Adilson
Roberto Gonçalves: A direita sinistra deste país
A
palavra candidato vem de cândido, limpo. A etimologia revela que o brasileiro
subverte a língua a todo instante, haja vista a qualidade dos candidatos que a
extrema direita está cogitando para disputar as eleições vindouras. Novamente,
direita, extrema direita e fascistas se equivalem no momento.
Com as
alternativas lançadas pela extrema direita por estes dias fazendo água no
nascedouro, não surpreenderia se Tarcísio de Freitas ressuscitasse sua
candidatura à presidência na Páscoa, renunciando ao governo do Estado. Motivos
e pretensões não lhe faltam, a começar pelo surpreendente desempenho de
Fernando Haddad na primeira sondagem de intenção de voto ao Palácio dos
Bandeirantes, quase empatando com o governador, mesmo sem ter iniciado a
campanha.
O
bombeiro chegou com um galão de gasolina para apagar o incêndio. Assim é o tom
do primeiro discurso do agora pré-candidato à presidência do País Ronaldo
Caiado ao afirmar, sem medo, sem vergonha e sem escrúpulos, que seu primeiro
ato quando empossado será anistiar Jair Bolsonaro e os demais criminosos
condenados pela tentativa de golpe de Estado. Ou seja, diz-se de terceira via e
democrático e afirma exatamente o contrário. Da mesma forma que Curupira e
Papai Noel, há os que nele acreditam. Na mesma toada, Joel Pinheiro da Fonseca
torce e distorce o discurso para justificar a escolha de seu candidato à
presidência. A Folha também apoiará Ronaldo Caiado? Ou continuará a ladainha de
isentona?
No
estado nativo do governador paulista, a situação é ainda mais tenebrosa. Pelo
jeito, o Rio de Janeiro procura a pessoa que será o próximo ex-governador
preso. Os fluminenses devem sentir saudades do tempo de Benedita da Silva e
Leonel Brizola, mostrando que a deterioração política no estado não é
intrínseca, mas se deu ao longo das últimas décadas. Não se pode deixar de
correlacionar o envolvimento de facções criminosas, milícias e políticos
eleitos pelo estado – não apenas localmente, também no âmbito nacional – com a
ascensão de práticas fascistas. Rio de Janeiro e Itália estão, portanto,
conectados com mais de um século de distância.
Assim,
o Rio de Janeiro continua “findo”. Parece que a sina de ter perdido a condição
de capital federal há sete décadas se exacerba no momento com o crime
organizado ocupando todos os espaços: periferias, morros e órgãos públicos,
passando pela Alerj, Palácio das Laranjeiras e Palácio da Guanabara. Mais uma
vez, o povo que se lasque.
Sendo
próximos ao primeiro de abril, as mudanças partidárias, as candidaturas e os
discursos podem ser apenas a verdade mentirosa de sempre.
• Metade do Brasil é fascista? Por Paulo
Ghiraldelli
Leio em
alguns lugares que “a história é feita de repetições”. Essa é uma filosofia da
história que me lembra o nazismo, que cultivava a ideia de história como ciclos
de apogeu e decadência. Leio também que há uma “ameaça interna”, que está em
nosso próprio povo. Esse modo de pensar reproduz o que o regime militar pós-64
dizia: há o inimigo interno, ele pode ser o seu vizinho.
O
regime-militar falava que havia comunistas infiltrados em nossas famílias!
Agora, há os que dizem que há fascistas! O triste dessas opiniões é que, no
momento, elas estão sendo ditas por gente que é de esquerda, ou ao menos pensa
ser de esquerda.
Quando
não conseguimos analisar o novo, copiamos nossas análises velhas. Há
intelectuais que são especialistas na arte de requentar teses. Muda-se aqui e
acolá alguma frase e … pimba! Eis que o rapaz ou a rapariga aparece com novo
livro para colocar na praça. Não há perdão para a floresta. A cada dia um
bocado de árvores são deitadas para que essa gente ponha tinta pintada em papel
para vender. São livros! A fúria de publicar é antiecológica.
Ver
fascismo em tudo e disseminar que tal doutrina está ressurgindo internamente,
pronta para nos devorar, é resultado da falta de ideias. Mais corretamente:
falta de boas ideias. Um analista que não conversa com ninguém, que não tem o
hábito de convivência com a população, que pertence ao grupo dos ricos e
distantes, mas que adora produzir livros e mais livros, vai certamente ficar
apto a acreditar em suas próprias invenções capengas. Não custa nada uma figura
assim se tornar paranoico. Falta uma bolsa-namoro para esse tipo.
A
votação recebida pela figura de Jair Bolsonaro é a emergência da extrema
direita. Esta é a verdade do analista solipsista. Como a família Bolsonaro
continua tendo voto, então, que tenhamos cuidado com cada pessoa dentro da
nossa própria casa. Qualquer um pode ser um novo membro do Partido
Integralista, e eis que do nosso lado há alguém na espreita para nos assassinar
à noite.
Estamos
com hitlerzinhos nos cercando. Cada filho nosso é um Plínio Salgado sangrento.
Essa paranoia pode muito bem aparecer em gente sem contato com a população,
intelectuais que se imaginam de esquerda e cujos colegas estão em algum clube
hípico. Uma figura desse tipo, se se descuida dela, ela aparece em uma Hípica,
onde só há ricos, com propaganda do PSOL! Juro! Na verdade, uma pessoa assim
carece de terapia. O próprio pessoal da tal Hípica pensa isso, e nesse caso,
acertam em cheio!
