A
armadilha do produtivismo na agricultura moderna
Durante
décadas, uma narrativa orientou o pensamento agrícola mundial: a de que a
ciência e a tecnologia seriam capazes de expandir indefinidamente a produção de
alimentos. Novas sementes, fertilizantes mais eficientes, mecanização e, mais
recentemente, biotecnologia e agricultura digital reforçaram a convicção de que
a produtividade agrícola poderia crescer continuamente, acompanhando o aumento
da população e da renda global.
Essa
percepção tende, inclusive, a se fortalecer nos próximos anos. O rápido avanço
de tecnologias como a inteligência artificial, a nanociência, a computação
quântica, a biologia sintética e o surgimento de novas fontes abundantes de
energia de baixo custo alimentam a expectativa de que barreiras produtivas
historicamente relevantes possam ser superadas.
Nessa
visão, sistemas agrícolas mais automatizados e intensivos em conhecimento
passariam a operar com maior eficiência no uso de recursos e a ampliar a
eficiência biológica das plantas, expandindo a produção de alimentos a níveis
antes considerados inalcançáveis. Com isso, reforça-se a crença de que a
inovação científica pode continuamente deslocar para frente os limites da
produção agrícola.
Essa
confiança se sustenta na história recente da agricultura, que mostra
transformações profundas impulsionadas pela inovação. A chamada Revolução
Verde, a expansão da agricultura tropical e os ganhos contínuos de
produtividade demonstraram que o conhecimento científico pode transformar
radicalmente a capacidade de produção de alimentos. Em muitas regiões do mundo,
esses avanços contribuíram para reduzir a fome e ampliar a oferta de alimentos.
Entretanto,
à medida que o século 21 avança, torna-se cada vez mais evidente que essa
trajetória encontra limites biofísicos que não podem ser ignorados. A produção
agrícola depende de recursos naturais finitos — solos, água, clima estável,
biodiversidade e o funcionamento equilibrado dos ciclos naturais. Quando esses
sistemas são pressionados além de certos limiares, sua capacidade de sustentar
a produção de alimentos começa a se deteriorar.
É nesse
contexto que se torna evidente a chamada "armadilha
produtivista". A ideia de que
produzir cada vez mais, a custos menores, resolveria o problema da fome não se
sustenta. A persistência da insegurança alimentar está muito mais associada à
pobreza, à desigualdade e às falhas de acesso e distribuição do que à
insuficiência global de alimentos.
Quando
se transfere para a agricultura a responsabilidade por essas falhas, ela passa
a operar sob pressão permanente para expandir a produção e reduzir custos. Essa
pressão, por sua vez, entra em choque com exigências crescentes de
sustentabilidade. A agricultura contemporânea precisa, simultaneamente, reduzir
emissões, conservar biodiversidade, proteger água e solos, além de garantir
renda aos produtores. Esperar que tudo isso seja compatível com alimentos
permanentemente baratos é ignorar a complexidade do sistema.
O
resultado é um impasse estratégico. Práticas mais sustentáveis muitas vezes são
vistas como risco à segurança alimentar, enquanto modelos intensivos continuam
sendo justificados pela necessidade de garantir oferta e preços baixos. Esse
enquadramento distorce prioridades e dificulta a transição para sistemas
produtivos mais resilientes.
Por
essa razão, torna-se cada vez mais necessário repensar o próprio enquadramento
da segurança alimentar. Garantir que todas as pessoas tenham acesso a alimentos
adequados é, antes de tudo, uma questão de organização social, política
econômica e justiça distributiva. Sistemas eficazes de proteção social,
políticas de renda, programas nutricionais e mecanismos que reduzam
desigualdades podem desempenhar um papel muito mais direto na erradicação da
fome do que simplesmente buscar aumentar indefinidamente a oferta global de
alimentos.
Liberar
a agricultura da expectativa de resolver sozinha o problema da segurança
alimentar não significa abandonar a busca por eficiência e produtividade.
Significa, antes, permitir que a ciência agrícola concentre seus esforços nos
desafios que se tornam cada vez mais centrais neste século: a sustentabilidade
dos sistemas produtivos, a conservação dos recursos naturais, a adaptação às
mudanças climáticas e o fortalecimento da resiliência das paisagens agrícolas.
O
avanço tecnológico continuará sendo um aliado essencial. Mas ele não substitui
os limites ecológicos dentro dos quais a produção ocorre. Ignorar essa
realidade pode levar a ganhos de curto prazo à custa de perdas estruturais no
longo prazo. A agricultura do século 21
será definida menos pela capacidade de expandir indefinidamente a produção e
mais pela habilidade de produzir dentro dos limites que garantem sua própria
continuidade. Ir além do imperativo produtivista não significa abrir mão do
progresso, mas criar condições para que ele se sustente ao longo do tempo.
Fonte:
Por Maurício Antônio Lopes, no Correio Braziliense

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