Luiz
Filgueira: Lula, Maquiavel e a eleição
Nicolau
Maquiavel, pensador considerado por muitos como o fundador da Ciência Política,
pouco lido hoje, é desde sempre identificado e criticado, de forma equivocada,
por supostamente advogar práticas e métodos imorais, desonestos,
fraudulentos e violentos – enfim, “maquiavélicos” – em especial expressos no
seu livro mais famoso: O Príncipe (escrito em 1513 e com
primeira edição em 1532). Na origem dessa (in)compreensão, e de sua difusão,
está a Igreja de Roma, que Maquiavel, em seu tempo, identificava como o
principal inimigo da unificação da Itália – objetivo maior de seu pensamento e
sua ação política.
Com
ele, a política ganhou autonomia frente a outras áreas do conhecimento:
economia, moral, ética, direito etc. Nessa perspectiva, passou-se a reconhecer
que essa área do pensamento e da ação humana tem uma dinâmica própria, que não
está subordinada à moral privada e à ética cristã – como os seus antecessores e
contemporâneos compreendiam. A política é pensada e praticada a partir da ótica
da “razão de Estado”, na qual a guerra não é o seu oposto, mas sim um dos seus
possíveis desdobramentos.
Desse
modo, a diferença fundamental entre ele e os seus antecessores é que estes
trataram e discutiram a política “como ela deveria ser”, enquanto Maquiavel
observou, tratou e discutiu a política “como ela é de fato”. Apoiou-se em seus
estudos dos filósofos e historiadores da Antiguidade Clássica e,
principalmente, tendo por referência a sua experiência de 14 anos como
funcionário-Chanceler da Cidade-Estado de Florença.
No
seu pequeno livro, Maquiavel, preocupado em evidenciar a “verdade efetiva das
coisas”, desnuda para o povo o caráter e a natureza da política e dos
governantes, cujo objetivo fundamental é chegar ao poder e mantê-lo. Em
particular, aponta os métodos utilizados pelos “Príncipes” que foram
bem-sucedidos em suas ações e o comportamento daqueles que fracassaram em
atingir os seus objetivos.
Para
o fim deste artigo, o que nos interessa de seu pensamento é o que consideramos
o seu núcleo central, qual seja: os conceitos
de “fortuna” e “virtude”, elaborados por ele, para refletir,
respectivamente, sobre as mutáveis circunstâncias (condições) objetivas do
ambiente político (distintas conjunturas) e, de outro, sobre a vontade e ação
política dos Príncipes (os sujeitos políticos) em cada conjuntura. Para ele a
relação fortuna-virtude é decisiva para entender porque alguns vencem e outros
fracassam. A ideia é a seguinte:
A
fortuna se refere às circunstâncias fundamentalmente imprevisíveis e
incontroláveis (externas), com as quais os sujeitos políticos se defrontam em
sua ação política, que colocam situações e problemas novos que devem ser
enfrentados – cujas soluções estão limitadas por essas mesmas circunstâncias.
Mas isso não se confunde com destino, fatalismo inexorável, poder cego e
incontrolável; a ação dos sujeitos pode enfrentar a fortuna, influenciá-la e
parcialmente direcioná-la. Para isso, estes devem adaptar os seus
comportamentos e as suas ações a ela – o que remete ao significado e à
importância do conceito de virtù.
A
virtude para Maquiavel, diferentemente da concepção de seus
contemporâneos, não se identifica com as conhecidas virtudes cristãs, que
caracterizam um “homem bom” e estão associadas à salvação da alma. O homem de
ação, ele mesmo imerso nos acontecimentos, tem capacidade, determinação,
energia e engenhosidade, capacidade de adaptar o seu comportamento e as suas
ações às circunstâncias, às necessidades das diversas conjunturas, de acordo
com os distintos problemas colocados objetivamente. Assim, o sujeito político
deve interferir sobre a fortuna, mas ser guiado pela necessidade política
(pragmatismo), e ter a capacidade, caso necessário, de “mudar a sua natureza”,
adaptando-a aos tempos. Todas as suas ações políticas devem estar coerentes com
esse princípio geral, independentemente de estarem ou não compatíveis com as
virtudes cristãs – sob a pena de ser derrotado, inexoravelmente, pela fortuna.
Em
suma, a fortuna é algo externo ao sujeito político, está fora de seu controle,
não está subordinada a sua vontade e nem pode ser prevista quando vai mudar (a
incerteza é própria da política); portanto, o Príncipe virtuoso é aquele que
consegue entender as circunstâncias de cada momento, e suas mutações, adaptando
a sua vontade e a suas ações a elas, de forma a tirar o máximo proveito da nova
situação, procurando direcioná-la a seu favor. E, mais especialmente, a virtude
maior do sujeito político é ter a capacidade de se adaptar ativamente à fortuna
mesmo que isso signifique contrariar a sua própria natureza.
<><>
Lula: fortuna e virtude
Como é
do conhecimento de quase todos, os governos Lula, em particular o seu segundo
governo, obteve um enorme sucesso, mesmo sem modificar/alterar as
características essenciais do Padrão de Desenvolvimento Capitalista
Liberal-Periférico – constituído no Brasil desde o início dos anos 1990. Ao fim
e ao cabo, os seus resultados econômicosociais o diferenciaram fortemente dos
governos de FHC.
Intelectuais
e políticos da direita neoliberal explicam esse sucesso como uma questão de
“sorte”; o Lula foi um sortudo: além de, supostamente, ter se beneficiado da
“casa arrumada” por FHC em razão das reformas neoliberais implementadas por
este, teve a sorte grande da China ter ingressado na OMC e alterar
completamente os mercados de commodities ofertadas pelos
países da periferia do capitalismo. Essa teria sido a razão fundamental do
sucesso de Lula, que deixou o governo com 80% de aprovação.
No
âmbito da esquerda, para a sua parte majoritária, a causa fundamental teria
sido a superação do “Modelo Neoliberal” e a adoção do “Modelo
Neodesenvolvimentista”; este último resgatando as políticas econômicas do
antigo desenvolvimentismo, mas agora com distribuição de renda, decorrente das
políticas sociais adotadas.
Observando
o fenômeno do ponto de vista do pensamento de Maquiavel, não resta dúvida que,
desde o início dos anos 2000 – portanto, antes mesmo do início do primeiro
governo Lula – as circunstâncias internacionais se alteraram, com o crescimento
mundial passando a ser “puxado” pelo par China-EUA, com forte impacto sobre as
contas externas (balança comercial e de transações correntes) dos países
periféricos. Assim, a nova fortuna permitiu a esses países a redução de suas
respectivas vulnerabilidades externas conjunturais, ao melhorar os seus
balanços de pagamentos.
Diante
desse quadro, o governo Lula soube ler e entender a fortuna que estava se
constituindo, tendo tido a virtude de flexibilizar a política macroeconômica
(metas de inflação, superávit fiscal primário e câmbio flutuante) herdada de
FHC – que havia sido mantida rígida durante a primeira metade do primeiro
governo, inclusive levando o país em 2003 a uma recessão. Como hoje, essa
política, conhecida como o “tripé macroeconômico”, dificultava os gastos do
governo (investimento e programas sociais) e mantinha taxas de juros
elevadíssimas, com consequências decisivas sobre o baixo crescimento econômico
e o elevado desemprego
Posteriormente
contudo, a partir da segunda metade do primeiro governo, ao diminuir o
superávit fiscal primário e reduzir a taxa de juros (o mesmo Regime de Política
Macroeconômico, mas flexibilizado), em associação com a política de reajuste
real do salário-mínimo (acima da inflação) e seus impactos nos benefícios da
Previdência Social, juntamente com outras políticas sociais (Bolsa-Família), o
resultado foi mais crescimento econômico, redução do desemprego e uma pequena
melhora na distribuição de renda (no âmbito dos rendimentos do trabalho).
Adicionalmente, a utilização dos bancos públicos e da Petrobrás também foi
decisiva para alavancar a economia, que teve como símbolo maior a política “dos
campeões nacionais” implementada pelo BNDES
Em
suma, sem confrontar as reformas neoliberais e o capital financeiro, mas
sabendo ler as novas circunstâncias internacionais, o governo Lula flexibilizou
o Regime de Política Macroeconômica – que permitiu um desempenho
econômico-social muito melhor do que aquele do período dos dois governos FHC. E
para isso, Lula não precisou ir de encontro a sua própria natureza
conciliadora; as novas circunstâncias (crescimento econômico)
possibilitaram-lhe administrar os interesses opostos (capital X trabalho) e deslocar
o conflito político para a oposição ricos X pobres.
