John
Mearsheimer: Sob o signo do genocídio
Dados
os eventos do dia – ou dos últimos dias, ou talvez dos últimos 40 dias –,
gostaria de me concentrar principalmente na Guerra do Irã, mas pretendo colocar
meus comentários em um contexto mais amplo e começaria dizendo que, quando eu
era jovem e pensávamos no Oriente Médio, o que sempre se enfatizava era que
essa era uma das três regiões do mundo de maior importância estratégica para os
Estados Unidos, em grande medida por conta do petróleo lá situado. As outras
duas regiões eram, obviamente, a Europa e o Leste Asiático, e ambas eram
importantes por conta das grandes potências lá situadas. O Oriente Médio era
importante por causa do petróleo, e o que queríamos garantir era que não
acontecesse que algum Estado, fosse ele nativo do próprio Oriente Médio ou de
fora dele, controlasse todo o petróleo. O que aconteceu, ao longo do tempo, foi
que o problema do petróleo se deslocou para um segundo plano, porque não havia,
na realidade, qualquer ameaça de que algum país viesse a dominar todo o
petróleo no Oriente Médio. Então, nós, nos Estados Unidos, não precisávamos nos
preocupar em demasia com o Oriente Médio por conta disso. A razão pela qual nos
importamos tanto com o Oriente Médio hoje – e nos importamos enormemente com o
Oriente Médio – tem como causa a nossa ligação com Israel. E o fato é que
Israel tem uma relação muito especial com os Estados Unidos, sem paralelo na história.
É realmente importante entender isso. Os Estados Unidos apoiam Israel
incondicionalmente.
Estados
Unidos e Israel, obviamente, têm interesses nacionais diferentes em questões
específicas momentâneas, porque dois países não têm jamais os mesmos interesses
nacionais o tempo todo. Mas nos casos em que os interesses nacionais de Israel
e os interesses nacionais norte-americanos divergem, os Estados Unidos são
instados a atender o que é do interesse nacional de Israel. E a razão disso, é
claro, é o poder do lobby israelense, que é simplesmente
gigantesco. Creio que a maioria das pessoas o percebe atualmente. Quando
Stephen Walt e eu escrevemos o artigo para a London
Review of Books em 2006 e, depois, o livro propriamente (The Israel
Lobby and US Foreign Policy. Nova York: Farrar, Straus and Giroux), de
2007, me pareceu que a maioria das pessoas achou que estávamos exagerando. Na
verdade, estávamos tratando tão apenas da ponta do iceberg. Mas
agora creio que as pessoas entendem aquilo. É realmente importante perceber que
nossa política externa para o Oriente Médio é largamente dirigida por Israel.
E, claro, o fator chave para que isso aconteça é o lobby [israelense].
Então,
falemos um pouco agora sobre quais são os reais objetivos de Israel na região.
Creio que devemos fazê-lo em três partes. Uma é que eles querem expandir suas
fronteiras, querem criar uma Grande Israel. Isso, claro, inclui hoje os
territórios ocupados, a Cisjordânia e Gaza. Mas as ambições de Israel vão além
disso. Eles querem tomar o sul do Líbano até o Rio Litani, querem tomar partes
do sul da Síria… Acho que, se pudessem, gostariam de tomar a Transjordânia e se
expandir em direção ao Sinai. Eles têm um apetite voraz para a expansão. Esse é
o primeiro objetivo: criar uma Grande Israel. O segundo objetivo é o da limpeza
étnica dos territórios que tomam. E aqui estamos falando, neste momento,
especialmente de Gaza e da Cisjordânia. Como vocês todos sabem, existem tantos
judeus israelenses quanto palestinos dentro da Grande Israel hoje. E esse é um
enorme problema para os israelenses. Eles se disporiam a aceitar quando muito
20% de palestinos, mas uma situação de metade a metade pareceria inaceitável.
Então, os israelenses estão profundamente comprometidos com uma limpeza étnica.
E o terceiro objetivo tem a ver com seus vizinhos. O que eles pretendem é
garantir que todos os seus vizinhos sejam mais fracos possível. E isso
funcionaria basicamente de duas maneiras. Uma é ter vizinhos que sejam
subservientes aos Estados Unidos. Isso se aplica ao Egito, à Jordânia… e eu
diria, em certa medida, até mesmo ao Líbano. Eles querem em suas fronteiras
países sobre os quais os Estados Unidos tenham enorme capacidade coercitiva.
