Fernando
Nogueira da Costa: Capital fictício versus produtivo
A ideia
de “dupla forma de capital fictício” no Brasil – financeira e fundiária – pode
ser entendida como dois mecanismos distintos de capitalização de rendas
futuras. Eles se reforçam mutuamente. Ambos transformam fluxos esperados de
renda em estoques de riqueza negociáveis no presente. Essa noção deriva da
crítica do “capital fictício”, elaborada por Karl Marx, mas assume uma
configuração peculiar na economia brasileira. Nela, o capital fictício
financeiro seria principalmente a dívida pública indexada.
Após as
reformas financeiras de meados dos anos 1960, o Estado brasileiro estruturou um
mercado sofisticado de títulos públicos. Esses títulos representam direito a
fluxos futuros de juros pagos pelo Estado, ou seja, o título é um ativo
financeiro capaz de capitalizar receitas futuras. Matematicamente, o preço de
um título pode ser representado como o valor presente de fluxos de juros pagos
periodicamente. Incide sobre o valor de resgate uma taxa de desconto do custo
de oportunidade: o juro de mercado deixado de ganhar por fazer outra opção de
investimento.
Esse
ativo é “fictício”, no sentido marxista, porque não corresponde diretamente a
capital produtivo, mas a um direito sobre receitas futuras do Estado. Como
instituições centrais desse sistema, garantidores do “risco soberano” em moeda
nacional, estão o Tesouro Nacional e o Banco Central do Brasil. Algo
conceitualmente semelhante ocorre com a terra urbana. Há um capital fictício
fundiário devido à sua valorização. O preço de um terreno ou imóvel também
reflete a capitalização de rendas futuras esperadas, como aluguéis ou
valorização urbana.
A
lógica econômica pode ser representada pela fórmula clássica de capitalização
da renda fundiária. O preço do terreno se relaciona com a renda anual esperada
(aluguéis ou renda fundiária implícita) e tem como custo de oportunidade da
taxa de juros de mercado. Assim, a terra urbana também se torna um ativo
financeiro implícito, cujo valor depende da taxa de juros. O elo entre os dois
sistemas aparece em uma interligação estrutural. A taxa de juros definida no
mercado de dívida pública funciona como taxa de desconto para todos os ativos
da economia. Logo, quando os juros sobem, os preços de imóveis tendem a cair.
Quando os juros caem, os preços de imóveis tendem a subir. Assim, a riqueza
fundiária é indiretamente ancorada na estrutura da dívida pública.
A
economia brasileira acabou estruturando um circuito macroeconômico de
valorização patrimonial com dois polos. No polo financeiro, encontram-se
títulos públicos, fundos de investimento e outros ativos indexados à taxa
básica. No polo imobiliário, estão a terra urbana, os edifícios e a renda de
aluguel, além da valorização. Muitas famílias e investidores costumam transitar
entre esses dois polos. Um exemplo típico é vender imóvel e aplicar em títulos,
outro é acumular renda financeira para comprar imóveis. Essa dupla forma de
capital fictício gera três efeitos estruturais como consequência
macroeconômica. O primeiro é a forte patrimonialização da economia. Grande
parte da riqueza está em ativos que representam direitos sobre renda futura,
não capital produtivo direto.
O
segundo é a sensibilidade às taxas de juros Mudanças na taxa básica afetam
simultaneamente preços de títulos e preços de imóveis.
O
terceiro é a simplificação da desigualdade patrimonial. Quem já possui ativos
financeiros ou imóveis captura juros do Estado e valorização urbana.
O caso
brasileiro é peculiar porque combina simultaneamente um dos maiores mercados de
dívida pública doméstica do mundo e grande valorização imobiliária urbana nas
últimas décadas. Isso conecta dois sistemas de capitalização patrimonial
normalmente aparecidos separadamente em outros países. No Brasil formou-se um
sistema patrimonial dual: capital fictício financeiro resultante de títulos da
dívida pública e capital fictício fundiário como resultado de valorização de
terra urbana e imóveis. Ambos derivam da capitalização de rendas futuras e são
interligados pela taxa de juros da economia. No entanto, falta uma visão
sistêmica ao afirmar “grande parte da riqueza está em ativos representativos
direitos sobre renda futura, não capital produtivo direto”. Na realidade,
ativos financeiros são fontes de financiamento ou funding, para bancos
captarem, como passivos de novos financiamentos, inclusive imobiliários.
