Trends
literárias estimulam a leitura entre jovens no Brasil
Para
aqueles que dizem que as tecnologias digitais vão tomar o lugar dos livros, o
Brasil tem mostrado que essa história pode ser diferente. De 2024 para 2025, o
país ganhou 3 milhões de novos consumidores de livros, segundo a pesquisa
Panorama do Consumo de Livros.
Realizada
pela Câmara Brasileira do Livro em parceria com a Nielsen BookData, a pesquisa
indica que, na prática, 18% da população comprou ao menos um livro em 2025, um
aumento de dois pontos percentuais em relação ao ano anterior. O maior
crescimento foi registrado entre os jovens adultos, de 18 a 34 anos, que
avançaram 3,4 pontos porcentuais em comparação ao registrado 2024.
Esses
dados indicam que a internet pode estar influenciando esse cenário. Fenômenos
como "BookTok", uma subcomunidade do TikTok voltada para a leitura, e
perfis literários têm popularizado obras nacionais e internacionais.
"Você
encontra pessoas que leem um livro que, aparentemente, se você estivesse, sei
lá, andando na livraria, não te chamaria atenção. Mas alguém que parece que
poderia ser seu amigo fala: ‘Nossa, que legal esse livro. Ele mexeu comigo por
causa disso, disso, disso. E é um livro muito bom’", explica a criadora de
conteúdo literário Beatriz Paludetto.
Paludetto
acredita que esse movimento traz a sensação de proximidade entre influenciador
e público, ajudando as novas gerações a se identificarem com as experiências
alheias e a encontrarem conforto na literatura.
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Redes sociais, juventude e literatura
Essa
também é a opinião da presidente da Câmara Brasileira do Livro, Sevani Matos.
"As redes sociais se tornaram uma porta de entrada importante para novos
leitores. Criadores de conteúdo, recomendações online e comunidades virtuais
são os três principais motivos que possibilitam a ampliação do alcance da
literatura, especialmente entre os mais jovens".
Segundo
a pesquisa Panorama do Consumo, 57% dos consumidores de livros dizem acompanhar
algum conteúdo relacionado à literatura nas redes sociais, enquanto 56% afirmam
comprar livros por lá.
Essa
relação com as redes, no entanto, não significa que o produto adquirido também
é digital. Ao serem questionados, quatro em cada cinco entrevistados afirmaram
que o último livro comprado por eles havia sido um exemplar impresso.
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Luz no fim do túnel para as livrarias
O
crescimento da presença digital de conteúdos literários não significa uma
ameaça para as livrarias. Apesar de 49% dos consumidores preferirem comprar
online, outros 44% ainda priorizam adquirir livros presencialmente. Dentre os
motivos citados, estão o desejo de ver e sentir a obra impressa antes de
realizar a compra e a preferência por ter o livro em mãos logo após o
pagamento, sem necessidade de aguardar pela entrega.
Por
essas e outras razões, é possível dizer que as livrarias ainda ocupam um lugar
especial no coração dos leitores. Ainda de acordo com a pesquisa Panorama do
Consumo, esses locais são compreendidos como espaços para "relaxar e
explorar sem pressa" e são oportunidades para os consumidores se
conectarem com cultura e novos conhecimentos.
Os
próprios donos de livrarias já entenderam o recado. Atualmente, o negócio não
pode ser, somente, sobre a venda de livros. "Aqui, no nosso caso,
planejamos pensando numa experiência sensorial completa. Então, desde essa luz
gostosa em que estamos, uma música baixinha, um cheiro de café, uma poltrona,
um tapete… tudo isso forma mais do que um espaço: é um lugar", relata
Luciana Gil, que é livreira e sócia da livraria Bibla.
Considerando
todo o carinho e dedicação envolvidos e os benefícios da compra presencial, não
é à toa que 43% dos brasileiros afirmam que ainda frequentam livrarias ao menos
uma vez por mês.