Jair
Bolsonaro teve uma votação maior que a de Fernando Haddad, e depois, quando
perdeu para Lula, foi por pouco. Seu filho Flávio está empatado com Lula nas
pesquisas pré-eleitorais. Então, a boa conclusão dessa observação é que metade
do Brasil é fascista? O Lula é presidente e, no entanto, metade do Brasil é
fascista! Que conclusão heim?!
A cada
dia que passa temos mais leis de proteção de minorias, mais tentativas de
institucionalização de políticas públicas para os menos favorecidos pelo
nascimento, e mesmo vendo tudo isso, chega-se à conclusão que o fascismo está
emergente? Nosso Congresso é conservador em sua maior parte, mas é fascista?
As
redes sociais reverberam canais que não gostaram da lei contra a misoginia, e
como há muita gente vendo tais canais, então o internauta é fascista? Aliás,
esse tipo de intelectual que vê fascismo em tudo, também acha que o problema
não é o Donald Trump, mas o povo americano. Povo fascista! Assim diz o
intelectual carente de terapia. Ele não consegue enxergar as manifestações
contra Donald Trump nas ruas das cidades americanas.
Do
mesmo modo que ele não consegue ver o quanto temos conseguido, no Brasil,
sensibilizar todo o país em favor dos mais pobres. A posse da Erika Hilton como
presidente da Comissão da Mulher no Parlamento não significa nada. O fim do
pagamento de imposto de renda para quem ganha até cinco mil reais é bobagem.
Quanto mais avançamos em pauta social, mais o intelectual solipsista só vê
fascismo. Será que esse tipo sabe o que é fascismo?
Esse
tipo de intelectual está sempre pronto para arrumar na população seu sparring.
Quer bater em alguém, e isso por conta de suas frustrações pessoais, inclusive
algumas por culpa de ter sido abandonado pelo deus Eros. Ele passa o dia
falando em ódio sem perceber que ele é o propagador do ódio. Não quer analisar
de modo algum o senso comum da população, desconsidera quinhentos anos de
hegemonia do liberalismo.
Desconsidera
que muitos que votaram em Jair Bolsonaro simplesmente não querem um governo do
PT, do Lula, das esquerdas. Não querem não por ódio, mas simplesmente porque
desejam para o país um horizonte liberal. Identificam na esquerda a existência
de pessoas que vão tirar do país algo caro a todos nós: o mérito pelo esforço
individual.
É fácil
compreender o liberalismo do brasileiro entranhado na população. Quando nos
anos 1990 discutíamos sobre a política de cotas étnicas, vários alunos meus que
teriam direito à cota diziam: ah, sou favorável, mas que fique bem claro que
isso foi depois de mim, eu já entrei na faculdade, e não precisei de cota.
A maior
parte desses meus alunos que diziam isso votavam no PT. Eles queriam que o
estado participasse da integração étnica, mas tinham medo de perder o mérito de
terem conseguido entrar na faculdade por conta de esforços relativamente
próprios. Queriam manter a posse de algo valiosíssimo para todos os humanos,
algo timótico, o orgulho.
Manter
para o Brasil o horizonte liberal é um desejo de muitas pessoas que, enfim,
entendem que isso não é agir contra qualquer pessoa pobre, muito menos é
discriminatório. Essas pessoas não carregam nenhuma xenofobia que leve ao
fascismo, nem acham que estão, hoje, deixando de pagar juros a mais e que o
capitalismo financeiro é bonzinho.
No
entanto, acham muito justo que possam receber heranças. Meu pai trabalhou, me
deixou uma casa, posso alugá-la e pagar meus estudos ou dos meus filhos – não é
justo? Então, eu argumento para quem diz isso que a esquerda visa construir um
Brasil em que não seja necessário começar a vida a partir de herança.
O
interlocutor pergunta: o PT vai taxar heranças? Só dos ricos? Será mesmo que
consegue taxar só os ricos? Assim pergunta o trabalhador, e não é fácil fazê-lo
ver que o Fernando Haddad teve relativo sucesso nessa empreitada. Ele,
trabalhador, não tem qualquer vínculo com o fascismo por pensar assim. Ele pode
votar no PSDB, mas se o PSDB acabou por falta de garra, ele esquece frases mais
duras da família Bolsonaro e, enfim, pode sim votar no clã.
A moda
de arrumar frases vindas da psicanálise para enfiá-las na política, sem
qualquer brilho de um Herbert Marcuse, alimenta o intelectual que se recusa a
olhar para quem ganha menos que ele. Aliás, esse tipo de intelectual, às vezes
não ganha um altíssimo salário, mas vem de uma família que lhe deixou
propriedades. Ele não percebe isso. Ou finge não querer ver. Não nota que sua
forma de vida não lhe dá integração com a população. Tem uma dificuldade com
relacionamentos de todo tipo.
Então,
foge de tudo e passa a produzir livros e mais livros e eis que
consubstancializa o fascismo em que tanto acredita. Nessa hora, quando
perguntamos para esse tipo de intelectual a razão da direita falar em nome da
liberdade individual e não do estatismo, e, portanto, estar distante do
fascismo tradicional, a resposta não aparece.
Mas se
dermos chance de alguns minutos, o vômito de frases ininteligíveis da
psicanálise cai em nossa cabeça. E aí o intelectual solipsista não sossega
mais. Nem com injeção de Plasil! Então ele suja todo o lugar que está.
Fonte:
Brasil 247/A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário