quinta-feira, 14 de maio de 2026

Por que a CIA multiplicou os templos, sufocou a Teologia da Libertação e pariu o projeto de poder evangélico?

Relatórios desclassificados revelam como Washington instrumentalizou a liberdade religiosa na ditadura militar para criar um "anticorpo espiritual" contra o avanço da esquerda no Brasil...

Havia um método na multiplicação dos templos. Nas décadas de 1960 e 1970, enquanto a ditadura militar apertava os parafusos da repressão no Brasil, uma revolução silenciosa disputava corações e mentes nos grotões e nas periferias. Sob o véu da liberdade religiosa, cruzadas evangelísticas e o avanço do movimento evangélico brotavam por todo o país, mas os tijolos dessa expansão nem sempre vinham apenas de doações de fiéis. Documentos secretos, relatórios de inteligência e investigações independentes, reunidos aos poucos como peças de um quebra-cabeça que muitos queriam manter incompleto, apontam para um padrinho improvável por trás dos púlpitos: a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA).

Durante a Guerra Fria, Washington tinha pavor de que o vírus comunista infectasse o “quintal” latino-americano. A preocupação se intensificou quando setores progressistas da Igreja Católica abraçaram a Teologia da Libertação, uma leitura do Evangelho que colocava Cristo ao lado dos pobres. Para o establishment estadunidense, aquilo era marxismo travestido de batina. Foi nesse contexto que a CIA passou a enxergar as igrejas evangélicas como uma espécie de anticorpo espiritual — e a investir pesado em sua proliferação.

<><> Bispos denunciam a infiltração

Um dos primeiros alertas veio de dentro da própria Igreja Católica. Em 1985, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) enviou um relatório bombástico ao Vaticano. O documento, citado pelo jornal The Washington Post naquele mesmo ano, afirmava que a CIA havia se infiltrado em grupos religiosos não católicos no Brasil e que “fortes grupos, especialmente dos Estados Unidos, enviam grandes somas de dinheiro para as atividades de grupos religiosos independentes”. Os bispos mencionavam nominalmente “seitas evangélicas protestantes” que chegavam ao país com auxílio americano, obtendo vistos com facilidade — privilégio negado aos missionários católicos comprometidos com a causa dos pobres. O relatório também alertava que o esquema parecia fazer parte de uma “estratégia global americana”, que incluía a infiltração direta em determinados grupos.

<><> O recrutamento de missionários

Os dados não param nas denúncias eclesiásticas. Em 1975, pressionada por organizações religiosas, a própria CIA admitiu que usava missionários e clérigos como informantes e para atividades encobertas na América Latina. Uma investigação do jornalista John Marks, coautor do livro The CIA and the Cult of Intelligence, revelou que entre 30% e 40% dos missionários que ele entrevistou tinham alguma história de conexão entre igreja e inteligência para contar. Um veterano de 20 anos na agência foi direto: “Usaria qualquer um para alcançar meus objetivos. Já usei monges budistas, padres católicos e até um bispo”.

<><> Da Casa Branca aos templos

Como esse dinheiro chegava ao chão brasileiro? Documentos recentemente desclassificados e analisados pelo historiador Rodrigo de Sá Netto, da Universidade Federal Fluminense (UFF), mostram um sofisticado esquema de triangulação. O governo dos EUA, por meio de agências como a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e a Agência de Informação dos Estados Unidos (USIA), canalizava recursos para organizações missionárias que atuavam como verdadeiras multinacionais da fé.

O Conselho de Segurança Nacional estadunidense registrava, já nos anos 1960, a presença disseminada de missões evangélicas estrangeiras na Amazônia. Pesquisadores e organizações indigenistas passaram posteriormente a associar parte dessas missões à política de integração forçada de povos indígenas, à expansão de interesses econômicos sobre a região e às estratégias anticomunistas de Washington durante a Guerra Fria.

<><> A estratégia desenhada

A peça central desse debate é o Relatório Rockefeller. Em 1969, a pedido do presidente Richard Nixon, Nelson Rockefeller percorreu a América Latina em uma missão para avaliar a região em meio ao avanço de forças nacionalistas, populares e de esquerda.

