As
reações de bolsonaristas e governistas à prisão de Ramagem pelo ICE nos EUA
A prisão do
ex-deputado-federal e ex-delegado brasileiro Alexandre Ramagem pelo ICE, a
polícia migratória dos Estados Unidos, nesta segunda-feira (13/4),
gerou repercussões entre políticos à esquerda e à direita.
O nome
de maior vulto a se posicionar foi o ex-deputado Eduardo
Bolsonaro (PL-SP), que contrariou a versão da Polícia
Federal de que o colega teria sido preso na cidade de Orlando,
na Flórida, por ter status imigratório ilegal.
Segundo
o filho de Jair
Bolsonaro (PL), Ramagem tem status legal, aguarda a análise de
um pedido de asilo, teria sido preso por uma infração de trânsito e, portanto,
existe "boa expectativa" de que seja liberado em breve, em vez de
seguir para fila de deportação em voos que os EUA têm fretado com destino ao
Brasil.
Eduardo,
que vive nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025 e desde então tem ganhado
proximidade a interlocutores do governo de Donald Trump,
acrescentou que está trabalhando nos bastidores para que Ramagem seja solto.
"Não
se trata de uma prisão provocada pelo governo brasileiro em um processo de
extradição, mas sim porque ele provavelmente, supostamente, cometeu uma
infração de trânsito leve e acabou sendo levado para a delegacia, onde acabou
culminando na análise migratória do ICE", afirmou o ex-deputado em vídeo
publicado no Instagram.
"Isso
daí é uma detenção, não é uma prisão propriamente dita, mas há boa expectativa
de que ele seja solto e continue respondendo ao seu processo de asilo em
liberdade. Isso porque no momento em que nós nos encontramos já é consolidada a
perseguição do Alexandre de
Moraes, principalmente nos Estados
Unidos."
Oficialmente,
não se sabe qual foi o motivo da prisão. O Serviço de Imigração e Fiscalização
Aduaneira dos Estados Unidos, o chamado ICE, ou qualquer outra autoridade
americana ainda não se pronunciaram.
O
senador Jorge Seif (PL-SC) fez coro a Eduardo Bolsonaro e diz ter enviado um
documento à embaixada dos EUA no Brasil pedindo que o requerimento de asilo
político feito por Ramagem ganhe celeridade, dizendo que ele é um perseguido
político e corre risco se voltar ao país.
"É
inaceitável que os Estados Unidos da América, o grande pilar da democracia
ocidental e mundial, o maior poderio econômico, o maior poderio bélico, faça
uma deportação injusta, visto que o próprio presidente Donald Trump já disse
que existe uma caça às bruxas, um conluio no Supremo
Tribunal Federal, assim como ele sofreu nos EUA quando tinha perdido
a presidência da República. Ele sabe o que está acontecendo aqui", disse o
senador em vídeo publicado no Instagram.
Na
outra ponta, apoiadores de Lula ironizaram a prisão. Gleise Hoffman,
ex-presidente do Partido dos
Trabalhadores, disse que "essa turma que adora Trump está
sentindo na pele o que é governo autoritário e de extrema-direita".
"Que seja deportado ao Brasil para cumprir sua pena por tentativa de golpe
de Estado", ela escreveu nas redes sociais
Líder
do PT na Câmara, o deputado Pedro Uczai (PT-SC) disse que Ramagem "fugiu
do Brasil para escapar da Justiça, mas acabou sendo detido justamente no país
que tanto idolatrava".
O mesmo
tom foi adotado pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), vice-líder do governo
na Câmara, que compartilhou um vídeo nas redes. "Em novembro, pedi para
ele ser colocado na lista da Interpol, pedindo a extradição dele. Agora, olha a
ironia: eles, que defendem tanto o Trump, foram presos pelo ICE, a polícia que
cuida de imigração e da alfândega, aquela polícia extremamente violenta."
Guilherme
Boulos, ministro da Secretaria-Geral da Presidência, escreveu que
este era um "grande dia", uma referência à publicação que Bolsonaro
fez no X, antigo Twitter, quando Lula foi condenado em uma das ações movidas
contra ele, em janeiro de 2019.
O
ex-ministro José Dirceu (PT)
afirmou que "nem Trump está protegendo os bolsonaristas" e que
"a tentativa de golpe não passará impune".
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Por que Ramagem fugiu do Brasil
Alexandre
Ramagem era considerado
foragido desde setembro, quando a Primeira Turma do STF o condenou a
16 anos de prisão pelos crimes de organização criminosa armada, golpe de Estado
e tentativa de abolição violenta do Estado de Direito, na mesma ação que condenou o
ex-presidente Bolsonaro.
Em
novembro, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, decretou a
prisão preventiva de Ramagem. Seu mandato
foi cassado em dezembro, junto com o de Eduardo Bolsonaro.
Em 15
de dezembro, Moraes pediu aos EUA a extradição do deputado cassado, que também
teve seu passaporte diplomático cancelado pela Câmara dos Deputados.
O
diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, disse à BBC News Brasil que Ramagem saiu
do Brasil de forma clandestina, pela fronteira com a Guiana, e usou passaporte
diplomático para entrar nos EUA.
Ele
teria viajado de avião para Boa Vista, em Roraima, de onde partiu de carro, em
uma viagem clandestina em direção à fronteira.
Segundo
a denúncia da Procuradoria Geral da República que levou ao julgamento e
condenação de Ramagem, o ex-deputado teria usado a estrutura da Abin em favor
dos planos golpistas — comandando uma "Abin paralela" que monitorava
adversários e críticos do governo Bolsonaro, além de produzir informações
falsas e ataques virtuais.
Além
disso, Ramagem teria fornecido a Jair Bolsonaro material para apoiar o ataque
às urnas eletrônicas e a intervenção das Forças Armadas.
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O que acontece agora
A BBC
News Brasil apurou que a expectativa da PF é que Ramagem seja deportado ao
Brasil após passar por uma audiência junto a um juiz de assuntos migratórios.
Sua
defesa, porém, poderá argumentar que ele seria alvo de perseguição política,
argumento usado por outros condenados pelos atos de 8 de janeiro em processos
semelhantes em países como a Argentina.
Uma
fonte da PF avalia que sua defesa poderá, se ainda não o fez, requerer asilo
político nos EUA.
Caso
seu argumento seja acolhido, o processo de deportação de Ramagem poderá ser
suspenso. Do contrário, a expectativa é de que Ramagem seja enviado ao Brasil
nos próximos meses ou semanas.
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Como a PF diz ter articulado a prisão de Ramagem pelo ICE
nos Estados Unidos
A prisão do
ex-deputado federal e ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin)
Alexandre Ramagem, nesta segunda-feira (13/4), aconteceu após meses
de articulação entre a Polícia Federal e autoridades migratórias americanas,
segundo uma fonte com conhecimento das tratativas disse à BBC News Brasil.
A
estratégia, segundo essa fonte, foi aproveitar o suposto status irregular
de Ramagem nos Estados
Unidos para que ele fosse preso e enviado ao Brasil para
cumprir sua pena por crimes relacionados aos atos de 8 de janeiro
de 2023.
Ele foi
condenado a 16 anos de prisão no caso que apurou uma tentativa de golpe de
Estado após a derrota do ex-presidente Jair
Bolsonaro (PL) para o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT), em 2022.
Ramagem
foi condenado pelos crimes de organização criminosa armada, tentativa de
abolição violenta do Estado de Direito e golpe de Estado. Ele também foi
demitido da Polícia Federal, onde era delegado. Ao longo do processo, sua
defesa alegou sua inocência.
Esse
"atalho" para ter Ramagem de volta ao Brasil, segundo essa fonte, foi
uma forma de contornar a demora na avaliação do pedido de extradição já feito
pelo Brasil contra Ramagem e sua possível rejeição.
Em
dezembro de 2025, já após o fim da etapa de recursos sobre sua condenação, o
ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, emitiu uma
ordem de extradição contra Ramagem.
As
autoridades brasileiras encaminharam o pedido de extradição aos Estados Unidos,
mas ainda não haviam tido resposta sobre se o país aceitaria a solicitação do
STF ou não.
O temor
entre investigadores e autoridades brasileiras é de que o pedido de extradição
de Ramagem tivesse o mesmo destino que pedidos feitos anteriormente contra os
blogueiros Alan dos
Santos e Oswaldo Eustáquio.
de
extradição foi feito em 2021 e nunca foi cumprido pelos americanos.
Nos
bastidores, o argumento dado pelos EUA para não cumprirem a determinação da
Justiça brasileira era o fato de que os crimes pelos quais Santos é investigado
no Brasil não seriam crimes nos Estados Unidos.
No caso
de Eustáquio, a Justiça da Espanha negou, em 2025, o pedido brasileiro sob
argumento semelhante.
O temor
dos investigadores brasileiros se dá porque, nos Estados Unidos, a decisão
final sobre a extradição de alguém é do Secretário de Estado, cargo atualmente
exercido por Marco Rubio.
Rubio,
por sua vez, tem proximidade com integrantes da família Bolsonaro e já criticou
abertamente decisões de Alexandre de Moraes e o julgamento do ex-presidente
Bolsonaro pelos atos de 8 de janeiro.
De
acordo com essa fonte, Ramagem vinha sendo monitorado por autoridades
brasileiras desde que fugiu para os Estados Unidos. Segundo os investigadores
da Polícia Federal, Ramagem e sua família teriam deixado o Brasil pela divisa
do país com a Guiana, no Estado de Roraima.
De lá,
eles seguiram para os Estados Unidos.
Diante
de um possível impasse, um agente de ligação da PF situado na Flórida repassou
informações sobre o paradeiro de Ramagem e sua situação criminal no Brasil para
o ICE.
A
agência ficou conhecida por intensificar suas blitzes em diversas cidades
americanas em busca de imigrantes em situação irregular após o início do
segundo mandato de Donald Trump.
Segundo
a fonte ouvida pela BBC News Brasil, as informações sobre Ramagem foram
repassadas há alguns meses, mas só agora a agência teria atuado para prender o
ex-deputado federal.
Em nota
oficial divulgada nesta segunda-feira, a PF não menciona Ramagem, mas cita que
a prisão de um "condenado" pelos atos de 8 de janeiro teria ocorrido
em Orlando após cooperação internacional.
"A
prisão decorreu de cooperação policial internacional entre a Polícia Federal e
as autoridades policiais dos EUA. O preso é considerado foragido da Justiça
brasileira após condenação pelos crimes de organização criminosa armada, de
golpe de Estado e de tentativa de abolição violenta do Estado de Direito",
disse a nota.
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Aliado contesta versão da PF
Por
outro lado, o jornalista e empresário Paulo Figueiredo usou suas redes sociais
para contestar a versão de que a prisão de Ramagem nos Estados Unidos teria
sido resultado de cooperação entre autoridades brasileiras e americanas.
Em uma
publicação em seu perfil no X (antigo Twitter), Paulo Figueiredo diz que a
prisão de Ramagem se deu por uma infração de trânsito e que seu status
migratório nos EUA seria legal, uma vez que Ramagem teria ingressado com um
pedido de asilo no país.
"Para
deixar absolutamente claro: o governo brasileiro não teve qualquer participação
nesse episódio. Trata-se de um procedimento padrão da imigração americana. Isso
não tem absolutamente nada a ver com o pedido de extradição do Brasil, que
segue em análise no Departamento de Estado", disse Figueiredo.
A BBC
News Brasil enviou questionamentos para o ICE e para o Departamento de
Segurança Interna dos Estados Unidos, mas não obteve resposta.
A BBC
News Brasil também enviou questionamentos ao advogado de Ramagem no Brasil,
Paulo Cintra Pinto, mas ele também não enviou resposta.
Segundo
a BBC News Brasil apurou, ainda não está claro quando ou se Ramagem será
enviado ao Brasil. Os próximos passos após sua detenção serão passar por uma
audiência junto a um juiz especializado em questões migratórias.
Caso já
haja um pedido de asilo político, como mencionado por Figueiredo, seus
advogados poderão alegar que Ramagem é perseguido politicamente no Brasil e
pedir que ele aguarde o trâmite do seu pedido de asilo nos Estados Unidos.
Caso
esse pedido seja rejeitado, porém, ele poderá entrar na fila das deportações
realizadas pelos Estados Unidos ao Brasil em voos fretados.
Fonte:
BBC News Brasil

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