quinta-feira, 14 de maio de 2026


 


Trends literárias estimulam a leitura entre jovens no Brasil

Para aqueles que dizem que as tecnologias digitais vão tomar o lugar dos livros, o Brasil tem mostrado que essa história pode ser diferente. De 2024 para 2025, o país ganhou 3 milhões de novos consumidores de livros, segundo a pesquisa Panorama do Consumo de Livros.

Realizada pela Câmara Brasileira do Livro em parceria com a Nielsen BookData, a pesquisa indica que, na prática, 18% da população comprou ao menos um livro em 2025, um aumento de dois pontos percentuais em relação ao ano anterior. O maior crescimento foi registrado entre os jovens adultos, de 18 a 34 anos, que avançaram 3,4 pontos porcentuais em comparação ao registrado 2024.

Esses dados indicam que a internet pode estar influenciando esse cenário. Fenômenos como "BookTok", uma subcomunidade do TikTok voltada para a leitura, e perfis literários têm popularizado obras nacionais e internacionais.

"Você encontra pessoas que leem um livro que, aparentemente, se você estivesse, sei lá, andando na livraria, não te chamaria atenção. Mas alguém que parece que poderia ser seu amigo fala: ‘Nossa, que legal esse livro. Ele mexeu comigo por causa disso, disso, disso. E é um livro muito bom’", explica a criadora de conteúdo literário Beatriz Paludetto.

Paludetto acredita que esse movimento traz a sensação de proximidade entre influenciador e público, ajudando as novas gerações a se identificarem com as experiências alheias e a encontrarem conforto na literatura.

<><> Redes sociais, juventude e literatura

Essa também é a opinião da presidente da Câmara Brasileira do Livro, Sevani Matos. "As redes sociais se tornaram uma porta de entrada importante para novos leitores. Criadores de conteúdo, recomendações online e comunidades virtuais são os três principais motivos que possibilitam a ampliação do alcance da literatura, especialmente entre os mais jovens".

Segundo a pesquisa Panorama do Consumo, 57% dos consumidores de livros dizem acompanhar algum conteúdo relacionado à literatura nas redes sociais, enquanto 56% afirmam comprar livros por lá.

Essa relação com as redes, no entanto, não significa que o produto adquirido também é digital. Ao serem questionados, quatro em cada cinco entrevistados afirmaram que o último livro comprado por eles havia sido um exemplar impresso.

<><> Luz no fim do túnel para as livrarias

O crescimento da presença digital de conteúdos literários não significa uma ameaça para as livrarias. Apesar de 49% dos consumidores preferirem comprar online, outros 44% ainda priorizam adquirir livros presencialmente. Dentre os motivos citados, estão o desejo de ver e sentir a obra impressa antes de realizar a compra e a preferência por ter o livro em mãos logo após o pagamento, sem necessidade de aguardar pela entrega.

Por essas e outras razões, é possível dizer que as livrarias ainda ocupam um lugar especial no coração dos leitores. Ainda de acordo com a pesquisa Panorama do Consumo, esses locais são compreendidos como espaços para "relaxar e explorar sem pressa" e são oportunidades para os consumidores se conectarem com cultura e novos conhecimentos.

Os próprios donos de livrarias já entenderam o recado. Atualmente, o negócio não pode ser, somente, sobre a venda de livros. "Aqui, no nosso caso, planejamos pensando numa experiência sensorial completa. Então, desde essa luz gostosa em que estamos, uma música baixinha, um cheiro de café, uma poltrona, um tapete… tudo isso forma mais do que um espaço: é um lugar", relata Luciana Gil, que é livreira e sócia da livraria Bibla.

Considerando todo o carinho e dedicação envolvidos e os benefícios da compra presencial, não é à toa que 43% dos brasileiros afirmam que ainda frequentam livrarias ao menos uma vez por mês.

<><> Leitura e compra de livros

Mesmo com uma tendência positiva no consumo de livros, o Brasil possui ainda uma grande parcela da população que não lê livros. A mais recente edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, mostrou que, em 2024, 53% dos entrevistados se consideraram "não-leitores", contra 47% dos leitores. Em 2019, eram 52% leitores e 48% não-leitores.

Foi a primeira vez na pesquisa realizada desde 2007 que a parcela dos que não leem livros superou a daqueles que recorrem à literatura nos momentos de lazer. O único segmento da população brasileira que não teve queda no número de leitores foi nas faixas etárias de 11 a 13 anos e de mais de 70 anos.

"O livro nunca vai acabar", diz  escritora

Ruth Rocha escancara um sorriso sincero quando o assunto é o imaginário das crianças. "Eu tenho esperança nas crianças, acho que as crianças são a esperança do mundo, né?", comenta. Aos 93 anos, a escritora é um dos mais consagrados nomes da literatura infantil brasileira de todos os tempos. E agora, em um movimento para internacionalizar mais sua obra, terá um espaço especial na Feira do Livro de Frankfurt, que começa nesta quarta-feira (16/10) e vai até 20 de outubro.

Gestora de sua obra, a filha Mariana Rocha conta que, para o evento internacional, foram selecionados dez livros "com temáticas atuais e universais". Traduzidos para o inglês, eles serão exibidos ao público da feira, com a expectativa de seus direitos sejam adquiridos por editoras de outros países. O mesmo será feito na Feira do Livro Infantil de Bolonha do ano que vem, que acontece entre 31 de março de 3 de abril.

A escritora ostenta números impressionantes. São 200 livros publicados, 40 milhões de exemplares vendidos e obras traduzidas para mais de 25 idiomas. Ganhou oito vezes o prêmio Jabuti e teve um de seus livros, O Reizinho Mandão, incluindo na lista de honra do prêmio internacional Hans Christian Andersen.

Publicado em 1978, quando o Brasil vivia sob a ditadura militar, O Reizinho Mandão é uma história que mostra, dentro do universo infantil, os problemas do autoritarismo e da falta de democracia. É um dos maiores sucessos da autora, ao lado do best-seller Marcelo, Marmelo, Martelo, de 1976, sobre um menino que questiona os nomes das coisas — e resolve rebatizar tudo seguindo sua peculiar lógica.

Ao longo desses quase 50 anos de produção literária, Rocha acredita que as crianças "não mudaram tanto". "Nós é que mudamos o tratamento que damos às crianças", diz. Ela concedeu entrevista à DW ao lado da filha Mariana.

LEIA A ENTREVISTA:

•        São quase 50 anos e 200 livros publicados. Como consegue continuar falando tão bem com as crianças? A senhora não envelheceu?

Ruth Rocha: Olha, eu acho que a gente fala bem com a criança quando gosta de criança. Eu gosto de criança. Eu tive muita criança na minha vida. Eu tive irmãos mais jovens, depois eu tive sobrinhos, eu tive a minha filha, agora tem meus netos, que são já moços, mas foram crianças! E eu tenho um respeito com a criança. Eu tenho esperança nas crianças, acho que as crianças são a esperança do mundo, né? Então eu tenho boa-vontade, carinho com criança. E isso me ajuda muito.

•        Seus livros mais antigos ainda conseguem dialogar com as crianças de hoje em dia?

Ruth Rocha: Eu escrevi um livro que se chama Marcelo, Marmelo, Martelo. Ele é o livro mais vendido meu há 50 anos. Até hoje as crianças continuam gostando muito dele, então eu acho que elas não mudaram tanto. Nós é que mudamos o tratamento que damos às crianças. Não damos mais aquele tratamento autoritário, como se a criança não tivesse importância. Isso modificou muito as crianças. Por outro lado, elas têm os mesmos anseios, os mesmos problemas, as mesmas ideias, os mesmos medos, os mesmos desejos. Elas não são tão diferentes. Acho que elas continuam gostando dos livros.

Mariana Rocha: Os livros dela, apesar de serem antigos no tempo, trazem temas muito atuais. Ela falava sobre liberdade de expressão, sobre fascismo, sobre feminismo, sobre meio ambiente. São assuntos muito atuais. Ela tinha um pensamento um pouco à frente talvez do seu tempo, acompanhou muito bem.

•        Há títulos que falam sobre meio ambiente, sobre racismo… Esses temas são mais necessários hoje em dia?

Ruth Rocha: O que eu posso dizer é que os livros vendem. Vendem para as escolas, para os pais, para as crianças. Então eu acredito que eles gostem disso. Não sei se todos. Temos um público que não se interessa por nada do que é bom…

Mariana Rocha: A gente estava comentando aqui sobre o avanço da direita, da extrema direita no Brasil e no mundo. Às vezes temos uma desconfiança em alguns livros, em alguns temas. Às vezes os livros mais leves, com assuntos mais banais, agradam mais do que livros mais comprometidos com certos valores mais vanguardistas, digamos, de esquerda. Então sentimos que alguns livros ficam para trás mesmo tendo textos muito importantes, muito bons.

•        Mas no caso desses temas, eles vêm como uma vontade própria ou existe um pedido dos editores, dos professores?

Ruth Rocha: É o que eu quero. É o que eu faço. Eu nunca fiz nada para editor.

•        E como disputar a atenção das crianças de hoje, concorrendo com celulares, tablets e tantas telas?

Ruth Rocha: Não sei, não sei. A gente fala na televisão, a gente faz lançamentos. A escola é uma coisa que nem sei se é boa [para isso] porque obriga a ler…

Mariana Rocha: As escolas trabalham muito com os livros da minha mãe, então temos um apoio das escolas, que são um dos veículos que apresentam [a obra dela] para as crianças. Tem uma coisa interessante: as crianças gostam de livros. Eles são bonitos, têm ilustrações bonitas, são objetos que a criança carrega para lá e para cá. Mesmo com a ameaça das telas, o livro ainda é um objeto a que a criança se apega.

Ruth Rocha: A pergunta seguinte devia ser assim: como a tecnologia atrapalha a literatura? A literatura tem um espaço que é dela, que não é da tecnologia. A tecnologia talvez até tenha mais espaço [hoje], mas a literatura tem seu espaço. Por isso nunca vai acabar o livro. Livro é uma coisa… O cheiro do livro é uma coisa ótima.

•        Qual o objetivo desse espaço na Feira de Frankfurt?

Mariana Rocha: Temos poucos livros internacionais e as crianças do mundo merecem conhecer a Ruth Rocha. Então estamos fazendo um trabalho, um empenho grande de internacionalizar a obra. É o momento de a gente ir para fora, mostrar. Porque os temas e a linguagem dela são muito atuais.

Vamos ter dez títulos traduzidos para o inglês. São os livros que a gente considera mais universais neste momento. Tem o Marcelo…, tem O Reizinho Mandão, tem O Menino Que Aprendeu a Ver, tem Azul e Lindo: Planeta Terra, Nossa Casa. São livros de temática atual e universais, para a gente começar a conversar com editoras e ter a nossa obra exposta ali para a apreciação do público internacional.

•        A senhora estará na feira com a Mariana?

Ruth Rocha: Eu já não estou viajando para a Europa. Não estou com a bola toda, não estou mais viajando.

•        Aos 93 anos com todo esse sucesso, quais são seus planos para o futuro?

Ruth Rocha: Eu não tenho muitos planos para o futuro porque o meu futuro é muito longo. Eu quero continuar fazendo isso que estou fazendo. Não quero nenhuma coisa diferente. Prêmios, eu ganhei muito. Não preciso mais de prêmios. Consagração, também. Estou contente. Eu não preciso de mais nada.

 

Fonte: DW Brasil

 

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