terça-feira, 18 de março de 2014

“O elefante malaio”, por Helder Caldeira

É absolutamente dramático o caso do desaparecimento do voo MH370 da Malaysia Airlines com 239 pessoas de 14 nacionalidades a bordo, dos quais 153 eram cidadãos chineses. O moderno Boeing 777-200 decolou da capital malaia Kuala Lampur no início da madrugada de sábado, 08 de março de 2014, com destino a Pequim, na China. Quase uma hora após a decolagem, o avião, em princípio, sumiu sem deixar quaisquer vestígios.
Desde então, num emaranhado de informações oficias desencontradas e muitas especulações, 25 países somam esforços para tentar descobrir o paradeiro de um gigante com quase 300 toneladas, equipado com o que há de mais moderno em termos de tecnologia de aviação. Para além da provável catástrofe, o acúmulo dos dias de buscas vãs e equivocadas é proporcional à atrocidade protagonizada pelas autoridades que, em última instância, parecem despidas de respeito aos familiares das possíveis vítimas.
Soa inverossímil crer que uma aeronave de tais proporções e com vários sistemas de comunicação que independem da ação humana possa desaparecer sem que os mais incríveis aparatos tecnológicos desenvolvidos nos últimos 50 anos sejam capazes de encontrar alguma pista de sua localização. Sabe-se, por exemplo, que governos e agências oficiais de espionagem são capazes de localizar com precisão um telefone celular, vasculhar seu histórico de navegação e chamadas e até rastrear e ler mensagens enviadas. Como não conseguem encontrar um avião? Inverossímil e bastante improvável.
Algo semelhante aconteceu em 30 de janeiro de 1979 com um Boeing 707 de uma companhia aérea brasileira. O avião cargueiro da antiga Varig deixou Tóquio, no Japão, com destino ao Rio de Janeiro e, concluiu-se naquele tempo, desapareceu misteriosamente no Oceano Pacífico. Nele viajavam seis tripulantes e uma carga de 20 toneladas, destacando-se uma valiosa coleção com 153 trabalhos do artista plástico nipo-brasileiro Manabu Mabe. Seis anos depois, o escritor e poeta baiano Oswaldo Profeta — também ex-rádio-operador da Força Aérea Brasileira (FAB) e amigo do comandante do cargueiro desaparecido — publicou o romance “O Mistério do 707” (Editora Hamburg, 1985, 272 págs.), onde defende a tese de que um erro na rota levou o avião da Varig, em plena vigência da Guerra Fria, a invadir o espaço aéreo da então União Soviética, onde foi abatido por ordem do presidente comunista Leonid Brejnev.
O visível — e não menos bizarro — embaraço de informações e dados da Malaysia Airlines e do governo também suscita o desvelar de teorias e pode colocar em xeque o já tumultuado ambiente do sudeste asiático. Nas primeiras e cruciais 48 horas apontaram que as buscas deveriam concentrar-se no Golfo da Tailândia, nas dimensões do suposto último contato do voo MH370, o que também incluiria domínios marítimos do Vietnã e do Camboja. Naquele momento, hipóteses como sequestro e terrorismo foram descartadas com veemência, apesar da constatação de que dois passageiros iranianos embarcaram com passaportes roubados em território tailandês. Mero acaso?
Logo depois, diante das fortes críticas internacionais, o governo da Malásia afirmou que outros dados indicavam a possibilidade de sequestro da aeronave, já que o Boeing 777-200 teria desviado violentamente à esquerda da rota prevista no plano de voo. Assim, teria cruzado a região sul da tensa República de Myanmar e alcançado o Estreito de Malaca, na Indonésia. Todos os olhos miraram a região e, novamente, nenhum êxito.
Contraditórios e beirando a imoralidade — propositalmente? —, a junta de países envolvidos nas buscas sacou da cartola novas informações. O avião da Malaysia teria deixado o Estreito de Malaca e seguido a noroeste, em direção ao Mar de Andamão, mais de sete horas após o último contato com o controle aéreo malaio, quando o piloto — que, apesar da experiência de quase 20 mil horas de voo, era muçulmano e convenientemente passou a integrar a lista de suspeitos — despediu-se com um singelo“boa noite”.
Uma semana depois do sumiço, com a ajuda do Serviço de Inteligência dos EUA, a área de busca foi maciçamente ampliada, tanto em mar — desde a Baía de Bengala até o Oceano Índico —, quanto em terra, incluindo os territórios da Índia, Bangladesh, Sri Lanka, Laos, Nepal e o Paquistão e Cazaquistão, destinos hipotéticos dos supostos sequestradores da aeronave.
Cumpre questionar: diante de tantas contradições, quem tem credibilidade suficiente para garantir que o voo MH370 não invadiu o espaço aéreo de um desses países e, diante da ausência de comunicação e consequente identificação, foi abatido? Para além de constrangedor e criminoso, o desencontro das autoridades permite a existência e força desta teoria.
Resta-nos a esperança de que, algum dia e de alguma forma, as famílias e amigos dos passageiros e tripulantes possam ter algum conforto nesta ausência, neste vazio. E mais: o caso malaio também deixa uma gravíssima e perturbadora advertência. Nunca tantos aviões cruzaram os céus do planeta; nunca antes tantas pessoas utilizaram o avião como meio de transporte; aeroportos lotados e malhas aéreas congestionadas; e países governados por incompetentes falaciosos — como o Brasil! — tratando com enorme desleixo o controle do tráfego aéreo e a aviação civil. Os especialistas insistem garantir que voar ainda é mais seguro que andar de bicicleta. Será mesmo?

