Célio
Turino: O abraço da jiboia imperial
A jiboia chegou antes da notícia. Antes dos
jornais amanhecerem com a mesma manchete escrita em palavras diferentes e
comentaristas repetirem os termos de sempre: “responsabilidade fiscal”,
“segurança jurídica”, “governabilidade”, “investimentos estrangeiros”,
“modernização”, “parceira”. Ela veio primeiro. Veio pelos cabos submarinos,
pelas fibras invisíveis enterradas sob os oceanos, pelos satélites que vigiam
sem dormir e pelos algoritmos capazes de conhecer o país melhor do que o
próprio povo que o habita.
As
grandes serpentes do mundo já não atravessam florestas, habitam sistemas; e
esta conhece o Brasil há séculos. Desde quando o ouro descia das montanhas em
lombos de mula para voltar transformado em dívida. Estava aqui quando o açúcar
adoçava mesas estrangeiras enquanto deixava gosto de sangue na boca dos
escravizados. Conheceu a borracha amazônica financiando palacetes em cidades
distantes e abandonando seringueiros à febre; veio em forma de pé de café
enquanto enterrava corpos negros, e depois “colonos” de pele rosa, sob a terra
vermelha. Conheceu Potosí, Canudos, as serras andinas, o último Inca, os rios e
pântanos, os massacres, Contestado, Caldeirão e todos aqueles se ergueram
contra a exploração. Conhece o país em detalhes através dos trilhos e dormentes
carregando trens com minério a cruzarem a noite do continente como cortejos
fúnebres do futuro.
A
América Latina sempre teve o corpo aberto, só mudaram as ferramentas do saque.
No início, as caravelas, o trabuco, o chicote; depois, os bancos e negócios;
agora, os algoritmos e as máquinas de morte ainda sem nome e controle. Mas a
ganância continua a mesma. As jiboias do império sabem esperar. Dormem décadas
inteiras enroladas no escuro, imóveis como destino, até sentirem o cheiro
subterrâneo de alguma riqueza nova; então despertam sem alarde, até proferirem
o novo bote e enlaçamento.
A
jiboia ataca e prende a presa primeiro com os dentes. Daí ela vai se enrolando,
dá uma volta, depois outra e mais outra. Comprime tórax e abdômen até envolver
a região do pulmão de do coração. É um aperto coordenado que dispensa força
contínua, com isso ela vai sentindo o batimento cardíaco da presa e a cada vez
que o animal enlaçado expira ela aperta um pouco mais. Uma sofisticada força de
guerra que usa a expiração da vítima para provocar o colapso circulatório. Até
que a pressão rompe o fluxo de sangue, que para de voltar ao coração e de
irrigar o cérebro. Não é sufocamento, é provocação de desmaio por falta de
circulação cerebral. Um abraço paciente, forte e contínuo que provoca isquemia
cerebral e parada cardíaca. Quando o coração para de bater ela solta na hora,
pois não gasta energia à toa. Em seguida lambe a vítima até sentir o cheiro da
morte. E começa a engolir.
As
jiboias imperialistas aprenderam que já não precisam invadir países, basta
fazê-los (fazer-nos) respirar curto. Foi assim quando descobriram o petróleo
enterrado sob quilômetros de sal no fundo do oceano. Ali não havia apenas
energia, combustível e óleo para o plástico. Havia escolas ainda não
construídas, laboratórios ainda inexistentes, ciência falando português,
satélites soberanos, tecnologia sem coleira. Autonomia, a possibilidade
perigosa de um país periférico controlar o próprio destino sem pedir licença ao
país imperial.
A
serpente sentiu. E, mais uma vez, aproximou a cabeça e abriu a bocarra.
Primeiro vieram as escutas com as máquinas espionando gabinetes, empresas
estratégicas, telefonemas presidenciais, sonhos de soberania. O oceano começou
a ser vigiado antes mesmo de ser explorado. E começou o aperto, não para
quebrar os ossos, pois esses só quebram se forem finos demais; ela sabe que
para engolir não precisa quebrar, basta parar o sangue. É até melhor comer a
presa inteira, pois assim absorve tudo, gordura, proteína, cálcio dos ossos. É
uma paciência evolutiva da chamada “civilização” imperialista, que foi
aprendendo com todas as barbáries e saques que produziu e produz.
A
paciência da jiboia não veio de uma única vez. No saqueio aprendeu a nunca
desperdiçar força. Primeiro retiram o pensamento próprio e a confiança dos
povos em si, depois transformam jornais em sua própria voz, como cânticos
hipnóticos, e os índices econômicos viram chicotes morais. Por isso repete
índices à exaustão. Também usa tribunais, que viram espetáculo. Transformam
ignorância e medo em método pedagógico da submissão. Fazem isso porque quem
perde oxigênio começa a negociar até os próprios pulmões.