Esse é
um limite analítico comum quando se usa a noção de capital fictício de maneira
isolada. Uma abordagem sistêmica mostra os ativos financeiros não serem apenas
direitos sobre renda futura, mas também componentes funcionais de um circuito
de financiamento capaz de conectar balanços patrimoniais de diferentes agentes.
O que é ativo para alguém é passivo para outro agente. Esse passivo acaba por
financiar investimento real. Portanto, o princípio contábil sistêmico é: ativo
de um, passivo de outro. Em qualquer sistema financeiro, um título público é
ativo para o investidor, mas é passivo do Estado, inclusive para executar
gastos públicos com pessoal e assistência social e previdenciária. Da mesma
forma, um depósito bancário é ativo para o depositante, mas passivo do banco.
Esse passivo serve como funding para concessão de crédito. Assim, ativos
financeiros fazem parte de um sistema interligado de balanços.
No
Brasil, títulos da dívida pública cumprem funções centrais no sistema
financeiro. Eles são usados para gestão de liquidez bancária, garantia em
operações interbancárias, colateral em operações com o Banco Central do Brasil
e lastro de fundos de investimento. O Tesouro Nacional emite esses títulos e
por seu risco soberano acabam estruturando a base segura do sistema financeiro.
Assim, eles não são apenas riqueza patrimonial – são também infraestrutura do
sistema de crédito.
Bancos
realizam uma operação fundamental: transformação bancária de maturidade e risco
transformação de passivos líquidos em ativos de crédito. Em exemplo
simplificado, investidores compram títulos ou fazem depósitos, bancos captam
esses recursos e concedem crédito. Esse crédito pode financiar consumo,
investimento empresarial e financiamento imobiliário.
No caso
do mercado imobiliário brasileiro, o financiamento depende fortemente do
sistema financeiro. Por exemplo, famílias aplicam em fundos ou depósitos,
bancos captam esses recursos e concedem crédito imobiliário para incorporadoras
construírem edifícios. Instituições como a Caixa Econômica Federal desempenham
papel importante nesse circuito financeiro-imobiliário.
O
conceito marxista de capital fictício não nega essa intermediação. Ele enfatiza
outro ponto: o valor de mercado dos ativos financeiros pode crescer
independentemente da expansão do capital produtivo. Pode haver valorização
patrimonial (estoque de riqueza) sem crescimento proporcional da produção
(fluxo de renda). Mas isso não elimina o papel fundamental dos ativos
financeiros na infraestrutura do crédito. Uma leitura sistêmica mais adequada
vê três níveis interligados: o nível patrimonial, no qual ativos representam
direitos sobre renda futura.; o nível financeiro, onde esses ativos funcionam
como funding e colateral; e o nível macroeconômico, quando o crédito financiado
por esse sistema pode sustentar investimento produtivo, investimento
imobiliário e consumo.
Como
implicação analítica, não é adequado separar rigidamente o capital financeiro e
o capital produtivo. Eles fazem parte de um circuito de financiamento
interdependente. O problema analítico surge quando, em certa fase recessiva,
ocorre crescimento da riqueza financeira sem uma expansão correspondente da
capacidade produtiva. Mas uma abordagem sistêmica mostra os ativos financeiros
serem simultaneamente riqueza patrimonial e funding do sistema bancário, ou
seja, essa forma de manutenção de riqueza atua na infraestrutura do crédito.
Portanto,
a distinção entre capital fictício e capital produtivo não deve ser
interpretada como separação absoluta, mas como níveis diferentes de análise
dentro do mesmo circuito financeiro-produtivo.
• A política de juros do Banco Central é
um desastre. Por Paulo Nogueira Batista Jr.
“Gabriel
Galípolo é um traidor”, disparou Luiz Carlos Bresser-Pereira há poucos dias.
Não iria tão longe, ainda tenho uma esperança (minguante) de que Gabriel
Galípolo possa reorientar a política monetária. Mas não há dúvida de que é
imensa a frustração com o presidente e os diretores do Banco Central – tanto
mais que todos eles foram nomeados pelo presidente Lula. Que diferença fez a
nova diretoria do Banco Central até agora? Pode ser que estejam preparando
coisas importantíssimas nos bastidores, mas não se nota por enquanto nenhuma
mudança expressiva em comparação com a gestão Roberto Campos Neto. Os juros
continuam na lua, produzindo estragos consideráveis no país. Antes de entrar no
assunto, faço duas ressalvas rápidas. Primeira: Gabriel Galípolo é um quadro de
valor, experiente (apesar de jovem) e conhecedor dos meandros do mercado
financeiro. Os problemas que apontarei no artigo não decorrem de incompetência
ou despreparo dele. Segunda ressalva: o Banco Central tem atribuições variadas:
conduz a política monetária por meio da taxa básica de juros (a Selic);
supervisiona e regula o sistema financeiro; administra a política cambial e as
reservas internacionais do país; e cuida do sistema de pagamentos, entre outras
atribuições. Vou tratar neste artigo apenas da primeira atribuição, a mais
central e que chama mais atenção – a política de juros.