E se
isso não funcionar com os países maiores, como Síria, Irã e Turquia, então eles
vão querer destruir (wreck) esses países. O que os israelenses estão
realmente interessados em fazer no Irã é destruir o Irã da mesma forma como a
Síria foi destruída. Eles gostariam de quebrá-lo em diversos pedaços. Ou se não
o conseguirem fazer, promover uma mudança de regime e instaurar no Irã um
regime subserviente aos Estados Unidos. Dentre esses três objetivos principais,
é muito importante entender que o que está acontecendo em Gaza (…) é a busca da
consecução dos objetivos 1 e 2, criando uma Grande Israel etnicamente pura, que
foi o que levou os israelenses a perseguir uma limpeza étnica que é, na
prática, um genocídio. O caso de Gaza envolve os dois primeiros objetivos em
jogo. O caso do Irã diz respeito ao terceiro. Mais uma vez, o objetivo aqui é
desmembrar o Irã ou produzir uma mudança de regime. E se vocês olharem para o
Líbano, o verão, na verdade, como um caso dos dois primeiros objetivos. Eles
querem tomar o território ao sul do Rio Litani, torná-lo parte da Grande Israel
e fazer uma limpeza étnica nessa região. É claramente visível que estão dando
duro na busca desse objetivo. Então esse é o panorama geral.
Deixem-me
dizer algumas palavras sobre Gaza antes de abordar o Irã. O que aconteceu em
Gaza depois do 7 de outubro foi que os israelenses viram uma oportunidade para
“limpar” Gaza. As duas grandes limpezas étnicas que tiveram lugar antes do 7 de
outubro, como quase todos vocês sabem, ocorreram em 1948 e em 1967. E essas
duas limpezas étnicas ocorreram num contexto de guerra. E quando se tem uma
guerra – que é o que aconteceu após 7 de outubro – os israelenses veem uma
excelente oportunidade para uma limpeza étnica, porque acreditam poder usar
poder militar massivo, sobretudo poder aéreo, para punir a população palestina,
a ponto de fazê-la abandonar seus territórios. (…) E a esperança deles é que os
egípcios e jordanianos venham a aceitar os palestinos, uma vez que os
israelenses infligirão a eles tanta danação que, de outra forma, como poderiam
os egípcios e os jordanianos não aceitá-los? Essa é a lógica básica que está em
jogo aqui. Mas está claro que os palestinos não vão embora. Eles absorvem o
flagelo. E o que acontece é que o bombardeio, a campanha de punição, acaba se
tornando a uma campanha de genocídio: se não se consegue expulsar os palestinos
só resta matá-los todos. Isso se faz por meio dos bombardeios e da fome
generalizada. E foi isso o que aconteceu. É por isso que acredito ser
perfeitamente apropriado descrever o que aconteceu em Gaza como um genocídio
Gostaria
de fazer mais uma observação a propósito desse genocídio, e que tem implicações
para o que vou dizer sobre o Irã e ainda para o futuro. O que é genuinamente
notável para mim, como um realista que se moveu em um ambiente acadêmico
bastante liberal durante toda a vida nos Estados Unidos, é a extensão com que
liberais pretensamente dedicados, que professavam acreditar nos direitos
humanos, virtualmente nada disseram enquanto esse genocídio ocorria. Não apenas
que os israelenses estivessem cometendo genocídio enquanto as pessoas nada
diziam o que me chocou. Num sentido ainda mais fundamental, o que me chocou
mais foi que os Estados Unidos fossem cúmplices desse genocídio de uma forma
inquestionável. Se voltássemos a fazer
os julgamentos de Nuremberg… Não os faríamos, é verdade, mas se fôssemos fazer
julgamentos do tipo de Nuremberg, Joe Biden e seus principais ajudantes, assim
como Donald Trump e seus principais ajudantes, seriam enforcados. Não tenho
nenhuma hesitação em pensar dessa maneira. Estamos falando de genocídio. Nós
sabemos o que aconteceu àquelas pessoas que cometeram genocídio entre 1941 e
1945 na Europa. Foram enforcadas.
Creio
que a mesma coisa aconteceria a Joe Biden e seus ajudantes; e a Donald Trump e
seus ajudantes. É absolutamente notável que praticamente nenhuma palavra tenha
sido dita no establishment liberal norte-americano contra
aquilo que Israel está fazendo e para o qual os Estados Unidos o estão
ajudando: cometer genocídio, o maior de todos os crimes. Na minha opinião, isso
é verdadeiramente notável. E eu dizia a mim mesmo: tem alguma coisa errada
aqui, quando um realista como eu é uma das poucas pessoas dentro do mainstream acadêmico
que se levanta e diz que isso está terrivelmente errado e que algo precisa ser
feito para pará-lo.
