terça-feira, 14 de abril de 2026

As reações de bolsonaristas e governistas à prisão de Ramagem pelo ICE nos EUA

prisão do ex-deputado-federal e ex-delegado brasileiro Alexandre Ramagem pelo ICE, a polícia migratória dos Estados Unidos, nesta segunda-feira (13/4), gerou repercussões entre políticos à esquerda e à direita.

O nome de maior vulto a se posicionar foi o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que contrariou a versão da Polícia Federal de que o colega teria sido preso na cidade de Orlando, na Flórida, por ter status imigratório ilegal.

Segundo o filho de Jair Bolsonaro (PL), Ramagem tem status legal, aguarda a análise de um pedido de asilo, teria sido preso por uma infração de trânsito e, portanto, existe "boa expectativa" de que seja liberado em breve, em vez de seguir para fila de deportação em voos que os EUA têm fretado com destino ao Brasil.

Eduardo, que vive nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025 e desde então tem ganhado proximidade a interlocutores do governo de Donald Trump, acrescentou que está trabalhando nos bastidores para que Ramagem seja solto.

"Não se trata de uma prisão provocada pelo governo brasileiro em um processo de extradição, mas sim porque ele provavelmente, supostamente, cometeu uma infração de trânsito leve e acabou sendo levado para a delegacia, onde acabou culminando na análise migratória do ICE", afirmou o ex-deputado em vídeo publicado no Instagram.

"Isso daí é uma detenção, não é uma prisão propriamente dita, mas há boa expectativa de que ele seja solto e continue respondendo ao seu processo de asilo em liberdade. Isso porque no momento em que nós nos encontramos já é consolidada a perseguição do Alexandre de Moraes, principalmente nos Estados Unidos."

Oficialmente, não se sabe qual foi o motivo da prisão. O Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos Estados Unidos, o chamado ICE, ou qualquer outra autoridade americana ainda não se pronunciaram.

O senador Jorge Seif (PL-SC) fez coro a Eduardo Bolsonaro e diz ter enviado um documento à embaixada dos EUA no Brasil pedindo que o requerimento de asilo político feito por Ramagem ganhe celeridade, dizendo que ele é um perseguido político e corre risco se voltar ao país.

"É inaceitável que os Estados Unidos da América, o grande pilar da democracia ocidental e mundial, o maior poderio econômico, o maior poderio bélico, faça uma deportação injusta, visto que o próprio presidente Donald Trump já disse que existe uma caça às bruxas, um conluio no Supremo Tribunal Federal, assim como ele sofreu nos EUA quando tinha perdido a presidência da República. Ele sabe o que está acontecendo aqui", disse o senador em vídeo publicado no Instagram.

Na outra ponta, apoiadores de Lula ironizaram a prisão. Gleise Hoffman, ex-presidente do Partido dos Trabalhadores, disse que "essa turma que adora Trump está sentindo na pele o que é governo autoritário e de extrema-direita". "Que seja deportado ao Brasil para cumprir sua pena por tentativa de golpe de Estado", ela escreveu nas redes sociais

Líder do PT na Câmara, o deputado Pedro Uczai (PT-SC) disse que Ramagem "fugiu do Brasil para escapar da Justiça, mas acabou sendo detido justamente no país que tanto idolatrava".

O mesmo tom foi adotado pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), vice-líder do governo na Câmara, que compartilhou um vídeo nas redes. "Em novembro, pedi para ele ser colocado na lista da Interpol, pedindo a extradição dele. Agora, olha a ironia: eles, que defendem tanto o Trump, foram presos pelo ICE, a polícia que cuida de imigração e da alfândega, aquela polícia extremamente violenta."

Guilherme Boulos, ministro da Secretaria-Geral da Presidência, escreveu que este era um "grande dia", uma referência à publicação que Bolsonaro fez no X, antigo Twitter, quando Lula foi condenado em uma das ações movidas contra ele, em janeiro de 2019.

