O
avanço da extrema direita nos países latinos
Em
tempos contemporâneos, a política na América Latina voltou a girar em torno de
um tema que parecia superado no fim do século XX. O avanço da extrema direita
nos países latinos não aparece como um fenômeno isolado ou apenas um episódico.
Ele surge em um contexto de desgaste institucional, frustração econômica e
perda de confiança na política.
Dessa
forma, governos e lideranças com discursos autoritários passaram a ocupar
espaço em diferentes países latino-americanos. Essa expansão não acontece por
acaso, mas responde a crises acumuladas que atravessam a democracia, a economia
e a forma como a sociedade se enxerga.
Neste
artigo, você vai entender como esse processo se constrói, quais são suas bases
históricas e por que ele se conecta com transformações globais mais amplas.
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Como o histórico de golpes e ditaduras ainda influencia a política nos países
latinos
A
ascensão da extrema direita nos países latinos se conecta com uma trajetória
marcada por golpes, ditaduras e intervenções externas ao longo do século XX.
Entre
as décadas de 1950 e 1970, diversos países latinos viveram rupturas
institucionais com apoio direto dos Estados Unidos: Guatemala, Chile,
Argentina, Brasil e Bolívia passaram por golpes articulados com a disseminação da
Doutrina de Segurança Nacional e da atuação da Escola das Américas, com a formação de
militares envolvidos em repressão política. São duas frentes que fizeram parte
do mesmo contexto histórico, a reorganização política e militar da América
Latina durante a Guerra Fria.
A
Doutrina de Segurança Nacional foi base ideológica da ditadura civil-militar
brasileira, responsável por combater um “inimigo interno”: movimentos de
esquerda, organizações populares e quaisquer grupos considerados uma ameaça à
ordem estabelecida. Por sua vez, a Escola das Américas foi uma instituição
criada pelos Estados Unidos para treinar militares latino-americanos, dentro da
lógica da Doutrina de Segurança Nacional.
Com
isso, serviços de inteligência de diferentes países latinos passaram a
articular as ditaduras durante as décadas de 70 e 80, perseguindo opositores em
escala regional, estruturando instituições, práticas políticas e formas de
atuação estatal.
Mesmo
em países que não viveram ditaduras formais, como México e Colômbia, existiram
regimes com forte repressão política. A ideia de democracia conviveu com
controle social e violência institucional. Esse histórico ajuda a entender por
que discursos autoritários ainda encontram espaço.
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Por que a crise econômica e o desgaste político criaram espaço para a extrema
direita nos países latinos
O
avanço da extrema direita na América Latina também responde a um cenário mais
recente de desgaste político e econômico.
Após um
período em que governos de esquerda ampliaram políticas sociais e reduziram
desigualdades, os países latinos entraram em um ciclo de crise. Parte desses
governos enfrentou dificuldades econômicas, disputas internas e perda de apoio
popular.
Na Bolívia, por
exemplo, a fragmentação da esquerda e a crise econômica contribuíram para o
retorno de forças conservadoras ao poder após quase duas décadas de hegemonia do
Movimento ao Socialismo. A vitória do conservador Rodrigo Paz à presidência em
2025 ocorreu em um cenário de divisão interna e desgaste político acumulado
desde o golpe de 2019.
Esse
tipo de cenário cria um ambiente propício para discursos que prometem ordem,
eficiência e ruptura com o sistema político tradicional. Um cenário que cria um
ambiente em que parte da população passa a se reconhecer em lideranças que
dizem representar o povo contra elites políticas e institucionais. Esse tipo de
construção, baseada na oposição entre povo e elite, é um dos elementos
centrais do populismo enquanto
linguagem política.
Ao
mesmo tempo, parte da população deixa de ver a política institucional como um
caminho de solução. Esse afastamento abre espaço para lideranças que se
apresentam como outsiders, mesmo quando estão ligadas a grupos tradicionais.
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O que é o populismo de direita e por que ele transforma conflitos sociais em
disputa entre povo e elite?
Para
entender esse fenômeno, é preciso olhar para o conceito de populismo de direita
radical. Na ciência política, o populismo é definido como uma forma de
construir a política a partir de uma divisão entre o povo e a elite. Essa
lógica simplifica conflitos sociais e transforma a política em um campo de
antagonismo moral.
No caso
da extrema direita, a construção do
populismo se combina com elementos autoritários e conservadores. O discurso passa a
defender a centralidade de um povo homogêneo, a rejeição ao pluralismo, a
crítica às instituições democráticas e a defesa de valores morais como base da
ordem social.
Esse
tipo de liderança não necessariamente rejeita a democracia de forma explícita,
mas tensiona seus limites ao questionar direitos, atacar instituições e
defender maior concentração de poder.
Além
disso, o populismo opera como uma linguagem política. Ele organiza frustrações
difusas e oferece uma narrativa simples para problemas complexos. Isso explica
por que ele consegue mobilizar apoio mesmo em contextos distintos.
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Medo, insegurança e pânico moral: a força de mobilização da extrema direita na
América Latina
Nos
países latinos, o crescimento da extrema direita está ligado à capacidade de
capturar sentimentos sociais reais.
Na América Central,
lideranças como Nayib Bukele conseguiram apoio ao se apresentar como resposta à
violência e à ineficiência do Estado. A redução da criminalidade em El Salvador é
frequentemente citada como exemplo de sucesso, mesmo com violações de direitos
e enfraquecimento institucional.
Esse
movimento revela um ponto importante. Parte da população aceita a redução de
garantias legais em troca de segurança. Na América Central, lideranças como
Bukele conseguem apoio não apenas pelos resultados apresentados, mas porque
traduzem em discurso político frustrações já presentes no cotidiano, criando
identificação com parcelas da população que não se sentem representadas pela
política tradicional.
Existe
um processo histórico de construção de
inimigos.
Grupos políticos, minorias sociais e movimentos progressistas passam a ser
apresentados como responsáveis por crises econômicas, morais e institucionais.
Além da dimensão econômica, esse processo também mobiliza o que pode ser
entendido como pânico moral. Lideranças e partidos passam a apresentar mudanças
sociais como ameaças à ordem, reorganizando conflitos políticos em termos
morais.
Esse
mecanismo também aparece na retórica de partidos
como o Cabildo Abierto, no Uruguai. O discurso organiza a política em torno de
oposições morais e reforça a ideia de que a sociedade está ameaçada por forças
internas.
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Como redes sociais e a tecnologia ampliam o alcance da extrema direita
A
expansão da extrema direita na América Latina também está conectada ao uso
intensivo das redes sociais. Plataformas digitais permitem que lideranças
políticas falem diretamente com o público, sem mediação institucional. Isso
facilita a disseminação de mensagens simplificadas, polarizadas e, muitas
vezes, baseadas em desinformação.
A
atuação de líderes como Javier Milei, presidente
eleito na Argentina em 2023, mostra como esse ambiente digital se torna central
na construção de poder político. O presidente argentino utiliza as redes
sociais para consolidar sua imagem e influenciar o debate regional.
Em um
dos episódios mais emblemáticos, Milei compartilhou
uma imagem que retratava países governados pela esquerda como uma favela, enquanto países com
governos de direita apareciam como espaços associados à noção de
desenvolvimento.
Esse
tipo de conteúdo reduz o espaço para debate e reforça identidades políticas já
existentes, ampliando divisões sociais. Dinâmicas semelhantes também aparecem
em outros países da região, com uso sistemático das
redes sociais para difundir mensagens polarizadas.
Além
disso, há conexões globais entre essas lideranças. A saída da Argentina
da Organização Mundial da Saúde (OMS) seguiu um movimento semelhante ao dos
Estados Unidos e
foi justificada em nome da soberania nacional, mesmo com impactos negativos
para a população.
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Um discurso de soberania nacional que convive com a dependência econômica
Um dos
elementos recorrentes na extrema direita latino-americana é o uso do discurso
de soberania nacional.
Governos
e lideranças defendem autonomia em relação a organismos internacionais, acordos
multilaterais e instituições globais. No entanto, essa posição muitas vezes
convive com políticas econômicas que reforçam a dependência externa.
A saída
da Argentina da OMS exemplifica essa contradição. Ao mesmo tempo em que o
governo afirma defender a soberania, especialistas
apontaram riscos como aumento de custos em saúde, perda de acesso a vacinas e
isolamento científico.
Essa
política evidencia uma tensão entre o discurso de soberania e seus efeitos
concretos sobre o Estado. A retórica nacionalista funciona como ferramenta de
mobilização, mas seus efeitos concretos podem fragilizar as instituições.
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A ascensão da extrema direita sob uma perspectiva global
O
avanço da extrema direita não ocorre de forma isolada nos países latinos, há
uma circulação de estratégias, discursos e alianças entre lideranças da região.
Figuras
como Donald Trump, Javier Milei e lideranças conservadoras locais compartilham
narrativas semelhantes. A ideia de combate à esquerda, a crítica às
instituições e a defesa de valores tradicionais aparecem como pontos de
convergência.
Além
disso, há articulações políticas que envolvem tentativas de influenciar
organismos internacionais e redes de direitos humanos, indicando uma atuação
coordenada em escala regional.
Esse
movimento também se apoia em referências históricas e simbólicas. Em alguns
casos, há revisionismo sobre ditaduras e conflitos do passado, com tentativas
de reinterpretação da história recente.
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Como o avanço da extrema direita afeta instituições, direitos e o funcionamento
da democracia
O
crescimento da extrema direita nos países latinos têm efeitos diretos sobre a
democracia. Esses governos e movimentos promovem a separação de poderes, atacam a imprensa e instituições
de controle, reduzem o espaço de participação social e questionam os direitos
das minorias.
Alguns
exemplos são os casos de El Salvador e Uruguai. Em El Salvador, políticas de
segurança foram implementadas com forte concentração de poder e restrições a
direitos civis. No Uruguai, discursos políticos atacaram pautas relacionadas a
gênero e diversidade.
Esse
processo não ocorre necessariamente com ruptura institucional imediata. Ele se desenvolve
por dentro das instituições, com deslocamentos graduais no funcionamento
democrático, redução de controles e ampliação do poder executivo.
Ao
mesmo tempo, há uma reconfiguração das políticas públicas. Programas sociais,
políticas de direitos e iniciativas de inclusão passam a ser questionados ou
reduzidos.
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O que está em disputa no futuro político dos países latinos diante do avanço da
extrema direita
O
avanço da extrema direita nos países latinos revela uma disputa mais ampla
sobre o futuro da democracia na região.
Esse
processo não pode ser explicado apenas pela ação de lideranças políticas.
Envolve transformações sociais profundas, como desigualdade persistente,
insegurança econômica e crise de representação.
Ao
mesmo tempo, mostra os limites das democracias liberais em responder a essas
demandas. Outras formas de organização política ganham espaço quando essas
respostas não aparecem.
De um
lado, o desafio é fortalecer instituições democráticas. De outro, enfrentar as
desigualdades que alimentam a insatisfação social.
Sem
enfrentar essas condições estruturais, como desigualdade persistente e
insegurança econômica, o espaço para discursos autoritários tende a continuar
crescendo nos países latinos.
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Como se consolidou
A
extrema direita na América Latina consolidou-se como força política relevante
nas últimas duas décadas, impulsionada pelo descontentamento social,
insegurança e crises econômicas, ganhando tração em países como Argentina
(Javier Milei), Brasil (Jair Bolsonaro), Chile (José Antonio Kast) e El
Salvador.
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Principais Características e Movimentos:
- Populismo e
Nacionalismo:
Líderes de extrema
direita utilizam retórica populista, prometendo combater a corrupção e os
governos de esquerda.
- Economia
Neoliberal/Anarcocapitalismo:
Figuras como Javier
Milei na Argentina defendem agendas econômicas radicais, incluindo a redução
extrema do Estado.
- Pauta
Conservadora:
Forte ênfase em
valores morais tradicionais, segurança pública e, em alguns casos,
autoritarismo.
- Conexões
Globais:
Os movimentos
latino-americanos conectam-se com a onda global de radicalização de direita.
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Panorama Atual (2025-2026):
- Argentina:
Javier Milei,
autodenominado anarcocapitalista, é um exemplo central da ascensão da extrema
direita.
- Chile:
José Antonio Kast
posicionou-se como figura proeminente da direita radical/populista.
- Brasil/Região:
Apesar de governos de
esquerda ou centro-direita, a região vive uma guinada conservadora em diversos
países, com a extrema direita fortalecida após crises de governos anteriores.
A
ascensão da extrema direita na região é frequentemente analisada como uma
resposta ao desgaste da centro-direita e das esquerdas, além de ser
influenciada por um contexto histórico de rupturas institucionais no século XX
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Principais tendências
A
extrema direita na América Latina consolida um avanço significativo em 2026,
marcado por vitórias eleitorais, como no Chile com José Antonio Kast, e forte
influência regional, impulsionada por pautas conservadoras, nacionalismo e a
busca por soluções de "linha dura" contra o crime, impactando
profundamente o cenário eleitoral, incluindo a eleição presidencial de 2026 no
Brasil.
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Principais tendências e cenários para 2026:
- Expansão
Regional:
Após vitórias no
Chile e Costa Rica, a extrema direita busca expandir sua influência, com a Colômbia sendo um alvo
central nas eleições presidenciais de 2026.
- Efeito Bukele:
O modelo de segurança
pública de Nayib Bukele, em El Salvador, serve de referência para candidatos da
região, defendendo políticas duras contra o crime organizado.
- Agenda
Conservadora:
A política se
concentra em valores conservadores (pátria e família), visão ultraliberal na
economia e forte oposição às pautas de esquerda.
- Eleições
Decisivas:
O ano de 2026 é
crucial, com eleições presidenciais e legislativas na Colômbia, Brasil, Haiti e
Peru, testando o fôlego dessa onda conservadora contra governos de esquerda
ainda presentes na região.
- Bolsonarismo no
Brasil:
A eleição brasileira
de 2026 é observada como ponto focal para a possível reabilitação ou
fortalecimento do bolsonarismo na região.
O
fenômeno é impulsionado pelo desgaste institucional, frustração econômica e
perda de confiança nas instituições tradicionais, com as redes sociais
desempenhando papel fundamental
Fonte:
ICL Notícias/IHU

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