Celso
Pinto de Melo: Quando os impérios ficam perigosos
O
paralelo entre Roma, o Império Otomano e os Estados Unidos atual revela um
padrão: a dívida crescente e a sobretensão militar precedem a fragmentação
“Nada é
tão difícil quanto perceber que a força já não convence” (Liev Tolstói)...
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Decadência, coerção e o custo crescente da hegemonia
Paul
Kennedy ensinou que os impérios não entram em crise apenas quando perdem poder,
mas quando o custo de sustentá-los passa a exceder a base econômica que os
torna possíveis. Raramente, a história registra um colapso súbito – a
dissolução da União Soviética é uma exceção notável, embora também tenha sido
precedida por um longo processo de esgotamento interno.
Mais
frequentemente, o que se observa é um longo intervalo de transição – um tempo
ambíguo em que o poder ainda existe, mas já não convence; em que a autoridade
se impõe, mas deixa de integrar. É nesse momento, quando o declínio ainda não
se admite, que as potências hegemônicas tendem a se tornar mais instáveis – e
mais perigosas. A coerção substitui o consenso, a força tenta compensar a perda
de legitimidade e a política externa passa a refletir menos confiança do que
ansiedade.
O
debate contemporâneo sobre a política externa dos Estados Unidos recoloca essa
questão em termos particularmente nítidos. Uma sequência recente de ações – do
Caribe ao Oriente Médio, passando por pressões sobre territórios estratégicos e
o endurecimento de instrumentos econômicos – sugere a intensificação de um
padrão: a passagem de uma hegemonia baseada em alianças e normas para formas
mais diretas de projeção coercitiva de poder, em um mundo que já não responde
automaticamente à liderança norte-americana.
A
emergência da China como potência industrial, tecnológica e geopolítica –
percebida em Washington como uma “ameaça sistêmica” – atua como catalisador
desse processo. A competição com Pequim deixou de ser episódica e passou a
estruturar a política externa e de defesa dos Estados Unidos. Como
argumenta Paul Kennedy, grandes potências tendem a entrar em ciclos de
sobretensão (overstretch), nos quais o custo de sustentar compromissos
globais passa a exceder a base econômica que os sustenta.
Esse
padrão histórico não é novo.
O
colapso do Império Romano do Ocidente não resultou de uma derrota única nem de
uma invasão decisiva. Ao contrário, foi o desfecho de um processo de longa
duração, que se estende por cerca de dois séculos.
Nesse
intervalo, Roma tentou preservar sua integridade territorial por meio da
expansão do esforço militar, do aumento da carga tributária e da crescente
terceirização da segurança. A incorporação de povos federados (foederati)
ao aparato militar acabou por criar centros de poder autônomos, cujas lealdades
se tornaram progressivamente regionais.
À
medida que a base fiscal se enfraquecia e os corredores logísticos vitais eram
perdidos, o custo de manter a presença imperial tornava-se proibitivo. A
coesão, antes sustentada por cidadania e pertencimento à res publica,
passou a depender cada vez mais da força bruta
A
queda, portanto, não foi um evento, mas um processo de desagregação
progressiva.
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O caso otomano – exaustão, dívida e periferias em fuga
Um
paralelo instrutivo é o do Império Otomano. Ao longo do século XIX, o sultanato
sediado em Istambul tentou preservar a integridade de seus domínios em um
ambiente internacional cada vez mais adverso.
O
resultado foi um ciclo clássico de exaustão: gastos militares crescentes,
endividamento externo, dependência tecnológica e repressão intensificada nas
periferias. A coerção substituiu o consenso; a força, a legitimidade.
Como
consequência, o Império Otomano passou a ser descrito como o “doente da Europa”
– expressão frequentemente atribuída ao czar Nicolau I da Rússia. Não se
tratava de uma metáfora casual, mas de um diagnóstico geopolítico: um sistema
incapaz de sustentar, com seus próprios meios, a extensão de seu poder.
Os
dados são eloquentes. A partir de meados do século, o império recorreu a
repetidos empréstimos externos. Em 1875, declarou a moratória da sua dívida.
Poucos anos depois, a criação da Administração da Dívida Pública Otomana
transferiu aos credores europeus o controle direto das receitas fiscais
estratégicas.
O
paralelismo com o presente não deve ser tomado de uma forma literal. Hoje, a
dívida pública dos Estados Unidos supera 34 trilhões de dólares, situando-se em
torno de 120% do PIB, enquanto os gastos militares permanecem próximos de 900
bilhões de dólares anuais – um nível sem paralelo histórico recente. Os
Estados Unidos, contudo, dispõem de instrumentos – financeiros, tecnológicos e
militares – incomparavelmente superiores. Ainda assim, a dinâmica estrutural
apresenta semelhanças importantes: amplos compromissos globais, custos
militares persistentes e pressão crescente sobre a base fiscal.
Como
contraponto, a experiência chinesa revela outro padrão. Apesar de períodos
recorrentes de fragmentação, a China preservou uma matriz institucional capaz
de sustentar ciclos de reunificação. Mesmo após o “século da humilhação” (c.
1840–1949), o país demonstrou notável capacidade de reconstrução estatal e
econômica, culminando em uma transformação acelerada nas últimas décadas.
Essa
diferença é crucial. Impérios sustentados predominantemente pela coerção tendem
à fragmentação quando os custos dessa coerção se tornam insustentáveis.
Estruturas capazes de manter uma integração simbólica e administrativa dispõem
de maior resiliência histórica.
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O momento mais perigoso
A
história raramente anuncia suas viradas de forma clara. Impérios não desmoronam
de um dia para o outro – eles atravessam longos períodos em que continuam
poderosos, mas deixam de ser incontestáveis; em que ainda impõem sua vontade,
mas já não organizam o mundo à sua volta.
É nesse
intervalo que o risco se concentra.
Quando
a capacidade de liderança se reduz, mas os instrumentos de poder permanecem
intactos – e até ampliados –, abre-se uma assimetria perigosa. A força continua
disponível; o consenso, não. A ação se torna mais fácil do que a coordenação. A
coerção, mais imediata do que a negociação.
Foi
assim em Roma. Foi assim em Istambul.
Não
porque esses impérios tenham “decidido” entrar em declínio, mas porque passaram
a operar em um mundo que já não respondia plenamente às suas formas de poder.
A
questão, hoje, não é se esse processo está em curso – isso parece cada vez mais
evidente. Mais decisiva, porém, é outra: como uma potência reage quando
descobre que já não consegue moldar o mundo com a mesma facilidade de antes?
A
história sugere respostas possíveis. Nem todas são tranquilizadoras.
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O cofre nos EUA que guarda toneladas de barras de ouro de
vários países – e por que europeus querem tirá-las de lá
A 25
metros abaixo do solo, na Liberty Street, em Nova York, o Federal Reserve
dos Estados Unidos (Fed) guarda no
subsolo de sua sede mais de meio milhão de barras de ouro pertencentes a bancos
centrais, governos e instituições de todo o mundo.
Essa
câmara-forte é protegida por um cilindro de aço de 90 toneladas e, uma vez
fechada, sua gigantesca fechadura só pode ser aberta no dia seguinte.
É o
Cofre de Ouro do Fed, o maior depósito de ouro conhecido do mundo, que abriga
cerca de 6,3 mil toneladas em pilhas de barras cujo valor, aos preços atuais,
ultrapassa US$ 1 trilhão (R$ 5 trilhões) — aproximadamente 4% do Produto
Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos.
O cofre
desempenha um papel crítico para a estabilidade do sistema financeiro global,
já que muitos países mantêm ali suas reservas de ouro — o ativo de
proteção por excelência, usado para respaldar suas moedas e enfrentar
contingências em cenários de crise.
O ouro
sempre foi visto como um porto seguro em momentos de turbulência financeira,
volatilidade geopolítica e perda de
valor causada pela inflação. Por isso, o metal precioso representa uma parte
significativa das reservas dos bancos centrais em todo o mundo, especialmente
na Europa.
"É
um dos ativos mais importantes deles porque, diante de eventos geopolíticos
adversos, permite atuar como emprestadores de última instância para bancos e
empresas e intervir nos mercados cambiais", disse à BBC Mundo, serviço em
espanhol da BBC, Barry Eichengreen, especialista em sistema monetário
internacional da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos.
Durante
décadas, os Estados Unidos e seu banco central (o Fed) foram vistos como os
guardiões mais confiáveis de um ativo tão essencial — especialmente por muitos
países europeus que se sentiam ameaçados pelo poder da União Soviética e
passaram a acumular ali grandes quantidades de ouro.
Mas,
desde o retorno de Donald Trump ao poder, políticos e especialistas europeus
passaram a questionar a conveniência de repatriar o ouro armazenado no país.
O
distanciamento do presidente em relação a compromissos internacionais e suas
divergências com aliados europeus dos Estados Unidos — sobre temas como tarifas
comerciais, a soberania dinamarquesa da Groenlândia ou, mais
recentemente, a guerra contra o Irã — têm gerado
preocupação sobre a segurança do ouro europeu guardado pelo Fed.
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Como o ouro europeu chegou aos Estados Unidos
Ao
contrário da Rússia, cujo banco central mantém suas reservas de ouro em seu
próprio território — o que as protege de possíveis sanções ocidentais —, vários
países europeus ainda guardam suas reservas no exterior, muitas delas no Cofre
de Ouro de Nova York.
O ouro
europeu começou a se acumular ali a partir da década de 1950.
Segundo
Barry Eichengreen, "Alemanha e outros países europeus, cujas economias
estavam se recuperando e exportavam cada vez mais para os Estados Unidos,
recebiam os pagamentos em uma combinação de ouro e dólares".
"Transportar
ouro em navios ou aviões e contratar seguros para protegê-lo custa caro, então
pareceu uma boa ideia armazená-lo no cofre do Federal Reserve — que, além
disso, não cobra pela custódia", explicou Eichengreen.
O
sistema criado em Bretton Woods, em 1944,
estabeleceu um regime de câmbio fixo com o dólar atrelado ao ouro. Com isso,
ouro e dólar passaram a ser os ativos mais confiáveis — e, para as
enfraquecidas potências europeias do pós-guerra, era vantajoso acumulá-los sem
custo sob a custódia do Federal Reserve dos Estados Unidos.
Diante
da ameaça soviética do outro lado da Cortina de Ferro, a guarda americana era
vista como a melhor garantia.
Mas a
União Soviética já não existe — e o retorno de Donald Trump à Casa Branca tem
alterado a sintonia de décadas entre Washington e seus aliados europeus.
Na
Alemanha, que possui as segundas maiores reservas de ouro do mundo — atrás
apenas dos Estados Unidos — e, portanto, é um dos países mais expostos a
possíveis riscos, diversas vozes têm feito alertas.
O
economista Emanuel Mönch, que foi o principal pesquisador do Bundesbank, o
banco central alemão, defendeu a repatriação do ouro que o banco central alemão
mantém em Nova York — cerca de 1,2 mil toneladas, segundo estimativas da
imprensa alemã, com valor aproximado de US$ 200 bilhões (R$ 1 trilhão).
"Dada
a atual situação geopolítica, parece arriscado manter tanto ouro nos Estados
Unidos", afirmou Mönch, que acredita que trazê-lo de volta contribuiria
para uma "maior independência estratégica" do país.
Na
mesma linha, Michael Jäger, presidente da Associação Alemã de Contribuintes,
disse: "Trump é imprevisível e é capaz de tudo para gerar receitas. Por
isso, nosso ouro já não está seguro no cofre do Fed".
"O
que aconteceria se a provocação sobre a Groenlândia continuar?... Aumenta o
risco de que o Bundesbank não consiga acessar seu ouro, por isso deveria
repatriar suas reservas", acrescentou Jäger.
Essa
preocupação também foi manifestada por deputados da CDU, o partido do chanceler
Friedrich Merz, além de outras forças políticas.
O
presidente do Bundesbank, Joachim Nagel, tentou dissipar os temores.
"Não
há motivo para preocupação", disse Nagel em outubro passado, durante uma
reunião do Fundo Monetário Internacional, em Washington.
Em
fevereiro, ele voltou a comentar o tema em uma coletiva de imprensa: "Isso
não tira meu sono. Tenho total confiança em nossos colegas do banco central dos
Estados Unidos".
Mas, do
outro lado do Atlântico, nem o Federal Reserve nem o governo de Trump
reafirmaram essa confiança.
"Não
ouvi nenhuma palavra tranquilizadora e acho que seria oportuno", disse o
analista Barry Eichengreen.
A BBC
Mundo entrou em contato com o Federal Reserve, mas não obteve resposta.
O
silêncio da instituição ocorre em um momento de tensão nas relações entre seu
presidente, Jerome Powell, e o governo.
Trump o
criticou repetidamente por se recusar a reduzir as taxas de juros, e o
Departamento de Justiça chegou a abrir uma investigação criminal contra Powell
— que denunciou a iniciativa como parte de "ameaças e pressões" do
Executivo para enfraquecer a independência do Fed e forçá-lo a "seguir as
preferências do presidente".
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A onda de repatriação
A
Alemanha não é o único país europeu com ouro em Nova York.
Itália
e Suíça são frequentemente citadas entre os que mais mantêm reservas por lá.
E
alguns países já iniciaram processos de repatriação no passado.
A
Holanda fez isso a partir de 2014, quando reduziram de 51% para 31% a parcela
de suas reservas depositadas no Federal Reserve.
A
Alemanha também repatriou parte de suas barras naquele período, mas uma grande
quantidade permaneceu no Cofre de Ouro.
"Era
a época da crise da dívida grega e do euro, e os europeus queriam ter a
segurança de que sua moeda e seus depósitos bancários estavam respaldados por
algo tangível", explica Eichengreen.
Muitos
anos antes, na década de 1960, o presidente Charles de Gaulle decidiu trazer de
volta à França as barras de ouro que o país mantinha no Fed — segundo diversos
autores, por temer uma desvalorização repentina do dólar, cujo valor estava
atrelado ao ouro no sistema de Bretton Woods.
O tempo
lhe deu razão.
Em
1971, o presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon pôs fim à conversibilidade
do dólar em ouro, desmantelando o sistema monetário internacional criado após a
Segunda Guerra Mundial.
A
França, que já havia repatriado suas reservas, saiu em melhor posição do que os
países que viram suas barras guardadas em Nova York perderem grande parte de
seu valor em dólares da noite para o dia.
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Uma repatriação custosa
O Cofre
de Ouro hoje abriga menos ouro do que no passado.
Segundo
dados do Federal Reserve, o volume de reservas internacionais de ouro
depositadas no cofre de Nova York vem apresentando queda contínua desde 1973,
quando chegou a ultrapassar 12 mil toneladas do metal.
Ainda
assim, a ideia de manter o ouro europeu ali segue tendo defensores.
Clemens
Fuest, do Instituto IFO de Pesquisa Econômica da Alemanha, disse ao jornal The
Guardian que repatriar o ouro "apenas colocaria mais lenha na fogueira da
situação atual" e poderia trazer consequências indesejadas.
Alguns
especialistas ressaltam que a independência do Federal Reserve em relação ao
governo de Trump impede que este tome medidas unilaterais sobre o ouro — e
destacam os custos, além dos desafios logísticos e de segurança envolvidos no
transporte de uma carga tão valiosa.
Por
outro lado, as dúvidas sobre a confiabilidade do Federal Reserve como guardião
do ouro europeu ameaçam abrir mais uma fissura na ordem mundial vigente há
décadas.
Segundo
Eichengreen, "embora a retirada não tivesse impactos financeiros
particularmente significativos para os Estados Unidos, a custódia do ouro é um
bem global que o país tem oferecido gratuitamente — assim como o guarda-chuva
de segurança da Otan ou o dólar como moeda global — em troca de construir
relações de amizade e parcerias comerciais".
"Este
governo não acredita que os Estados Unidos devam prestar serviços gratuitamente
— e tudo o que alimenta dúvidas entre aliados sobre a segurança de seus
depósitos no país corrói ainda mais essa boa vontade, algo essencial quando
você precisa do apoio deles, por exemplo, em uma guerra no Oriente Médio."
Não há
registro de que algum país europeu tenha decidido, até agora, repatriar seu
ouro durante o segundo mandato de Trump.
Mas,
talvez, nas mentes de alguns governantes ecoem as palavras de Christine
Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, em um discurso no ano passado:
"Na história do sistema monetário internacional, há momentos em que os
alicerces que pareciam inabaláveis começam a tremer".
Fonte:
A Terra é Redonda/BBC News Mundo

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