Passemos
ao Irã. Vamos falar sobre por que começamos essa guerra, antes de mais nada. É
bastante claro que, basicamente, os israelenses ludibriaram o presidente Donald
Trump para que ele iniciasse essa guerra. Eu diria até que, desde o início, o
Estado Profundo não estava a favor dessa guerra. Conheço uma ou duas pessoas
desse círculo, e se poderia dizer a propósito do que alguns observavam sobre as
posições do general Dan Caine [chefe do Estado-Maior Conjunto dos Estados
Unidos] na grande mídia, que o Estado Profundo não estava entusiasmado com essa
guerra.
Todos
nós sabíamos, que bastava observar o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu nos
últimos 40 anos, para saber que ele estava profundamente engajado em atacar o
Irã com os Estados Unidos, para promover uma mudança de regime, instaurando um
outro que estivesse em sintonia conosco, ou então para destruir o país. Então
sabíamos com certeza que Benjamin Netanyahu estava pressionando com bastante
força. Agora o New York Times publicou duas grandes reportagens sobre como a
decisão foi tomada. E na minha opinião fica inequivocamente claro, a partir
desses dois artigos, que o Estado Profundo não estava a favor dessa guerra.
Havia todo tipo de pessoas – funcionários do mais alto escalão – dizendo ao
presidente Donald Trump: “Essa não é uma boa ideia. Provavelmente não vai
funcionar”. O general Caine basicamente disse que não havia uma estratégia
militar viável e o Conselho Nacional de Inteligência produziu um relatório
afirmando que ela não funcionaria, e assim por diante.
O que
aconteceu foi que o Mossad convenceu tanto o primeiro-ministro Benjamin
Netanyahu quanto o presidente Donald Trump de que poderiam obter uma vitória
rápida e decisiva. Todos vocês conhecem a história. O que fizemos foi entrar,
lançar uma campanha de choque e pavor e, principalmente, centrar a atenção numa
manobra de decapitação do regime. E quando fizéssemos isso, todo o castelo de
cartas desmoronaria. E a razão para isso seria a de que o regime estaria
construído sobre areia, suas fundações seriam muito frágeis e tudo o que seria
preciso fazer seria derrubar seus líderes, e o povo atenderia o chamado para se
levantar e derrubar o governo, para que pudéssemos então instalar um novo, que
basicamente se renderia a nós. Está bastante claro que Benjamin Netanyahu e o
chefe do Mossad, David Barnea, desempenharam o papel chave e central em
convencer o presidente Donald Trump de que isso funcionaria, de que essa
estratégia de choque e pavor construída em torno da decapitação do regime
iraniano produziria uma vitória rápida e decisiva. Mas todos nós sabemos, pela
literatura de relações internacionais, que quando não se produz uma vitória
rápida e decisiva, o que se segue é que a guerra passa a funcionar como uma
guerra de atrito. E, claro, foi exatamente isso o que aconteceu no caso do Irã.
Estamos agora numa guerra de atrito.
O fato
é que não podemos vencer uma guerra de atrito [como essa]. Isso não é possível.
Deixem-me dar-lhes seis pontos que o ilustram.
(i)
Vejam essa Marinha muito poderosa que temos e que o presidente Donald Trump
fala que vai usar para abrir o Estreito de Ormuz. Não podemos colocá-la sequer
perto do Irã, e certamente não no Estreito de Ormuz, sob pena de ser posta a
pique pelos mísseis de cruzeiro ou drones iranianos.
Entende-se então que a Marinha está estacionada longe do Irã e que suas bases
não são muito úteis.
(ii)
Bases: tínhamos 13 bases principais na região. O New York Times noticiou
que todas essa bases ou estão seriamente danificadas ou destruídas.
(iii)
Em termos de forças no terreno para uma invasão terrestre, fala-se na mídia
sobre 40 ou 50 mil soldados estacionados no Oriente Médio, e isso significaria
que teríamos 40 ou 50 mil efetivos de combate. Isso simplesmente não é verdade.
Seriam necessárias várias divisões de infantaria ou brigadas de fuzileiros
navais ou o que for para o engajamento em um grande combate contra o Irã, e o
presidente Donald Trump apenas recentemente deslocou 7.000 efetivos de combate
para a região. Dificilmente se pode fazer alguma coisa com um efetivo de 7.000
combatentes, e se eu lhes sugerisse os cenários onde se poderia pensar em usar
esse efetivo, pode-se ver que não é possível alcançar nenhum tipo de vitória
militar com essas pequenas forças no terreno.
(iv) Em
termos de aeronaves, sabem vocês que nessa [recente] operação de resgate
perdemos mais aeronaves em um dia do que perdemos em qualquer outro momento
desde a Guerra do Vietnã? Pensem nisso! (…)
(v) E
agora mísseis e munição de alta tecnologia. Estamos ficando sem eles, e isso é
catastrófico para quem pretende conter a China. Deveríamos supostamente ter-nos
voltado para a Ásia, mas estamos nos afastando dela. Precisamos levar mísseis
THAAD, Patriot e essa unidade expedicionária de fuzileiros navais do Leste
Asiático para lidar com os problemas que estamos enfrentando no Oriente Médio.
Não é essa a maneira de se conter a China. Isso é voltar-se para fora do Leste
Asiático.
(vi) E,
finalmente, não temos a capacidade para defender nossos aliados do Conselho de
Cooperação do Golfo. Eles estão levando uma surra dos iranianos.
Isso é
apenas o lado americano. O lado mais interessante é o lado iraniano. Eles têm
quase todas as cartas. Estão realmente em uma posição de força. Ao bloquear o
tráfego no Estreito de Ormuz, eles estão em posição de causar um baque na
economia global. O poder de alavancagem que eles têm é enorme. As consequências
do que aconteceu até agora para a economia internacional podem ser
devastadoras. As pessoas não têm falado muito sobre os fertilizantes. Falam
sobre petróleo e gás.
Um
terço dos fertilizantes do mundo passam pelo Estreito de Ormuz. E essa é a
época de plantio em muitos países. As consequências para o futuro é que muitas
pessoas podem morrer de fome como resultado dessa guerra insana. Assim, os
iranianos têm um enorme poder de alavancagem sobre a economia mundial, e nós,
obviamente, já entendemos isso. Além disso, têm uma enorme capacidade de
influência sobre os Estados do Conselho de Cooperação do Golfo, esses seis
países, porque podem destruí-los como sociedades funcionais. Podem destruir sua
infraestrutura energética. Mas, mais importante, podem destruir suas usinas de
dessalinização. Elas são alvos fáceis, gordos e em pequeno número. Os iranianos
têm muitos mísseis de alta precisão e sabe-se lá quantos drones.
Eles podem desmantelar esses países, e essa é uma ameaça séria que lhe dá uma
grande vantagem.
Então,
o problema fundamental que o presidente Donald Trump enfrenta é que ele não tem
como escalar a guerra, porque os iranianos podem batê-lo em todos os degraus,
pelo fato de deterem o controle do Estreito de Ormuz e a capacidade de destruir
os países do Conselho de Cooperação do Golfo e, por casualidade, produzir
enormes danos também a Israel. Há uma boa razão para os israelenses manterem um
enorme silencio e não nos dizer o que está acontecendo dentro da sua própria
sociedade em termos de impactos tanto de mísseis balísticos quanto de cruzeiro.
Portanto, não podemos escalar o
conflito, e, além disso, não há uma opção de saída aqui, a não ser admitir a
derrota. A única maneira de Donald Trump sair dessa é admitir a derrota. Os
iranianos certamente não lhe darão uma opção de saída atraente. Se vocês
estivessem jogando com a mão de cartas que eles têm, vocês iriam querer ser
incrivelmente implacáveis e inflexíveis com os Estados Unidos e os israelenses.
Eles são seus inimigos mortais. Vendo as coisas do ponto de vista dos
iranianos, esses últimos são uma ameaça existencial. Por isso, os iranianos têm
profundo interesse em negociar em termos bastante duros, para dizer o mínimo, e
detêm uma pesada alavancagem. Essa é a difícil situação em que Donald Trump se
encontra. Isso tudo nos leva à segunda-feira passada (dia 6 de abril). Na manhã
dessa segunda, Donald Trump fez essa postagem extraordinária na rede Truth
Social que dizia que, se os iranianos não cedessem, ou seja, se não levantassem
os braços e se rendessem até a noite do dia seguinte, ele destruiria o Irã como
civilização, tornando impossível que ressuscitasse. Essa é uma declaração
verdadeiramente assombrosa, é mais um exemplo de linguagem genocida. Alguém
chegaria a pensar que um presidente americano poderia dizer algo assim? Eu
certamente não. Esse é o tipo de linguagem que se esperaria de alguém como
Adolf Hitler. Ele vai exterminar esse país chamado Irã, apagá-lo do planeta e
fazer com que ele nunca mais possa voltar? Parece uma solução de tipo cartaginesa,
não? O que está acontecendo aqui? – é preciso se perguntar.
