terça-feira, 14 de abril de 2026

Pé frio: As ligações da família Bolsonaro com Viktor Orbán, que perdeu eleição na Hungria após 16 anos

Viktor Orbán, atual primeiro-ministro da Hungria, reconheceu a derrota nas eleições parlamentares do seu país neste domingo (12/4), após 16 anos no poder.

O líder de direita radical recebeu o apoio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e é visto como um aliado do líder russo Vladimir Putin. Ele também tem vínculos com o ex-presidente Jair Bolsonaro e sua família.

Orbán foi um dos poucos líderes europeus presentes na posse de Bolsonaro em 2019. Durante uma visita do então presidente brasileiro a Budapeste, três anos depois, os dois selaram os laços de amizade em um encontro cheio de troca de elogios.

Orbán também apoiou publicamente a campanha de reeleição de Bolsonaro em 2022 e criticou o processo que levou à condenação do ex-presidente por tentativa de golpe de Estado: “caças às bruxas políticas não têm lugar na democracia”, disse.

<><> ‘Irmão’ e ‘herói’

O primeiro encontro registrado entre Jair Bolsonaro e Viktor Orbán se deu na posse do ex-presidente brasileiro, em janeiro de 2019, em Brasília.

No mesmo ano, em abril, o líder húngaro ainda recebeu o filho de Bolsonaro e então deputado federal pelo PL, Eduardo Bolsonaro, em Budapeste.

O próprio ex-presidente planejava uma visita à Hungria em 2020, mas por conta da pandemia de covid-19 a viagem só seria concretizada em 2022.

Na ocasião, os dois líderes assinaram memorandos de entendimento nas áreas de defesa, cooperação humanitária e gestão de recursos hídricos, e trocaram elogios.

“Acredito na Hungria, acredito no prezado Orbán, que eu trato praticamente como um irmão, dadas as afinidades que nós temos na defesa dos nossos povos e na integração dos mesmos”, disse Bolsonaro após uma reunião com o aliado.

O ex-presidente também saudou o que disse ser uma consonância de valores representados pelas duas nações, resumidos, segundo ele, em “Deus, pátria, família e liberdade”.

“Comungamos também da defesa da família com muita ênfase. Uma família bem estruturada ela faz com que a sua respectiva sociedade seja sadia. Não devemos perder esse foco”, disse Bolsonaro.

Durante as eleições presidenciais de 2022, Orbán retribuiu os elogios ao apoiar a campanha de Bolsonaro.

Em um vídeo compartilhado pelo ex-presidente em suas redes sociais, o premiê húngaro exaltou algumas das políticas de seu então colega governante.

“Tenho servido meu país na Europa por mais de trinta anos, já encontrei muitos líderes, mas vi poucos líderes tão excepcionais como seu presidente, o presidente Bolsonaro. Fico feliz de ter tido a oportunidade de trabalhar com ele. Foi uma grande honra ter visto e aprendido como ele reduziu impostos, estabilizou a economia, reduziu as taxas de crimes”, disse o húngaro na mensagem. “Espero que ele possa continuar seu trabalho.”

Segundo o jornal Folha de S.Paulo, o governo da Hungria também teria oferecido ajuda para reeleger Bolsonaro.

De acordo com documentos obtidos pela reportagem, em julho de 2022, em plena campanha, o chanceler húngaro, Péter Szijjártó, teria conversado com a então ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Cristiane Britto, em Londres, e perguntado “se haveria algo que o governo húngaro poderia fazer para ajudar na reeleição do presidente Bolsonaro”.

Bolsonaro e Orbán voltaram a se encontrar na Argentina, durante a posse do presidente Javier Milei em dezembro de 2023.

Os dois tiveram uma reunião privada e, em uma rápida declaração, o húngaro afirmou que Brasil e Hungria estão mais distantes, mas o futebol e a política ainda unem os dois países.

Orbán ainda chamou Bolsonaro de “herói”.

“Temos muita coisa em comum, mas ele é muito mais bonito do que eu”, brincou brasileiro, que não estava mais na Presidência na ocasião.

<><> Apoio durante investigações

Em fevereiro de 2024, após ter sido alvo de uma operação da Polícia Federal (PF) em meio às investigações sobre a tentativa de golpe de Estado, Jair Bolsonaro ainda passou dois dias na embaixada da Hungria, em Brasília.

Segundo informações reveladas na época pelo jornal americano The New York Times, o ex-presidente brasileiro parecia ter a intenção de pedir asilo político ao governo húngaro.

Posteriormente, a defesa de Bolsonaro confirmou a estada na embaixada, mas afirmou que a presença no local era apenas uma forma de “manter contatos com autoridades do país amigo”.

No mesmo dia da operação da PF contra Bolsonaro — e dias antes de o ex-presidente passar as duas noites na embaixada da Hungria—, Orbán utilizou as redes sociais para declarar apoio ao aliado.

“Um patriota honesto. Continue lutando, senhor presidente”, escreveu o líder húngaro.

Na época, uma medida cautelar proibia Bolsonaro de se ausentar do país.

Mas após análise, o ministro Alexandre de Moraes, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), concluiu que não havia provas de que o ex-presidente Jair Bolsonaro pediria asilo ou teria violado as ordens judiciais.

<><> ‘A verdade e a justiça devem prevalecer’

Em abril de 2024, Orbán recebeu Eduardo Bolsonaro em Budapeste mais uma vez, durante a Conferência de Ação Política Conservadora.

O húngaro compartilhou em seu perfil no Instagram uma foto do encontro com Eduardo, que estava acompanhado de sua esposa e de seu filho. “Conhecendo o Bolsonaro mais novo”, disse o primeiro-ministro.

Mais recentemente, em novembro de 2025, o líder húngaro e o deputado se reuniram novamente, dessa vez nos Estados Unidos.

Orbán recebeu Eduardo na embaixada da Hungria. Além de publicar uma foto do encontro, o primeiro-ministro definiu a família Bolsonaro como “amigos e aliados que nunca desistem”.

“Estamos firmemente ao lado dos Bolsonaros nestes tempos difíceis, amigos e aliados que nunca desistem. Continuem lutando: caças às bruxas políticas não têm lugar na democracia, a verdade e a justiça devem prevalecer!”, disse o premiê, em referência ao processo que levou à condenação de Jair Bolsonaro a mais de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.

<><> Quem é Viktor Orbán

"Eles só representam raiva, ódio e destruição", bradou Viktor Orbán, com a voz rouca. O primeiro-ministro húngaro discursava em um comício eleitoral em Györ, no oeste da Hungria, em 27 de março, referindo-se aos manifestantes da oposição que gritavam "Fidesz imundo" durante seu discurso.

Por um instante, a imagem cuidadosamente cultivada de uma voz calma que guia seu país por mares tempestuosos foi destruída. Seu acesso de raiva mostrou um lado diferente de um homem acostumado a fazer piadas e a encantar até mesmo seus críticos.

A maioria das pesquisas de opinião põe o partido de oposição Tisza e seu líder, Peter Magyar, muito à frente do Fidesz de Orbán — a mais recente com 58% contra 35%.

Orbán está fazendo tudo o que pode para diminuir a diferença. Após 16 anos de governo praticamente incontestado, ele foi forçado a voltar à estrada. Nas últimas três eleições, fez poucos comícios, mas, agora, o líder europeu que está há mais tempo tenta mobilizar seus apoiadores e alcançar os indecisos.

Orbán tem apenas uma semana para salvar seu governo e o movimento populista internacional que ele representa de uma derrota esmagadora.

No poder desde 2010, contou com o apoio tanto do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, quanto do líder da Rússia, Vladimir Putin. É uma pedra no sapato da União Europeia há muito tempo e um dos poucos líderes do bloco que não apoia a Ucrânia.

Para o crescente grupo de partidos nacionalistas da Europa, no poder ou prestes a chegar ao poder, Orbán é um modelo. Por isso, a eleição parlamentar húngara marcada para 12 de abril tem sido acompanhada de perto em todo o mundo.

"Podemos notar uma grande mudança na percepção pública", diz Endre Hann, da agência Median, uma empresa de pesquisa de opinião pública.

Em janeiro, 44% dos entrevistados disseram acreditar que o partido Fidesz, de Orbán, venceria. Já em março, o cenário se inverteu, e 47% passaram a crer que o Tisza, da oposição, triunfaria. "Isso reflete uma enorme mudança de confiança", diz Hann.

Uma dinâmica intrigante está se desenrolando: a mesma raiva dos eleitores contra aqueles vistos como "elites governantes corruptas" em toda a Europa agora está se voltando contra Orbán. Na Hungria, agora são Orbán e o partido Fidesz que são vistos por muitos, especialmente pelos jovens, como a "elite governante corrupta".

O governo de Orbán tem sido acusado com frequência de drenar os cofres públicos e conceder licitações estatais a empresas que pertencem a pessoas próximas. O governo explica essa concentração de riqueza como uma tentativa de colocar o dinheiro em mãos húngaras, em vez de estrangeiras.

Os projetos incluem pontes, estádios de futebol e rodovias. Seu genro, Istvan Tiborcz, tem uma série de hotéis de destaque. Seu amigo de infância, Lörinc Meszaros, um ex-instalador de gás, tornou-se o homem mais rico do país.

Orbán se recusa a responder perguntas sobre a riqueza pessoal de seus amigos e familiares, e todos negam qualquer irregularidade.

Poderá Orbán se salvar culpando a Ucrânia e seus apoiadores da União Europeia pelos problemas da Hungria?

E poderá o advogado de fala mansa que espera destroná-lo convencer os húngaros, particularmente aqueles em áreas rurais que compõem o reduto do partido Fidesz, de que ele pode entregar um "país mais humano e com melhor funcionamento"?

Cada dia traz um novo indício de que Orbán está em apuros, desde supostos esquemas de intimidação de eleitores até uma proposta dramática da Rússia para encenar uma falsa tentativa de assassinato contra Orban.

Mas o partido Fidesz diz que essa sensação foi criada pela oposição. "Todos esses escândalos são apenas os suspeitos de sempre tentando construir uma narrativa", diz Zoltan Kiszelly, analista político do centro de pesquisa governamental Szazadveg. "Quando a oposição perde, eles têm uma desculpa para alegar fraude."

O analista político Gabor Török, um dos poucos nesta sociedade extremamente polarizada respeitado por ambos os lados, escreveu recentemente em seu blog: "Esta não é a imagem de 'força calma' ou 'calma estratégica', nem aquela cuidadosamente cultivada por anos e exibida em cartazes de 'Primeiro-Ministro da Hungria'. Se as duas semanas restantes se desenrolarem assim, não é um bom presságio para o governo."

•        Saída de Orbán reaproxima Hungria da Europa

Peter Magyar, líder do partido Tisza, declarou vitória na Hungria após os resultados parciais mostrarem que a sigla conquistaria 135 dos 199 assentos do parlamento. O resultado marca o fim de 16 anos de governo de Viktor Orbán, que era visto como um laboratório de políticas conservadoras na região.

Daniel Rittner, diretor de Jornalismo da CNN em Brasília, detalha, durante o CNN Prime Time, que a derrota de Orbán representa uma mudança significativa para a Hungria e para a própria União Europeia.

"É uma eleição absolutamente paradigmática pelo que ela representa dentro da própria Europa e por se enxergar a Hungria como um laboratório na última década de políticas anti-imigração, anti-LGBT de uma direita mais conservadora", explicou.

Rittner ressalta que não se deve interpretar a vitória de Magyar como um triunfo da esquerda ou de progressistas, já que o político é de centro-direita. Para ele, Orbán perdeu, acima de tudo, "para si mesmo".

O diretor cita a economia cambaleante após a pandemia, com baixas taxas de crescimento e inflação relativamente alta para padrões europeus, além da percepção generalizada de corrupção no governo.

A Transparência Internacional classifica a Hungria como o país mais corrupto entre os 27 membros da União Europeia, e escândalos contribuíram para o desgaste do governo. "Orbán se associou a amigos e a uma elite extremamente corrupta e acabou gerando essa percepção do voto em Magyar como um voto antissistema", observou.

<><> Derrota da direita global

Rittner afirma que a derrota de Orbán também representa um revés para a direita global, que via na Hungria um modelo a ser seguido.

Políticos como Marine Le Pen, Geert Wilders e Matteo Salvini estiveram em Budapeste para expressar apoio a Orbán durante a campanha. A eleição foi acompanhada de perto pelo governo brasileiro, que observava possíveis articulações da direita para as eleições municipais de outubro no Brasil.

•        Péter Magyar celebra vitória na Hungria após derrotar Viktor Orbán

O candidato pró-europeu Péter Magyar prometeu nesta segunda-feira (13) governar para “todos os húngaros”, um dia após sua ampla vitória sobre o ex-primeiro-ministro nacionalista Viktor Orbán, que contava com o apoio do presidente americano Donald Trump.

“É uma imensa honra que vocês tenham nos concedido sua confiança, com o maior número de votos já obtido, para trabalharmos por uma Hungria livre, europeia, funcional e humana”, escreveu Magyar no Facebook.

Durante a noite de domingo, em um palanque às margens do Danúbio, o conservador afirmou que seus eleitores e ele “libertaram a Hungria”, sob os aplausos de dezenas de milhares de pessoas.

Segundo a contagem oficial dos votos, com 98,94% das urnas apuradas, o partido de Magyar, o Tisza, conquistou 138 cadeiras de um total de 199 no Parlamento, com 53,07% dos votos.

Por sua vez, o Fidesz de Orbán obteve 55 cadeiras (38,43% dos votos). A taxa de participação foi recorde: 79,50%.

Orbán reconheceu a derrota, mencionou resultados “dolorosos, mas inequívocos”, e parabenizou “o partido vencedor”.

A derrota inapelável de Orbán, que havia transformado seu país de 9,5 milhões de habitantes em um modelo de democracia iliberal, também representa um golpe contra os movimentos nacionalistas e de extrema direita em todo o mundo, em particular a ala MAGA de Trump, que enviou o vice-presidente JD Vance para apoiar Orbán na reta final da campanha e criticar a suposta interferência dos “burocratas de Bruxelas”.

“É uma derrota estrondosa para o autoritarismo, cujo eco vai muito além das fronteiras da Hungria”, afirmou o centro de estudos ‘Center for American Progress’.

“Também é um golpe importante para aqueles que viam no modelo corrupto de Viktor Orbán um exemplo a seguir, incluindo Donald Trump”, acrescentou.

<><> “Tarefa enorme”

A presidência russa, próxima de Orbán, afirmou nesta segunda-feira que “respeita” o voto dos húngaros e que espera manter “contatos pragmáticos com as novas autoridades”, segundo o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov.

Também próximos do ex-primeiro-ministro nacionalista, os governantes da República Tcheca e da Eslováquia, Andrej Babis e Robert Fico, “parabenizaram” Magyar nesta segunda-feira.

No domingo, outros líderes europeus celebraram o resultado, como o francês Emmanuel Macron e o polonês Donald Tusk, que afirmou em húngaro: “Russos, voltem para casa”, uma referência à amizade entre Orbán e o presidente russo Vladimir Putin.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, considerou que a Hungria “escolheu a Europa”, e o chefe de Governo da Alemanha, Friedrich Merz, afirmou nesta segunda-feira que “o populismo de direita sofreu “uma forte derrota”.

A vitória de Magyar implica “menos bloqueios em perspectiva e uma cooperação mais amistosa para a UE e a Ucrânia”, destacou Grégoire Roos, diretor para Europa e Rússia do centro de estudos Chatham House.

Contudo, o resultado não significa o “início do fim do populismo na Europa”, acrescentou.

Magyar prometeu restabelecer os contrapesos e garantir “o funcionamento democrático” da Hungria, uma “tarefa enorme”.

O futuro primeiro-ministro já foi integrante do Fidesz, que ele abandonou ao denunciar as supostas práticas corruptas do governo de Orbán.

Viktor Orbán havia destacado suas amizades em todo o mundo, “dos Estados Unidos à China, passando pela Rússia e pelo mundo turco”.

Porém, em um “contexto de tensões crescentes, ficou mais difícil apresentar Trump como um fiador da estabilidade, já que alguns o consideram um fator de incerteza no cenário internacional”, disse Bulcsú Hunyadi, analista da Political Capital.

 

Fonte: BBC News/CNN Brasil/IstoÉ

 

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