No
caminho desse abraço, ou melhor, bote, estrangulamento, havia uma mulher. Foi
há uns anos no Brasil, nem há tanto tempo assim. A mulher cercada no palácio
resistiu enquanto pôde pois trazia nos olhos a fadiga das pessoas que já
atravessaram incêndios. Ela conhecia grades, silêncio, choques, madrugadas sem
sono, por isso falou em soberania, em proteger o fundo do mar e guardar para o
povo aquilo que o povo ainda nem sabia possuir. Mas respirava curto. Esse foi o
problema. Sobrou coragem, faltou poesia. E sem poesia há um momento em que toda
vítima começa a acreditar que sobreviver depende de ceder apenas um pedaço de
si. É assim que a jiboia vence.
Vieram
então os salões iluminados. Os lustres frios, os elogios, os brindes e
salamaleques. Os sorrisos diplomáticos e as fotografias vazias apresentadas
como vitórias. Mais um enlace sufocante em forma de abraço dado em certas
cerimônias políticas que possuem o cheiro exato dos velórios. As leis começaram
a mudar sozinhas, como jabutis em galhos de árvores. Mas sabemos que leis nunca
mudam sozinhas, sempre há mãos invisíveis que as abrem assim como as mãos
ocultas que fazem jabutis escalarem troncos. As companhias estrangeiras
entraram no oceano profundo com a calma de quem colhe frutas maduras em pomar
abandonado. E o país ofereceu parte do fundo do mar para continuar respirando.
Não
bastou. Jiboias não querem acordos, querem digestão.
Depois
veio o ritual público do estraçalhamento. O abraço foi ficando apertado e a
praça foi convertida em arena. Os carrascos falavam em moral enquanto dividiam
despojos e os abutres celebravam a carniça antes mesmo do último suspiro. Foi
assim que a jiboia engoliu lentamente o corpo ainda quente da mulher que
habitava o palácio. E a República que se pretendia social, construída aos
tropeços desde a redemocratização, foi sendo engolida junto. Mais um abraço a
alimentar a jiboia que sempre engole pela cabeça. Dessa vez comeu o petróleo,
depois os direitos, depois o futuro.
No ato
de digerir, a jiboia não empurra a comida, anda com a boca. A mandíbula crava
os dentes na presa e puxa o corpo inteiro. Olhando de fora parece que a presa
está sendo sugada pela cobra, não mastigada, é um movimento de contorção que
solta e avança, até colocar tudo para dentro. A saliva grossa lubrifica tudo e
faz corpo entrar goela abaixo como em uma esteira. Na digestão produz um ácido
tão forte que dissolve ossos, dentes e chifres. Em seguida, o tempo de ficar
imóvel, apenas digerindo em um canto seguro. Até que ela regurgita uma pelota
de pelos e tudo que não lhe serve. A jiboia regurgitou.
Parecia
o fim. Foi o fim, de tanto horror que veio com o arroto. Mas as serpentes
imperiais não dormem, calculam, e tão logo se sentem saciadas, querem mais.
Sempre querem mais.
Anos
depois houve a reconstrução da normalidade a partir de uma vitória apertada e a
vida seguiu. Mas a serpente farejou noutro lugar, foi quando as montanhas
começaram a gemer. Os rios mudaram de cor, os pássaros alteraram suas rotas e
ela foi rastejando naquela direção. Junto dela, novamente, os homens do
dinheiro, daqui e de lá, suseranos e vassalos levantaram a cabeça como serpente
que sente a vítima acuada. A jiboia voltara a sentir fome. Ela sempre tem fome.
Dessa
vez a comida não seria apenas o ouro negro enterrado sob o oceano; esse ela já
havia conquistado. A serpente imperialista agora quer os ossos minerais do
futuro, minerais críticos, lítio, grafita, cobalto, terras raras, minerais
ainda sem nome, nióbio também. Pedras que carregam dentro de si a eletricidade
do século, matéria-prima para baterias, inteligência artificial (o imaterial
depende do material), satélites, data centers (esses, consumindo muita água e
energia para processar os dados abundantes e extraídos sem que os donos sequer
percebam). Matéria-prima para guerras invisíveis e visíveis, dessas que
destroçam pernas e braços, aniquilam famílias, cidades inteiras, países.
Minerais para máquinas capazes de ouvir pensamentos e vigiar o sono dos homens.
Na
terceira década do século XXI, o futuro já não corre apenas em oleodutos (mas
ainda nesses), corre também nas entranhas minerais do continente e nas mentes
da gente que consente a dominação de sempre. Outra vez disseram que a América
Latina estava sentada sobre um tesouro. Esse é o problema. Toda vez que dizem
isso o continente deveria tremer, porque seus tesouros chegam acompanhados de
funerais. Então recomeçou o ritual.
Outra
vez aviões cruzando os céus rumo ao norte. Outra vez os salões iluminados com
os discursos sobre “parceria”, “segurança mineral”, “integração produtiva”,
“confiança dos mercados”, “prestígio internacional”. A nova colonização
aprendeu a falar a língua da cooperação. Já não saqueia, convida; não domina,
integra. Faz isso porque não precisa invadir, convence; mas quando não
convence, invade e mata sem dó. Mas faz isso só se for preciso, porque o horror
contemporâneo da jiboia das selvas mora justamente na delicadeza e na sutileza
da dominação estabelecida nos salões. Na maneira educada com que a serpente
pede licença antes de apertar, e no modo paternal com que ensina a vítima a
amar o próprio estrangulamento, acontece um sofisticado processo de transformar
entreguismo em maturidade política, dependência em modernização, rendição em
governabilidade. E o dominado se deixa dominar para ser engolido.
O país,
cansado de respirar entre crises sucessivas, começou outra vez a arrancar
pedaços do próprio corpo acreditando que estava a salvar a alma. Primeiro foi o
pau-brasil…
…depois
o açúcar…
…
depois o ouro…
…depois
o café…
…e a
borracha…
…minério
de ferro…
…soja e
milho com nome de commodities…
…o
petróleo…
…os
dados que extraem sem pedir licença…
…agora
os minerais críticos.
Mudam
as mercadorias, permanece a comilança. A tragédia latino-americana é justamente
a de acreditar que, século após século, será possível negociar melhor com a
jiboia que quer nos engolir. Como se certas criaturas fossem capazes de
saciedade.
Aprendamos
ao menos dessa vez, serpentes geopolíticas não comem por fome apenas, comem por
eras. Comem memória, soberania, sonhos. Comem futuros inteiros. Mas a cada
geração repetimos uma esperança servil. Ou melhor, autoengano. Nos convencemos
de que desta vez será diferente e a conciliação salvará o corpo dando um pedaço
do próprio corpo para preservar o restante. Não será. Depois da primeira
respiração cortada e do primeiro osso quebrado, toda resistência passa a soar
ato de expirar de moribundo. Nesse momento a serpente aperta mais. Devagar. Sem
ódio aparente, mas com a convicção dos famintos e insaciáveis. Assim agem os
impérios. Aprendamos.
No
sertão antigo os velhos sabiam reconhecer cobras pelo cheiro. E sabiam que o
perigo maior não mora no bote, mas no abraço. Também sabiam que certas
criaturas hipnotizam antes de devorar, ou enlaçam a presa pelo calcanhar. O
Brasil parece esquecer disso de tempos em tempos. Como um país construído sobre
promessas interrompidas, sonhamos grande e negociamos pequeno, acostumamo-nos a
transformar sobrevivência em conquista, acomodação em virtude política.
É
preciso parar de desaprender, pois só assim a jiboia deixará de dormir
completamente tranquila. Olhemos mais fundo para nossa terra, sob o sal
profundo do oceano, sob a terra vermelha do planalto e a terra preta da
Amazônia. Sob as minas e sob as ruínas, continua existindo um país subterrâneo,
ainda à espera do dia em que reconhecerá o som da serpente antes do primeiro
aperto. Nesse dia esse país-continente, e não só nosso país, mas todo o
continente, da Terra do Fogo ao Rio Bravo, finalmente descobrirá que soberania
não é apenas possuir riquezas enterradas, é impedir que o medo ensine o povo a
colaborar com o próprio sufocamento.
Porém,
agora, hoje, no instante em que escrevo. Pela forma submissa com que nós nos
entregamos, esse abraço vai nos estrangular mais uma vez. Ou não. Só depende da
gente não mais permitir que a serpente engula a gente. Nesse momento o abraço
da jiboia não terá mais força para impedir o sangue de circular por nossos
cérebros e corações.
Por
isso as montanhas guardam memória e as pedras enterradas sob a terra ainda se
lembram de Potosí. Os rios ainda carregam ecos da conquista acompanhada de
genocídio. As florestas sabem o nome dos antigos saqueadores, mesmo quando eles
trocam de bandeira, idioma ou tecnologia. Felizmente há algo que as serpentes
jamais compreendem, pois confundem silêncio com consentimento e entrega à
morte. Aí reside a esperança, apesar de tênue. Existem povos que, mesmo
esmagados, aprendem a respirar pelas rachaduras da História. Que o silêncio e
paciência de antes agora transmutem em urgência resgatando consigo o ideal de
revolução profunda, sincera, igualitária e libertária, justa, fraterna,
soberana e verdadeira, dessas que não se deixam seduzir pelo abraço da jiboia.
Fonte:
Outras Palavras

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