O relatório identificou setores da Igreja Católica como uma força de mudança social, em alguns casos “revolucionária se necessário”, e apontou a influência da conferência episcopal de Medellín, de 1968. Anos depois, essa leitura seria associada por pesquisadores e críticos da política estadunidense ao estímulo de Washington a correntes religiosas conservadoras, sobretudo evangélicas, como forma de conter a Teologia da Libertação e o avanço da esquerda no continente.

<><> O voo das multinacionais da fé

Sob esse guarda-chuva, desembarcaram no Brasil organizações como o Summer Institute of Linguistics (SIL), braço da missão Wycliffe Bible Translators. Oficialmente dedicado a traduzir a Bíblia para línguas indígenas, o SIL construiu uma rede de bases na Amazônia com infraestrutura que incluía sistema próprio de rádio e aviação — o Jungle Aviation and Radio Service (JAARS) — e recebia financiamento de petrolíferas como a Shell e de agências governamentais estadunidenses.

Sua atuação, segundo os repórteres Gerard Colby e Charlotte Dennett, ia muito além da tradução bíblica: funcionava como “vanguarda da destruição das florestas tropicais”, preparando terreno para a exploração de recursos naturais. Outro veículo crucial foi a Campus Crusade for Christ — atualmente CRU —, que liderou a campanha “Here’s Life” em 1974 com apoio direto de oficiais consulares estadunidenses no Brasil, promovendo um cristianismo despolitizado e anticomunista.

Emissoras como a Trans World Radio e a HCJB, sediada no Equador, transmitiam sermões de coloração anticomunista para vastas áreas onde a Teologia da Libertação vinha ganhando terreno.

<><> Igrejas que nasceram nesse caldo

Muitas das denominações que hoje contam com milhões de fiéis foram fundadas ou impulsionadas nesse ambiente. A Igreja do Evangelho Quadrangular chegou ao Brasil em 1951, enviada diretamente dos Estados Unidos, abrindo caminho para que pastores brasileiros fundassem a Igreja Deus é Amor e a Igreja Brasil para Cristo — denominações que serviram de base para que Edir Macedo erguesse, em 1977, a poderosa Igreja Universal do Reino de Deus.

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Há também a controversa Igreja da Unificação, do reverendo Moon. Documentos do serviço secreto brasileiro mostram que a ditadura militar a protegeu abertamente porque a igreja “fazia atividades de conscientização política anticomunista” e “denunciava sistematicamente as mazelas do comunismo”.

<><> O monitoramento do voto evangélico

O interesse da inteligência estadunidense não era apenas doutrinário: era eleitoral. Em 1989, quando Luiz Inácio Lula da Silva despontava como candidato viável à Presidência, a CIA passou a dedicar espaço inédito em seus relatórios sobre o Brasil ao voto evangélico. A agência examinava “sua estrutura de poder, formada por milhões de votos, igrejas e redes de comunicação” e destacava o papel da Igreja Universal do Reino de Deus e de Edir Macedo, que, na avaliação dos analistas, comungava do mesmo objetivo das Organizações Globo: “evitar o milagre de um operário, sem curso superior, virar presidente no Brasil”.

<><> O legado que permanece

Essa arquitetura, construída tijolo por tijolo durante três décadas, transformou o mapa religioso brasileiro. O censo de 2010 já mostrava que os católicos haviam caído de 93,5% da população, em 1950, para menos de 65%, enquanto os evangélicos disparavam para mais de 22% — percentual que, segundo projeções, pode ultrapassar 30% no próximo censo.

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Os filhos daquela estratégia continuam ativos. Em 2019, o grupo ultraconservador Capitol Ministries, com raízes profundas no Partido Republicano estadunidense, instalou-se em Brasília e obteve acesso a integrantes do governo Bolsonaro. E, em 2023, a Polícia Federal (PF) constatou que igrejas batistas, presbiterianas e Assembleias de Deus teriam financiado ônibus e recrutado participantes para os atos golpistas de 8 de janeiro, que culminaram na invasão das sedes dos Três Poderes.

<><> A fé como instrumento de poder

A história aqui contada não é sobre fé genuína. É sobre como a fé pode ser instrumentalizada para fins geopolíticos. Os documentos que revelam essa trama — alguns disponíveis apenas de forma fragmentada, outros ainda classificados — mostram que, por trás de muitas igrejas que hoje moldam a política nacional, há um projeto de poder meticulosamente arquitetado durante a Guerra Fria.

Como escreveu o analista político Germán Gorraiz López, as igrejas evangélicas latino-americanizadas “conseguiram traçar uma nova arquitetura espiritual no chamado quintal dos Estados Unidos, enquanto teciam uma densa rede de contatos como agentes encobertos da CIA para apoiar candidatos leais aos interesses americanos”.

Não se trata de demonizar a crença de milhões de brasileiros. Trata-se de compreender que, em certos momentos da história, a mão invisível do mercado pode ser, na verdade, a mão bastante visível de uma agência de inteligência. E que, entre o púlpito e o altar, às vezes há um microfone ligado diretamente a Langley.

¨      Evangélicos e poder: a disputa pela alma política do Brasil. Por Paulo Cannabrava Filho

O crescimento das igrejas evangélicas no Brasil deixou de ser apenas um fenômeno religioso para se tornar um fator central na disputa política. Em ano eleitoral, essa presença ganha ainda mais peso e levanta uma preocupação evidente: estamos diante de um projeto organizado de poder.

Hoje, os evangélicos já se aproximam de algo em torno de um terço da população brasileira, com projeções indicando avanço contínuo. Esse crescimento se expressa em números robustos. A Assembleia de Deus reúne cerca de 12 milhões de fiéis; a Congregação Cristã no Brasil, mais de 2 milhões; a Igreja Universal do Reino de Deus, 1,9 milhão; a Quadrangular, 1,8 milhão; Deus é Amor, 845 mil; além de diversas outras denominações que, somadas, alcançam milhões de brasileiros. Entre as igrejas tradicionais, destacam-se os batistas, com cerca de 3,7 milhões, e os adventistas do sétimo dia, com 1,5 milhão, além de luteranos, presbiterianos e metodistas.

Esse contingente não está disperso. Ele vem sendo sistematicamente trabalhado politicamente. O Partido Liberal (PL), por exemplo, mapeia essas igrejas com o objetivo de transformá-las em base eleitoral organizada. Lideranças religiosas assumem papel direto na política, orientando votos e mobilizando fiéis. Um caso emblemático é o da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, do pastor Silas Malafaia, que já declarou apoio ao senador Flávio Bolsonaro, projetado como candidato à Presidência da República, levando essa influência diretamente para dentro da disputa eleitoral.

Mas esse movimento não pode ser analisado apenas no plano doméstico. Em A Nova Roma, mostro como os Estados Unidos se consolidaram como uma potência imperial também através da instrumentalização da fé. Grande parte dessas denominações tem origem nos Estados Unidos e carrega consigo uma visão teológica que não é neutra: trata-se da teologia da prosperidade e, em muitos casos, da chamada teologia do domínio, que desloca o foco da justiça social para a legitimação do poder e da riqueza.

Esse avanço contrasta com o papel histórico da teologia da libertação, que aproximava a Igreja Católica das camadas populares e colocava a fé a serviço da transformação social. O que vemos agora é uma inversão: a religião sendo utilizada como instrumento de conformação e controle.

Há ainda um componente geopolítico que não pode ser ignorado. Em estudo recente, o jornalista Leonardo Wexel Severo demonstra como determinadas seitas religiosas atuam articuladas a interesses externos, funcionando como extensão de estratégias políticas, inclusive vinculadas ao Estado de Israel. Em países como a Guatemala, esse processo se deu sob um clima de terror e repressão, frequentemente silenciado pela mídia hegemônica.

No Brasil, sinais desse alinhamento aparecem no uso recorrente de símbolos de Israel em cultos e atividades religiosas, apresentados como referência espiritual incontestável. No entanto, esse discurso pode operar como instrumento de despolitização e desvio de foco, enquanto se constrói, na prática, um projeto de ocupação de espaços de poder.