Bem.
Nesse terreno, a política monetária comete um “erro grotesco”, como disse
recentemente um participante do mercado financeiro em entrevista a um jornal.
De fato, as taxas de juro no Brasil impressionam qualquer um. Há casos de
outros países relevantes que tenham mantido juros reais na estratosfera por
tanto tempo? Se existem, são raríssimos. Apesar das duas reduções de 0,25 ponto
percentual nas últimas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom), a
Selic se situa em cerca de 10% a.a. em termos reais ex ante, isto é, quando a
taxa nominal é deflacionada pelas projeções de inflação do Banco Central e do
mercado. E, pior, os juros médios cobrados pelos bancos e outras instituições
financeiras, na faixa livre de crédito, situam-se em torno de 35% a.a. em
termos reais – 15% para pessoas jurídicas e nada menos que 52% para pessoas
físicas! São taxas de juro para ninguém botar defeito. Destroem as finanças de
famílias, de empresas e do próprio governo.
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O quarto choque do petróleo
Há
justificativas para manter os juros nesse nível? O argumento mais recente em
favor de juros altos é o choque do petróleo decorrente da agressão ao Irã. É
verdade que a guerra na Ásia Ocidental produz impacto substancial não só sobre
as cotações do petróleo e seus derivados, mas também de outros produtos
importantes, como gás natural, fertilizantes e alimentos. Esse impacto deve
persistir, pois não há solução à vista que permita reabrir duradouramente o
Estreito de Ormuz. Não se deve perder de vista, entretanto, que o Brasil é um
dos ganhadores com esse choque do petróleo, o quarto desde a década de 1970.
Diferentemente do que se verificava na época dos primeiros choques, o Brasil
não mais depende de importação de petróleo bruto. Ao contrário, estima-se que o
Brasil tenha sido, em 2025, o sétimo maior exportador de petróleo bruto no
mundo (em termos de volume) e o décimo maior (em termos de valor), graças
notadamente à política de longo prazo da Petrobrás.
Estamos
entre os exportadores que não dependem do Estreito de Ormuz para escoar a sua
produção para o exterior. Com a guerra, o Brasil sobe nesse ranking,
ultrapassando provavelmente o Kuwait, o Iraque e os Emirados Árabes Unidos,
países que dependem criticamente da passagem pelo Estreito e que sofreram,
ademais, grandes danos à sua capacidade de produção e infraestrutura de
transporte em razão do contra-ataque do Irã à agressão sofrida da parte dos
Estados Unidos e de Israel.
Ou
seja, em consequência do choque do petróleo, aumentam não só os nossos preços
médios de exportação como também as quantidades exportadas – com o Brasil
substituindo exportadores da região do Golfo Pérsico. Os termos de troca e a
balança comercial melhoram. E, com isso, diminui o déficit de balanço de
pagamento em conta corrente, que está alto demais, chegando a 3% do PIB em
2025. Poucos alertam para esse problema, diga-se de passagem. Luiz Carlos
Bresser-Pereira é uma das exceções. Um déficit em conta corrente tão elevado,
somado à necessidade de refinanciar as amortizações da dívida externa, cria
dependência de capitais estrangeiros – uma dependência que já nos fez passar
por grandes dificuldades nas décadas finais do século XX.
Além de
favorecer o balanço de pagamentos, o choque do petróleo ainda proporciona
ganhos fiscais para o Brasil. O Instituto Fiscal Independente, do Senado,
estimou que o resultado primário do setor público pode melhorar em algo como
0,6 ponto percentual do PIB em 2026, admitindo-se que o barril tipo Brent fique
em torno de US$ 100. O impacto positivo projetado reflete, entre outros
fatores, o aumento dos royalties, dos impostos sobre lucros e sobre a produção
das petroleiras, além dos maiores dividendos pagos pela Petrobrás. Esse tipo de
estimativa é sempre incerta, como se sabe, mas dá uma ideia do que se pode
esperar.