O ex-ministro José Dirceu (PT) afirmou que "nem Trump está protegendo os bolsonaristas" e que "a tentativa de golpe não passará impune".

<><> Por que Ramagem fugiu do Brasil

Alexandre Ramagem era considerado foragido desde setembro, quando a Primeira Turma do STF o condenou a 16 anos de prisão pelos crimes de organização criminosa armada, golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do Estado de Direito, na mesma ação que condenou o ex-presidente Bolsonaro.

Em novembro, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, decretou a prisão preventiva de RamagemSeu mandato foi cassado em dezembro, junto com o de Eduardo Bolsonaro.

Em 15 de dezembro, Moraes pediu aos EUA a extradição do deputado cassado, que também teve seu passaporte diplomático cancelado pela Câmara dos Deputados.

O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, disse à BBC News Brasil que Ramagem saiu do Brasil de forma clandestina, pela fronteira com a Guiana, e usou passaporte diplomático para entrar nos EUA.

Ele teria viajado de avião para Boa Vista, em Roraima, de onde partiu de carro, em uma viagem clandestina em direção à fronteira.

Segundo a denúncia da Procuradoria Geral da República que levou ao julgamento e condenação de Ramagem, o ex-deputado teria usado a estrutura da Abin em favor dos planos golpistas — comandando uma "Abin paralela" que monitorava adversários e críticos do governo Bolsonaro, além de produzir informações falsas e ataques virtuais.

Além disso, Ramagem teria fornecido a Jair Bolsonaro material para apoiar o ataque às urnas eletrônicas e a intervenção das Forças Armadas.

<><> O que acontece agora

A BBC News Brasil apurou que a expectativa da PF é que Ramagem seja deportado ao Brasil após passar por uma audiência junto a um juiz de assuntos migratórios.

Sua defesa, porém, poderá argumentar que ele seria alvo de perseguição política, argumento usado por outros condenados pelos atos de 8 de janeiro em processos semelhantes em países como a Argentina.

Uma fonte da PF avalia que sua defesa poderá, se ainda não o fez, requerer asilo político nos EUA.

Caso seu argumento seja acolhido, o processo de deportação de Ramagem poderá ser suspenso. Do contrário, a expectativa é de que Ramagem seja enviado ao Brasil nos próximos meses ou semanas.

¨      Como a PF diz ter articulado a prisão de Ramagem pelo ICE nos Estados Unidos

prisão do ex-deputado federal e ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Alexandre Ramagem, nesta segunda-feira (13/4), aconteceu após meses de articulação entre a Polícia Federal e autoridades migratórias americanas, segundo uma fonte com conhecimento das tratativas disse à BBC News Brasil.

A estratégia, segundo essa fonte, foi aproveitar o suposto status irregular de Ramagem nos Estados Unidos para que ele fosse preso e enviado ao Brasil para cumprir sua pena por crimes relacionados aos atos de 8 de janeiro de 2023.

Ele foi condenado a 16 anos de prisão no caso que apurou uma tentativa de golpe de Estado após a derrota do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 2022.

Ramagem foi condenado pelos crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado de Direito e golpe de Estado. Ele também foi demitido da Polícia Federal, onde era delegado. Ao longo do processo, sua defesa alegou sua inocência.

Esse "atalho" para ter Ramagem de volta ao Brasil, segundo essa fonte, foi uma forma de contornar a demora na avaliação do pedido de extradição já feito pelo Brasil contra Ramagem e sua possível rejeição.

Em dezembro de 2025, já após o fim da etapa de recursos sobre sua condenação, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, emitiu uma ordem de extradição contra Ramagem.

As autoridades brasileiras encaminharam o pedido de extradição aos Estados Unidos, mas ainda não haviam tido resposta sobre se o país aceitaria a solicitação do STF ou não.

O temor entre investigadores e autoridades brasileiras é de que o pedido de extradição de Ramagem tivesse o mesmo destino que pedidos feitos anteriormente contra os blogueiros Alan dos Santos e Oswaldo Eustáquio.

de extradição foi feito em 2021 e nunca foi cumprido pelos americanos.

Nos bastidores, o argumento dado pelos EUA para não cumprirem a determinação da Justiça brasileira era o fato de que os crimes pelos quais Santos é investigado no Brasil não seriam crimes nos Estados Unidos.

No caso de Eustáquio, a Justiça da Espanha negou, em 2025, o pedido brasileiro sob argumento semelhante.

O temor dos investigadores brasileiros se dá porque, nos Estados Unidos, a decisão final sobre a extradição de alguém é do Secretário de Estado, cargo atualmente exercido por Marco Rubio.

Rubio, por sua vez, tem proximidade com integrantes da família Bolsonaro e já criticou abertamente decisões de Alexandre de Moraes e o julgamento do ex-presidente Bolsonaro pelos atos de 8 de janeiro.

De acordo com essa fonte, Ramagem vinha sendo monitorado por autoridades brasileiras desde que fugiu para os Estados Unidos. Segundo os investigadores da Polícia Federal, Ramagem e sua família teriam deixado o Brasil pela divisa do país com a Guiana, no Estado de Roraima.

De lá, eles seguiram para os Estados Unidos.

Diante de um possível impasse, um agente de ligação da PF situado na Flórida repassou informações sobre o paradeiro de Ramagem e sua situação criminal no Brasil para o ICE.

A agência ficou conhecida por intensificar suas blitzes em diversas cidades americanas em busca de imigrantes em situação irregular após o início do segundo mandato de Donald Trump.

Segundo a fonte ouvida pela BBC News Brasil, as informações sobre Ramagem foram repassadas há alguns meses, mas só agora a agência teria atuado para prender o ex-deputado federal.

Em nota oficial divulgada nesta segunda-feira, a PF não menciona Ramagem, mas cita que a prisão de um "condenado" pelos atos de 8 de janeiro teria ocorrido em Orlando após cooperação internacional.

"A prisão decorreu de cooperação policial internacional entre a Polícia Federal e as autoridades policiais dos EUA. O preso é considerado foragido da Justiça brasileira após condenação pelos crimes de organização criminosa armada, de golpe de Estado e de tentativa de abolição violenta do Estado de Direito", disse a nota.

<><> Aliado contesta versão da PF

Por outro lado, o jornalista e empresário Paulo Figueiredo usou suas redes sociais para contestar a versão de que a prisão de Ramagem nos Estados Unidos teria sido resultado de cooperação entre autoridades brasileiras e americanas.

Em uma publicação em seu perfil no X (antigo Twitter), Paulo Figueiredo diz que a prisão de Ramagem se deu por uma infração de trânsito e que seu status migratório nos EUA seria legal, uma vez que Ramagem teria ingressado com um pedido de asilo no país.

"Para deixar absolutamente claro: o governo brasileiro não teve qualquer participação nesse episódio. Trata-se de um procedimento padrão da imigração americana. Isso não tem absolutamente nada a ver com o pedido de extradição do Brasil, que segue em análise no Departamento de Estado", disse Figueiredo.

A BBC News Brasil enviou questionamentos para o ICE e para o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, mas não obteve resposta.

A BBC News Brasil também enviou questionamentos ao advogado de Ramagem no Brasil, Paulo Cintra Pinto, mas ele também não enviou resposta.

Segundo a BBC News Brasil apurou, ainda não está claro quando ou se Ramagem será enviado ao Brasil. Os próximos passos após sua detenção serão passar por uma audiência junto a um juiz especializado em questões migratórias.

Caso já haja um pedido de asilo político, como mencionado por Figueiredo, seus advogados poderão alegar que Ramagem é perseguido politicamente no Brasil e pedir que ele aguarde o trâmite do seu pedido de asilo nos Estados Unidos.

Caso esse pedido seja rejeitado, porém, ele poderá entrar na fila das deportações realizadas pelos Estados Unidos ao Brasil em voos fretados.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

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