O extraordinário jornalista William Waack, em sua habitual elegância na condução e mediação dos debates do programa GloboNews Painel, frequentemente faz uso da seguinte asserção: “é quase um dever do jornalista transformar raciocínios sofisticados em frases brutais”. Eia, pois, bruta conclusão: após uma semana de buscas ininterruptas, ninguém consegue encontrar um elefante escondido na garagem. Acredite se quiser!

segunda-feira, 10 de março de 2014

Momento de absoluta irracionalidade

A cultura do levar vantagem em tudo, independentemente de ser por merecimento ou regida pela legalidade, está nos levando ao abismo social, moral e político sem qualquer possibilidade de volta. Ainda agora, tivemos o caso do mensalão do PT, que é posterior ao do PSDB e, mesmo assim, foi o primeiro a ser julgado e, pelo jeito, será o único a receber punição. Escândalo elevado ao grau de atração jornalística, a um quase palco de entretenimento, não se nos apresenta como simples caso de dois pesos e duas medidas, mas de explícita demonstração, através de ampla e partidária cobertura da grande mídia, de que realmente convivemos com duas justiças, passando para a população a tangível explicação para o fato de termos tantos negros, pardos e mulatos, componentes das camadas mais pobres da sociedade, trancafiados nas verdadeiras masmorras que são os presídios brasileiros.
Não somos juristas e não vamos nos meter em tal seara, pois pelo visto há um comprometimento generalizado com a estruturação de brechas e de senões legais, que não podem ser sanados nem estancados, pois há um inconfessável desejo de que a lei jamais alcance o patamar de ser igual para todos. Como pode, por exemplo, um presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) dizer que inflou penas com o objetivo exclusivo de evitar prescrição; que afirma abertamente que um de seus pares tem capangas no Mato Grosso do Sul (?) e, para completar o quadro dantesco, deliberadamente coíbe o acesso de réus a processo no qual, agora se sabe, existe uma farta gama de documentos favoráveis aos condenados pelo mensalão petista, tomados como ao tempo da Alemanha nazista, um regime de exceção, como inimigos da nação, a ponto de introduzir na democracia brasileira o “domínio do fato”, pelo qual as provas são dispensadas, sobrepondo os indícios, as suposições e até os humores das figuras constituídas que se incumbem do julgamento.
A lógica racional, ou melhor, o amor e o respeito pelo próximo e os pilares da igualdade democrática em que se assentam os ideais de uma sociedade em busca da extirpação da discórdia social não deveriam permitir tal disparate, mas os grupos que se sentem beneficiados pela ilegalidade revestida com o manto da legalidade, que “parece mas não é”, defendem de unhas e dentes a obscuridade jurídica abraçada como se fosse luzidia centelha. Todavia, jamais se transformará em jurisprudência, porque até os seus aliados momentâneos sabem que não podem tê-la como regra – cientes de que os julgadores de hoje podem ser os julgados de amanhã. E quem pode admitir a hipótese de ser julgado sem provas, sob a égide esdrúxula do domínio do fato, que é instrumento tão elástico e flexível, que se Deus fosse colocado na cadeira do STF, ao certo seria condenado pelas atrocidades de que o ser humano, no exercício do livre arbítrio, se tornou capaz.
Nossa caixa de e-mails e nosso facebook estão repletos de mensagens eivadas de radicalismo: uns não querem Copa (e ela está aí com o maior número de ingressos vendidos na história do evento); outros querem dar um “rolezinho”; há os que continuam insistindo que o filho do ex-presidente Lula é dono de grande frigorífico; e acompanhando a viseira imposta pelo radicalismo, ainda tem gente repassando matéria publicada em jornal francês contra a Copa, apesar de o desmentido já ter sido divulgado, relatando que um criador de boatos do âmbito político burlou a reportagem internacional, colocando-a no mesmo nível de seus interesses radicais.
A essas alturas, o proeminente falsificador, sabedor de que não será punido, já prepara novas peripécias na internet, que serão prontamente repassadas pelos seguidores de sua linha de pensamento. Ou seja, não importa aos usuários das ferramentas de comunicação virtual se a mensagem é verdadeira ou circunscrita ao plano da legalidade, basta-lhe que o conteúdo sirva aos seus planos e projetos de poder.
Já dissemos em nossos livros que ninguém é animal marinho porque de vez em quando toma banho de mar e que, da mesma forma, ser humano algum pode ser considerado racional por usar a razão uma vez ou outra em sua vida cotidiana. Na atualidade, o que observamos claramente é que atravessamos no Brasil um momento da mais absoluta irracionalidade.


Autor: Carlos Lúcio Gontijo - poeta, escritor e jornalista. www.carlosluciogontijo.jor.br

07 lições que já deveríamos ter aprendido sobre o golpe de 1964 - Antonio Lassance

Há 50 anos, o Brasil foi capturado pela mais longa, mais cruel e mais tacanha ditadura de sua história.
Meio século é mais que suficiente tanto para aprendermos quanto para esquecermos muitas coisas.
É preciso escolher de que lado estamos diante dessas duas opções.
1ª. LIÇÃO: AQUELA FOI A PIOR DE TODAS AS DITADURAS
No período republicano, o Brasil teve duas ditaduras propriamente ditas. Além da de 1964, a de 1937, imposta por Getúlio Vargas e por ele apelidada de "Estado Novo". 
A ditadura de Vargas durou oito anos (1937 a 1945). A ditadura que começou em 1964 durou 21 anos. 
Vargas e seu regime fizeram prender, torturar e desaparecer muita gente, mas não na escala do que ocorreu a partir de 1964.
Os torturadores do Estado Novo eram cruéis. Mas nada se compara em intensidade e em profissionalismo sádico ao que se vê nos relatos colhidos pelo projeto "Brasil, nunca mais" ou, mais recentemente, pela Comissão da Verdade.
Em qualquer aspecto, a ditadura de 1964 não tem paralelo.
2ª. lição: QUALIFICAR A DITADURA SÓ COMO “MILITAR” ESCAMOTEIA O PAPEL DOS CIVIS
Foram os militares que deram o golpe, que indicaram os presidentes, que comandaram o aparato repressivo e deram as ordens de caçar e exterminar grupos de esquerda.
Mas a ditadura não teria se instalado não fosse o apoio civil e também a ajuda externa do governo Kennedy.
O golpismo não tinha só tanques e fuzis. Tinha partidos direitosos; veículos de imprensa agressivos; empresários com ódio de sindicatos; fazendeiros armados contra Ligas Camponesas, religiosos anticomunistas. Todos tão ou mais golpistas que os militares.
Sem os civis, os militares não iriam longe. A ditadura foi tão civil quanto militar. Tinha seu partido da ordem; sua imprensa dócil e colaboradora; seus empresários prediletos; seus cardeais a perdoar pecados.
3ª. LIÇÃO: NÃO HOUVE REVOLUÇÃO, E SIM REAÇÃO, GOLPE E DITADURA
Ernesto Geisel (presidente de 1974 a 1979) disse a seu jornalista preferido e confidente, Elio Gaspari, em 1981:
"O que houve em 1964 não foi uma revolução. As revoluções fazem-se por uma ideia, em favor de uma doutrina. Nós simplesmente fizemos um movimento para derrubar João Goulart. Foi um movimento contra, e não por alguma coisa. Era contra a subversão, contra a corrupção. Em primeiro lugar, nem a subversão nem a corrupção acabam. Você pode reprimi-las, mas não as destruirá. Era algo destinado a corrigir, não a construir algo novo, e isso não é revolução".
Quase ninguém usa mais o eufemismo “revolução” para se referir à ditadura, à exceção de alguns remanescentes da velha guarda golpista, que provavelmente ainda dormem de botinas, e alguns  desavisados, como o presidenciável Aécio Neves, que recentemente cometeu a gafe de chamar a ditadura de “revolução” (foi durante o 57º Congresso Estadual de Municípios de São Paulo, em abril de 2013).
Questionado depois por um jornal, deu uma aula sobre o uso criterioso de conceitos: “Ditadura, revolução, como quiserem”.
A ditadura foi uma reação ao governo do presidente João Goulart e à sua proposta de reformas de base: reforma agrária, política e fiscal.
4ª. LIÇÃO: A CORRUPÇÃO PROSPEROU MUITO NA DITADURA