O que
está acontecendo aqui é que Donald Trump está desesperado, porque entende a
lógica básica que acabei de lhes expor. Nós estamos jogando com uma mão de
cartas perdedora. E as consequências de continuar jogando com essa mão são de
que a economia global vai para o abismo. Isso vai fazer muito mais que destruir
sua presidência. As consequências serão enormes. Ele sabe disso. Estou seguro
que há pessoas que já lhe disseram isso. Então, desesperado, ele disse o que
disse na segunda de manhã: “vou para o extermínio; vou para o genocídio”. Mas,
então, pensem vocês no que aconteceu mais tarde, naquele dia à noite. Ele
recua. E o que fez? Basicamente, disse: “posso ver a derrota”. Mas por que
estou dizendo isso? Em primeiro lugar, há dois planos sobre a mesa. Um é o
plano de 15 pontos, “nossas” exigências. E há o plano iraniano, o plano de 10
pontos. Para quem os lê, a diferença é como da noite para o dia. Lendo o plano
de 15 pontos, se encontram todas essas típicas exigências americanas e
israelenses ao Irã. Lendo o plano de 10 pontos, encontram-se nele todas as
exigências maximalistas. O que o presidente Donald Trump disse em sua postagem
na rede Truth Social, onde basicamente afirmou “eu me rendo”, é que ele aceita
o plano de 10 pontos. Ele diz que é uma base sólida, ou firme, ou boa para ir
adiante. Isso é realmente chocante, não? Então, vamos olhar um pouco mais
cuidadosamente o que está acontecendo aqui. Entramos nessa guerra – quero
dizer, os Estados Unidos e Israel, a dupla que eu gosto de chamo de “tag team”,
a equipe [coordenada] de combate – com quatro objetivos principais: (i) fim do
enriquecimento nuclear no Irã; (ii) a erradicação de todos os mísseis, em
especial os mísseis de longo alcance ou qualquer coisa que represente uma
ameaça para Israel; (iii) o fim do apoio aos Houthis, ao Hamas e ao Hezbollah;
e (iv) a mudança de regime. É muito claro que a mudança de regime era o grande
objetivo.
Donald
Trump nega isso. Outros, de tempos em tempos, no executivo, negam isso… Mas
tudo o que é preciso fazer é ler a matéria do New York Times.
Enfim, é manifestamente claro que estávamos empenhados em uma mudança de
regime. Era disso que David Barnea e Benjamin Netanyahu estavam falando… E o
presidente Donald Trump, sem dúvida. Falhamos em todos esses objetivos. Não
vamos nos livrar dos mísseis iranianos. Não vamos evitar a capacidade de
enriquecimento nuclear deles – na verdade, o medo maior é que eles agora
obtenham armas nucleares. Quanto ao apoio ao Hezbollah, aos Houthis e ao Hamas,
não houve qualquer mudança nesse aspecto – iranianos e Hezbollah estão, na
verdade, trabalhando juntos para lidar com a situação no sul do Líbano e no
norte de Israel; e quanto aos Houthis, nosso maior medo é que, em conluio com
os iranianos, eles fechem o estreito de saída do Mar Vermelho, acabando com
tráfego seja no Mar Vermelho seja no Golfo Pérsico; o que seria o completo
desastre. E, finalmente, não alcançamos nenhuma mudança de regime.
Além
disso, agora os iranianos controlam os Estreito de Ormuz. No dia 27 de
fevereiro eles não controlavam o Estreito de Ormuz, eles não ameaçavam
estrangular a economia mundial. Mas agora não seriam loucos de abrir mão desse
controle. Assim, até onde eu possa ver, o Irã manterá o controle do estreito.
Para os Estados Unidos, isso é desastroso. Além disso, em se analisando as
exigências dos iranianos, o que eles querem é o levantamento da sanções e as
bases americanas fora da região. Evidentemente que ninguém sabe como será um
acordo final, mas algo dessas exigências vai acabar sendo atendido. E essa será
uma derrota escandalosa para os Estados Unidos, porque, como disse, a única
opção de saída aqui é aceitar a derrota, tal como ela é. Não é fácil dizê-lo,
mas trata-se de uma clara derrota.
