pessoas que, enfim, entendem que isso não é agir contra qualquer pessoa pobre, muito menos é discriminatório. Essas pessoas não carregam nenhuma xenofobia que leve ao fascismo, nem acham que estão, hoje, deixando de pagar juros a mais e que o capitalismo financeiro é bonzinho.

No entanto, acham muito justo que possam receber heranças. Meu pai trabalhou, me deixou uma casa, posso alugá-la e pagar meus estudos ou dos meus filhos – não é justo? Então, eu argumento para quem diz isso que a esquerda visa construir um Brasil em que não seja necessário começar a vida a partir de herança.

O interlocutor pergunta: o PT vai taxar heranças? Só dos ricos? Será mesmo que consegue taxar só os ricos? Assim pergunta o trabalhador, e não é fácil fazê-lo ver que o Fernando Haddad teve relativo sucesso nessa empreitada. Ele, trabalhador, não tem qualquer vínculo com o fascismo por pensar assim. Ele pode votar no PSDB, mas se o PSDB acabou por falta de garra, ele esquece frases mais duras da família Bolsonaro e, enfim, pode sim votar no clã.

A moda de arrumar frases vindas da psicanálise para enfiá-las na política, sem qualquer brilho de um Herbert Marcuse, alimenta o intelectual que se recusa a olhar para quem ganha menos que ele. Aliás, esse tipo de intelectual, às vezes não ganha um altíssimo salário, mas vem de uma família que lhe deixou propriedades. Ele não percebe isso. Ou finge não querer ver. Não nota que sua forma de vida não lhe dá integração com a população. Tem uma dificuldade com relacionamentos de todo tipo.

Então, foge de tudo e passa a produzir livros e mais livros e eis que consubstancializa o fascismo em que tanto acredita. Nessa hora, quando perguntamos para esse tipo de intelectual a razão da direita falar em nome da liberdade individual e não do estatismo, e, portanto, estar distante do fascismo tradicional, a resposta não aparece.

Mas se dermos chance de alguns minutos, o vômito de frases ininteligíveis da psicanálise cai em nossa cabeça. E aí o intelectual solipsista não sossega mais. Nem com injeção de Plasil! Então ele suja todo o lugar que está.

 

Fonte: Brasil 247/A Terra é Redonda

 

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