Outro
ponto fundamental para essa discussão: dados os efeitos positivos do choque do
petróleo, que são percebidos e antecipados pelo mercado, o real tende a se
apreciar em relação a outras moedas. Não é por acaso que a moeda brasileira
está entre as que mais se valorizaram em 2026. Essa apreciação cambial,
ressalte-se, amortece o impacto inflacionário do choque do petróleo.
Vejam
bem, não estou negando que a alta dos preços externos do petróleo complica o
controle da inflação, pois afeta preços importantes, notadamente derivados do
petróleo, transporte e alimentos. O Brasil sofre de dependência excessiva de
importações de diesel e, sobretudo, de fertilizantes, o que nos fragiliza.
Mesmo
assim, esse impacto inflacionário, já atenuado pelo movimento do câmbio, pode
ser compensado também por diversos instrumentos de que o governo dispõe, alguns
dos quais já estão sendo acionados – entre eles, desoneração tributária sobre
derivados do petróleo, tributação regulatória das exportações de petróleo bruto
e derivados, fiscalização dos preços praticados no país e crédito subsidiado
para setores mais afetados pelo choque. Importante notar que os efeitos
positivos sobre o balanço de pagamentos e as contas governamentais abrem espaço
para essas medidas compensatórias.
Por
todos esses motivos, o argumento de que a crise internacional justifica a
manutenção de juros estratosféricos é duvidoso, para dizer o mínimo – tanto
mais que constitui uma forma ineficaz de neutralizar o choque por acarretar uma
série de prejuízos econômicos e sociais, como veremos na sequência.
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Expectativas de inflação “desancoradas”
O Banco
Central alega que a expectativas de inflação estavam “desancoradas”, mesmo
antes do choque externo, o que justificaria a política monetária superapertada.
Com o choque, a mediana das expectativas de mercado para a variação do IPCA,
apuradas pelo Banco Central, subiram para 4,9% em 2026 e 4% em 2027. As
projeções do próprio Banco Central apontam para taxas um pouco inferiores, de
4,6% neste ano e 3,5% no ano que vem. Como se vê, as projeções superam, de
fato, o centro da meta de inflação, que é 3% com intervalo de tolerância de 1,5
ponto percentual para cima e para baixo. A inflação esperada para este ano
situa-se, inclusive, ligeiramente acima do teto da meta.
Aqui
cabem duas observações. Primeira: o Banco Central não estaria nessa posição
desconfortável se não tivesse fixado, nos tempos do governo Temer, uma meta
irrealista – justificada na época com o seguinte argumento altamente
científico: se a Colômbia e o Chile têm uma meta de 3%, por que não o Brasil?
No
início do atual governo, em 2023, o Conselho Monetário Nacional, presidido pelo
ministro Haddad, poderia ter revisto a meta central para cima e ampliado um
pouco o intervalo de confiança – movendo o centro da meta para, digamos, 3,5%
ou 4% e aumentando o intervalo para +/-2 pontos percentuais. O teto para a
inflação seria hoje de 5,5% ou 6%. Isso foi sugerido na época por vários
economistas, inclusive eu mesmo. O próprio presidente Lula chegou a mencionar
essa possibilidade em público. Mas faltou iniciativa da área econômica do
governo, talvez por temor reverencial ao mercado financeiro, e ficamos
amarrados a um regime de metas excessivamente ambicioso.
Segunda
observação: mesmo com a meta atual, seria perfeitamente possível praticar uma
política de juros menos extravagante, mirando por exemplo, sem declarar, o teto
da meta de 4,5%. E se a inflação ficar um pouco acima disso, não será o fim do
mundo.
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Efeitos destrutivos dos juros altos
Moderação
no comando da política monetária é essencial. Como ignorar os estragos que as
taxas de juro estão fazendo no país? Quem perde? Simples. As empresas que
dependem de crédito interno, o governo por causa do efeito sobre o custo da
dívida pública e, sobretudo, as pessoas físicas endividadas, como se vê pelos
dados antes mencionados. Quem ganha? Não há mistério. Quando aumentam as
despesas financeiras das empresas e das famílias, o aumento vai para o bolso
dos grandes bancos privados e de outras instituições financeiras. Quando
aumentam as despesas financeiras do governo, ganham os bancos (de novo), os
ricos e os super-ricos, ou seja, quem possui elevado patrimônio financeiro no
país. E os juros altos alimentam também a renda dos investidores estrangeiros
detentores de títulos públicos e outros ativos financeiros denominados em
reais.
Não é à
toa que a política de juros escorchantes faz tanto sucesso no mercado
financeiro e na mídia tradicional (que se tornou um puxadinho desse mercado). E
não é à toa que manter fielmente essa política ajuda a garantir um futuro
brilhante no mercado para os que passam pela diretoria do Banco Central. Para
minorar os efeitos dessa porta giratória, seria preciso introduzir uma
quarentena longa para presidentes e outros diretores do Banco Central. De dois
anos, por exemplo. Nesse período, os diretores ficariam legalmente impedidos de
se empregar em instituições financeiras ou prestar serviços de consultoria a
elas. Atualmente, a quarentena no Brasil é de apenas seis meses, baixa para
padrões internacionais, e nem parece ser devidamente fiscalizada.
Medidas
rigorosas como uma quarentena longa e bem vigiada são recomendáveis, uma vez
que o Banco Central é uma instituição poderosa, capaz de produzir efeitos de
grande magnitude sobre a economia. É gigantesco, por exemplo, o desajuste que o
Banco Central produz nas finanças públicas no Brasil. Fala-se muito do déficit
primário, mas nem sempre da carga de juros suportada pelo governo. O déficit
primário do setor público consolidado anda por volta de 0,5% do PIB, em si
mesmo nada de assustador.
O
problema é que o déficit nominal ou total está em torno 8,5% do PIB, refletindo
a carga de juros da ordem de 8% do PIB. Ressalte-se que é esse déficit nominal
elevado, e não o déficit primário, que determina o aumento do estoque da dívida
governamental. E a pesada carga de juros decorre justamente do tamanho da
dívida governamental conjugado com o seu custo médio, que é determinado, por
sua vez, pelos juros do Banco Central. A grande anomalia no Brasil é o custo da
dívida, e não o seu tamanho. Diferentemente do que se espalha, o endividamento
do setor público brasileiro não é muito elevado para padrões internacionais. O
ponto fora da curva é a taxa de juro, sempre entre as mais altas do mundo.
Como se
não bastasse, a política monetária ainda provoca um efeito rebote sobre as
finanças públicas. Na medida em que restringe o crescimento da economia, ela
gera aumentos nas despesas governamentais sensíveis ao nível de atividade (os
gastos com o seguro-desemprego principalmente, mas também com o abono salarial
e benefícios assistenciais). E mais importante do que o efeito sobre gastos: a
retração da economia estreita a base sobre a qual incidem os tributos. Em
outras palavras, a taxa de juro gera um efeito direto sobre o componente
financeiro do déficit ao mesmo tempo em que prejudica o componente primário.
Não se
deve esquecer que a desaceleração da atividade econômica é um objetivo
deliberado da diretoria do Banco Central, que nela vê uma forma de combater a
inflação pelo lado da demanda. No período 2022-2025, o PIB brasileiro cresceu
cerca de 3% ao ano em média, um crescimento modesto. Para 2026 e 2027,
refletindo nossos juros bizarros, as projeções do mercado brasileiro e do FMI
indicam um crescimento de 2% ou menos, inferior ao da economia mundial –
resultado maravilhoso para um economia que sofre há décadas de perda de
dinamismo. E há ainda uma outra dimensão. Os juros altos se encarregam
fielmente de manter intactas e até reforçar a bolsa-banqueiro e a
bolsa-rentista. O gasto financeiro do governo é renda do banqueiro e do
rentista. Promove-se, assim, a concentração da renda nacional, varrendo do mapa
os impactos distributivos da bolsa-família e de outros programas sociais. Isso
num país que é um dos campeões mundiais da desigualdade.
Note-se,
por último, que ao colocar fortunas nas mãos de investidores estrangeiros e de
elites locais apátridas, o Banco Central aumenta a vulnerabilidade externa do
país, pois são esses os que têm capacidade de transferir fácil e rapidamente
recursos ao exterior quando aumentam as incertezas no Brasil ou os juros no
exterior. Essa facilidade só é possível porque houve uma liberalização
prematura dos movimentos de capital, notável feito dos governos Fernando
Henrique Cardoso e Fernando Collor.
A fuga
de capitais virou um instrumento de chantagem dos bancos, dos ricos e dos
super-ricos sobre todo e qualquer governo brasileiro. Como dizia Leonel Brizola
(que falta ele faz!), a elite brasileira é um lixo.
Fonte:
A Terra é Redonda

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