Em
qual soberania o Brasil deveria apostar?
Há
intelectuais que constroem muros entre o pensamento e o mundo. E há os que
derrubam esses muros toda vez que escrevem — ou a câmera. Sabrina Fernandes
pertence à segunda categoria com uma radicalidade que não é performance, mas
método.
Nascida
numa geração que herdou simultaneamente a derrota das utopias do século XX e a
urgência apocalíptica do colapso climático, ela escolheu o caminho mais
difícil: não lamentar a herança, mas reformulá-la. Com mestrado em economia
política e doutorado em sociologia, Sabrina construiu uma trajetória acadêmica
que recusa a torre de marfim como endereço permanente. Seus livros — Sintomas
Mórbidos (2019) e Se quiser mudar o mundo (2020) — tornaram-se referência
obrigatória para uma esquerda que precisava urgentemente de um espelho honesto.
Ela o ofereceu sem anestesia.
Editora
de novas gerações de Marx e Engels no Brasil — O Manifesto Comunista (2021) e O
18 de Brumário de Luís Bonaparte (2022) —, Sabrina não trata os clássicos como
relíquias. Os devolve ao presente como ferramentas vivas, capazes de cortar o
que precisa ser cortado. É esse gesto — o de recusar a fossilização do
pensamento crítico — que atravessa toda a sua obra e que a distingue numa
geração de intelectuais que por vezes confunde erudição com embalsamamento.
Hoje,
como cientista residente do prestigioso Programa César Lattes do Instituto de
Estudos Avançados da Unicamp, consultora sênior de pesquisa do Centro de
Tecnologia e Industrialização para Desenvolvimento da Universidade de Oxford
(TIDE) e Fellow Sênior de Liderança do Instituto Alameda, Sabrina circula entre
o Sul Global e o Norte sem perder o sul. Suas pesquisas nas fronteiras entre
economia política das transições, justiça climática, internacionalismo,
decrescimento e ecossocialismo não são territórios paralelos — são faces de um
mesmo projeto intelectual: demonstrar que outro fim é possível, e que esse fim
começa pela honestidade brutal sobre os limites do presente.
Mas o
que talvez defina Sabrina Fernandes de forma mais precisa do que qualquer
credencial é o que acontece quando alguém a encontra fora dos circuitos
acadêmicos. Ela trata o interlocutor — qualquer interlocutor — como par. Não
por modéstia calculada, não por pedagogia condescendente, mas porque acredita,
com consistência rara, que o pensamento só se faz no encontro real entre
pessoas reais. Esta entrevista nasceu dessa crença. E o leitor que chegar até o
fim entenderá que a generosidade intelectual, quando é genuína, não é virtude
pessoal — é também postura política.
Sabrina
Fernandes é uma das vozes mais necessárias e corajosas do pensamento crítico
brasileiro contemporâneo.
Leia a
entrevista:
• Em sua palestra de abertura na Unicamp
(março de 2026) e em debates recentes, você tem defendido o conceito de
“policrise planetária” para caracterizar crises que se retroalimentam, e se
referiu ao genocídio em Gaza como um exemplo brutal da “economia da
catástrofe”. Em 2026, em meio à COP30 e seus desdobramentos, como esses dois
conceitos se articulam? A “economia da catástrofe” seria a forma mais aguda de
manifestação da policrise sob o capitalismo contemporâneo, e que alternativas
concretas o ecossocialismo pode oferecer para romper essa lógica?
O
conceito de policrise ressurge com força a partir da pandemia da covid-19 e da
invasão da Ucrânia, para explicar como os dois eventos geraram efeitos
múltiplos por todo o mundo, somando-se aos impactos da emergência climática. É
também um importante conceito para elucidar que as crises pioram umas às outras
e como soluções compartimentalizadas a uma crise podem gerar impactos ainda
piores em outros lugares, povos e escalas. Daí a relevância de discutir o que
vivemos em termos de uma “policrise planetária”, termo empregado por Michael J.
Albert e que abracei com o intuito de destacar as relações de interdependência
socio-metabólica nas crises, eventos e fenômenos que vivenciamos. Essa visão é
estratégica no Sul Global, na periferia do sistema, já que revela como Estados
e agentes poderosos tratam a maior parte do mundo como zona de sacrifício para
o seu próprio enriquecimento e a expansão de seu campo hegemônico.
No caso
do genocídio em Gaza, vemos as interconexões nefastas entre o colonialismo, o
capital e a tecnologia em meio ao colapso da crença em uma ordem mundial
liberal. Trata-se de uma crença e não necessariamente da realidade material,
porque essa ordem sempre se constituiu em cima de um pacto de subordinação dos
Estados pós-coloniais e a ilusão de que, caso todo o mundo se comportasse
dentro das regras do capitalismo, o tão sonhado desenvolvimento seria alcançado
e a soberania de todos seria respeitada. Em nenhum momento da história do
século passado e do atual essa ilusão se sustentou na prática. Mesmo quando
instituições multilaterais aparentavam maior funcionalidade, os Estados Unidos
estavam invadindo múltiplos países ao mesmo tempo, financiando atividades
paramilitares em outros, bloqueando Cuba e Venezuela, enquanto outros Estados
dominantes garantiam contratos de exploração mineral e usavam de ferramentas
diplomáticas para acessar recursos e empresas no Sul Global, reforçando a
privatização como regra no mundo.
Essa
suposta ordem sempre serviu a uns em detrimento de outros, reforçando o modo de
vida imperial no Norte Global e os padrões de troca econômica e ecológica
desigual. Então a policrise aparece como um momento histórico de alta
complexidade em que as negociações para a ordem não mais seguem regras
pré-acordadas entre os países dominantes. O pacto entre eles foi quebrado, de
modo que até as Nações Unidas, uma das grandes responsáveis, ao lado da
Grã-Bretanha, pelo estabelecimento do Estado colonial de Israel e pela
formalização da sina dos palestinos, se revela cada vez mais uma entidade oca,
cujos mandatos de direitos humanos e multilateralismo soberanos não são páreos
para o poder colonial que essas instituições legitimaram.
É assim
que entendemos que o genocídio em Gaza é tanto sobre o avanço colonial de
Israel — da mesma forma que o Estado age para cima do Líbano, da Síria e de
toda a região — como sobre a negociação de espólios e novas comodificações que
o capital busca para seguir seu caminho de crescimento supostamente infinito. O
genocídio interessa às grandes corporações de tecnologia do Vale do Silício, às
instituições financeiras, à indústria de construção civil e à especulação
imobiliária. E é onde entendemos que a oposição a ele é mais que moral. Ao
combater o sofrimento palestino, buscamos também nos desvencilhar da
perversidade da economia da policrise, que quando mata crianças e jornalistas
em uma parte do mundo, também empodera corporações e governantes que nos oprimem
de outras formas em outros lugares, além de emitir gases de efeito estufa que
agravam a emergência climática para cada um de nós.
O
avanço da economia da catástrofe é o reconhecimento dos capitalistas de que sua
sede por crescimento é infinita, mas como os limites planetários são reais,
este crescimento enfrenta o risco iminente de colapso. Daí, ao olharem para o
abismo, percebem que seu papel é gerenciar os espólios da policrise, garantindo
que o que resta do planeta seja alocado para as elites e os países
imperialistas. Essa contradição é central para a leitura ecossocialista do
mundo, porque aprendemos que, ao combater o capitalismo, devemos criar uma
alternativa mais completa, que não seja apenas sobre a propriedade dos meios de
produção, mas signifique também uma ruptura civilizatória que regule a relação
entre a sociedade humana e a natureza. Não basta adquirir ferramentas para
navegar melhor as crises, pois eventualmente a normalização de seus efeitos em
algum canto também nos atingirá. A tarefa passa por reformular radicalmente
como produzimos, o que produzimos e para que finalidade. Essa nova formulação é
capaz de agitar o imaginário de quem luta, mostrando que vale a pena construir
alternativas que combinem os vários desejos de uma boa vida. É sobre garantir
que as lutas do século XXI ecoem “paz, pão e Terra” no reconhecimento de nossas
relações ecológicas, ousando romper com confortos temporários das falsas
soluções e realmente ir além do capital.
• Em “Sintomas Mórbidos”, você analisou a
crise de práxis da esquerda brasileira e sua relação com o avanço do “fascismo
social”. Mais recentemente, em 2025, você afirmou que o bolsonarismo é um
“laboratório de sucesso” para a extrema direita mundial. Diante do cenário
político de 2026, quais sintomas dessa crise persistem ou se agravaram? Como
reconstruir uma práxis que não seja apenas reativa ao fascismo, mas que
antecipe a construção de hegemonia, superando a “política da conciliação de
classes” que você criticou no governo Lula?
Dizem
que temos uma crise de imaginário nas esquerdas. Eu diria que o problema é mais
profundo: há um desprezo pelo imaginário alternativo. Enquanto a extrema
direita briga entre si, mas com uma visão bem mais concreta do tipo de
sociedade ultraconservadora e ultracapitalista que pretende estabelecer, as
esquerdas sofrem de um problema de temporalidade em nossa imaginação
alternativa, especialmente quanto aos partidos e às discussões centradas no
Estado. Os povos indígenas falam de um futuro ancestral e de um modo de vida
radicalmente diferente do modo de vida branco e capitalista, mas as
organizações de esquerda mais focadas na disputa da estatal muitas vezes perdem
a oportunidade de aprendizado e limitam seu olhar para 100 anos atrás na Europa
e apenas quatro anos para frente aqui no Brasil. Ainda há muito que aprender
com nossa própria história e inclusive com as ilusões que a esquerda comprou a
respeito do que é progresso e desenvolvimento e sobre o desejo de juntar-nos ao
tipo de economia dos Estados imperiais modernos, mesmo quando alegamos nossas
posturas anti-imperialistas.
No
Sintomas Mórbidos, eu trato disso dentro de uma análise da melancolia de
esquerda, mas a título de atualização, percebo como esse desprezo pelo
imaginário que contesta as formas atuais do fazer político também passa por um
certo negacionismo da realidade. Isso é mais evidente no caso das crises
ecológica e climática, pois nem mesmo nosso anti-imperialismo e nosso olhar
para a indústria e a infraestrutura se atualizou sobre os limites planetários.
Falamos de investimentos verdes e descarbonização, mas salvo as correntes mais
radicais, seguimos justificando a conciliação com o agronegócio como essencial
para a estabilidade do país e o crescimento do PIB. E mesmo nas correntes mais
radicais, há tons bastante pobres de anti-imperialismo, que apostam numa visão
antiquada e falha de soberania, que chamo de “soberania com prazo de validade”,
já que defendem a visão da soberania estatal através do controle para a
exploração dos recursos da natureza, sem ao menos cogitar reformular o controle
como tutela, cuidado e outro paradigma produtivo.
Para
piorar, alertas sobre os negacionismos dos limites planetários dentro da
própria esquerda são tratados como afrontas aos interesses nacionais, quando
deveriam ser um grande convite para construir um caminho mais radical, que
pudesse aumentar a qualidade de vida média da população ao mesmo tempo em que
tornamos os traços mais cruéis do capitalismo obsoletos.
É onde
mora uma grande dificuldade da esquerda de formar laboratórios em múltiplas
escalas. Vejamos, por exemplo, o potencial que é o MST e sua produção orgânica
e agroecológica. O MST é estudado no mundo todo, como movimento e como
intervenção no modo produtivo agrário. Mas aqui no Brasil a esquerda parabeniza
os esforços, enquanto denúncia o agronegócio, mas não se esforça o suficiente
para criar os caminhos de decrescimento do agro e reformulação nacional da
política de plantio. Vivemos de tapar buraco em vez de colocar em ação planos
que alterem a propriedade da terra e fomentem outra lógica produtiva ao mesmo
tempo. São passos muito lentos que revelam o enorme déficit de compreensão dos
desafios ecológicos.
Em
outros casos, há autoenganação sobre a incorporação desses desafios. Enquanto
denunciamos os planos estrangeiros para os minerais de terras raras no Brasil,
parece que a única solução viável passa pelo estabelecimento de uma grande
estatal (sugerida como Terrabrás). Acredito que essa estatal é estratégica,
pois caminhos públicos reforçam nossa autonomia. Isso quer dizer que é preciso
pensar a Terrabrás além do direito de exploração e mineração nas mãos do
Estado, mas também como ferramenta para determinarmos socialmente o que não
minerar, o que proteger e o que fazer com o que foi minerado. Infelizmente, o
desprezo pelo imaginário longevo nos oferece boas ideias para combater a troca
econômica desigual através de ferramentas estatais e de industrialização, mas
ainda somos majoritariamente incapazes de nos perguntar que outras coisas
importantes poderíamos fazer com uma estatal. Da forma como andam as propostas
de industrialização verde no Brasil e nos países vizinhos, o “verde” não passa
de uma grande integração na cadeia produtiva de mercadorias especializadas de
eletrificação de descarbonização, sem nenhum interesse em realmente combater a
troca ecológica desigual, a lógica das zonas de sacrifício e a normalização de
indústrias nocivas, desde que parte delas facilite alguns objetivos de
crescimento e melhoria de vida.
Devemos
nos atentar para as perguntas que fazemos na estratégia política. Se imaginamos
uma estatal simplesmente porque antes havia capital privado, estamos contentes
em apenas reagir. Não mudará o que é explorado e não mudará o destino dessas
mercadorias — no máximo, refinaremos e processaremos em mercadorias mais bem
posicionadas na cadeia de valor, o que, de fato, pode piorar o impacto
ambiental local e ainda aumentar o perfil de emissões, como é o caso dos
limites da política industrial verde da Indonésia. Para pautar coisas novas,
coisas que podem encantar o povo novamente, devemos ir além das nossas fórmulas
tradicionais de soluções. Nosso laboratório não deve se reduzir a replicar
testes e parâmetros já conhecidos, o que demanda novas perguntas. Poderíamos
propor a submissão dos nossos minerais a critérios ecológicos maiores?
Poderíamos vincular extração à finalidade de uso? Poderíamos, por exemplo,
estabelecer em código de lei ou articular um acordo entre produtores para
impedir que tais minérios cheguem a usos nefastos, como para armamento do
imperialismo?
Poderíamos.
Porém, infelizmente, nosso debate é radical na propriedade dos recursos e no
direito de exploração, mas para enaltecer a exploração para todos esses fins
possíveis, pois garantirão mais ingressos de capital. É um desenvolvimentismo
tosco, deslocado da concretude da policrise, e não consegue encantar as classes
exploradas, especialmente diante de tanta alienação e da infiltração do
capitalismo em todos os aspectos de nossa vida.
• Seu artigo “Descarbonizar não é
suficiente” (2025) critica a despolitização da transição energética e a
armadilha do “capitalismo verde”. Já em “As crescentes zonas de sacrifício na
América Latina” (2025), você mostra como o extrativismo verde cria territórios
descartáveis. Como evitar que a transição energética brasileira aprofunde nossa
dependência e crie zonas de sacrifício, especialmente na Amazônia e no Cerrado?
Uma “soberania ecológica” efetiva exigiria o fim do extrativismo ou sua
subordinação a um plano democrático de transição justa?
Primeiro,
é preciso reconhecer que o discurso de transição energética no Brasil não tem
nada a ver com transição de fato. Temos uma expansão de capacidade energética
que incentiva mais renováveis, mas segue mista e promove alguns dos piores
tipos de produção energética, como o caso do uso de carvão prolongado até 2040.
Nosso
contexto é de diversificação de portfólio de investimento e da matriz, e até
isso é prejudicado pela forte presença do setor privado. É absurdo supor que
uma transição energética possa ocorrer de fato, e principalmente ser justa, num
contexto de privatização da produção, gestão e distribuição de nossa energia.
Isso permite situações bizarras, em que gestores e o setor privado se preocupam
com picos de geração de energia, mas não querem investir adequadamente em
sistemas de baterias para uso municipal. Assim, seguimos expandindo a oferta e
depois tentamos atrair data centers variados para consumir da sobreoferta que
nós mesmos criamos. Aumentando o consumo, alegamos que devemos produzir mais
novamente e que isso só pode ser feito mantendo o carvão e o gás fóssil em
nossa matriz; ou seja, cavamos nossas próprias armadilhas.
Além
disso, no caso principalmente na energia eólica no Brasil, predomina um modelo
latifundiário, voltado a megaprojetos e benefícios bastante desiguais, onde os
donos dos parques lucram com contratos de longo prazo, mas a população que vive
rodeada por turbinas sofre os danos de saúde e nem ao menos é consultada sobre
salvaguardas mínimas necessárias para evitar a formação de zonas de sacrifício
verdes. Isso opera dentro de uma visão colonial, em que os lugares nos quais as
turbinas são construídas operam como espaços “vazios” ou “disponíveis”,
ignorando os modos de existência na região e fortalecendo modelos danosos de
concentração fundiária que se expandem nos nossos biomas.
Enquanto
isso, fazemos projetos de proteção dos biomas com o que sobra e ainda
normalizamos tipos de intervenção que sabemos que piorarão a situação, como a
abertura de estradas e ferrovias para o agronegócio e a grande mineração. Isso
mostra que o capitalismo verde não chega nem mesmo como alternativa ao
capitalismo fóssil e desenvolvimentista. O que existe é uma repactuação de
zonas de exploração e processos de acumulação. Todos eles são pautados nessa
visão limitada da soberania nacional e dos interesses nacionais, muito
bem-negociados com a elite brasileira e internacional, garantindo os fluxos
comerciais e o abastecimento de cadeias que eles consideram estratégicas para a
manutenção do capital. Por isso, eu desenvolvo em minha pesquisa, já há alguns
anos, formulações para outra visão de soberania que, por ser ecológica e
popular, tem maior potencial anti-imperialista e verdadeiramente
anticapitalista. Mas, para que tenhamos êxito, será necessário rever e
renunciar a várias noções pacificadas sobre modelo de sociedade, inclusive
sobre como construímos infraestrutura e como organizamos o espaço geográfico
entre o urbano, o rural e o bioma nativo.
• Você é coautora do manifesto “Por um
decrescimento ecossocialista” (2025). Como articular a demanda por
decrescimento nos países centrais com as legítimas aspirações de
desenvolvimento, soberania e bem-estar material no Sul Global, sem recair no
desenvolvimentismo predatório que você critica? O decrescimento seria uma
plataforma anticolonial e de reparação, ou corre o risco de ser apropriado como
novo imperialismo verde?
Não
existe risco de o decrescimento parecer um imperialismo verde, porque o
imperialismo não almeja o decrescimento no Sul, apenas a maior apropriação do
que é desenvolvido no Sul também para os interesses do Norte, inclusive
garantindo a compra de recursos, seja com exploração direta, seja com acordos
com estatais no Sul. O decrescimento nada tem a ver com isso, pois é um
movimento de autonomia e tem que ser construído pelo povo nas áreas a
decrescer, visando abrir espaço para outros crescimentos sadios.
O medo
do decrescimento só se sustenta quando confundimos decrescimento com
austeridade, com imposição e com exclusão. O decrescimento verdadeiro e justo
pode ser uma importante ferramenta de desenvolvimento compatível com os limites
planetários, porque exige nomear o tipo de produção desnecessária, dispendiosa
e altamente destrutiva para construir caminhos para a sua obsolescência. Muito
do que é desnecessário já é obsoleto, mas é impulsionado por um consumismo que
aumenta nossa pegada de uso de recursos finitos e é questionado apenas como
problema do indivíduo. Uma perspectiva de decrescimento seletivo e justo, como
defendo, faz parte do horizonte ecossocialista e é informado por critérios que
devem ser construídos nos países do Sul em relação aos países do Norte.
Isso
permite conectar o decrescimento a estratégias de desconexão, como discutido
por Samir Amin para aliar o anti-imperialismo ao combate à troca econômica
desigual. Aqui, entendemos que a perspectiva justa do decrescimento desenvolve
critérios sobre que setores precisam decrescer, especialmente para eliminar o
consumo supérfluo e excessivo de recursos, corrigindo desigualdades e abrindo
caminhos para áreas que precisam crescer. Para citar um exemplo simples,
podemos ver como uma reforma urbana popular que expropria edificações da
especulação imobiliária a favor de corrigir o déficit habitacional é uma medida
do decrescimento popular e justo. Recursos que estavam ociosos são apropriados
para necessidades concretas, sem a necessidade de construir bairros novos
inteiros. Isso abre espaço econômico e material para que, quando seja realmente
necessário construir, também avaliemos as métricas, materiais, tecnologias e
objetivos mais compatíveis com a sustentabilidade radical e com ganhos sociais.
No eixo nacional, isso significa que aprendemos, então, que as políticas do
Estado devem incentivar uma indústria de construção civil bastante modificada,
além de reorientar benefícios fiscais e investimentos diretos na direção de
bens e serviços comuns. Vemos assim que o decrescimento seletivo e justo ajuda
a oxigenar as práticas alternativas ao capitalismo, mostrando as ligações entre
fluxos e ferramentas econômicas, para que o reconhecimento dos limites
ecológicos não seja mais visto como um entrave ao desenvolvimento, mas como
critério que nos ajuda a dar melhor sentido e conectar as lutas — que de fato
já são profundamente conectadas, mas sofrem da tendência fragmentadora das
estratégias predominantes de esquerda.
O
decrescimento permite também tratar da troca ecológica desigual, porque aí
percebemos que uma reforma agrária radical e ecológica será o fim do
agronegócio como conhecemos e também o decrescimento da indústria da carne
global, pois a retomada de biomas e territórios protegidos no Brasil impactará
matematicamente a capacidade para explorar animais, diminuindo também nossa
demanda por antibióticos na pecuária, e pode permitir remanejar empregos dos
frigoríficos para a produção agroecológica e o beneficiamento multiescalar de
alimentos saudáveis. Nesse exemplo, fica claro que um decrescimento setorial
abre espaço metabólico e econômico para as áreas que precisamos desenvolver com
qualidade, atuando como uma tática útil tanto do ponto de vista do planejamento
econômico, como para reorganizar nossas demandas de reparação e de cooperação
com o restante do mundo.
Por
isso mesmo, o decrescimento não pode ser aplicado como tática isolada, mas como
parte de uma estratégia de transições múltiplas, como defendo em meu próximo
livro, Outro fim é possível, que será publicado pela Editora Planeta. Isso
implica também um esforço de imaginação coletiva para o futuro. Uma vez que
entendemos, via materialismo histórico e evidências científicas gerais, que os
limites planetários devem ser respeitados, cabe a nós a tarefa — complexa e
gigantesca — de reorganizar não somente o modo de propriedade, como foi o foco
da esquerda no passado, mas fazê-lo com o intuito de redistribuir também o
usufruto dos recursos da natureza de modo a favorecer a regeneração e o
equilíbrio do metabolismo e ciclos planetários. Temos o dever de avançar em
radicalidade, o que passa pelo fortalecimento das ferramentas de organização de
classe e pelo direcionamento delas rumo a outra lógica de produção, consumo e
desenvolvimento que realmente pactue os impactos mínimos e necessários com as
proteções que possam garantir uma sociedade pós-capitalista emancipada e
longeva. Uma visão de soberania realmente ecológica e popular será essencial
para nos lembrarmos de que não basta mais apenas almejar tomar os meios de
produção. Nosso horizonte exige também reformulá-los e, em alguns casos, até
mesmo encerrar alguns meios para criar espaço para outros. Afinal, pouco
adiantaria estabelecermos finalmente os fundamentos de uma economia socialista,
mas em terra tão arrasada que uma sociedade socialista a longo prazo se tornaria
materialmente impossível. Se entendermos bem os pilares disso e como comunicar
isso às pessoas, é provável que se torne um atrativo para a luta, mostrando que
somos capazes de articular um futuro alternativo utópico e desejável, para o
qual o capitalismo não seria páreo.
Fonte:
Por Sabrina Fernandes em entrevista a Thiago Gama, em Outras Palavras

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