Atendimento
por IA irrita consumidores e dificulta solução de problemas
Ficar
preso em robôs, repetir informações e não conseguir resolver o próprio
problema: o que deveria facilitar tem irritado consumidores que tentam
atendimento por chatbots e inteligência artificial (IA) no Brasil. Com
respostas automáticas, demora e falta de solução, falar com um atendente humano
nos call centers virou quase um desafio. Um levantamento da Locaweb mostra que
58,6% dos entrevistados apontam a demora como principal falha nesses canais,
enquanto 73,2% ainda preferem ser atendidos por pessoas. O DIA explica quando
esse tipo de uso da tecnologia pode ser considerada abusiva, o que diz a lei e
como o consumidor pode exigir uma solução de verdade.
A
insatisfação com o atendimento digital está longe de ser pontual e tem impacto
direto na relação entre consumidor e empresa. Segundo a pesquisa, mensagens
genéricas que não resolvem a demanda são apontadas por 55% dos entrevistados
como uma das principais falhas, enquanto 44,4% relatam atendimentos encerrados
sem solução. Na prática, o cenário descrito pelos usuários é de desgaste: o
consumidor entra em contato, mas sai sem resposta adequada.
Esse
tipo de experiência tem consequências imediatas. De acordo com o levantamento
da Locaweb, 31,8% dos consumidores afirmam expor a insatisfação em avaliações
públicas, como no Google e em plataformas de reclamação. Outros 23,6% abandonam
o site ou aplicativo da empresa e procuram um concorrente, enquanto 21% tentam
resolver o problema por outro canal, como e-mail ou chat — o que prolonga ainda
mais a jornada.
O
impacto, porém, vai além do momento da reclamação. Seis em cada dez
consumidores (58,8%) dizem evitar novas compras após um mau atendimento, e
23,6% afirmam deixar de recomendar a marca para outras pessoas. Apenas uma
parcela menor, de 11,6%, se mostra disposta a dar uma nova chance, mesmo quando
o problema é resolvido posteriormente — um indicativo de como o atendimento
pesa na construção da confiança.
Apesar
do avanço da tecnologia, a preferência pelo contato humano ainda é dominante. A
pesquisa mostra que 73,2% dos consumidores gostariam ser atendidos por pessoas,
enquanto 22,6% dizem não ter preferência. O dado reforça a percepção de que,
embora os canais digitais estejam cada vez mais presentes, eles ainda não
conseguem substituir completamente a interação humana, principalmente em
situações mais complexas.
Além da
forma de atendimento, os canais influenciam a experiência. O WhatsApp aparece
como principal meio de contato, citado por 83,8% dos entrevistados — seguido
por e-mail (54,4%) e Instagram (53,4%). O chat nos sites é utilizado por 45,2%,
mostrando que o consumidor espera ter mais de uma opção para buscar suporte.
A
qualidade da estrutura digital também entra na conta. Para 65,8% dos
consumidores, sites estáveis, sem quedas ou travamentos, são essenciais no
momento do atendimento. Já 60,6% destacam a importância de páginas adaptadas
para dispositivos móveis, enquanto 48,6% apontam a segurança dos dados (com uso
de protocolos como HTTPS) como fator relevante na experiência.
Diante
desse cenário, especialistas apontam que o desafio das empresas está em
equilibrar tecnologia e atendimento humanizado.
"Ferramentas
digitais e soluções de IA são fundamentais para ganhar escala e eficiência, mas
o consumidor ainda valoriza o contato humano, principalmente em situações mais
sensíveis", afirma Pedro Braga, diretor de Produtos Tech da Locaweb.
Na
mesma linha, Glauco Oliveira, diretor de Experiência do Cliente da empresa,
destaca que conciliar automação com "personalização deve ser um
diferencial competitivo nos próximos anos".