A situação é crítica. Mais do que nunca, o desafio é levar à população a verdade dos fatos, romper o véu da manipulação e do uso político da fé. Em ano eleitoral, cabe exigir do candidato das forças democráticas não apenas resistência, mas um projeto claro de salvação nacional — capaz de recuperar a soberania, reafirmar o caráter laico do Estado e devolver à política seu compromisso com o interesse público.

¨      Fé em Deus, voto na família: o culto político que expõe o poder dos púlpitos

A crescente influência política das igrejas evangélicas no Brasil tem ampliado o debate sobre os limites entre fé, poder e processo eleitoral. Em diferentes regiões do país, templos religiosos têm se transformado em espaços de mobilização política, onde líderes religiosos e agentes públicos utilizam cultos para apresentar candidaturas, pedir apoio eleitoral e consolidar bases de sustentação entre os fiéis. O fenômeno, embora não seja novo, ganha contornos mais evidentes à medida que as eleições se aproximam, especialmente em estados onde a força do eleitorado evangélico é decisiva. Em tese, a legislação eleitoral brasileira permite que candidatos frequentem ambientes religiosos e até participem de eventos públicos. No entanto, especialistas apontam que o uso de púlpitos para promoção política e a vinculação explícita entre fé e voto levantam questionamentos éticos e jurídicos sobre abuso de poder religioso e possível desequilíbrio na disputa eleitoral. Embora ainda não exista tipificação específica na legislação para “abuso de poder religioso”, o tema já é alvo de debates recorrentes no âmbito da Justiça Eleitoral. Um exemplo recente ocorreu em Roraima, envolvendo o deputado estadual Isamar Júnior. Durante um culto evangélico realizado na igreja liderada por sua família, o parlamentar anunciou que abriria mão da candidatura à reeleição para apoiar dois projetos políticos familiares: a candidatura do pai, o pastor Isamar Ramalho, ao Senado Federal, e a da mãe, missionária Maria de Nazaré Sodré Ramalho, à Assembleia Legislativa de Roraima. A declaração ocorreu diante de membros da congregação e repercutiu nos bastidores políticos do estado. No mesmo discurso, o parlamentar afirmou que colocaria sua estrutura política à disposição da campanha do pai, mencionando inclusive o mandato e servidores vinculados ao gabinete parlamentar. A fala gerou questionamentos sobre eventual uso da máquina pública em benefício eleitoral, sobretudo pelo fato de a declaração ter sido feita em um ambiente religioso, diante de fiéis da denominação comandada pela própria família. O episódio reacendeu um debate nacional sobre o papel das igrejas na política. Para críticos, a utilização de cultos como espaço de articulação eleitoral pode comprometer a liberdade de escolha do eleitor, especialmente quando há influência direta de lideranças religiosas sobre os fiéis. Já defensores da participação política das igrejas argumentam que líderes religiosos têm direito à manifestação política e que comunidades de fé também fazem parte do tecido democrático do país. Em “pente fino” na atuação do parlamentar é possível constatar que o mandato não foi suficiente para demandas reais da população, se limitando a causas evangélicas como a criação do Dia da Bíblica em Roraima ou a condecoração com honrarias da Assembleia Legislativa de Roraima (ALERR) ao próprio pai. No início do mandato, Isamar também se envolveu em uma grande polêmica ao supostamente receber dinheiro público e ir assistir a um jogo de futebol no Rio de Janeiro, quando deveria estar representando a Casa Legislativa em Brasília. Nas últimas décadas, o crescimento da bancada evangélica e da influência religiosa nas disputas eleitorais consolidou uma nova dinâmica política. Pastores, bispos e líderes ministeriais passaram a atuar não apenas como formadores de opinião moral, mas também como articuladores eleitorais, frequentemente apresentando candidatos “oficiais” das igrejas ou orientando o voto em nomes considerados alinhados aos valores religiosos. Em estados da região Norte, onde igrejas pentecostais e neopentecostais possuem forte capilaridade social, o fenômeno é ainda mais evidente. Cultos religiosos frequentemente se transformam em espaços de demonstração de apoio político, aproximando púlpito e palanque em uma relação que, para muitos observadores, redefine as fronteiras entre religião e poder no Brasil contemporâneo.

Fonte: Por Wagner França, em Presa Latina/Diálogs do Sul Global/Portal O Fato

 

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