quinta-feira, 14 de maio de 2026


 

Célio Turino: O abraço da jiboia imperial

 A jiboia chegou antes da notícia. Antes dos jornais amanhecerem com a mesma manchete escrita em palavras diferentes e comentaristas repetirem os termos de sempre: “responsabilidade fiscal”, “segurança jurídica”, “governabilidade”, “investimentos estrangeiros”, “modernização”, “parceira”. Ela veio primeiro. Veio pelos cabos submarinos, pelas fibras invisíveis enterradas sob os oceanos, pelos satélites que vigiam sem dormir e pelos algoritmos capazes de conhecer o país melhor do que o próprio povo que o habita.

As grandes serpentes do mundo já não atravessam florestas, habitam sistemas; e esta conhece o Brasil há séculos. Desde quando o ouro descia das montanhas em lombos de mula para voltar transformado em dívida. Estava aqui quando o açúcar adoçava mesas estrangeiras enquanto deixava gosto de sangue na boca dos escravizados. Conheceu a borracha amazônica financiando palacetes em cidades distantes e abandonando seringueiros à febre; veio em forma de pé de café enquanto enterrava corpos negros, e depois “colonos” de pele rosa, sob a terra vermelha. Conheceu Potosí, Canudos, as serras andinas, o último Inca, os rios e pântanos, os massacres, Contestado, Caldeirão e todos aqueles se ergueram contra a exploração. Conhece o país em detalhes através dos trilhos e dormentes carregando trens com minério a cruzarem a noite do continente como cortejos fúnebres do futuro.

A América Latina sempre teve o corpo aberto, só mudaram as ferramentas do saque. No início, as caravelas, o trabuco, o chicote; depois, os bancos e negócios; agora, os algoritmos e as máquinas de morte ainda sem nome e controle. Mas a ganância continua a mesma. As jiboias do império sabem esperar. Dormem décadas inteiras enroladas no escuro, imóveis como destino, até sentirem o cheiro subterrâneo de alguma riqueza nova; então despertam sem alarde, até proferirem o novo bote e enlaçamento.

A jiboia ataca e prende a presa primeiro com os dentes. Daí ela vai se enrolando, dá uma volta, depois outra e mais outra. Comprime tórax e abdômen até envolver a região do pulmão de do coração. É um aperto coordenado que dispensa força contínua, com isso ela vai sentindo o batimento cardíaco da presa e a cada vez que o animal enlaçado expira ela aperta um pouco mais. Uma sofisticada força de guerra que usa a expiração da vítima para provocar o colapso circulatório. Até que a pressão rompe o fluxo de sangue, que para de voltar ao coração e de irrigar o cérebro. Não é sufocamento, é provocação de desmaio por falta de circulação cerebral. Um abraço paciente, forte e contínuo que provoca isquemia cerebral e parada cardíaca. Quando o coração para de bater ela solta na hora, pois não gasta energia à toa. Em seguida lambe a vítima até sentir o cheiro da morte. E começa a engolir. 

As jiboias imperialistas aprenderam que já não precisam invadir países, basta fazê-los (fazer-nos) respirar curto. Foi assim quando descobriram o petróleo enterrado sob quilômetros de sal no fundo do oceano. Ali não havia apenas energia, combustível e óleo para o plástico. Havia escolas ainda não construídas, laboratórios ainda inexistentes, ciência falando português, satélites soberanos, tecnologia sem coleira. Autonomia, a possibilidade perigosa de um país periférico controlar o próprio destino sem pedir licença ao país imperial.

A serpente sentiu. E, mais uma vez, aproximou a cabeça e abriu a bocarra. Primeiro vieram as escutas com as máquinas espionando gabinetes, empresas estratégicas, telefonemas presidenciais, sonhos de soberania. O oceano começou a ser vigiado antes mesmo de ser explorado. E começou o aperto, não para quebrar os ossos, pois esses só quebram se forem finos demais; ela sabe que para engolir não precisa quebrar, basta parar o sangue. É até melhor comer a presa inteira, pois assim absorve tudo, gordura, proteína, cálcio dos ossos. É uma paciência evolutiva da chamada “civilização” imperialista, que foi aprendendo com todas as barbáries e saques que produziu e produz.

A paciência da jiboia não veio de uma única vez. No saqueio aprendeu a nunca desperdiçar força. Primeiro retiram o pensamento próprio e a confiança dos povos em si, depois transformam jornais em sua própria voz, como cânticos hipnóticos, e os índices econômicos viram chicotes morais. Por isso repete índices à exaustão. Também usa tribunais, que viram espetáculo. Transformam ignorância e medo em método pedagógico da submissão. Fazem isso porque quem perde oxigênio começa a negociar até os próprios pulmões.

No caminho desse abraço, ou melhor, bote, estrangulamento, havia uma mulher. Foi há uns anos no Brasil, nem há tanto tempo assim. A mulher cercada no palácio resistiu enquanto pôde pois trazia nos olhos a fadiga das pessoas que já atravessaram incêndios. Ela conhecia grades, silêncio, choques, madrugadas sem sono, por isso falou em soberania, em proteger o fundo do mar e guardar para o povo aquilo que o povo ainda nem sabia possuir. Mas respirava curto. Esse foi o problema. Sobrou coragem, faltou poesia. E sem poesia há um momento em que toda vítima começa a acreditar que sobreviver depende de ceder apenas um pedaço de si. É assim que a jiboia vence.

Vieram então os salões iluminados. Os lustres frios, os elogios, os brindes e salamaleques. Os sorrisos diplomáticos e as fotografias vazias apresentadas como vitórias. Mais um enlace sufocante em forma de abraço dado em certas cerimônias políticas que possuem o cheiro exato dos velórios. As leis começaram a mudar sozinhas, como jabutis em galhos de árvores. Mas sabemos que leis nunca mudam sozinhas, sempre há mãos invisíveis que as abrem assim como as mãos ocultas que fazem jabutis escalarem troncos. As companhias estrangeiras entraram no oceano profundo com a calma de quem colhe frutas maduras em pomar abandonado. E o país ofereceu parte do fundo do mar para continuar respirando.

Não bastou. Jiboias não querem acordos, querem digestão.

Depois veio o ritual público do estraçalhamento. O abraço foi ficando apertado e a praça foi convertida em arena. Os carrascos falavam em moral enquanto dividiam despojos e os abutres celebravam a carniça antes mesmo do último suspiro. Foi assim que a jiboia engoliu lentamente o corpo ainda quente da mulher que habitava o palácio. E a República que se pretendia social, construída aos tropeços desde a redemocratização, foi sendo engolida junto. Mais um abraço a alimentar a jiboia que sempre engole pela cabeça. Dessa vez comeu o petróleo, depois os direitos, depois o futuro.

No ato de digerir, a jiboia não empurra a comida, anda com a boca. A mandíbula crava os dentes na presa e puxa o corpo inteiro. Olhando de fora parece que a presa está sendo sugada pela cobra, não mastigada, é um movimento de contorção que solta e avança, até colocar tudo para dentro. A saliva grossa lubrifica tudo e faz corpo entrar goela abaixo como em uma esteira. Na digestão produz um ácido tão forte que dissolve ossos, dentes e chifres. Em seguida, o tempo de ficar imóvel, apenas digerindo em um canto seguro. Até que ela regurgita uma pelota de pelos e tudo que não lhe serve. A jiboia regurgitou.

Parecia o fim. Foi o fim, de tanto horror que veio com o arroto. Mas as serpentes imperiais não dormem, calculam, e tão logo se sentem saciadas, querem mais. Sempre querem mais.

Anos depois houve a reconstrução da normalidade a partir de uma vitória apertada e a vida seguiu. Mas a serpente farejou noutro lugar, foi quando as montanhas começaram a gemer. Os rios mudaram de cor, os pássaros alteraram suas rotas e ela foi rastejando naquela direção. Junto dela, novamente, os homens do dinheiro, daqui e de lá, suseranos e vassalos levantaram a cabeça como serpente que sente a vítima acuada. A jiboia voltara a sentir fome. Ela sempre tem fome.

Dessa vez a comida não seria apenas o ouro negro enterrado sob o oceano; esse ela já havia conquistado. A serpente imperialista agora quer os ossos minerais do futuro, minerais críticos, lítio, grafita, cobalto, terras raras, minerais ainda sem nome, nióbio também. Pedras que carregam dentro de si a eletricidade do século, matéria-prima para baterias, inteligência artificial (o imaterial depende do material), satélites, data centers (esses, consumindo muita água e energia para processar os dados abundantes e extraídos sem que os donos sequer percebam). Matéria-prima para guerras invisíveis e visíveis, dessas que destroçam pernas e braços, aniquilam famílias, cidades inteiras, países. Minerais para máquinas capazes de ouvir pensamentos e vigiar o sono dos homens.

Na terceira década do século XXI, o futuro já não corre apenas em oleodutos (mas ainda nesses), corre também nas entranhas minerais do continente e nas mentes da gente que consente a dominação de sempre. Outra vez disseram que a América Latina estava sentada sobre um tesouro. Esse é o problema. Toda vez que dizem isso o continente deveria tremer, porque seus tesouros chegam acompanhados de funerais. Então recomeçou o ritual.

Outra vez aviões cruzando os céus rumo ao norte. Outra vez os salões iluminados com os discursos sobre “parceria”, “segurança mineral”, “integração produtiva”, “confiança dos mercados”, “prestígio internacional”. A nova colonização aprendeu a falar a língua da cooperação. Já não saqueia, convida; não domina, integra. Faz isso porque não precisa invadir, convence; mas quando não convence, invade e mata sem dó. Mas faz isso só se for preciso, porque o horror contemporâneo da jiboia das selvas mora justamente na delicadeza e na sutileza da dominação estabelecida nos salões. Na maneira educada com que a serpente pede licença antes de apertar, e no modo paternal com que ensina a vítima a amar o próprio estrangulamento, acontece um sofisticado processo de transformar entreguismo em maturidade política, dependência em modernização, rendição em governabilidade. E o dominado se deixa dominar para ser engolido.

O país, cansado de respirar entre crises sucessivas, começou outra vez a arrancar pedaços do próprio corpo acreditando que estava a salvar a alma. Primeiro foi o pau-brasil…

…depois o açúcar…

… depois o ouro…

…depois o café…

…e a borracha…

…minério de ferro…

…soja e milho com nome de commodities…

…o petróleo…

…os dados que extraem sem pedir licença…

…agora os minerais críticos.

Mudam as mercadorias, permanece a comilança. A tragédia latino-americana é justamente a de acreditar que, século após século, será possível negociar melhor com a jiboia que quer nos engolir. Como se certas criaturas fossem capazes de saciedade.

Aprendamos ao menos dessa vez, serpentes geopolíticas não comem por fome apenas, comem por eras. Comem memória, soberania, sonhos. Comem futuros inteiros. Mas a cada geração repetimos uma esperança servil. Ou melhor, autoengano. Nos convencemos de que desta vez será diferente e a conciliação salvará o corpo dando um pedaço do próprio corpo para preservar o restante. Não será. Depois da primeira respiração cortada e do primeiro osso quebrado, toda resistência passa a soar ato de expirar de moribundo. Nesse momento a serpente aperta mais. Devagar. Sem ódio aparente, mas com a convicção dos famintos e insaciáveis. Assim agem os impérios. Aprendamos.

No sertão antigo os velhos sabiam reconhecer cobras pelo cheiro. E sabiam que o perigo maior não mora no bote, mas no abraço. Também sabiam que certas criaturas hipnotizam antes de devorar, ou enlaçam a presa pelo calcanhar. O Brasil parece esquecer disso de tempos em tempos. Como um país construído sobre promessas interrompidas, sonhamos grande e negociamos pequeno, acostumamo-nos a transformar sobrevivência em conquista, acomodação em virtude política.

É preciso parar de desaprender, pois só assim a jiboia deixará de dormir completamente tranquila. Olhemos mais fundo para nossa terra, sob o sal profundo do oceano, sob a terra vermelha do planalto e a terra preta da Amazônia. Sob as minas e sob as ruínas, continua existindo um país subterrâneo, ainda à espera do dia em que reconhecerá o som da serpente antes do primeiro aperto. Nesse dia esse país-continente, e não só nosso país, mas todo o continente, da Terra do Fogo ao Rio Bravo, finalmente descobrirá que soberania não é apenas possuir riquezas enterradas, é impedir que o medo ensine o povo a colaborar com o próprio sufocamento.

Porém, agora, hoje, no instante em que escrevo. Pela forma submissa com que nós nos entregamos, esse abraço vai nos estrangular mais uma vez. Ou não. Só depende da gente não mais permitir que a serpente engula a gente. Nesse momento o abraço da jiboia não terá mais força para impedir o sangue de circular por nossos cérebros e corações.

Por isso as montanhas guardam memória e as pedras enterradas sob a terra ainda se lembram de Potosí. Os rios ainda carregam ecos da conquista acompanhada de genocídio. As florestas sabem o nome dos antigos saqueadores, mesmo quando eles trocam de bandeira, idioma ou tecnologia. Felizmente há algo que as serpentes jamais compreendem, pois confundem silêncio com consentimento e entrega à morte. Aí reside a esperança, apesar de tênue. Existem povos que, mesmo esmagados, aprendem a respirar pelas rachaduras da História. Que o silêncio e paciência de antes agora transmutem em urgência resgatando consigo o ideal de revolução profunda, sincera, igualitária e libertária, justa, fraterna, soberana e verdadeira, dessas que não se deixam seduzir pelo abraço da jiboia.

 

Fonte: Outras Palavras

 


Nenhum comentário: