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que pesquisas eleitorais 'erram' tanto?
Em
meados de agosto de 2022, logo após o início oficial da campanha eleitoral
presidencial, as pesquisas de intenção de voto mostravam o então presidente
Jair Bolsonaro (PL) significativamente atrás do rival Luiz Inácio Lula da Silva
(PT) em um eventual segundo turno.
Na
pesquisa da Quaest, por exemplo, 51% dos entrevistados disseram que votariam em
Lula e 38%, em Bolsonaro. Na consulta do Datafolha, a distância foi ainda
maior: 54% para Lula e 37% para Bolsonaro.
Nas
urnas, pouco mais de dois meses depois, Lula recebeu 49% dos votos totais e o
então presidente, 47%. Quando excluídos os brancos e nulos, considerando apenas
os votos válidos, a diferença foi ainda mais apertada: 50,9% para o petista e
49,1% para Bolsonaro.
O que
explica os cenários distintos? A BBC News Brasil levou essa e outras perguntas
a especialistas para discutir como as pesquisas são feitas, quais suas
limitações e por que elas são importantes.
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A 'foto' do momento e o 'filme' da eleição
"Essa
é uma questão interessante, porque eu acho que existe meio que uma desconexão
entre aquilo que as pessoas esperam que as pesquisas respondam e o que elas
realmente respondem", pondera o estatístico Raphael Nishimura.
As
pesquisas não têm o objetivo de prever resultados, ele diz. Buscam capturar o
que o eleitor está pensando no instante em que ele é entrevistado. Sob essa
lógica, quando bem elaboradas, nem erram, nem acertam.
"Tudo
meio que recai naquele jargão que muitas pessoas usam, de que pesquisa é um
retrato do momento", diz Nishimura, que é diretor de amostragem do Survey
Research Center, da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos.
"Se
você levar ao pé da letra, o que isso quer dizer é que a pesquisa não tem como
papel ser um prognóstico do que vai acontecer na urna."
Entre o
momento da pesquisa e a hora do voto, muita coisa pode acontecer: tem eleitor
que pode mudar de ideia, os indecisos podem finalmente escolher seu candidato,
e por aí vai.
E isso,
de certa forma, se reflete durante a campanha na evolução das pesquisas bem
feitas.
No caso
da eleição de 2022, por exemplo, em levantamentos como o do Datafolha, a
distância significativa entre Lula e Bolsonaro no segundo turno se manteve por
semanas, até o primeiro turno.
Depois
da primeira rodada de votação, em 2 de outubro, quando foi dada a largada do
segundo turno, Bolsonaro passou a crescer nas intenções de voto, enquanto Lula
começou a cair.
Na
última pesquisa do instituto, na véspera da segunda votação, Lula tinha 49% das
intenções, levando-se em consideração os votos totais, e o então presidente
tinha 45%.
No caso
de Lula, o resultado das urnas foi exatamente esse. No de Bolsonaro, que obteve
47% dos votos totais, estava dentro da margem de erro de dois pontos
percentuais para mais ou para menos.
Cada
uma das pesquisas é um retrato do momento e, juntas, essas fotografias se
conectam em um "filme" que conta a história da eleição, ilustra a
diretora do Datafolha, Luciana Chong.
"As
pesquisas que a gente está fazendo agora [para a eleição de 2026] são um
retrato desse momento: as pessoas ainda não estão totalmente informadas sobre
as eleições, não sabem exatamente quem serão os candidatos. Então, a pesquisa
mede isso agora", ela ressalta.
Chong
explica que cada vez mais pessoas têm deixado para definir o voto muito perto
do dia da eleição. O Datafolha pergunta aos indecisos quando pretendem se
decidir — uma questão bastante discutida em 2022.
"Tem
uma parcela importante de pessoas que deixou para o sábado à noite, depois da
divulgação do resultado da pesquisa", diz ela, referindo-se à última
eleição presidencial.
Esse
foi um dos fatores apontados por Chong logo após o resultado do primeiro turno
em 2022 para explicar por que Bolsonaro obteve um percentual bem maior de votos
do que as últimas pesquisas haviam apontado.
Em
entrevista na época, ela afirmou acreditar ter havido um movimento de decisão
de última hora que acabou favorecendo o então presidente, especialmente de
eleitores de Ciro Gomes (então no PDT, hoje no PSDB) e Simone Tebet (MDB),
indecisos e os que poderiam votar em branco e nulo.
A
decisão de voto pode ser um processo complexo e cheio de nuances, algo que
aparece no trabalho de pesquisadores como Mariana Borges, que estuda o
comportamento eleitoral.
O caso
que abre o livro que ela está escrevendo com base em sua tese de doutorado, com
uma pesquisa de campo feita com eleitores no sertão da Bahia, conta a história
de uma mulher que era beneficiária do Minha Casa Minha Vida e do Bolsa Família
e dizia estar "rezando muito" para Lula ganhar, mas confessava que
não votaria nele.
A
aparente contradição, diz Borges, vem de um fenômeno que não chega a ser raro,
o "voto da família".
"Ela
era uma pessoa de 40 anos de idade, independente... Acho até que o pai tinha
morrido, mas ela queria votar de acordo com o pai dela, que não votava no
PT", conta a cientista política, que é professora do Departamento de
Política e Relações Internacionais da Universidade de Southampton, no Reino
Unido.
É um
exemplo que ilustra a diversidade de perfis que existem entre os eleitores no
Brasil, algo que as pesquisas tentam em parte captar quando levam em
consideração, por exemplo, parâmetros como gênero, idade e escolaridade para
determinar quem vai ser entrevistado.
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Como as pesquisas eleitorais são feitas
Antes
de chegar à consulta aos eleitores de fato, os institutos precisam definir
quantos serão entrevistados, ou seja, o tamanho da amostra, usando a linguagem
da estatística.
Essa
conta é geralmente feita de trás para frente, explica Fernanda Fiel Peres,
mestre e doutora em Farmacologia, com especialização em estatística aplicada. É
o tamanho da margem de erro (dentre outras variáveis) que vai apontar quantas
pessoas devem ser ouvidas.
Para
uma margem de erro de 2%, por exemplo, é necessário entrevistar 2.401 pessoas,
diz Peres. Já para uma margem de erro maior, de 3%, o número cai para 1.068. Ou
seja, quanto maior a amostra, menor a margem de erro. Essa relação, contudo,
não é linear.
"Uma
pequena redução na margem de erro implica em um aumento considerável no tamanho
da amostra", observa Peres, que trabalha há mais de 15 anos com pesquisa e
análise de dados.
"Para
uma margem de erro de 1%, por exemplo, já precisaríamos de uma amostra muito
maior: 9.604 pessoas. A pesquisa, portanto, seria muito mais cara, e, em geral,
deixaria de ser viável."
Outro
fator que entra no cálculo do tamanho da amostra é o nível de confiança, que
normalmente é de 95% nas pesquisas eleitorais conduzidas no Brasil. Isso
significa, em termos simples, que, se a mesma pesquisa for repetida 100 vezes,
em 95 ela trará resultados semelhantes ao encontrado dentro da margem de erro
estabelecida.
Depois
vem a fase em que se decide como serão selecionados os entrevistados. No
Brasil, as pesquisas eleitorais geralmente usam amostragem por cotas, ou seja,
definem quais grupos vão estar representados na amostra. Os parâmetros podem
variar, mas contemplam geralmente gênero, faixa etária e grau de instrução.
Algumas também incluem o perfil de renda.
Peres
exemplifica: "Considere que 7,1% dos eleitores são do sexo feminino, com
idades entre 35 e 44 anos e com escolaridade até o ensino médio. Se a pesquisa
irá entrevistar 2.401 pessoas, 7,1% delas — 171 pessoas, arredondando para cima
— devem pertencer a esse grupo. Essa será a cota para esse grupo".
Os
dados que vão balizar o tamanho das cotas geralmente são retirados de bases de
dados como a da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua ou
do Censo, ambos realizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE).
Depois
de definido tudo isso, é hora de ir para a rua — ou não. Isso porque as
pesquisas podem ser feitas pessoalmente — e aí o entrevistador pode ou ir de
casa em casa procurando os eleitores ou se posicionar em "pontos de
fluxo" nas cidades e abordar as pessoas na rua — ou por telefone ou pela
internet.
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As limitações das pesquisas eleitorais
A
escolha de como será feita a consulta pode fazer diferença na qualidade da
pesquisa, pontua Raphael Nishimura.
As
pesquisas feitas online, por exemplo, podem acabar tendo uma participação menor
de eleitores mais pobres, que podem estar menos conectados do que outros grupos
com rendimentos maiores. Essa imprecisão tem inclusive nome: erro de cobertura,
explica o estatístico.
Outro
tipo de erro possível é o de não resposta, quando o eleitor declina o pedido do
entrevistador para participar da pesquisa. Se isso acontecer em determinada
escala e com um perfil específico de eleitor, pode gerar um viés no resultado.
