Juliane
Furno: Endividamento das famílias e frustração da juventude impactam
popularidade de Lula
Estamos
diante de uma situação relativamente paradoxal. Enquanto os principais
indicadores da economia vão bem – menor taxa de desemprego da série histórica;
inflação baixa; crescimento do Produto Interno Bruto, o PIB; e elevação da
renda média e da massa salarial –, a percepção coletiva é de que as coisas vão
mal. Essa evidência fica clara com a pesquisa do Datafolha de março de 2026:
46% dos brasileiros identificaram que a situação econômica do país piorou nos
primeiros meses do ano. Isso é ligeiramente superior ao percentual de dezembro
de 2025, quando 41% afirmavam isso. Na outra ponta ocorre o mesmo. Em dezembro
de 2025, 29% das pessoas avaliavam que a economia melhorou e, em março de 2026,
o percentual caiu para 24%.
Na
esteira desse processo, mesmo com a
retomada de praticamente todos os programas sociais, o retorno da política de
valorização do salário mínimo, e a ampliação dos gastos públicos, ainda assim a
desaprovação do governo passou de 51,5% em fevereiro para 53,5% em março de
2026, segundo levantamento AtlasIntel/Bloomberg.
Acredito
que esse cenário precise ser mais bem qualificado. Não basta recorrer a
superficiais e corriqueiras premissas de que “o povo é burro”, nem mesmo que
esse resultado seja, unicamente, parte da ofensiva ideológica perpetrada pela
extrema direita e as demais frações da oposição antipetista. Quero, dessa
forma, compartilhar a seguinte reflexão: dois são os principais elementos que
podem explicar esse relativo paradoxo entre a melhoria econômica real e a
percepção negativa da situação econômica.
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Endividamento e inadimplência
O
primeiro deles refere-se à política monetária e à exorbitante taxa de juros da
economia, que nos situa na segunda posição de maior juro real do mundo. Em
primeiro lugar, o percentual de famílias que relataram que têm dívidas a
vencer, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, a
PEIC, foi de 80,2% no mês de fevereiro de 2026, e o indicador sinaliza uma
perspectiva de elevação gradual, já que esse resultado supera em 3,8 pontos
percentuais o resultado do ano passado. Esse indicador representa, nada menos,
que o maior nível de endividamento das famílias da série histórica.
Evidentemente
o endividamento por si só não é um problema, já que pode representar,
exatamente, a melhoria da confiança da economia. O percentual de melhora pode
induzir as famílias a tomar crédito e endividamento não significa
inadimplência.
No
entanto, quando desagregamos esses dados a situação fica pior. Atualmente 29,6% das famílias endividadas são
consideradas inadimplentes, por terem contas ou dívidas em atraso. O mês de
fevereiro de 2026 ainda apontou piora na percepção do endividamento, com
redução do percentual de pessoas que “não tinham dívidas desse tipo”, que está
em 19,7%. Mais uma vez, o pior resultado da série histórica.
Além
disso, o tempo com dívidas atrasadas também aumentou e chegou a 65,1 meses.
Para 49,5% das famílias endividadas, o atraso está sendo cada vez mais longo.
Dessa forma, estamos vivenciando uma situação perigosa. O aumento do
endividamento vem acompanhado da elevação da inadimplência em um período de
juros excessivamente elevados, o que vai incrementando o estoque total das
dívidas. Ainda segundo o Banco Central, o BC, houve elevação do custo do
crédito em modalidades muito presentes no orçamento doméstico, como cartão
parcelado, crédito pessoal não consignado, financiamento de veículos e
consignado privado. Em fevereiro, o BC destacou ainda a alta da taxa média do
cartão de crédito rotativo. Isso importa porque essas são linhas usadas
justamente quando a renda corrente não basta para fechar o mês.
O
jornal Valor Econômico, sugere que está se abrindo uma boca de jacaré entre as
duas variáveis: ou seja, segue o movimento de crescimento da renda, mas cresce
em uma velocidade menor o consumo das famílias. O que pode estar por trás dessa
inversão de tendência é, justamente, o peso do endividamento.
Para
completar o quadro, é justamente nas famílias com rendimentos de até 3 salários
mínimos que a inadimplência avançou mais no ano e naquelas com rendimentos
entre 3 e 5 salários mínimos que mais avançou no mês de fevereiro. Ou seja, a
hipótese é que, com elevado endividamento, inadimplência e comprometimento da
renda das famílias com parcelas cada vez mais elevadas, as pessoas não estão
“nem vendo a cor do dinheiro”. Dessa forma, eleva-se a renda média mensal, mas
o poder de compra permanece o mesmo, ou até se retrai, já que agora uma parcela
ainda maior do salário vai diretamente para o setor financeiro. Assim, é
possível que mesmo com emprego e com melhores salários, a sensação de que a
economia vai mal seja plenamente aceitável.
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Boa formação, salário insatisfatório
O
segundo elemento, de caráter mais estrutural e mais complexo, diz respeito à
sensação de que estamos vivendo pior. Parto da hipótese de que a atual geração
de jovens no Brasil será a primeira a viver pior do que viveram seus pais. E
mais, foi justamente a essa geração que ficou mais latente a promessa de
sucesso profissional, em boa medida possibilitada pelas políticas de acesso ao
ensino superior e pela sua expansão. Ocorre que a economia brasileira vive uma
fase de regressão da sua estrutura produtiva, assistindo ao declínio relativo
da indústria no PIB e no emprego total.
Segundo
o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, cerca de um em cada
três trabalhadores no Brasil teria formação acima da exigida pela função que
ocupa. Além disso, nos últimos 12 anos caiu 12% o salário médio de ocupações
que exigem ensino superior. Ou seja, a primeira de muitas gerações que
conseguiu acessar o ensino superior não necessariamente encontra postos de
trabalhos condizentes com seu nível de formação, e os que encontram ganham
menos que seus colegas mais velhos.
Segundo
dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, o Caged, olhando o
perfil recente de criação de vínculos empregatícios, o balanço de 2025 mostra
que a maior parte do saldo líquido das vagas de emprego ficou concentrado nas
faixas entre 1 e 1,5 salário mínimo. Do ponto de vista da ocupação, o maior
saldo veio dos serviços, seguido pelo comércio. Ou seja, onde historicamente se
concentram os empregos de menor valor agregado, que exigem menor qualificação e
que pagam os menores salários.
As
reformas trabalhista e previdenciária corroboram com essa sensação coletiva de
que a atual geração padecerá sob vínculos de emprego precários e/ou informais,
sem acesso ao conjunto dos direitos trabalhistas. Da outra ponta, nossa
perspectiva de aposentadoria também se distancia, não apenas porque teremos que
trabalhar mais anos, mas pela necessidade de anos comprovados em registro na
carteira de trabalho. Além disso, as incessantes tensões em torno da
desvinculação do valor das aposentadorias do salário mínimo nos levam à crença
de que mesmo quem conseguir se aposentar terá que seguir trabalhando até
morrer.
Além
disso, há uma sensação de que a recuperação atual da economia é insuficiente
para repor as perdas sofridas desde a última grande crise. O valor dos imóveis,
em função da elevada especulação imobiliária, faz do sonho da casa própria uma
perspectiva cada vez mais distante, o que amplia a frustração e a insegurança
da juventude.
Esses
podem ser elementos que explicam a rejeição em mais de 72% dos jovens com o
atual governo, segundo a pesquisa AtlasIntel/Bloomberg. A juventude demanda
transformações estruturais na sociedade, para que seja possível voltar a
almejar uma vida com perspectiva positiva de futuro.
Quem
está entregando essa promessa – ainda que extremamente demagógica – é a extrema
direita. É esse setor que materializa uma das mais famosas frases do seu maior
representante: “Eu vou mudar tudo o que tá aí, tá ok?”. É a extrema direita
quem tem se apresentado sob o manto da radicalidade, de ojeriza ao “velho” e se
travestido de “nova política”, compreendendo, portanto, os anseios por mudanças
de caráter mais estrutural. Mesmo que, repito, de forma demagógica e escondendo
seu conteúdo de classe.
Por
outro lado, à esquerda tem cabido o discurso da “ordem”, da defesa das
instituições e da democracia de forma pouco substantiva. Não quero negar a
importância dessas pautas, sobretudo em tempos de ofensiva neofascista. Quero
apenas problematizar que as palavras de ordem “reconstrução” e “seguir
avançando” parecem não ser suficientes para quem almeja uma mudança radical.
Precisamos retomar nossa capacidade de apresentar um projeto de transformação
estrutural. Voltar a ofertar uma utopia de sociedade. Apregoar a necessidade de
seguir avançando, mas de imprimir transformações reais, para retomar nossos
vínculos com a juventude brasileira.
• Mal-estar social e eleições. Por Marcelo
Zero
A
última pesquisa Datafolha para o segundo turno, na qual Flávio Bolsonaro
aparece com 46% e Lula com 45% — número que se repete se a eleição fosse
disputada com Ronaldo Caiado ou com Romeu Zema, que aparecem com 42% —
surpreendeu muita gente e semeou um sentimento de apreensão no governo e nos
partidos governistas. Mas não surpreendeu os poucos analistas que vêm adotando
um olhar crítico, chamando a atenção para a falta de comando, de sentido e para
a apatia política no terceiro mandato de Lula.
O
governo adotou uma embocadura errada desde o início. Assumiu de forma
desprevenida, sem aquela prontidão estratégica que se exige de quem tem o
controle do poder político. Foi surpreendido pelo 8 de janeiro, o que revelou
falta de prudência e de capacidade preditiva.
Na
sequência, o governo e o campo político-partidário que o apoiam adotaram um
rosário de renúncias de protagonismo político, terceirizando a luta pela
democracia e contra o golpismo ao STF. Negaram-se a impor uma derrota política
ao bolsonarismo por tudo o que ele representava de mal nas várias oportunidades
que surgiram.
O
defensivismo político, com repercussões graves na comunicação e na articulação
política no Congresso, foi a marca desse governo e do agregado de
centro-esquerda. Não dirigiram o bloco de aliança que se estendia ao centro.
Deixaram-se dirigir pelo centro.
Outro
erro de embocadura consistiu em que o governo Lula 3 não se assumiu como um
governo novo e inovador, capaz de colocar em marcha projetos concernentes à
inovação e à mudança. Colocou sua fantasia no passado, na repetição de fórmulas
que já tinham dado adeus, pois a realidade dos fatos e o rumo dos ventos haviam
mudado.
Entre
os governos petistas do passado e 2023, aconteceu o aprofundamento da revolução
tecnológica, da revolução digital e robótica, a uberização das relações de
trabalho, a informalização, novas leis e novas relações de trabalho, mudanças
na composição e estratificação social, mudanças culturais, emergência da
extrema-direita, fragmentação social... Em pouco tempo, o mundo, em suas coisas
e relações humanas, tornou-se outro.
O
governo Lula 3 nunca teve um comando político estratégico, um estado-maior
dirigente que fizesse uma gestão diária da política, dos riscos, das
insuficiências, dos embates, da governança e das crises. A crise do PIX é o
exemplo mais evidente dessa falha.
O
governo e os partidos de sustentação não perceberam que, aos poucos, foi se
instaurando um mal-estar social, produto de múltiplos fatores. O problema do
endividamento das famílias é apenas um deles. O governo foi incapaz de
percebê-lo a tempo. Só agora soou o alarme. O índice de endividamento é
monitorado mensalmente e, há meses, ele vem alto. Quer dizer: o governo dormiu
no ponto.
A lista
é longa: corrupção com as emendas, escândalos do Master e do INSS,
penduricalhos e supersalários, endividamento com as bets, controle da inflação
em um patamar alto dos preços dos produtos e juros elevados, feminicídios,
violência, facções criminosas e crise na segurança pública, degradação
ambiental e crise climática, secas e desastres naturais, alta tributação,
falhas na saúde e no saneamento, tarifaço e guerras externas.
Embora
o governo não esteja ligado a nenhum dos principais escândalos de corrupção, a
falta de um posicionamento claro fez com que eles, de alguma forma, resvalassem
para o seu colo. O governo e o PT, traumatizados psicologicamente, foram
incapazes de assumir de forma assertiva a agenda republicana do combate à
corrupção, aos penduricalhos e aos privilégios. Parte dessa agenda ficou com a
oposição, que apresenta diariamente Lula e o PT como corruptos.
O
resultado desse conjunto de problemas produziu um ambiente de mal-estar social,
caracterizado por angústias, insatisfações e sofrimentos generalizados. O
desalento político, a desconfiança nas instituições e níveis elevados de
ansiedade potencializam as sensações de degradação moral e social. Uma pesquisa
do Datafolha captou esses sentimentos: 59% dos brasileiros se sentem tristes,
61% estão desanimados e 61% sentem medo em relação ao futuro. A pesquisa do
IBGE com os adolescentes é aterradora: entre outros indicadores ruins, 22% dos
jovens sentiram vontade de se machucar.
O
problema das bets vai além do gasto e do endividamento. Vicia os jovens e cria
uma saída desastrosa para os idosos de baixa renda. Irritabilidade, sentimentos
de culpa, insônia, ansiedade, depressão e aumento do risco de suicídio são
algumas consequências doentias que esse crime legalizado proporciona.
Esse
ambiente de mal-estar não será superado com a promessa de “picanha com
cerveja”. Desde Aristóteles, sabe-se que a felicidade de uma polis requer a
combinação de bens materiais com bens espirituais; desde Maquiavel, sabe-se que
o bom governo precisa combinar autoridade e liberdade e uma série de outros
pares antinômicos; e, desde Gramsci, sabe-se que a hegemonia requer o
atendimento das necessidades e dos direitos, combinado com uma sutura de
natureza ideológica, ética, moral e cultural. Em outras palavras: o governo não
tem uma narrativa, não mobiliza afetos e paixões. Não aponta um caminho, uma
perspectiva de futuro, um viver comum melhor.
A
sociedade está perplexa, desorientada e se sente abandonada. O governo não a
ajuda a vislumbrar uma esperança, um caminho de superação. Essa omissão, essa
ausência de caminhos, alimenta a ousadia crescente da oposição. Reclamar que
ela mente e semeia o ódio chega a ser ridículo. Ela faz isso desde sempre. A
pergunta que cabe fazer é: qual a estratégia das esquerdas para rebater esses
ataques? A esquerda não pode ficar choramingando, dizendo “mamãe, o Flavinho
roubou meu pirulito”.
Mais
graves que os números das pesquisas eleitorais são os da avaliação do governo:
a avaliação negativa vem consistentemente superando a avaliação positiva. No
último Datafolha, 40% consideram o governo ruim ou péssimo, contra 29% que o
consideram bom ou ótimo.
Em 2023
e 2024, embora a avaliação negativa tivesse números relativamente altos, ela
não superava a avaliação positiva. A virada ocorreu no início de 2025 e, de lá
para cá, a avaliação negativa se manteve mais alta do que a positiva. Nada de
significativo foi feito para reverter essa tendência, que indica que a
sociedade quer mudar.
O
governo ainda tem tempo, meios, ativos, máquina e recursos para mudar esse jogo
a seu favor. Os problemas estão na ausência de comando e de capacidade e na
construção de um projeto com uma narrativa e um discurso persuasivos e
mobilizadores. Por enquanto, não surgiram sinais que indiquem a capacidade de
se fazer um bom diagnóstico e a vontade de triunfar.
Fonte:
The Intercept/Brasil 247

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