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Quando o robô não resolve
A
analista administrativa Mariana Souza, de 32 anos, passou mais de uma hora
tentando cancelar uma assinatura de R$ 39,90 na Netflix e sem sucesso.
"Eu
só queria cancelar. Era uma coisa simples, um valor pequeno, mas o chat ficava
me jogando de uma opção pra outra, sempre com respostas prontas que não
resolviam nada", conta.
O
motorista de aplicativo Carlos Henrique Alves, de 41 anos, enfrentou
dificuldades para contestar uma cobrança indevida de R$ 87,50 na fatura da
Claro.
"Eu
só queria falar com uma pessoa. Mas era um labirinto. Você vai clicando,
clicando, e nunca chega em alguém de verdade", reclama.
Já a
estudante Juliana Ribeiro, de 27 anos, tentou trocar um produto de R$ 129
comprado na Amazon, mas encontrou barreiras no atendimento.[
"O
desgaste é muito maior do que o problema. Quando finalmente consegui falar com
alguém, resolveram rápido. Então por que não facilitar desde o início?",
questiona.
Procuradas
pela reportagem, as empresas citadas não retornaram. O espaço segue aberto para
manifestação.
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O que diz a lei
Do
ponto de vista legal, o consumidor não está desprotegido. A Secretaria
Municipal de Proteção e Defesa do Consumidor, por meio do Procon Carioca,
esclareceu ao O DIA que existe uma legislação específica que regula os Serviços
de Atendimento ao Cliente (SAC) das empresas.
"A
legislação determina que o atendimento deve ser eficiente, acessível e
resolutivo, garantindo ao consumidor canais gratuitos, disponibilidade adequada
e a possibilidade de registrar reclamações, cancelar serviços e obter
informações de forma clara e ágil", informa o órgão por meio de nota.
Entre
as regras, estão a obrigatoriedade de atendimento em tempo razoável, a
proibição de práticas que dificultem o cancelamento e o dever de fornecer
protocolos de atendimento, que permitem ao consumidor acompanhar sua
solicitação.
"A
norma também prevê que o consumidor não pode ser submetido a barreiras
excessivas ou transferências indevidas, sendo responsabilidade da empresa
garantir a efetiva solução da solicitação apresentada", destaca o Procon
Carioca.
Segundo
o órgão, o descumprimento dessas regras pode resultar em sanções, como multas e
outras medidas administrativas.
O
Procon Carioca orienta ainda que o consumidor guarde os números de protocolo e
registre reclamação nos canais oficiais sempre que seus direitos não forem
respeitados. Apesar disso, o órgão informa que não há, até o momento, registro
específico de irregularidades relacionadas diretamente ao uso de atendimento
automatizado.
A
ausência de dados, no entanto, pode estar ligada à baixa formalização das
queixas: muitos consumidores acabam desistindo de denunciar diante da
dificuldade de atendimento ou por acreditar que o problema não será resolvido,
especialmente em casos de valores menores, como R$ 10, R$ 50 ou R$ 100.
Publicidade
Ainda
assim, o Procon reforça que, independentemente do valor ou da complexidade da
demanda, é possível buscar solução por meio dos órgãos de defesa do consumidor.
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Tema está no radar
No
âmbito federal, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) do Ministério da
Justiça também acompanha o avanço do uso de inteligência artificial no
atendimento ao cliente. Em resposta ao O DIA, a secretaria informou que ainda
não há um recorte específico nos sistemas que permita identificar, de forma
isolada, o aumento de reclamações diretamente relacionadas ao uso de IA.
Apesar
disso, o problema já aparece de forma indireta em diversas demandas. Segundo o
órgão, queixas sobre dificuldade de acesso a atendimento humano, baixa
resolutividade e falhas na prestação de serviço têm relação com o modelo atual
de atendimento digital.
"A
incorporação de IA nos canais de atendimento é uma realidade irreversível, mas
deve ser compatível com os direitos básicos previstos no Código de Defesa do
Consumidor, em especial os de informação adequada, transparência e efetiva
resolução de demandas", destaca a secretaria.
"O
uso de IA pode, em determinadas circunstâncias, configurar obstáculo ao
exercício de direitos, especialmente quando impede ou dificulta o acesso a
soluções efetivas, à revisão de cobranças ou ao cancelamento de serviços",
alerta.
A
Senacon frisa que segue monitorando a evolução dessas práticas e tem atuado em
temas relacionados ao uso de tecnologia nas relações de consumo, incluindo
medidas voltadas à inteligência artificial e à proteção de dados dos usuários.
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Teste na prática
Para
entender na prática o impacto do atendimento automatizado, a reportagem
realizou um teste em canais digitais de empresas de grande porte, simulandoo
situações comuns enfrentadas por consumidores.
Em um
dos casos, ao acessar o atendimento da Vivo para obter informações sobre
cancelamento de serviço, o primeiro contato foi feito por meio de um chatbot. A
interação começou às 10h02.
Nos
primeiros minutos, o sistema apresentou uma série de opções pré-definidas, sem
espaço para detalhamento da demanda. Mesmo após selecionar alternativas
relacionadas ao problema, as respostas seguiram genéricas e não levaram à
solução.
A
tentativa de chegar a um atendente humano exigiu múltiplas etapas. Foi
necessário repetir a solicitação em diferentes menus até que a opção de
transferência fosse disponibilizada, o que só ocorreu após cerca de 18 minutos
de interação.
Em
nota, a Vivo informou que o cancelamento dos seus planos pode ser feito pelo
cliente em qualquer canal de relacionamento, seja digital, Call Center ou lojas
físicas.
"No
aplicativo da Vivo, o processo pode acontecer de maneira totalmente digital ou
com o auxílio dos consultores por meio do chat, que foi desenhado para atender
o cliente em até três minutos", disse.
"E
no Call Center, o cliente também tem autonomia para escolher como deseja
concluir o cancelamento, optando entre a interação eletrônica ou o atendimento
humano, sempre de forma simples e prática", concluiu.
Já em
outro teste, ao solicitar informações sobre prazo de entrega e rastreamento de
pedido no atendimento digital dos Correios, o sistema automatizado conseguiuu
fornecer a informação desejada em aproximadamente três minutos, sem necessidade
de intervenção humana.
Os
resultados mostram que, embora a tecnologia seja capaz de resolver demandas
simples com agilidade, ainda apresenta limitações em situações mais
específicas, especialmente quando o consumidor precisa sair do fluxo padrão ou
resolver questões mais complexas.
Em
ambos os casos, o tempo e o caminho até a solução variaram significativamente,
reforçando a percepção apontada na pesquisa: quando o robô não resolve, o
acesso ao atendimento humano ainda é um dos principais desafios enfrentados
pelos consumidores.
• Os donos da IA também querem mandar no
que você compra. Por Gabriel Teles
Durante
algum tempo, o medo dominante em torno da inteligência artificial foi a perda
de empregos. Imaginava-se um mundo de máquinas substituindo trabalhadores,
algoritmos ocupando escritórios, fábricas e redações. Essa transformação
parcialmente existe e segue em curso. Há outro movimento, contudo, muito mais
silencioso e próximo da vida cotidiana. A inteligência artificial, a IA, também
está sendo moldada para algo menos dramático e muito mais constante: conduzir o
consumo.
A cena
ocorre em situações simples. Alguém abre um assistente de IA e pede ajuda para
organizar a rotina de estudos. A resposta vem em forma de conversa. No meio das
orientações aparecem sugestões de aplicativos pagos, cursos online, plataformas
de produtividade. Outra pessoa pergunta como melhorar a alimentação e recebe
recomendações de suplementos, serviços de entrega de refeições, planos de
assinatura. Um terceiro usuário pede ideias para começar a fazer exercícios em
casa e, junto com as dicas, surgem ofertas de equipamentos, roupas esportivas e
programas de treino. Em poucos minutos, aquilo que começou como um pedido de
orientação passa a incluir decisões de compra que não haviam sido formuladas
como intenção inicial.
Durante
décadas, mesmo no comércio digital, o consumo possuía uma forma social
relativamente reconhecível. Comprar era um percurso. O consumidor entrava em um
site, percorria categorias, comparava preços, abria várias abas, lia
avaliações, hesitava, abandonava o carrinho e às vezes retornava dias depois.
Entre o impulso e a compra existiam intervalos. Havia cansaço, dúvida,
distração, tempo para desistir. A decisão exigia atenção e algum esforço.
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Transformação do consumo
Esse
modelo começa a se dissolver. No lugar do percurso surge algo mais difuso e
envolvente. A inteligência artificial generativa transforma o consumo em parte
integrante do seu ambiente. Já não se entra em um espaço de compra para depois
sair dele. A conversa permanece aberta, pronta para oferecer soluções,
recomendações e produtos. Perguntar, aconselhar, escolher e adquirir passam a
acontecer no mesmo fluxo. O consumo deixa de aparecer como momento específico e
começa a ocupar, de forma quase imperceptível, o pano de fundo permanente da
vida cotidiana.
Esse
cenário ainda não está completamente formado. Trata-se de um processo em
gestação, que começa a se desenhar nas interfaces conversacionais, nos
assistentes digitais e nas novas estratégias das grandes plataformas. Seus
contornos permanecem instáveis, ainda em elaboração. Mesmo assim, já é possível
perceber a direção da mudança. O consumo deixa de ser um destino ao qual se vai
e se torna o ambiente silencioso dentro do qual a própria vida digital passa a
se mover.
Nesse
processo, o consumo não é acionado por uma intenção clara, nem por uma busca
por produtos. Ele surge como consequência lógica da interação. A escolha não se
dá entre mercadorias visíveis em uma vitrine, e sim entre respostas produzidas
por um sistema que já organiza, hierarquiza e filtra as opções possíveis.
Comprar deixa de ser um ato separado e passa a ser um desdobramento quase
automático da conversa.
Relatórios
recentes da consultoria McKinsey indicam que, nesse contexto, o conceito
clássico de “jornada do consumidor” perde capacidade explicativa. A noção de
funil, com início, meio e fim, cede lugar a fluxos permanentes de interação
mediados por sistemas de IA. Essa transformação altera profundamente a relação
entre desejo, decisão e mercadoria.
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A eliminação do intervalo
Historicamente,
o consumo sempre dependeu de mediações e de tempo. Entre o impulso e a compra
existiam fricções, comparações, cansaço, saturação. O intervalo entre querer e
adquirir operava como espaço de dúvida e, em muitos casos, de recusa.
A
inteligência artificial generativa atua diretamente nesse ponto. Ela encurta o
percurso, internaliza as mediações e converte linguagem em transação. Sistemas
conversacionais já permitem que o usuário pergunte, receba recomendações, tire
dúvidas e conclua a compra sem acessar um site tradicional. Busca, vitrine e
pagamento podem acontecer dentro da conversa. A decisão deixa de se apresentar
como processo e se aproxima de uma resposta automática.
Os
números ajudam a dimensionar o alcance dessa mutação. Em 2024, o comércio
eletrônico global ultrapassou 6,3 trilhões de dólares, aproximando-se de 20% de
todas as vendas do varejo mundial. Ao mesmo tempo, estudos do Baymard Institute
mostram que cerca de 70% dos carrinhos continuam sendo abandonados. Esse
abandono nunca foi apenas um problema técnico. Ele expressa hesitação, dúvida e
limite subjetivo.
É
precisamente esse espaço que a IA passa a tratar como ineficiência a ser
eliminada. Documentos do World Economic Forum descrevem explicitamente a
fricção como obstáculo à conversão contínua. A recusa deixa de aparecer como
possibilidade legítima e passa a ser interpretada como falha do sistema.
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Quando o consumo vira conversa
A
principal novidade da inteligência artificial generativa não está apenas na
capacidade de recomendar melhor. Ela reside na conversação. O consumo passa a
ser mediado por uma linguagem contínua, adaptativa e personalizada. O que antes
se apresentava como publicidade agora surge como aconselhamento. O que antes
exigia busca aparece como sugestão espontânea.
Relatórios
da Accenture indicam que mais de 60% das grandes empresas globais já utilizam
IA generativa em marketing, atendimento e vendas. Em diversos setores,
especialmente varejo, bancos e plataformas digitais, assistentes
conversacionais já concentram a maior parte das interações com consumidores.
Operam vinte e quatro horas por dia, em múltiplos idiomas, sem pausa e sem
desgaste.
A
conversação produz sensação de proximidade e controle. Ao mesmo tempo, ela é
estruturada por modelos preditivos treinados para maximizar a conversão. A
compra deixa de parecer indução externa e passa a se apresentar como
consequência natural do diálogo. O consumo perde começo e fim. Ele se mantém em
estado latente, sempre pronto para ser ativado.
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Identidade como infraestrutura de venda
Khaby
Lame é hoje um dos influenciadores mais conhecidos do mundo digital. Nascido no
Senegal e criado na Itália, tornou-se uma das maiores estrelas do TikTok ao
produzir vídeos curtos nos quais ironiza soluções exageradamente complicadas
para problemas simples do cotidiano. Sua marca registrada é o humor silencioso,
baseado em expressões faciais e gestos mínimos, compreensíveis em praticamente
qualquer idioma. Essa forma de comunicação universal ajudou a projetá-lo
globalmente, levando-o a acumular centenas de milhões de seguidores nas
plataformas digitais e a se tornar presença frequente em campanhas
publicitárias de grandes marcas.
É nesse
contexto que casos como o de Khaby Lame ganham relevância sociológica. Ao
autorizar o uso integral de sua imagem para a criação de um gêmeo digital capaz
de produzir conteúdo e vender produtos de forma ininterrupta, o influenciador
transforma sua identidade em infraestrutura de circulação mercantil. O que está
em jogo não é apenas a ampliação de estratégias publicitárias, e sim a
conversão da própria presença humana em ativo técnico permanente.
Nesse
arranjo, a identidade deixa de ser expressão situada, dependente de tempo,
contexto e experiência vivida. Ela passa a funcionar como molde estável,
replicável e operacionalizável por sistemas automatizados. A pessoa concreta se
torna secundária em relação à performance que pode ser extraída, reproduzida e
monetizada. O valor já não depende da intervenção direta do sujeito, e sim da
capacidade de sua imagem operar continuamente como interface de confiança.
Essa
mutação altera profundamente a relação entre autenticidade e mercadoria. A
confiança, que antes se apoiava na presença, na recorrência e na expectativa de
resposta humana, passa a ser produzida por simulação técnica. O reconhecimento
não nasce do encontro, e sim da repetição previsível. A familiaridade deixa de
pressupor vínculo social efetivo e passa a ser gerada por modelos treinados
para reproduzir traços identificáveis de linguagem, comportamento e estilo.
O
resultado é uma forma inédita de mercantilização da presença. A identidade não
apenas representa produtos. Ela organiza o fluxo da circulação. Opera como meio
de acesso, filtro de atenção e vetor de conversão. Compra-se de alguém que está
sempre disponível, sempre responsivo e sempre funcional. A ausência, o silêncio
e a interrupção, elementos constitutivos da experiência humana, deixam de
existir. O consumo se ancora em uma presença contínua que já não pertence ao
tempo social, e sim ao tempo operacional dos sistemas.
Esse
fenômeno não é isolado. Reportagens da MIT Technology Review e do The Verge
mostram a proliferação de avatares comerciais, influenciadores sintéticos e
duplicações digitais operando continuamente em plataformas como TikTok e Meta.
Não se
trata apenas de marketing. Trata-se de uma mudança na forma como confiança e
familiaridade são mobilizadas no consumo. A presença humana deixa de depender
do corpo e do tempo biográfico. O que circula é uma performance estabilizada,
replicável e sempre disponível. Compra-se de alguém que nunca dorme, nunca se
ausenta e nunca deixa de responder.
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Consumo sem espera, valor sem tensão
Outra
consequência direta da inteligência artificial generativa é a eliminação da
espera como elemento simbólico. Antes, a falta, o atraso e o intervalo também
produziam valor. Esperar um lançamento, perder uma oferta ou desistir de algo
fazia parte da experiência social do consumo.
Com a
disponibilidade permanente, essa tensão se dissolve. Tudo está sempre
acessível, sempre atualizável, sempre presente. Uma pesquisa recente da Adobe mostra que cerca de 40% dos
consumidores nos Estados Unidos utilizaram IA generativa para receber
recomendações de produtos no ano passado, e o tráfego proveniente de interfaces
conversacionais cresce de forma acelerada em períodos promocionais. Não se
trata de experimento marginal. Trata-se de reorganização estrutural da
experiência de consumo.
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Um problema político, não apenas tecnológico
A
inteligência artificial generativa não cria novos desejos. Ela estabiliza os
existentes, reduz o intervalo entre impulso e realização e transforma o consumo
em ambiente permanente da vida social.
Quando
o consumo deixa de ser ato delimitado e passa a funcionar como infraestrutura
cotidiana, a questão ultrapassa a esfera da preferência individual. Ela se
torna política. Quem controla os filtros do visível. Quem define o que aparece
como opção. Quem lucra com a conversão contínua da linguagem em mercadoria.
Debates
regulatórios na União Europeia sobre inteligência artificial mostram o tamanho
do impasse. A maior parte das normas discute transparência e segurança técnica,
enquanto a reorganização da experiência social do consumo permanece pouco
problematizada.
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Recuperar a distância em um mundo que conversa
A
inteligência artificial generativa desloca o consumo do plano do ato para o
plano da ambiência. Comprar deixa de ser decisão episódica e passa a integrar o
tecido ordinário da vida social. Linguagem, aconselhamento e transação se
confundem, produzindo um cenário no qual a mercadoria já não se apresenta como
escolha externa, e sim como continuação funcional da experiência cotidiana. O
consumo opera em baixa intensidade e alta frequência, dissolvido em interações
aparentemente neutras.
Esse
deslocamento redefine o problema central. A questão já não é apenas eficiência
tecnológica ou conveniência individual. Trata-se de quem organiza o campo do
possível, de quem decide quais respostas aparecem como soluções razoáveis e de
quem captura valor quando a linguagem se converte em circulação mercantil. A
conversa, apresentada como espaço de autonomia, funciona como infraestrutura de
direcionamento contínuo.
Nesse
contexto, a recusa perde visibilidade social. Ela não é proibida nem
formalmente negada. Ela se torna rara, custosa e pouco inteligível. O tempo
necessário para hesitar, comparar e desistir é comprimido. A distância crítica,
condição histórica da experiência de consumo, é substituída por uma proximidade
permanente entre desejo e realização.
A
tarefa da crítica não consiste em rejeitar a tecnologia nem em idealizar formas
passadas de consumo. Ela consiste em tornar visível a reorganização silenciosa
do cotidiano, em reinscrever fricção onde tudo tende a fluir e em recolocar a
possibilidade de não comprar como decisão socialmente legítima. Em um mundo no
qual a mercadoria aprendeu a conversar, recuperar a distância torna-se condição
elementar para qualquer política do consumo, da subjetividade e do tempo.
Fonte:
O Dia/The Intercept

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