Também
pode haver erro de mensuração, quando, por exemplo, o entrevistado não entende
bem a pergunta e responde algo que não reflete sua opinião de fato ou responde
algo que não corresponde à realidade.
"Por
exemplo, a gente pergunta para a pessoa: 'Você vai votar na eleição?'. Ela fala
que sim, mas [no dia] ela não vai votar", ilustra o estatístico Neale
Ahmed El-Dash, fundador e diretor metodológico na PollingData, plataforma que
agrega pesquisas de opinião pública e parceiro na elaboração do agregador de
pesquisas da BBC News Brasil.
Costuma-se
falar também do "eleitor envergonhado", que não é sincero nas
respostas ao entrevistador — especialmente depois da eleição de Donald Trump
nos Estados Unidos em 2016 e na de Bolsonaro em 2018, quando esse fator foi
apontado como um dos motivos por trás da diferença entre o que traziam as
pesquisas e o resultado nas urnas. Nishimura acredita que essa seja uma questão
menor, mas que também pode acontecer em alguns casos.
El-Dash
pondera que todos esses erros são não amostrais, ou seja, não estão
relacionados à forma como a amostra foi montada, e, por isso, muito mais
difíceis de quantificar.
O erro
amostral é aquele que costumamos ver divulgado junto com a pesquisa (geralmente
dois pontos percentuais para cima e para baixo) e deriva do fato de que a
entrevista é feita com um grupo de pessoas e não de toda a população de
eleitores.
"Esse
é o único erro de uma pesquisa eleitoral que a gente de fato consegue mensurar,
prever de uma forma um pouquinho mais sistemática", ressalta El-Dash.
"Então,
exigir que as pesquisas eleitorais contemplem o resultado da eleição somente
levando em conta o erro amostral não é certo, porque você tem todos esses
outros erros muito mais difíceis de mensurar."
Dentro
do que é possível medir, contudo, muitos institutos e estatísticos estão em
debate constante sobre quais as melhores metodologias para se realizar as
pesquisas de opinião.
Há uma
série de discussões acaloradas sobre a melhor forma de se construir uma
amostra, por exemplo, ou de se fazer o ajuste estatístico após a coleta, a
ponderação dos dados.
Essa
costuma ser a fase final do processo, em que se atribuem pesos maiores ou
menores para determinados grupos de eleitores para tentar corrigir eventuais
desequilíbrios da amostra que tenham surgido durante a coleta, justamente por
conta das limitações que as pesquisas eleitorais podem ter.
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'Abrindo o capô' das pesquisas
Nem
todas as pesquisas são feitas da mesma forma ou seguem um padrão único. Como
entender então quais são confiáveis?
Nesse
sentido, o estatístico Raphael Nishimura compartilha uma lista de atributos da
metodologia das pesquisas que avalia que influenciam na sua qualidade.
Para
ele, o critério mais importante a se considerar é a forma de coleta das
opiniões. Quando se leva em conta as pesquisas feitas no Brasil, a presencial
domiciliar, em sua visão, "tende a ter uma qualidade maior". Como os
entrevistadores vão bater diretamente na porta das pessoas, nessa modalidade
costuma haver um controle maior na seleção dos entrevistados.
Depois,
vem a presencial em pontos de fluxo, em que os entrevistadores ainda fazem as
entrevistas pessoalmente, em grandes pontos de circulação.
Por
fim, as pesquisas feitas por telefone e pela internet. Nessas duas últimas,
costuma ser maior o risco de a amostra acabar tendo uma proporção menor de
alguns grupos de eleitores, que não costumem atender ligações de números
desconhecidos, por exemplo, ou que tenham acesso intermitente à internet.
Outro
fator a se considerar, ainda de acordo com o estatístico, é se a pesquisa
utiliza cotas para compor sua amostra e/ou ponderação.
A
maioria utiliza cotas, mas nem todas usam a ponderação para se tentar aproximar
os resultados do universo da população estudada.
"Acho
que pesquisas com cotas e com ponderação são o melhor dos mundos", diz
Nishimura.
"Então,
a pesquisa foi feita com cotas e teve ponderação? Ótimo. Não teve cotas, mas
pelo menos teve uma ponderação? Acho que esse é o segundo melhor. Só teve
cotas, mas não teve ponderação? Eu ficaria de olho, porque só as cotas também
podem ter certos problemas."
Um
último ponto destacado por ele são as variáveis que estão sendo levadas em
conta para a elaboração das cotas e da ponderação — gênero, idade,
escolaridade, região, renda, por exemplo.
"Não
necessariamente quanto mais, melhor, mas, em geral, quanto mais, melhor. Quanto
mais variáveis você controlar, você tem um controle estatístico da qualidade
dos dados um pouco maior", opina Nishimura.
Todos
esses detalhes podem ser encontrados na página das pesquisas registradas no
portal do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
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Do debate na TV ao voto útil
Fazer
boas pesquisas dá trabalho. A existência delas é importante por diversas
razões, na visão dos pesquisadores e profissionais ouvidos pela reportagem.
Uma
delas é de ordem prática: o desempenho nas pesquisas é um dos critérios para
definir os candidatos que participam dos debates na TV e no rádio.
"A
gente tem 30 partidos hoje em dia ativos no país. Então, é importante ter esse
filtro. Talvez ajude um pouquinho a tirar o ruído e focar ali nos candidatos
mais competitivos", comenta Neale Ahmed El-Dash.
Ele
acrescenta que as pesquisas também são importantes para os partidos e
candidatos, para entender o que o eleitor está pensando e como responde, por
exemplo, às suas propostas.
Elas
também ensejam discussões que acabam fazendo circular um volume maior de
informações sobre os candidatos, o que pode ser útil aos eleitores, e também
lhes dá oportunidade de "se for o caso, exercer o voto útil".
Isso
ocorre quando o eleitor decide votar de forma estratégica ou pragmática em um
candidato que não seria necessariamente sua primeira opção, e escolhem outro
candidato que considerem mais competitivo para impedir que um terceiro
candidato ao qual se opõem seja eleito, por exemplo.
O
estatístico pondera, contudo, que isso talvez não seja tão relevante em países
como o Brasil, onde há segundo turno, já que o eleitor em teoria pode votar no
primeiro turno no seu favorito sabendo que provavelmente ainda teria uma nova
votação para tentar votar contra o candidato que rejeita.
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O que pesa na hora da decisão do voto
Nesse
sentido, a cientista política Mariana Borges avalia que as pesquisas podem ser
um termômetro do que passa pela cabeça do eleitorado, mas têm impacto limitado
na decisão do voto de fato.
Para os
eleitores indecisos — que, no cenário de uma divisão calcificada de parte do
eleitorado entre lulistas e bolsonaristas, se tornam ainda mais importantes
para fazer o resultado pender para um lado ou outro —, "a movimentação da
campanha influencia muito", ela diz.
Essa
influência se dá pela criação de uma imagem de força que as campanhas procuram
criar para passar a sensação de que seu candidato é hegemônico.
As
estratégias são várias: o endosso de políticos locais, por exemplo, que vão
fazer campanha corpo a corpo para o candidato em suas bases; a presença das
cores e símbolos do partido pelas ruas das cidades; ou a realização de eventos
que reúnam multidões, que serão replicadas em fotos e vídeos nas redes sociais,
reforçando essa ideia de que o candidato em questão é forte e que em torno dele
há uma "onda".
"O
que eu vivenciei de acompanhar as campanhas [eleitorais] no trabalho
etnográfico de perto é que a coisa mais importante era você criar essa imagem
de força eleitoral", diz Borges, que é também codiretora do Centro de
Etnografia Política (CPE) da Universidade de Southampton.
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O retrovisor de 2022 e perspectivas para 2026
Olhando
o "filme" construído pelas pesquisas de 2022, o cientista político
George Avelino avalia que o crescimento de Bolsonaro no segundo turno pode ter
sido influenciado, dentre outros fatores, pela chamada vantagem do incumbente,
da qual os candidatos à reeleição gozam por "estarem na mídia o tempo todo
e terem recurso pra gastar".
Nesse
sentido, Lula agora teria a mesma vantagem em 2026, acrescenta o professor da
Fundação Getúlio Vargas e coordenador do Centro de Política e Economia do Setor
Público (Cepesp) da FGV.
Ele
pontua que, assim como na eleição anterior, esta também deve ser apertada,
diante das rejeições altas dos dois pré-candidatos que estão à frente nas
pesquisas, Lula e Flávio Bolsonaro (PL).
Nesse
cenário, o voto dos indecisos continua sendo considerado de extrema
importância. Observar como esse grupo vai evoluir e como se comportam as
tendências de alta ou de queda dos candidatos, diz Avelino, podem ajudar na
leitura das fotografias que as pesquisas vão trazer nos próximos meses.
Fonte:
BBC News Basil

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