<><>
A natureza conciliadora de Lula e o seu terceiro governo
A
natureza conciliadora de Lula, sempre disposto a negociar com todos, é
amplamente conhecida pelos que acompanham sua trajetória desde a sua época de
dirigente sindical. Como dirigente político a sua tendência à conciliação,
particularmente a partir dos anos 1990, se aprofundou – apenas mudando o escopo
de negociação, que se ampliou e se tornou mais complexa.
Acontece
que a crise geral do capitalismo de 2007/2008, prolongada com a crise do euro
em 2010, trouxe uma nova fortuna, novas circunstâncias econômicas e políticas
que afetaram as relações internacionais e todos os países do mundo. No Brasil,
o impulso econômico propiciado pelas importações chinesas reduziu-se a partir
do governo Dilma e o crescimento econômico desacelerou. A tentativa desse
governo de se contrapor a essa desaceleração, através de isenções fiscais para
o capital, não funcionou. Os capitalistas não investiram os recursos obtidos,
mas aplicaram no mercado financeiro com a compra de títulos do governo. E o
pior, a redução das receitas públicas, decorrente da política de isenção, criou
um problema fiscal, expresso em déficits primários.
Na
sequência, o segundo governo Dilma, logo no seu início, implementou um “ajuste
fiscal”, a austeridade preconizada e proposta pela direita neoliberal; o
resultado todos conhecem: uma enorme recessão, que foi fundamental para a
desestabilização do governo e a construção do golpe de Estado de 2016 – com o
impedimento da Presidente. Para piorar, assistiu-se, a partir da crise mundial,
à ascensão da extrema direita neofascista, expressa no Brasil pelo
bolsonarismo, que começou a vir à tona em meio às manifestações de 2013 e da
campanha do impeachment em 2015-16, consolidando-se definitivamente com o
governo Temer e, a seguir, com a eleição em 2018 de Jair Bolsonaro.
O
desastroso governo Bolsonaro, em todas as áreas (economia, educação, saúde,
meio ambiente, relações internacionais etc.), abriu as portas para o terceiro
mandato de Lula, mas em uma conjuntura completamente distinta da existente
durante os seus dois governos anteriores. Nas novas circunstâncias, as forças
políticas adversárias ampliaram-se: à direita neoliberal tradicional,
cada vez mais caudatária da extrema direita neofascista em todo o mundo, veio
juntar-se o bolsonarismo que, apesar de derrotado (por um fio) na eleição para
presidente, elegeu uma grande bancada de deputados e senadores. Adicionalmente,
o empoderamento do Parlamento desde o governo Temer, com a aprovação do caráter
obrigatório para as emendas parlamentares (secretas ou não), enfraqueceu o
Poder Executivo na sua relação com o Poder Legislativo. O chamado
“Presidencialismo de Coalizão” sofreu um forte abalo, com a perda de poder de
negociação do Presidente da República
Nesse
cenário adverso, Lula vem tocando o seu terceiro governo do mesmo modo como fez
em seus dois governos anteriores: desconsiderando a necessidade de mobilização
popular e com ampla negociação encapsulada no Parlamento, sancionando uma
correlação de forças desfavorável. No entanto, em momentos pontuais apostou na
mobilização popular e obteve, exemplarmente, a aprovação da isenção do imposto
de renda para quem ganha até 5 mil reais, barrou a anistia para Bolsonaro e os
golpistas e enfrentou vitoriosamente, de forma soberana, a taxação de Trump
contra as exportações brasileiras.
A
conciliação com a austeridade expressou-se no Novo Arcabouço Fiscal, substituto
do famigerado Teto de Gastos do governo Temer, e na política monetária (juros
estratosféricos) do Banco Central – que deram continuação ao Tripé
Macroeconômico, agora de forma rígida. Como consequência, os programas e
políticas dos governos anteriores de Lula foram reativados, após os ataques de
Temer e Bolsonaro, mas de forma mais tímida e precária. Além disso, a
desestruturação da cadeia produtiva do petróleo, em particular o fatiamento da
Petrobrás promovida pelos governos de Temer e Bolsonaro, retirou do governo um
importante instrumento de política econômica.
