terça-feira, 14 de abril de 2026

O extraordinário e a banalidade

Como poderia ser possível algo extraordinário ser visto como banal? Comungo da impressão de uma amiga de que a nova e já histórica missão à Lua passou como um meteoro silencioso entrecortando um universo de banalidades virtuais. Você também teve a sensação de que aquelas imagens sensacionais da superfície lunar eram tão transitórias como um reels de receita rápida, uma fofoca ou um vídeo de gato? Num hiato de segundos, apenas passamos por isso ou por tantas outras importâncias de um jeito banal.

Sou do tempo em que recortávamos jornais e revistas a fim de guardar fatos importantes, não só para revivê-los na memória, mas para, de alguma forma, transformá-los em perenes. Em tons de sépia e com resquícios de tinta de jornal guardávamos, numa caixa de afetos, lembranças como testemunhos do tempo vivido. Não se trata de um saudosismo aqui. Acho mesmo que o avanço da tecnologia é extraordinário, tanto quanto assustador, sobretudo pelo alcance desmedido e pelo acesso proporcionado.

Mas há algo de estarrecedor nas redes sociais. Os estudos já mostram como elas têm afetado a atenção, emburrecido uma geração, gerado transtornos e dependência, além de ter transformado o jeito como interagimos com o mundo. Em um tribunal da Califórnia, um júri popular estabeleceu um precedente inquietante ao reconhecer a responsabilidade civil de plataformas digitais por danos à saúde mental de usuários. O caso, movido por uma jovem de 20 anos que desenvolveu vício e depressão, expôs com nitidez o que as big techs há muito evitam admitir: a intencionalidade por trás de mecanismos de design pensados para capturar, reter e explorar a atenção.

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Rolando o feed, assistimos à missão Artemis II passar como mais um vulto, um instante que reteve a atenção por poucos minutos. Em algum lugar, vi que a live da Nasa chegou a reunir meio milhão de pessoas assistindo simultaneamente, seis vezes menos que uma transmissão recorde de Casimiro no Brasil. É uma comparação banal, sem critério ou rigor, mas não acredito que esteja muito longe da verdade. Viagem espacial não consegue mesmo rivalizar com futebol. A imprensa fez seu papel, inclusive nas redes, mas o recorde de proximidade com a Lua seguirá menos como um feito notável e mais uma coisinha qualquer, com direito a uma Lua colorida artificialmente pela IA.

De verdades e mentiras, a internet está cheia. Hoje, com algum cuidado, ainda saberemos o que é fake. Mas, e no futuro saberemos resgatar imagens e histórias antigas e conferir a sua veracidade? Será que no futuro alguém irá questionar se de fato ocorreu essa missão histórica? Posso estar exagerando, até porque a verdade encontra um jeito também de se eternizar em outros meios que não seja as nuvens virtuais.

O problema de se criar um mundo paralelo e até agora sem regras e limites é vivermos nele para sempre. Nas redes, passamos boa parte do tempo, interagimos, choramos em público, curtimos de forma protocolar, admiramos personagens, tangenciamos a verdade, cuspimos opinião sobre tudo, criamos provas contra nós mesmos, julgamos e condenamos como selvagens em praça pública.

•        Como diferenciar notícia de opinião e evitar cair em fake news

Saber a diferença entre uma notícia e um artigo de opinião é uma habilidade essencial para navegar no volume intenso de informações diárias. Distinguir um fato de uma análise pessoal é o primeiro passo para se proteger das fake news, que se espalham rapidamente e podem gerar desinformação em larga escala.

Uma notícia se concentra em relatar acontecimentos de forma objetiva. O texto jornalístico factual responde a perguntas básicas como: o quê, quem, quando, onde, como e por quê. O objetivo é apresentar os fatos de maneira imparcial, sem incluir o julgamento de valor do repórter.

Por outro lado, o artigo de opinião é, por natureza, subjetivo. Ele expressa a visão do autor sobre um determinado tema. Embora possa se basear em fatos, seu propósito principal é analisar, interpretar e convencer o leitor a concordar com um ponto de vista específico. É comum que esses textos sejam assinados por colunistas ou especialistas.

<><> Como diferenciar notícia de opinião na prática

Para identificar o que é fato e o que é análise, preste atenção a alguns elementos-chave. Notícias costumam apresentar diferentes lados de uma questão e citar fontes claras para as informações. A linguagem é direta e evita adjetivos que possam carregar um juízo de valor, como “excelente” ou “terrível”.

Já os textos de opinião usam com frequência a primeira pessoa (“eu acho”, “na minha visão”) e adjetivos que qualificam os fatos. O autor busca construir um argumento, usando a retórica para defender sua tese. Esses artigos geralmente aparecem em seções específicas de jornais e portais, identificadas como “Opinião”.

>>> Exemplo prático

# Notícia: “O Banco Central anunciou um aumento de 0,5 ponto percentual na taxa de juros, elevando-a para 13,75% ao ano. A decisão foi unânime entre os membros do Comitê de Política Monetária (Copom).” Este trecho apenas descreve o fato, sem emitir juízo de valor.

# Opinião: “O lamentável aumento da taxa de juros anunciado pelo Banco Central é um erro que vai prejudicar a economia. Na minha visão, essa medida freará o crescimento e punirá desnecessariamente os consumidores.” Aqui, o autor usa adjetivos como “lamentável” e expressões como “na minha visão” para expressar seu ponto de vista.

>>>> Dicas para evitar cair em fake news

       Verifique a fonte: a informação foi publicada por um veículo de imprensa conhecido e com credibilidade? Desconfie de blogs desconhecidos e sites com nomes parecidos aos de grandes portais.

       Leia a matéria completa: não se informe apenas pelo título. Muitas vezes, a manchete é sensacionalista e não corresponde ao conteúdo do texto.

       Procure a mesma notícia em outros lugares: se uma informação importante foi divulgada apenas por um único site, suspeite. Notícias relevantes são rapidamente repercutidas por diversos veículos.

       Cheque a data: verifique se a notícia é recente. É comum que conteúdos antigos sejam compartilhados como se fossem atuais para gerar confusão.

       Consulte agências de checagem: em caso de dúvida, recorra a plataformas especializadas em verificar a veracidade de informações, como Lupa e Aos Fatos.

 

Fonte: Por Ana Dubeux, no Correio Braziliense

 

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