Agora,
quero mudar de assunto e falar dos israelenses. Acho que, para os israelenses,
toda essa situação beira o cataclismo. Antes de tudo, eles (o povo israelense)
acreditam – certamente o primeiro ministro Benjamin Netanyahu acredita – que o
Irã é uma ameaça existencial, empenhada em eliminá-los da face da Terra. Eu não
acredito nisso, mas isso não importa, porque o que eu acredito é em grande
medida irrelevante. São eles que acreditam nisso. Como todos vocês sabem, para
o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, o Irã é o seu Moby Dick. E ele perdeu
esta guerra. O Irã está mais forte que nunca. Além disso, o Irã está em uma
posição de força que lhe permite apoiar o Hamas, o Hezbollah e os Houthis. Além
de tudo isso, essa situação causou danos enormes às relações entre Estados
Unidos e Israel. Aquela reportagem do New York Times dias
atrás com certeza deixará claro para um enorme número de americanos que os
israelenses nos arrastaram pelo nariz para esta guerra. Havia todo tipo de
gente no Conselho de Segurança Nacional que estava soltando sinais de alerta,
senão de alerta máxima. Mas por que entramos nessa? Porque os israelenses
convenceram o presidente Donald Trump de que era uma boa ideia e que eles
tinham uma estratégia viável. E isso vai ser desastroso para Israel. Além do
mais, se alguém olhar para o que está acontecendo com a opinião pública nos
Estados Unidos com relação ao Estado de Israel, nosso relacionamento e o
seu lobby. Para mim mesmo, que escrevi sobre o lobby israelense
em 2006 e 2007, acho até difícil acreditar que tudo isso tenha acontecido.
Jamais imaginei que, enquanto estivesse neste planeta, veria uma situação como
a que vivemos hoje em termos de relações entre Estados Unidos e Israel e a
situação do lobby israelense aqui. Portanto, creio que Israel
está verdadeiramente em sérios apuros.
O que
aconteceu em 28 de fevereiro, do nosso ponto de vista e do ponto de vista do
mundial, por conta das consequências econômicas de tudo isso – e até também do
ponto de vista de Israel – foi um fiasco colossal. Não se pode subestimar o
fiasco colossal que foi para os Estados Unidos e Israel entrarem em guerra em
28 de fevereiro. Isso teve um efeito rebote profundo. Isso me leva ao meu
último ponto. Toda essa situação levanta a séria possibilidade de que, em algum
momento desse trajeto, os israelenses usem armas nucleares contra o Irã. Estou
bastante preocupado a esse respeito. Como disse antes, os israelenses estão
notavelmente ansiosos com o Irã, que eles têm como uma ameaça existencial, cujo
maior medo é o de que o Irã adquira armas nucleares. Creio que, se os
israelenses chegarem a suspeitar que o Irã está buscando armas nucleares, eles
usarão armas nucleares preventivamente, para evitar que o Irã possa alcançar um
poder de dissuasão nuclear. Porque agora está claro que Israel não pode impedir
o Irã de adquirir armas nucleares fazendo uso apenas suas próprias forças
convencionais. Isso não funciona. A única opção que lhes resta é a nuclear. E
eu creio firmemente que os israelenses usariam armas nucleares nessa situação.
Alguém
pode pensar para si mesmo: “Bem, os Estados Unidos poderiam impedir que isso
aconteça”. Os Estados Unidos não impedirão que isso aconteça. Israelenses e
americanos são cúmplices do genocídio em Gaza. A primeira reação do presidente
Donald Trump na segunda-feira, quando ele estava desesperado, foi ameaçar
cometer genocídio, ele próprio, contra o Irã. Além de tudo, considerando o
poder do lobby israelense nos Estados Unidos, é extremamente
improvável que consigamos impedir Israel de usar armas nucleares contra o Irã. Assim,
meus dois pontos finais para vocês são esses: (i) tudo isso mostra que Israel é
um fardo agarrado ao pescoço dos Estados Unidos ― um argumento que venho
defendendo há muito tempo; e (ii) os anos vindouros no Oriente Médio serão
extremamente perigosos por conta de toda a situação que acabo de descrever.
Fonte: Palestra
proferida no Arab Center Washington DC, em 10 de abril de 2026, disponível
no Youtube - Tradução: Ricardo
Cavalcanti-Schiel, em A Terra é Redonda

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