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Leitura e compra de livros
Mesmo
com uma tendência positiva no consumo de livros, o Brasil possui ainda uma
grande parcela da população que não lê livros. A mais recente edição da
pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, mostrou que, em
2024, 53% dos entrevistados se consideraram "não-leitores", contra
47% dos leitores. Em 2019, eram 52% leitores e 48% não-leitores.
Foi a
primeira vez na pesquisa realizada desde 2007 que a parcela dos que não leem
livros superou a daqueles que recorrem à literatura nos momentos de lazer. O
único segmento da população brasileira que não teve queda no número de leitores
foi nas faixas etárias de 11 a 13 anos e de mais de 70 anos.
"O
livro nunca vai acabar", diz
escritora
Ruth
Rocha escancara um sorriso sincero quando o assunto é o imaginário das
crianças. "Eu tenho esperança nas crianças, acho que as crianças são a
esperança do mundo, né?", comenta. Aos 93 anos, a escritora é um dos mais
consagrados nomes da literatura infantil brasileira de todos os tempos. E
agora, em um movimento para internacionalizar mais sua obra, terá um espaço
especial na Feira do Livro de Frankfurt, que começa nesta quarta-feira (16/10)
e vai até 20 de outubro.
Gestora
de sua obra, a filha Mariana Rocha conta que, para o evento internacional,
foram selecionados dez livros "com temáticas atuais e universais".
Traduzidos para o inglês, eles serão exibidos ao público da feira, com a
expectativa de seus direitos sejam adquiridos por editoras de outros países. O
mesmo será feito na Feira do Livro Infantil de Bolonha do ano que vem, que
acontece entre 31 de março de 3 de abril.
A
escritora ostenta números impressionantes. São 200 livros publicados, 40
milhões de exemplares vendidos e obras traduzidas para mais de 25 idiomas.
Ganhou oito vezes o prêmio Jabuti e teve um de seus livros, O Reizinho Mandão,
incluindo na lista de honra do prêmio internacional Hans Christian Andersen.
Publicado
em 1978, quando o Brasil vivia sob a ditadura militar, O Reizinho Mandão é uma
história que mostra, dentro do universo infantil, os problemas do autoritarismo
e da falta de democracia. É um dos maiores sucessos da autora, ao lado do
best-seller Marcelo, Marmelo, Martelo, de 1976, sobre um menino que questiona
os nomes das coisas — e resolve rebatizar tudo seguindo sua peculiar lógica.
Ao
longo desses quase 50 anos de produção literária, Rocha acredita que as
crianças "não mudaram tanto". "Nós é que mudamos o tratamento
que damos às crianças", diz. Ela concedeu entrevista à DW ao lado da filha
Mariana.
LEIA A
ENTREVISTA:
• São quase 50 anos e 200 livros
publicados. Como consegue continuar falando tão bem com as crianças? A senhora
não envelheceu?
Ruth
Rocha: Olha, eu acho que a gente fala bem com a criança quando gosta de
criança. Eu gosto de criança. Eu tive muita criança na minha vida. Eu tive
irmãos mais jovens, depois eu tive sobrinhos, eu tive a minha filha, agora tem
meus netos, que são já moços, mas foram crianças! E eu tenho um respeito com a
criança. Eu tenho esperança nas crianças, acho que as crianças são a esperança
do mundo, né? Então eu tenho boa-vontade, carinho com criança. E isso me ajuda
muito.
• Seus livros mais antigos ainda conseguem
dialogar com as crianças de hoje em dia?
Ruth
Rocha: Eu escrevi um livro que se chama Marcelo, Marmelo, Martelo. Ele é o
livro mais vendido meu há 50 anos. Até hoje as crianças continuam gostando
muito dele, então eu acho que elas não mudaram tanto. Nós é que mudamos o
tratamento que damos às crianças. Não damos mais aquele tratamento autoritário,
como se a criança não tivesse importância. Isso modificou muito as crianças.
Por outro lado, elas têm os mesmos anseios, os mesmos problemas, as mesmas
ideias, os mesmos medos, os mesmos desejos. Elas não são tão diferentes. Acho
que elas continuam gostando dos livros.
Mariana
Rocha: Os livros dela, apesar de serem antigos no tempo, trazem temas muito
atuais. Ela falava sobre liberdade de expressão, sobre fascismo, sobre
feminismo, sobre meio ambiente. São assuntos muito atuais. Ela tinha um
pensamento um pouco à frente talvez do seu tempo, acompanhou muito bem.
• Há títulos que falam sobre meio
ambiente, sobre racismo… Esses temas são mais necessários hoje em dia?
Ruth
Rocha: O que eu posso dizer é que os livros vendem. Vendem para as escolas,
para os pais, para as crianças. Então eu acredito que eles gostem disso. Não
sei se todos. Temos um público que não se interessa por nada do que é bom…
Mariana
Rocha: A gente estava comentando aqui sobre o avanço da direita, da extrema
direita no Brasil e no mundo. Às vezes temos uma desconfiança em alguns livros,
em alguns temas. Às vezes os livros mais leves, com assuntos mais banais,
agradam mais do que livros mais comprometidos com certos valores mais
vanguardistas, digamos, de esquerda. Então sentimos que alguns livros ficam
para trás mesmo tendo textos muito importantes, muito bons.
• Mas no caso desses temas, eles vêm como
uma vontade própria ou existe um pedido dos editores, dos professores?
Ruth
Rocha: É o que eu quero. É o que eu faço. Eu nunca fiz nada para editor.
• E como disputar a atenção das crianças
de hoje, concorrendo com celulares, tablets e tantas telas?
Ruth
Rocha: Não sei, não sei. A gente fala na televisão, a gente faz lançamentos. A
escola é uma coisa que nem sei se é boa [para isso] porque obriga a ler…
Mariana
Rocha: As escolas trabalham muito com os livros da minha mãe, então temos um
apoio das escolas, que são um dos veículos que apresentam [a obra dela] para as
crianças. Tem uma coisa interessante: as crianças gostam de livros. Eles são
bonitos, têm ilustrações bonitas, são objetos que a criança carrega para lá e
para cá. Mesmo com a ameaça das telas, o livro ainda é um objeto a que a
criança se apega.
Ruth
Rocha: A pergunta seguinte devia ser assim: como a tecnologia atrapalha a
literatura? A literatura tem um espaço que é dela, que não é da tecnologia. A
tecnologia talvez até tenha mais espaço [hoje], mas a literatura tem seu
espaço. Por isso nunca vai acabar o livro. Livro é uma coisa… O cheiro do livro
é uma coisa ótima.
• Qual o objetivo desse espaço na Feira de
Frankfurt?
Mariana
Rocha: Temos poucos livros internacionais e as crianças do mundo merecem
conhecer a Ruth Rocha. Então estamos fazendo um trabalho, um empenho grande de
internacionalizar a obra. É o momento de a gente ir para fora, mostrar. Porque
os temas e a linguagem dela são muito atuais.
Vamos
ter dez títulos traduzidos para o inglês. São os livros que a gente considera
mais universais neste momento. Tem o Marcelo…, tem O Reizinho Mandão, tem O
Menino Que Aprendeu a Ver, tem Azul e Lindo: Planeta Terra, Nossa Casa. São
livros de temática atual e universais, para a gente começar a conversar com
editoras e ter a nossa obra exposta ali para a apreciação do público
internacional.
• A senhora estará na feira com a Mariana?
Ruth
Rocha: Eu já não estou viajando para a Europa. Não estou com a bola toda, não
estou mais viajando.
• Aos 93 anos com todo esse sucesso, quais
são seus planos para o futuro?
Ruth
Rocha: Eu não tenho muitos planos para o futuro porque o meu futuro é muito
longo. Eu quero continuar fazendo isso que estou fazendo. Não quero nenhuma
coisa diferente. Prêmios, eu ganhei muito. Não preciso mais de prêmios.
Consagração, também. Estou contente. Eu não preciso de mais nada.
Fonte:
DW Brasil

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