As
terras raras do Brasil não podem ser entregues ao projeto de segurança nacional
dos EUA
No dia
20 de abril, foi anunciada a compra da empresa Serra Verde, que administra a
jazida de minérios críticos Pela Ema, em Minaçu, no Goiás. A empresa compradora
é a USA Rare Earth (USAR), uma empresa americana apoiada pelo presidente Donald
Trump nessa operação. O impacto desse fato não pode passar despercebido, pois
não se trata de mais uma negociação de ativos entre capitalistas. Por trás
dessa ação está o projeto de segurança nacional elaborado por Donald Trump,
junto a grandes corporações imperialistas, que poderá ter o controle de uma das
principais jazidas de terras raras do Brasil e do mundo para buscar superar
superar a sua dependência da China de acesso a esse recurso estratégico e da
alta tecnologia produzida a partir dele. O Brasil, com contribuição da direita
de Caiado e Flávio Bolsonaro, das grandes mineradoras, da mídia, mas também do
governo Lula, passa a estar no centro da política de segurança nacional dos
americanos, o que não é nada bom para os trabalhadores e os povos indígenas que
se enfrentam com a política imperialista de Donald Trump.
A
importância da aquisição por US$ 2,8 bilhões da empresa Serra Verde fica clara
no discurso da diretora executiva da USAR, Barbara Humpton, após o anúncio da
compra. Segundo ela, o projeto Serra Verde “um ativo sem equivalente e o único
produtor fora da Ásia capaz de suprir todos os quatro minerais magnéticos raros
em larga escala”.
Os
minerais em questão são o Neodímio (Nd), Praseodímio (Pr), Térbio (Tb) e
Disprósio (Dy), essenciais para a produção de ímãs permanentes de alta
performance (NdFeB) para veículos elétricos, turbinas eólicas, mas também para
o sistema de armamento militar avançado, como radares e mísseis teleguiados.
Igor Gielow, da Folha de São Paulo, afirma que a ameaça da China de vetar o
acesso as suas terras raras comprometeria 80% da produção de armas nos EUA.
Embora
a Serra Verde não fosse de fato uma empresa nacional, por era controlada até
então pelo fundo norte-americano Denham Capital, a compra pela USAR busca
torná-la um dos principais centros de extração de terras raras do mundo. A USAR
afirma que a Serra Verde será responsável por produzir cerca da metade das
terras raras pesadas fora da China até 2027, se estabelecendo como uma das
principais forças globais na produção desses minérios.
Fora do
país asiático, são poucas as operações que concentram a produção em larga
escala de terras raras: a Lynas Rare Earths, que opera no depósito de Mount
Weld na Austrália, é a maior representante não chinesa de terras raras pesadas,
enquanto a MP Materials foca principalmente na produção de terras leves no
complexo de Mountain Pass na Califórnia. Será, portanto, a maior produção
realizada em um país periférico.
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Ataque central à soberania
O
Brasil é hoje o segundo maior país em reservas de terras raras do mundo — cerca
de 21 milhões de toneladas de óxidos, aproximadamente 23% das reservas
mundiais. O Banco Internacional de Desenvolvimento (BID) estima que o valor
potencial dessas reservas equivale a cerca de 186% do PIB brasileiro. A China é
responsável hoje por cerca de 60% da produção global de terras raras e mais de
80% do processamento, de modo que o controle sobre as jazidas brasileiras faz
parte da política norte-americana de superação da dependência chinesa.
A USAR
recebeu US$1,6 bilhão do governo de Donald Trump em janeiro em uma compra de
títulos da empresa. O governo americano agora possui 10% do capital da
mineradora. Além disso, a Serra Verde assinou um contrato de 15 anos para que
toda a produção inicial da mina seja vendida a uma estrutura capitalizada pelo
governo dos EUA. A Development Finance Corporation (DFC) pagou ainda 565
milhões de dólares a acionistas da empresa, uma parte em dinheiro e outra em
emissão de novas ações. Em troca, terá como garantia a compra de 100% da
produção da Fase I com preços mínimos garantidos (floor prices) -
especificamente US$ 2.050 por quilograma para o térbio e US$ 575 por quilograma
para o disprósio, protegendo o acordo das oscilações de mercado frente às
tensões geopolíticas com a China.
Em
janeiro deste ano, Trump lançou uma política chamada “Project Vault”, que nada
mais é que uma reserva estratégica de minerais críticos,com um fundo de 12
bilhões de dólares inspirado na Reserva Estratégica de Petróleo (SPR) de 1975,
uma das respostas da crise de 1970. O Export-Import Bank (EXIM) dos EUA fornece
um empréstimo de US$10 bilhões por 15 anos a esse fundo, complementado por US$
1,67 bilhão de capital privado de gigantes industriais como Boeing, General
Motors, Stellantis, GE Vernova e Google. O objetivo do fundo é criar um estoque
para exercer o controle de preços dos minerais críticos em parceria com as
indústrias beneficiadas por sua produção. As empresas participantes do Project
Vault pagam os custos de manutenção em troca do acesso priorizado a esses
minerais em caso de interrupções nas cadeias globais causadas por ações da
China. Trump espera que outros países possam aderir ao fundo e se beneficiar
dele. Os negócios com a Serra Verde se inserem neste projeto de segurança
nacional, de preparação dos EUA para um acirramento das disputas geopolíticas
com a China, colocando as terras raras como sua salvaguarda nessa disputa.
Ao
contrário do que prega a grande mídia e a direita brasileira, esse acordo em
nada representa uma política de desenvolvimento para o país. Enquanto o Brasil
vai extrair a argila, os minérios, as etapas de Midstream (processamento
inicial e transformação química) e Downstream (fabricação de produtos finais de
alto valor) serão feitas em Oklahoma ou Cheshire, ou em países aliados
estratégicos, como França e Reino Unido, através das subsidiárias Carester e
Less Common Metals.
Não há
qualquer previsão no contrato de instalação de indústrias locais, deixando
clara a lógica do derisking (diminuição de riscos) que passou a operar na
geopolítica global de acesso a recursos estratégicos e concentração de capital
nas potências. Ou seja, os EUA garantem o controle das fontes de riqueza
primária nos países atrasados industrialmente e mantém seus investimentos de
maior valor agregado dentro do próprio país. Isso é parte do que explica o
entusiasmo que a compra da Serra Verde representou na bolsa de valores
americana, com a USAR tendo altas de 9% no valor de seus papéis no dia 20 de
abril.
Desde
que Trump aplicou o tarifaço de 100% contra o Brasil, é assunto na grande
imprensa um possível acordo entre o governo americano e brasileiro em negócios
de terras raras como medida para desescalar as taxações imperialistas. Dia e
noite os jornalistas da Globo, da Folha, do Valor Econômico, pregaram a entrega
dos recursos minerais estratégicos do país aos EUA, argumentando que o país não
teria capacidade de processamento e que a tentativa de controle estatal sobre
as jazidas afastaria os investidores. Expressam a mentalidade subserviente e
colonialista da burguesia brasileira ao imperialismo norte-americano ou de
qualquer potência que quiser vir tomar as nossas riquezas.
Respeitando
essa cartilha, o governador do Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), o candidato
ruralista da extrema-direita à presidência, facilitou e articulou o acordo de
compra da Serra Verde, se mostrando um agente direto para a entrega do país aos
EUA. Há um forte questionamento sobre a legalidade desse seu agenciamento do
acordo, pois o subsolo é de propriedade da União, cabendo ao governo federal
esse tipo de acordo. Não é de se espantar que um velho latifundiário, que
flerta constantemente com a base bolsonarista, faça o que for necessário para
atender os interesses dos EUA. É o que Flávio Bolsonaro prometeu fazer quando
discursou no último encontro da CPAC nos EUA, pedindo que Donald Trump
interviesse nas eleições brasileiras pois o Brasil seria sua solução na
dependência de terras raras em relação à China.
Mas
também o governo Lula está mostrando que está disposto a manter de pé esse
entreguismo escancarado. O presidente do Instituto Brasileiro de Mineração
(Ibram), Pablo Cesário, fez questão de negar qualquer interesse do governo em
apoiar a criação de uma empresa estatal para controlar a produção de terras
raras (a chamada Terrabras), aceitando o modelo pregado pela imprensa de
entrega dos recursos e nenhum desenvolvimento industrial próprio. Alegou que
não são só os EUA que tem buscado o governo para fazer negócios de terras
raras, mostrando que o multilateralismo que o governo prega nada mais é que a
subordinação do país a diferentes potências que queiram vir explorar nosso
território.
Mas ao
mesmo tempo que ele fala que o governo negocia com o Japão, a França, a Arábia
Saudita, é evidente que a anuência que tem se observado até agora frente a
compra da Serra Verde se deve às negociações com os EUA. O governo Lula tem
feito de tudo para não melar a sua “petroquímica” com Trump, que envolve
acordos geopolíticos implícitos, como o não envio de petróleo para Cuba e o
silêncio sobre o sequestro de Maduro na Venezuela. Essa subserviência de Lula
tem mostrado a sua aceitação de uma política dos EUA de englobar o Brasil no
seu arranjo geopolítico em meio às disputas com a China, fazendo agora da
mineração de terras raras uma cabeceira de praia dos americanos em solo
nacional.
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Pela nacionalização das terras e controle operário sobre a produção de minerais
críticos
Os
trabalhadores e os povos oprimidos são os que mais perdem com esse acordo. Não
há desenvolvimento, mas sim entrega das nossas riquezas a preços módicos e
controlados para os americanos, para que a Google, a GM e todo o Vale do
Silício enriqueça cada vez mais. São minerais para fortalecer o aparato militar
norte-americano e sua fúria militarista que vemos no Irã, na Palestina, no
Líbano e em tantos outros países. Não ganhamos nada com isso, ou melhor,
ganhamos todos os problemas que deles decorrem, principalmente ao meio ambiente
e aos povos indígenas.
Basta
lembrar o que aconteceu em Brumadinho e em Mariana, com a Vale privatizada
acabando com cidades inteiras e matando centenas de pessoas após o rompimento
de suas barragens de rejeitos. São rios e todo um ecossistema que foi perdido
nesse crime ambiental, até hoje impune e permite a Vale seguir gestando novas
tragédias. Com o controle estrangeiro sobre a exploração das terras raras no
Goiás, o máximo que o governo brasileiro tem em mãos é a fiscalização dos
impactos ambientais, que em nada impediram tragédias como as que ocorreram em
Minas Gerais. Como não é o próprio Estado quem tem o controle da produção,
qualquer fiscalização se torna muito mais difícil. Dada a importância
geopolítica do empreendimento, o controle de impactos ambientais estará sujeito
também à pressão imperialista.
Pesquisadores
como Ricardo Assis Gonçalves, da UFG, apontam que o avanço da exploração de
terras raras têm cercado as áreas do Cerrado dedicadas à proteção ambiental,
além de assentamentos, territórios indígenas e quilombolas. Os EUA agora
aprofundam o projeto de transformar o Cerrado em um centro extrativista de
minerais críticos, o que afeta também a dinâmica dos rios locais, já que as
operações de extração envolvem o uso de um alto volume de águas fluviais,
gerando risco de contaminação de nascentes e de provocar um desequilíbrio
hídrico no bioma. Por serem materiais ligados à produção da chamada “tecnologia
verde” para a produção de energia renovável, as empresas ainda colocam um “selo
verde” para o extrativismo brutal, fazendo um greenwashing da operação.
Essa
pilhagem extrativista pode e deve ser evitada. Qualquer medida a ser discutida
deve passar por uma perspectiva que fortaleça a luta dos trabalhadores contra a
ingerência imperialista no país. Alguns setores do PT e do PSOL têm defendido a
criação de uma empresa estatal, a Terrabras, como forma de garantir o controle
nacional da produção de terras raras. É evidente que o primeiro passo é conter
o entreguismo das riquezas para as potências estrangeiras, seja para os EUA e
outras potências, como inclusive a China, cujo discurso multilateralista tem o
único objetivo de rivalizar na disputa pelo controle de recursos estratégicos,
como faz na África e em outros países asiáticos. Não podemos assistir que o
Brasil siga sendo palco das disputas entre os EUA e a China pelos minerais
críticos.
Por
isso a nacionalização das reservas de terras raras é uma medida urgente e
necessária. Ao mesmo tempo, sabemos com o caso da Petrobrás que a criação de
uma estatal não garante plenamente a soberania do país sobre nossas riquezas.
Basta ver como é pela própria ação do Estado brasileiro que a Petrobrás hoje é
cada vez mais uma empresa privada e a serviço do capital imperialista. Desde os
primeiros governos do PT que isso aconteceu, com a abertura de capitais da
empresa, com a privatização da BR Distribuidora, que depois se aprofundaram com
Temer e Bolsonaro quando privatizaram praticamente toda a nossa capacidade de
refino. Hoje a Petrobrás produz petróleo para o país e precisa importar
combustíveis para o abastecimento nacional. A Petrobrás está hoje a serviço do
lucro dos acionistas imperialistas que avançam inclusive sobre o meio ambiente
com a exploração da Foz do Amazonas para aumentar ainda mais seus dividendos.
É
necessário que a esquerda revolucionária discuta como batalhar para que a
nacionalização das terras raras esteja sob controle dos trabalhadores, em
conjunto com as comunidades tradicionais que habitam as regiões onde há
extração de minérios. Isso passa pela estatização imediata da mineradora de
Serra Verde, sob controle dos trabalhadores e sem nenhuma indenização. Apenas
quem produz de fato a riqueza, que sente na pele a exploração das mineradoras,
com sua vida e saúde colocadas todo dia em risco, assim como os povos que vivem
da relação com a terra é que pode saber como garantir que essa produção sirva
ao desenvolvimento do país garantindo a preservação do meio ambiente.
Frente
a uma burguesia nacional que mais uma vez prova como é incapaz de se opor aos
interesses imperialistas, preferindo associar seus negócios se subordinando à
burguesia dos países centrais, a única classe que tem a força capaz de deter a
venda da soberania do país são os trabalhadores. Os trabalhadores das
mineradoras, assim como da Petrobrás, são uma enorme força social no país,
capaz de paralisar os principais centros de produção das commodities de
exportação e atingir diretamente a riqueza dos grandes monopólios
extrativistas.
Contudo,
essa força hoje está contida pelas direções burocráticas, com os sindicatos da
CUT e da CTB subordinando as ferramentas históricas de organização dos
trabalhadores à política do governo Lula de não enfrentamento com Trump e o
imperialismo. Cabe à esquerda revolucionária o papel de desenvolver essa força
social dos trabalhadores, batalhando pela sua aliança com os povos originários
e camponeses afetados pela mineração e que vem se colocado na luta contra o
imperialismo, como fazem hoje os povos do Xingu contra a mineradora de ouro
Belo Sun no Pará. Colocar de pé essa aliança é o que pode obrigar que a CUT e a
CTB rompam a sua paralisia e recuperar os sindicatos como ferramenta de luta
contra o imperialismo e a burguesia nacional entreguista.
Junto a
comissões eleitas de representantes das universidades e de especialistas, são
os trabalhadores e os povos oprimidos quem podem estabelecer um plano de
investimentos em tecnologia de processamento, capacitação técnica nacional e
planejamento da produção em perspectiva ecológica. São esses que podem garantir
de fato a soberania do país frente à disputa imperialista, pois não têm nada a
ganhar com suas guerras e disputas geopolíticas, e converter a tecnologia que é
voltada para armamento bélico, que destrói o meio ambiente e a vida de
comunidades originárias, em tecnologia a serviço de resolver as necessidades da
população.
Fonte:
Por Italo Gimenes, em Esquerda Diário

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