Ditaduras são regimes corruptos por excelência. Corrupção acobertada pelo autoritarismo, pela ausência de mecanismos de controle, pela regra de que as autoridades podem tudo.
A ditadura foi pródiga em escândalos de corrupção, como o da Capemi, justo a Caixa de Pecúlio dos Militares. As grandes obras, ditas faraônicas, eram o paraíso do superfaturamento.
Também ficaram célebres o caso Lutfalla (envolvendo o ex-governador Paulo Maluf, aliás, ele próprio uma criação da ditadura) e o escândalo da Mandioca.
5ª. LIÇÃO: A DITADURA ACABOU, MAS AINDA TEM MUITO ENTULHO AUTORITÁRIO POR AÍ
O Brasil ainda tem uma polícia militar que segue regulamentos criados pela ditadura.
A Polícia Civil de S. Paulo, em outubro de 2013, enquadrou na Lei de Segurança Nacional (LSN) duas pessoas presas durante protestos.
A tortura ainda é uma realidade presente, basta lembrar o caso Amarildo.
Os corredores do Congresso ainda mostram um desfile de filhotes da ditadura - deputados e senadores que foram da velha Arena (Aliança Renovadora Nacional, que apoiava o regime).
6ª. LIÇÃO: BANALIZAR A DITADURA É ACENDER UMA VELA EM SUA HOMENAGEM
Há duas formas de se banalizar a ditadura. Uma é achar que ela não foi lá tão dura assim. A outra é chamar de ditadura a tudo o que se vê de errado pela frente.
O primeiro caso tem seu pior exemplo no uso do termo "ditabranda" no editorial da Folha de S. Paulo de 17 de fevereiro de 2009.
Para a Folha de S. Paulo, a última ditadura brasileira foi uma branda (“ditabranda”), se comparada à da Argentina e à chilena.
A ditadura brasileira de fato foi diferente da chilena e da argentina, mas nunca foi “branda”, como defende o jornal acusado de ter emprestado carros à Operação Bandeirantes, que caçava militantes de grupos de esquerda para serem presos e torturados.
Como disse a cientista política Maria Victoria Benevides, que infâmia é essa de chamar de brando um regime que prendeu, torturou, estuprou e assassinou?
A outra maneira de se banalizar a ditadura e de lhe render homenagens é não reconhecer as diferenças entre aquele regime e a atual democracia. Para alguns, qualquer coisa agora parece ditadura.
A proposta de lei antiterrorismo foi considerada uma recaída ditatorial do regime dos “comissários petistas” e mais dura que a LSN de 1969. Só que, para ser mais dura que a LSN de 1969, a proposta que tramita no Congresso deveria prever a prisão perpétua e a pena de morte.
O diplomata brasileiro que contrabandeou o senador boliviano Roger Pinto Molina para o Brasil comparou as condições da embaixada do Brasil na Bolívia à do Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), a casa de tortura da ditadura.
Para se parecer com o DOI-CODI, a Embaixada brasileira em La Paz deveria estar aparelhada com pau de arara, latões para afogamento, cadeira do dragão (tipo de cadeira elétrica), palmatória etc.
Banalizar a ditadura é como acender uma vela de aniversário em sua homenagem.
7ª. LIÇÃO: JÁ PASSOU DA HORA DE PARAR COM AS HOMENAGENS OFICIAIS DE COMEMORAÇÃO DO GOLPE
Por muitos e muitos anos, os comandantes militares fizeram discursos no dia 31 de março em comemoração (isso mesmo) à “Revolução” de 1964.
A provocação oficial, em plena democracia, levou um cala-a-boca em 2011, primeiro ano da presidência Dilma. Neste mesmo ano também foi instituída a Comissão da Verdade.
A referência ao 31 de março foi inventada para evitar que a data de comemoração do golpe fosse o 1º. de abril – Dia da Mentira.
A justificativa é que, no dia 31, o general Olympio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar, em Minas Gerais, começou a movimentar suas tropas em direção ao Rio de Janeiro.
Se é assim, a Independência do Brasil doravante deve ser comemorada no dia 14 de agosto, que foi a data em que o príncipe D. Pedro montou em seu cavalo para se deslocar do Rio de Janeiro para as margens do Ipiranga, no estado de São Paulo.
A palavra golpe tem esse nome por indicar a deposição de um governante do poder. No dia 1º. de abril, João Goulart, que estava no Rio de Janeiro, chegou a retornar para Brasília. Em seguida, foi para o Rio Grande do Sul e, depois, exilou-se no Uruguai  mas só em 4/4/1964. Que presidente é deposto e viaja para a capital um dia depois do golpe?
O Almanaque da Folha é um dos tantos que insistem na desinformação:
“31.mar.64 — O presidente da República, João Goulart, é deposto pelo golpe militar”. Entende-se. Afinal, trata-se do pessoal da ditabranda.
O que continua incompreensível é o livro “Os presidentes e a República”, editado pelo Arquivo Nacional, sob a chancela do Ministério da Justiça, trazer ainda a seguinte frase:
“Em 31 de março de 1964, o comandante da 4ª Região Militar, sediada em Juiz de Fora, Minas Gerais, iniciou a movimentação de tropas em direção ao Rio de Janeiro. A despeito de algumas tentativas de resistência, o presidente Goulart reconheceu a impossibilidade de oposição ao movimento militar que o destituiu”.
De novo, o conto da Carochinha do 31 de março.
Ainda mais incompreensível é o livro colocar as juntas militares de 1930 e de 1969 na lista dos presidentes da República.
A lista (errada) é reproduzida na própria página da Presidência da República como informação sobre os presidentes do Brasil.
Nem os membros das juntas esperavam tanto. A junta governativa de 1930 assinava seus atos riscando a expressão “Presidente da República”.  
No caso da junta de 1969, o livro do Arquivo Nacional diz (p. 145) que o Ato Institucional nº. 12 (AI-12) "dava posse à junta militar" composta pelos ministros da Marinha, do Exército e da Aeronáutica. Ledo engano.
O AI-12, textualmente: “Confere aos Ministros da Marinha de Guerra, do Exército e da Aeronáutica Militar as funções exercidas pelo Presidente da República, Marechal Arthur da Costa e Silva, enquanto durar sua enfermidade”. Oficialmente, o presidente continuava sendo Costa e Silva.
Há outro problema. Uma lei da física, o famoso princípio da impenetrabilidade da matéria, diz que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo – que dirá três corpos. 
Não há como três chefes militares ocuparem o mesmo cargo de presidente da República. Que república no mundo tem três presidentes ao mesmo tempo?
O que os membros da Junta de 1969 fizeram foi exercer as funções do presidente, ou seja, tomar o controle do governo. O AI-14/1969 declarou o cargo oficialmente vago, quando a enfermidade de Costa e Silva mostrou-se irreversível. 
Os três comandantes militares jamais imaginaram que um dia seriam listados em um capítulo à parte no panteão dos presidentes. A Junta ficaria certamente satisfeita com a homenagem honrosa e, definitivamente, imerecida.
Que história, afinal, estamos contando?
Uma história que ainda não faz sentido.

Uma história cujas lições ainda nos resta aprender.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Teatro de desavergonhados

O povo brasileiro alcançou um grau de mediocridade inimaginável. Ganhou incrível força a figura do “imbecil útil”. É ignorante, mesquinho, fanático por mentiras calorosas, preguiçoso, viciado em esmolas fáceis e famélico por excrescências, mas sempre está à disposição para rir da desgraça que o cerca e defender a distopia da trupe insolente que governa o Brasil. Um grosso caldo medíocre, em suma. Não há outra definição.
“O idiota raivoso fala sempre com força de bando e, na democracia de massa em que vivemos, ele sim tem o poder absoluto de destruir todos os que não se submetem a sua regra de estupidez bem adaptada”, escreveu com brilhantismo Luiz Felipe Pondé em sua obra “Guia Politicamente Incorreto da Filosofia” (Editora Leya, 2012, pág. 54), ao buscar um diálogo entre o pensamento do francês Alexis de Tocqueville, do britânico Michael Oakeshott e do brasileiríssimo Nelson Rodrigues, capaz de chancelar sua competente e corajosa assertiva: “a mediocridade anda em bando e a democracia ama os medíocres”.
É sob esse manto de mau-caratismo que estamos subsistindo. Convenhamos: que nação, com algum vestígio de dignidade e vergonha na cara, aceitaria tão candidamente que sua presidente da República, a despeito do caos e do descaso com a infraestrutura miserável do país, fosse inaugurar sua primeira grande obra em Cuba? Não bastasse o descalabro de financiar o monumental porto cubano com quase R$ 2 bilhões dos cofres públicos brasileiros e dos R$ 40 milhões anuais pela participação — em regime quase escravagista — no programa “Mais Médicos”, “Sua Alteza” ainda teve a cara de pau de prometer mais R$ 700 milhões para a ditadura comunista dos irmãos Castro.
Um dia antes, a presidente do Brasil ficou furiosa porque alguns “ridículos”, que ainda tem a ousadia de pensar neste país de debiloides, utilizaram as redes sociais para questioná-la sobre os R$ 26 mil pagos — com recursos da União, fique claro! — por um pernoite na suíte presidencial de um hotel em Lisboa e as demais quatro dezenas de quartos ocupados por sua monstruosa comitiva oficial, cujo transporte exigiu dois aviões da Força Aérea Brasileira. Não fosse pela “imprensa que avacalha” — na acepção de um certo “ex” —, a folia portuguesa dos “bem-aventurados” jamais chegaria ao conhecimento do (ir)respeitável público.
Diante da explosão desses dois casos escabrosos revelados num curto espaço de 48 horas e da cereja do bolo de tolos que foi a divulgação das fotos tétricas da presidente e sua turma em animada bacalhoada num elegante restaurante de Portugal e carregando sacolas de vinhos à saída, entraram em ação os “imbecis úteis”. A militância, “com força de bando”, tratou de caçar os subversores ainda pensantes e, para além de golpes abaixo da cintura — modus operandi de quem não tem capacidade intelectual e moral para juntar “lé-com-cré” na argumentação de um debate —, assumir seu protagonismo no teatro dos desavergonhados.
“A ‘presidenta’ não precisa dar satisfações de onde come ou dorme”, foi a genial frase escolhida pelos “úteis”, enquanto recolhiam sua contribuição à “vaquinha” pra pagar multas milionárias impostas pela justiça aos “companheiros” condenados por institucionalizar o roubo aos cofres públicos em nome da tal “causa” e por comprarem a fidelidade de parlamentares. Um verdadeiro bacanal que, diuturnamente, enxovalha princípios democráticos basilares.
 Eu estava sofrendo um ataque feroz da militância, quando um caríssimo leitor tratou de resumir a ópera dos malandros: “Não adianta discutir com essa gente, porque é o mesmo que tentar jogar xadrez com um pombo. Ele derruba as peças, defeca no tabuleiro e ainda sai com o peito estufado”. É fato. Não dá pra falar em democracia com quem olha para o Estado e só enxerga tetas. Não dá pra ser gentil e educado com essa maioria ululante que assumiu adoração à mediocridade e total subserviência à “regra de estupidez bem adaptada”, no apogeu do espetáculo de nossa miséria metida à besta.
Autor: HELDER CALDEIRA: Escritor e Jornalista Político. www.heldercaldeira.com.br  helder@heldercaldeira.com.br. *Autor dos livros “ÁGUAS TURVAS” e “A 1ª PRESIDENTA”.


A PERGUNTA CERTA

É tamanho o descrédito dos partidos políticos que eles desistiram de proclamar suas virtudes. Ao contrário, dedicam-se a demonstrar que os outros chafurdam em ainda maiores vícios. Nesse contexto, nesse indiscutível contexto, fica imensamente favorecida a vida de quem está no poder. Ali, as facilidades voam em jatinhos militares devidamente decorados para os prazeres da vida civil. Ali, roda a ciranda em torno do Erário, que abre portas na hora certa para alegria dos folgazões. Ali há dinheiro, empregos, poder, honrarias, favores. E tudo isso, no tempo devido, vira mercadoria ou moeda eleitoral.
"E a oposição?", indagará o leitor atento à relevância política deste ano de 2014. Ora, a oposição é aquele pequeno reduto onde só ficam os que não se deixaram seduzir pelo que de mais atraente existe nas tentações do poder. No Brasil destes anos constrangedores, só é oposição quem faz muita questão de sê-lo. O poder tem do bom e do melhor para todos os seus. A oposição é trincheira de poucos e mal apetrechados combatentes.
 Quem acompanha a política nacional com interesse cívico sabe, também, que o PT muito pouco pode apresentar como resultado positivo de suas três administrações que não provenha de políticas que antes condenou e, posteriormente, adotou. Mas, convenhamos: isso não serve para estabelecer diferenças. Bem ao contrário. A estratégia oposicionista precisa ser outra. Para vencer o desequilíbrio estabelecido entre as forças do governo e as da oposição é preciso identificar e apontar ao juízo soberano dos eleitores certos abismos que as separam. A contribuição que trago nestas linhas é uma lista de pautas, de condutas e de políticas pelas quais esse rio de águas turvas chamado Partido dos Trabalhadores ganha corpo com seus afluentes pela margem esquerda e pela margem direita. Elas me levam ao que chamo de a pergunta certa: qual o partido brasileiro que se identifica com as seguintes políticas, condutas e pautas?
Marco regulatório da imprensa; marco civil da internet; PLC 122 (da "homofobia") e seus disparates; imposição do "politicamente correto" e da novilíngua; confabulações do Foro de São Paulo; apoio e refúgio a terroristas (Cesar Battisti é apenas um dos casos); captura e devolução a Fidel dos boxeadores cubanos; apoio aos governos comunistas de Cuba, Venezuela e Bolívia; incondicional afeição a qualquer patife adversário do Ocidente; homenagens e nomes de ruas para líderes comunistas; memorial para Luiz Carlos Prestes; apoio explícito a companheiros condenados pela justiça por graves crimes; verdadeira fobia por presídios e órgãos de segurança, resultando em gravíssima instabilidade social; absoluta e incondicional dedicação aos direitos humanos dos bandidos; empenho em inibir a ação armada das instituições policiais; dedicação à causa do desarmamento dos cidadãos; recusa à redução da maioridade penal; criação do MST e apoio às suas truculentas invasões de propriedades rurais; apoio a invasões no meio urbano e a políticas que restringem o direito de propriedade; cobertura às estripulias imobiliárias dos quilombolas; avanços do Código Florestal contra o direito de propriedade; expansão das reservas indígenas sobre áreas de lavoura; mudança, para pior, do Estatuto do Índio; supressão de símbolos religiosos em locais públicos; lei da palmada; apoio à legalização do aborto; políticas de gênero; kit gay nas escolas; apoio à parada gay, à marcha das vadias e à marcha pela maconha; leis de cotas raciais; uso de livros didáticos para doutrinação ideológica; fim da lei de anistia e manipulação da História; aparelhamento da administração pública e dos órgãos de Estado pelos partidos do governo; e mais recentemente, defesa dos rolezinhos e suas perturbações em locais de comércio.
Examine bem a lista acima e depois me diga se não é urgente espantar, pela força do voto, esse mau agouro político que lança sortilégios sobre nossa sociedade e sobre a democracia brasileira.


Autor: Percival Puggina