Entre
o perdão e a proteção divina: a curiosa relação entre o narcotráfico mexicano e
o catolicismo
O fim
de fevereiro foi marcado pela morte de um dos narcotraficantes mais procurados
dos últimos tempos na América Latina. “El Mencho”, apelido de Nemesio Oseguera
Cervantes, foi morto em 22 de fevereiro. Seu falecimento gerou insegurança
entre moradores do estado de Jalisco, sua terra natal, especialmente em
Guadalajara (uma das cidades da Copa do Mundo de 2026) e Puerto Vallarta, no
México.
Como
criador do grupo criminoso Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG), sua morte
gerou grande repercussão, o que também incluiu questionamentos sobre sua fé.
Sua
residência foi visitada e diversos elementos ligados ao catolicismo chamaram a
atenção: desde imagens de São Judas Tadeu e de Nossa Senhora de Guadalupe até
um salmo sobre a mesa, identificado como o Salmo 91, tradicionalmente associado
à proteção divina diante do perigo. Afinal, poderia uma pessoa tão procurada,
seja pela polícia, seja por outras organizações criminosas, ser realmente
católica?
Esse
tipo de situação não é exatamente incomum. Em diferentes contextos da América
Latina, existem registros de narcotraficantes que mantêm símbolos religiosos
próximos, seja em suas casas, veículos ou até mesmo em locais de operação. Mas
por quê?
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Devoção de narcotraficantes
Se, por
um lado, esses elementos podem indicar algum tipo de devoção, por outro,
levantam uma controversa difícil de ignorar: como alguém envolvido em tantas
práticas violentas poderia, ao mesmo tempo, se identificar com a fé católica?
Em um
cenário em que o amanhã não é garantido, os símbolos com os quais muitos
integrantes de cartéis tiveram contato desde a infância — considerando que mais
de 70% da população mexicana se declara católica — podem ser apropriados pela
cultura popular das regiões em que nasceram. Guadalajara, por exemplo,
apresenta também formas de sincretismo religioso que, em alguns casos, aparecem
no contexto do crime organizado. Nesse ambiente, figuras religiosas podem ser
incorporadas junto a crenças populares da região e passar a ser percebidas como
formas de proteção divina e/ou associadas a tentativas de justificar ações
violentas, em um cenário que mistura devoção e brutalidade. Sob esse viés, São
Judas Tadeu, conhecido como o padroeiro das causas difíceis, acaba sendo
associado, ainda que de forma distorcida, a trajetórias marcadas pelo risco do
crime.
Isso
não significa, no entanto, que haja algum respaldo institucional para essa
relação. A Igreja Católica rejeita esse tipo de associação, justamente por
entender que a fé não pode ser usada como justificativa ou proteção para
práticas que ferem diretamente seus princípios e os mandamentos divinos,
especialmente o quinto mandamento, “não matarás”. No caso do CJNG, considerado
uma das organizações mais violentas do México, essa controversa se torna ainda
mais evidente, diante dos diversos confrontos e execuções atribuídos ao grupo,
inclusive após a morte de seu líder. Estima-se que ao menos 25 membros da
Guarda Nacional tenham morrido em decorrência desses episódios.
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Esforços pela paz
No país
latino-americano, jesuítas e outras organizações religiosas criaram o Diálogo
Nacional pela Paz, iniciativa organizada pela Conferência Episcopal Mexicana
(CEM), que reúne ativistas, vítimas, acadêmicos e povos indígenas com o
objetivo de construir propostas concretas para a redução da violência e a
promoção da paz. Do mesmo modo, bispos e sacerdotes em regiões marcadas pela
crueldade, como Chiapas, atuam como mediadores entre grupos criminosos,
buscando a redução de conflitos.
Vale
destacar que dois sacerdotes jesuítas foram assassinados a tiros em junho de
2022 dentro da igreja da comunidade de Cerocahui, no estado de Chihuahua — caso
que chegou até o Papa Francisco, que expressou sua consternação e dor durante
uma audiência geral, afirmando que a violência não resolve os problemas, mas
aumenta o sofrimento, além de mencionar o elevado número de homicídios no
México. O atirador era ligado ao Cartel de Sinaloa, principal rival do Cartel
Jalisco Nueva Generación.
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Máfia italiana e a Igreja
Esse
tipo de relação, porém, não é exclusivo da América Latina. Na Itália, por
exemplo, membros da máfia historicamente também se declaravam católicos,
utilizavam símbolos religiosos e mantinham vínculos com práticas da Igreja,
mesmo estando envolvidos em atividades violentas. Ao longo do tempo, a própria
Igreja precisou lidar com essa ambiguidade e passou a condenar de forma mais
clara qualquer tentativa de usar a fé como justificativa para o crime.
Em
2014, por exemplo, o Papa Francisco afirmou que mafiosos estão excomungados e
declarou que “quem vive como mafioso não está em comunhão com Deus”, reforçando
a incompatibilidade entre a vivência da fé cristã e a prática do crime
organizado.
Para
enriquecer a discussão, trago o exemplo de Pino Puglisi, um padre na Sicília
que denunciava abertamente a máfia e que foi assassinado em 1993 pela Cosa
Nostra. Ele atuava em defesa dos jovens e foi beatificado em 2013 durante o
pontificado do Papa Francisco, tornando-se símbolo da resistência contra a
violência da máfia.
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Punição e redenção
Se, por
um lado, há casos em que a fé é apropriada como símbolo ou proteção, por outro
existem trajetórias em que ela aparece como ruptura real com a violência. Um
exemplo emblemático é o de Jacques Fesch, jovem francês condenado à morte após
assassinar um policial durante uma tentativa de assalto na década de 1950.
Durante
o período em que esteve preso, Fesch passou por uma profunda conversão
religiosa, registrada em cartas e escritos espirituais. No caso dele, sua fé
surgiu como reconhecimento da própria culpa e busca por transformação. Foi
executado em 1957.
Em seu
diário, escreveu: “Último dia de luta. Amanhã, nesta hora, estarei no Paraíso.
Que eu morra, se essa for a vontade do bom Deus... Mais cinco horas, e estarei
na verdadeira Vida. Mais cinco horas, e eu verei Jesus”.
Toda
essa situação aponta para outra reflexão delicada: até que ponto a justiça
humana é capaz de lidar com a possibilidade de redenção? Vale a pena se
questionar, ainda mais quando muitas pessoas que se dizem adeptas do
cristianismo são favoráveis à pena de morte, mesmo quando a Igreja Católica
afirma, pelo Catecismo (§2267), que ela é inadmissível.
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Narcocultura no México
Em
alguns casos, essa relação curiosa vai ainda mais longe. Não se trata apenas da
devoção a santos reconhecidos pela Igreja Católica, mas da construção de
figuras paralelas que passam a ocupar um lugar semelhante ao da devoção
religiosa.
Um
exemplo disso é o de Jesús Malverde, conhecido como o “narcossanto” ou “anjo
dos pobres”. Trata-se de uma figura popular mexicana, cuja existência histórica
é incerta, mas que passou a ser venerada por pessoas que buscam proteção,
inclusive no contexto do crime. Sua imagem, frequentemente associada à ideia de
um “Robin Hood” que ajudava os mais pobres, acabou sendo incorporada por
membros do narcotráfico, especialmente na região de Sinaloa.
Diferente
dos santos reconhecidos pela Santa Sé, Malverde não possui qualquer
legitimidade institucional e não é reconhecido pela Igreja. Ainda assim, sua
devoção se espalhou, especialmente por aqueles que buscam proteção em contextos
de risco.
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O sacramento da penitência
Ainda
na América Latina, outro nome marcante do narcotráfico, possivelmente o mais
conhecido de todos, é o de Pablo Escobar. Existem indicativos de que o
colombiano também recorria à confissão.
Há uma
história curiosíssima envolvendo Pablo Escobar e Darío Castrillón Hoyos, que à
época era bispo. Segundo relatos, ele teria se disfarçado de entregador de
leite para conseguir acesso à região onde Escobar estaria escondido, podendo
assim dialogar com o narcotraficante. Questionado sobre quem o teria enviado,
teria respondido que vinha “daquele que julgará todos”.
Na
sequência, ainda de acordo com essas narrativas, Escobar teria confessado seus
pecados naquele encontro. Trata-se, contudo, de um episódio que não é
totalmente confirmado em todos os seus detalhes.
De todo
modo, a história ilustra bem a complexidade dessa relação: Escobar morreu
enquanto ainda vivia como narcotraficante. Talvez fosse tarde demais para
abandonar essa vida, mas, ainda assim, é uma situação que chama a atenção.
Diante
disso, é também curioso pensar como o Sacramento da Penitência, em certos
contextos, acaba sendo pouco compreendido ou até subestimado por aqueles que
buscam perdão. Em trajetórias marcadas pela violência, a busca por mudança de
vida nem sempre ocorre de forma linear, passando por diferentes experiências
religiosas e tentativas de reconstrução pessoal — que, em muitos casos,
poderiam ser melhor compreendidas à luz da própria prática da confissão.
Portanto,
o catolicismo acaba sendo, em muitos casos, um ponto de referência mesmo para
aqueles que interpretam e utilizam seus símbolos de maneira equivocada — e
rejeitada pela Igreja. No fim das contas, essa relação revela menos sobre a fé
em si e mais sobre a forma como ela é vivida: entre contradições graves,
tentativas de redenção e buscas por sentido, mesmo em contextos marcados pela
violência.
• O traficante fundamentalista que usa a
Bíblia para justificar a violência contra padres no Complexo de Israel. Por
Bruno Paes Manso
Dia 12
de outubro de 1995, feriado de Nossa Senhora Aparecida: era para ser um dia
festivo, mas o País pegou fogo diante de um ataque inesperado a um dos símbolos
da fé nacional. Durante a madrugada, em um programa de televisão ao vivo,
Sérgio Von Helder, que era bispo da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd),
chutou a imagem da padroeira e desdenhou da crença de milhares de brasileiros.
A
agressão causou repercussão, com amplo destaque no Jornal Nacional e na
imprensa em geral. Houve manifestações de repúdio do presidente Fernando
Henrique Cardoso, do bispo do Rio de Janeiro, Dom Eugênio Salles, e até do papa
João Paulo II. Von Helder foi processado, condenado e precisou se mudar para os
Estados Unidos para evitar a fria dos fiéis brasileiros.
Corta a
cena para os dias de hoje. O Brasil está bem diferente. A influência dos
católicos não é mais a mesma. Os evangélicos representam quase um terço dos
brasileiros e caminham para a hegemonia. A imprensa se pulverizou, entrou em
crise, reduzindo sua capacidade de mobilizar a opinião pública. As instituições
democráticas do Rio de Janeiro, um dos estados mais evangélicos do Brasil,
também perderam sua força. Tiranias armadas exercem poder crescente nos
territórios.
Foi
nesse contexto que, no último domingo, dia 7 de julho, integrantes da quadrilha
do traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido como Peixão, o chefe do
Complexo de Israel, abordaram os representantes do vocacionário da Sociedade
das Divinas Vocações, da Igreja Católica, responsável por três paróquias em
Vigário Geral, Parada de Lucas, Cordovil e por duas capelas na comunidade. Os
criminosos deram um ultimato: os padres e seminaristas não podiam mais rezar
suas missas, nem realizar seu trabalho social na região. Assustados, eles
precisaram, em um primeiro momento, ser resgatados por católicos de paróquias
vizinhas. Alguns resistiram e ficaram nas igrejas para que os prédios não
fossem invadidos.
A
Sociedade das Divina Vocações foi criada pelo padre italiano Justino Russolilo
ainda no começo do século passado, voltada para trabalho social e de educação
dos pobres. Há três anos, padre Justino foi canonizado pelo papa Francisco. As
paróquias católicas estão há pelo menos 90 anos na região. Durante a ditadura
militar, lideranças católicas de Vigário Geral foram importantes na articulação
das lutas políticas por direitos sociais, servindo como base para as
Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).
Uma das
lideranças formadas nesse núcleo político foi Nahildo Ferreira, ferroviário
brizolista que, nos anos 1990, ajudou a criar a Casa da Paz, voltada à educação
de jovens, depois que seu filho foi assassinado por policiais na chacina de
Vigário Geral. Vinte e uma pessoas morreram e as milícias começavam a ganhar
sua cara moderna. A liderança de Nahildo inspirou o personagem Amarildo, líder
comunitário interpretado por Pedro Wagner na série O Jogo que Mudou a História,
da Globoplay, que conta a história do crime no Rio a partir de Vigário Geral e
Parada de Lucas.
Enquanto
viveu, Nahildo tentou diminuir, em vão, a influência dos traficantes em
Vigário, que acabou sendo tomada pelo Comando Vermelho. Lucas, a comunidade
vizinha, sucumbiu ao controle da facção rival, Terceiro Comando. Essa
rivalidade impôs à população desses bairros uma rotina de disputas violentas
entre grupos armados. A situação mudou apenas no começo deste século, quando
Vigário e Lucas passaram a ser controlados por um mesmo grupo, o Terceiro
Comando Puro (TCP).
Peixão
assumiu a chefia do território unificado. Era um dos líderes do TCP e se tornou
um dos traficantes mais poderosos do Rio. Ele foi ordenado pastor em uma igreja
pentecostal da Baixada Fluminense, mas não abandonou o crime. Exerce sua
autoridade carismática citando versículos bíblicos e pichando salmos nos muros.
O discurso fundamentalista facilita suas alianças com milicianos e aumenta sua
influência política, que ajuda a preservar sua liberdade. Ele nunca foi preso.
Peixão
já revelou que se enxerga como um traficante escolhido por Deus para
representar Seus interesses na terra. Ele soube disso durante um sonho, quando
recebeu a missão divina de restaurar o reino de Israel no Rio de Janeiro. Ele
próprio contou sobre seus devaneios em áudios de WhatsApp.
Conseguiu
expandir o seu império para as comunidades de Cidade Alta, Cinco Bocas e
Pica-Pau. Batizou as cinco favelas que controla como Complexo de Israel.
Algumas de suas atitudes se tornaram lendárias, como enviar carros-pipa com
água e óleos ungidos para purificar a região dominada e expulsar demônios. O
exorcismo é uma de suas obsessões. Assim ele justifica a perseguição aos
representantes das religiões de matrizes africana no Complexo e na Baixada
Fluminense, que ele e outros fundamentalistas neopentecostais associam ao
diabo.
A
tentativa de expulsão dos padres foi mais um capítulo de intolerância religiosa
executada por seus homens armados. Peixão ministra três cultos por semana para
seus soldados, com lições sobre a batalha espiritual em que ensina como a
Bíblia pode ser distorcida e usada para justificar a violência.
A
Secretaria de Segurança Pública do Rio tentou diminuir a importância do caso.
Mas a tensão permanecia elevada dois dias depois. As ameaças se concentraram
sobretudo nos padres e seminaristas que não deixaram as paróquias nos primeiras
dias. Ontem as missas voltaram a ser celebradas e receberam apoio de fiéis de
bairros vizinhos. Muitos católicos continuavam se sentindo ameaçados. Segundo
relatos de religiosos, eles estavam proibidos de usar camisas de santos, usar
terços e cordões com crucifixo. O som das missas não poderia ser ouvido das
ruas.
Tudo
segue imprevisível. Não é fácil, afinal, compreender até onde chega a ousadia e
as elocubrações místicas do traficante evangélico. Os riscos, por esse motivo,
estão sempre à espreita. Esta semana, a Polícia Civil divulgou imagens em que
drones são usados para mapear e atacar o território inimigo. Uma das imagens,
segundo informações do jornal O Dia, mostra o lançamento de uma granada durante
um voo sobre o Morro do Quitundo, em Brás de Pina. A explosão teria ferido
cinco homens numa boca de fumo. O ataque, segundo essas investigações, partiu
do Complexo de Israel.
Fonte:
Por Christian Stähler Padilha, em IHU/Jornal da USP

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