Apesar
disso tudo, a taxa média de crescimento da economia brasileira no atual
governo ainda vai se situar em torno de 2,7% e a taxa de desocupação é a menor
da série histórica, não podendo deixar de se observar, contudo, que os empregos
gerados são de baixíssima qualidade. De qualquer sorte, nas novas
circunstâncias, o melhor desempenho da economia, expresso nos diversos
indicadores econômicos, não tem se refletido em uma melhor avaliação do governo
e de Lula. Apostar que o crescimento, por si só, associado a políticas sociais
inclusivas, é suficiente para “ganhar politicamente” a maioria da população não
tem se mostrado efetivo. Isso já havia sido constatado quando eclodiram as
manifestações de junho de 2013, mas parece que não foi registrado.
Nesse
novo contexto, o “Centrão”, a direita neoliberal e o neofascismo passaram
durante todo o período emparedando e “disciplinando” o terceiro governo Lula
que, após os momentos de mobilização acima citados, continuou com sua “tática
negociadora restrita ao Parlamento”. Agora, recentemente, a vitória da “pequena
política” mais uma vez se impôs: o amplo leque oposicionista derrotou o governo
em duas pautas importantes, reprovando a sua indicação para ministro do STF e
derrubando os vetos de Lula na proposta de dosimetria (redução das penas para
Bolsonaro e os demais golpistas) que havia sido aprovada pelo Parlamento.
Estamos
em um momento decisivo (há apenas cinco meses para a eleição) e não há o menor
sinal de se retomar a mobilização popular. Parece que, diferentemente dos seus
governos anteriores, Lula não conseguiu ler as novas circunstâncias com que se
deparou em seu terceiro governo, isto é, não conseguiu se adaptar à mudança da
fortuna, que exigiria ir de encontro a sua própria natureza conciliadora. No
passado, a conciliação pôde funcionar, propiciando ganhos econômico-sociais
conjunturais para a classe trabalhadora. Em um momento de crescimento econômico
e inexistência ainda do movimento neofascista, Lula conseguiu arbitrar o
conflito capital-trabalho. Hoje, contudo, a fortuna é outra: exigiria, desde o
início do terceiro governo, forte mobilização popular como base para qualquer
negociação, dentro e fora do Parlamento.
Mas
essa “mudança de chave” não ocorreu, apesar dos dois discursos proferidos por
Lula (nos EUA em setembro de 2025 e, mais recentemente, na Espanha) nos quais
reconhece e faz a crítica da esquerda por ter abandonado a organização e
mobilização popular. O retardatário apoio (mas sem mobilização) do governo
Lula, do PT e dos sindicatos em geral, mas particularmente da CUT, ao fim da
escala de trabalho 6X1 é exemplar da incapacidade de entender as novas
circunstâncias.
E aqui
chegamos a um ponto crucial: a leitura de Maquiavel, feita por Gramsci, anota
que, no quadro do capitalismo e da luta de classes travada entre capital e
trabalho, o “Príncipe” não deve ser entendido e reduzido a um indivíduo – por
mais virtuoso que este possa ser. Na condição de “Principe”, mais importante
que o indivíduo é o partido político da classe trabalhadora, desde que este
assuma a direção do processo político, organizando e mobilizando a classe. Na
década de 1980, com a criação do PT e sua forma de atuação, parecia que
estávamos assistindo à constituição do “Principe Moderno” no Brasil. No
entanto, a partir dos anos 1990, com vitória do neoliberalismo, esse projeto
descarrilhou – da mesma forma como havia ocorrido com os partidos social-democratas,
socialistas e trabalhistas nos países centrais do capitalismo; o processo de
“transformismo” abortou a construção do “Príncipe Moderno”. Por isso, a
responsabilidade de todo esse processo não é apenas de Lula e de seu governo;
ela é também dos partidos de esquerda, sindicatos e centrais sindicais ligados
organicamente a Lula e a este governo.
O
resultado disso tudo, é que neofascismo e a direita neoliberal, ambos cada vez
mais associados, sentiram-se estimulados e empoderados a “emparedar” o governo.
A disputa eleitoral será, ou já está sendo, duríssima. As forças políticas
neoliberais, em sua quase totalidade, estão com o bolsonarismo. A resposta a
isso, só pode ser a imediata mobilização popular em torno dos temas que ainda
estão sendo objeto de decisões do Congresso Nacional (em especial o fim da
escala 6X1) e da eleição de Lula. Ou vai-se continuar esperando que o “gênio
negociador” de Lula encontre a saída das dificuldades? A hora é agora, é a
última hora!
Fonte:
Outras Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário