quinta-feira, 14 de maio de 2026

Francis Bogossian: Diretrizes, objetivos e instrumentos para o desenvolvimento do setor de terras raras no Brasil

Apesar das reservas brasileiras estarem entre as maiores do mundo exceto a China, o governo reconhece que o gargalo não é geológico, mas industrial. A dependência de tecnologia estrangeira para as etapas finais da cadeia (separação e refino) continua sendo o principal obstáculo que novas políticas devem resolver. A seguir um resumo das principais ações em curso no estado brasileiro.

1.  Atuação do poder executivo: Estratégia Nacional de Terras Raras (ENTR)

Em 26 de janeiro, o Ministério de Minas e Energia (MME) iniciou o estudo para subsidiar a Estratégia Nacional de Terras Raras (ENTR), visando estruturar diretrizes para o setor em sintonia com políticas industrial, ambiental, de inovação e transição energética.

O objetivo do estudo é fornecer suporte técnico ao governo, estimular investimentos, fortalecer a indústria nacional e mitigar riscos nas cadeias globais de minerais estratégicos, trazendo diagnóstico de oportunidades, recomendações de sustentabilidade e propostas de governança.

A ENTR busca uma transição energética justa, ampliando impactos econômicos e sociais nas regiões de exploração, promovendo desenvolvimento regional, geração de empregos, avanços tecnológicos e melhor posicionamento do Brasil globalmente.

Participaram da reunião representantes do MME, BID, CEBRI e consultores, com financiamento do BID e apoio da União Europeia, integrando iniciativas para aprimorar governança e sustentabilidade do setor mineral.

O consórcio liderado pelo CEBRI foi selecionado para apoiar o MME no desenvolvimento da ENTR, dentro do projeto “Mineração para a Transição Energética”, também financiado pelo BID, envolvendo consultoria Vallya, especialistas e BMA Advogados.

Levantamento do CEBRI indica que o Brasil possui cerca de 21 milhões de toneladas de reservas de terras raras, com demanda projetada de 12,8 mil toneladas até 2050 para atender à transição energética. O estudo embasará políticas para o Plano Nacional de Terras Raras.

Ao final, será entregue ao Governo Federal um relatório técnico com análise da oferta, demanda e setores industriais prioritários, além de orientações sobre sustentabilidade, governança e recomendações preliminares para a estratégia.

2.  Atuação do Poder Legislativo na Regulação das Terras Raras: Marco Legal, Exportação e Política Nacional

O Congresso Nacional tem focado os projetos de lei sobre terras raras em três áreas: política nacional, reserva estratégica e moratória para novos projetos. O objetivo é organizar o setor, proteger interesses nacionais e incentivar o processamento interno. Os debates na Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado tratam dos riscos de o Brasil ser apenas exportador de matéria-prima. Abaixo estão os principais projetos em tramitação, relacionados à regulação, exportação e políticas públicas.

PL 4443/2025 (Senado)

Objetivo: Cria a Política Nacional de Minerais Estratégicos para estimular o beneficiamento local e garantir o abastecimento da indústria nacional.

PL 2197/2025 (Senado)

Objetivo: Regulamenta a exportação de terras raras, incentivando o processamento interno para evitar que o país exporte apenas matéria-prima sem valor agregado.

PL 500/2026 (Câmara)

Objetivo: Cria uma Reserva Nacional no Planalto de Poços de Caldas (MG/SP), submetendo a exploração ao controle da União. O objetivo central é evitar a exportação de minério bruto, garantindo que a tecnologia de separação e produção de ímãs ocorra no Brasil, aumentando o valor agregado da cadeia produtiva.

PL 542/2026 (Câmara)

Objetivo: Institui uma moratória de 1 ano para novas autorizações de pesquisa e licenciamento ambiental, até que uma política nacional seja definida.

PL 1733/2026 (Câmara)

Propõe a criação da empresa pública Terras Rars Brasileiras S.A. – TERRABRAS.  A nova estatal visa explorar, pesquisar e comercializar terras raras e minerais críticos, focando na soberania tecnológica.

PL1754/26 (Câmara)

Institui a TerraBras, empresa pública destinada à defesa da soberania nacional e ao aproveitamento dos minerais críticos ou estratégicos; estabelece o regime de partilha da produção mineral.

3.  Parcerias Internacionais e Missões Técnicas em Terras Raras

Focam em estratégias de cooperação e intercâmbio para o desenvolvimento da cadeia de valor.

Recentemente, acordos foram firmados com a Índia e celebrou-se um memorando entre Goiás e os Estados Unidos.

<><> Memorando Brasil–Índia (ETR e Minerais Críticos)

Firmado em fevereiro de 2026 entre MME do Brasil e Ministério de Minas da Índia, o memorando estabelece cooperação para toda a cadeia produtiva dos minerais críticos, sem determinar transações comerciais. O Brasil, com a segunda maior reserva mundial, pretende atrair investimentos; a Índia busca reduzir dependência chinesa no processamento de minerais. Há negociações abertas sobre investimentos e parcerias. O acordo está alinhado à estratégia indiana de garantir insumos para setores tecnológicos e reforça o Brasil como fornecedor estratégico, com política mineral coordenada por um novo Conselho Nacional. O memorando integra pacote de nove acordos que visam aumentar o comércio bilateral a US$ 30 bilhões até 2030.

Memorando Goiás–EUA (Minerais Críticos e Terras Raras)

O memorando não vinculante entre Goiás e EUA define cooperação técnica, científica e de investimentos, sem obrigações legais automáticas. Os cinco eixos são: mapeamento mineral com assistência técnica e pesquisa; incentivo a mercado transparente; fortalecimento regulatório para atrair investimentos; capacitação institucional envolvendo governo, academia e setor privado; promoção do processamento e manufatura, incluindo terras raras e ímãs de neodímio (NdFeB). A governança será feita pela AMIC-GO, com relatórios periódicos. O acordo vale por cinco anos e pode ser renovado; todas as atividades seguem a legislação brasileira, exigindo aprovações da ANM.

<><> Intercâmbio de Conhecimento

Em abril de 2026, missões técnicas brasileiras viajaram à Finlândia para estudar modelos inovadores de mineração circular e avanço tecnológico, expandindo o conhecimento nacional sobre práticas sustentáveis e eficientes na indústria de terras raras.

A Política de Estado ora em curso pode transformar as Terras Raras em alavanca de desenvolvimento, colocando o Brasil na vanguarda da transição energética e da economia digital — com sustentabilidade, autonomia e visão estratégica.

A janela de oportunidade não estará aberta para sempre. A escolha é entre sermos donos do nosso futuro tecnológico ou meros espectadores da revolução alheia.

A hora de estabelecer prioridades tais como ampliar o mapeamento geológico pelo Serviço Geológico do Brasil para transformar potencial geológico em reservas quantificadas e investir pesadamente nos projetos de separação e beneficiamento em curso em várias instituições brasileiras.

Agir Agora é Imperativo!

•        Terras raras e big techs são instrumentos da sanha imperialista contra o Brasil, diz Flávia Lefèvre

A advogada e especialista em direitos digitais Flávia Lefèvre denunciou nesta semana, em entrevista ao programa Giro das Onze, da TV 247, que existe um “abuso de poder econômico” das big techs e também fez um alerta contra a “sanha imperialista” dos Estados Unidos. A analista apontou riscos associados à atuação das empresas de tecnologia, e à relação entre os dois países no cenário digital e econômico.

“Há vácuo legislativo”, destacou a advogada, ao defender maior envolvimento de diferentes setores na construção de soluções. Segundo Lefèvre, “muita participação da sociedade civil, empresa, governo, terceiro setor” será necessária para enfrentar o problema.

Na avaliação feita pela advogada, o modelo de negócios das plataformas digitais se baseia na exploração de dados dos usuários. “Plataformas não geram informações, elas pegam nossos dados, com algoritmos invasivos, e operam em favor deles, da publicidade. Privilegiam os conteúdos da direita”, afirmou ela, acrescentando que o País precisa manter atenção diante de possíveis tentativas de interferência estrangeira no uso das redes sociais.

“Plataformas não geram informações, elas pegam nossos dados, com algoritmos invasivos, e operam em favor deles, da publicidade. Privilegiam os conteúdos da direita”.

<><> Terras raras e soberania nacional

Outro ponto destacado na entrevista envolve a disputa por recursos estratégicos. A advogada criticou o interesse estrangeiro em riquezas nacionais.

“EUA querem levar todas as nossas terras raras”, disse. Ao abordar o tema, ela ressaltou que o Brasil enfrenta fragilidades diante desse cenário. “Está vulnerável e sujeito à manutenção dessa lógica imperialista”, afirmou.

As declarações reforçam o debate sobre regulação das big techs, soberania digital e proteção de dados no Brasil, temas que ganham relevância diante do avanço tecnológico e do cenário político internacional.

<><> Estatísticas reforçam importância do setor

O Brasil ocupa o segundo lugar no ranking global de reservas desses minerais, com cerca de 21 milhões de toneladas. A China lidera com 44 milhões de toneladas, de acordo com dados de 2024 do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). A Índia aparece na terceira posição, com 6,9 milhões de toneladas, conforme levantamento divulgado pelo Valor Econômico em julho do ano passado.

Terras raras reúnem 17 elementos químicos, entre eles lantânio, cério, praseodímio, neodímio, promécio, samário, európio, gadolínio, térbio, disprósio, hólmio, érbio, escândio, túlio, itérbio, lutécio e ítrio. Esses componentes exercem papel essencial na transição energética global.

A indústria de tecnologia utiliza esses minerais em diferentes produtos, como turbinas eólicas, veículos híbridos, televisores de tela plana, celulares, lâmpadas fluorescentes compactas, ímãs permanentes, catalisadores de gases de escapamento, lentes de alta refração e sistemas de mísseis guiados.

Na etapa de produção, a China mantém ampla liderança e extraiu 270 mil toneladas em 2024. Os Estados Unidos ficaram na segunda posição, com 45 mil toneladas. Myanmar aparece em seguida, com 31 mil toneladas.

•        Governo não criará TerraBrás, mas exigirá processamento local dos minerais críticos, diz novo ministro

O governo federal não pretende criar uma estatal para o setor de minerais críticos, como a proposta da TerraBrás, mas deve adotar medidas rigorosas para garantir o processamento local e a industrialização desses recursos estratégicos no Brasil. A informação foi dada pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, em entrevista ao jornal Valor Econômico.

A proposta faz parte de um conjunto de contribuições do Executivo ao projeto de lei relatado pelo deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Segundo o ministro, a diretriz central será impedir que o país se limite à exportação de matéria-prima sem agregar valor internamente.

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<><> Industrialização como eixo estratégico

Márcio Elias Rosa foi direto ao defender uma mudança de paradigma na política mineral brasileira. “O que atrasa o desenvolvimento do setor é admitir que se pode exportar matéria-prima e que nós não vamos industrializar”, afirmou.

Nesse sentido, o governo estuda a criação de um regime tributário especial para incentivar empresas a investir no refino e na transformação dos minerais no território nacional. O modelo deve seguir lógica semelhante ao programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover), com concessão de créditos tributários proporcionais ao grau de industrialização.

“Qualquer regime especial de crédito tributário, isenção ou regime especial deve ser proporcional ao adensamento da cadeia. Quanto maior a etapa, quanto mais ele avança na industrialização, maior o benefício ele pode colher”, explicou o ministro.

A proposta inclui ainda a possibilidade de controle sobre investimentos estrangeiros no setor e até restrições à exportação de minerais críticos, reforçando o caráter estratégico desses recursos.

<><> Venda de mina de terras raras pode ser contestada

Outro ponto sensível abordado pelo ministro foi a venda da mineradora Serra Verde, localizada em Minaçu (GO), para uma empresa dos Estados Unidos, em operação de US$ 2,8 bilhões anunciada em abril. O negócio está sob análise do governo federal.

Márcio Elias Rosa não descartou uma eventual contestação da operação. “Eu não descarto a hipótese de ser questionado”, afirmou, destacando a relevância estratégica das terras raras.

O ministro reforçou que esses minerais são essenciais para a nova indústria global e não podem ser tratados como commodities comuns. “A terra é rara, mas tem dono, e é o povo brasileiro. Então, nós não podemos administrar isso sem levar em conta a relevância estratégica”, declarou.

Ele também criticou iniciativas estaduais que tentam estabelecer acordos internacionais na área mineral, afirmando que a competência constitucional é da União.

<><> Acordo Mercosul-União Europeia e impactos econômicos

Durante a entrevista, o ministro também comentou a entrada em vigor provisória do acordo entre Mercosul e União Europeia, iniciada em 1º de maio. Segundo ele, o tratado representa uma oportunidade significativa de expansão comercial.

“É impossível não ter um efeito positivo. Estamos falando de um mercado de US$ 22 trilhões e 720 milhões de pessoas”, afirmou.

A expectativa do governo é que o acordo eleve as exportações brasileiras em 2,65% no primeiro ano. Considerando também os acordos com Singapura e com a Efta (Associação Europeia de Livre Comércio), o impacto pode alcançar R$ 67 bilhões anuais.

O ministro destacou ainda que o acordo foi desenhado com mecanismos de proteção para setores sensíveis da economia brasileira, evitando vulnerabilidades diante da concorrência europeia.

<><> Relação com os Estados Unidos e cenário global

Ao abordar a relação com os Estados Unidos, Márcio Elias Rosa afirmou que o governo mantém diálogo constante, apesar de investigações comerciais baseadas na Seção 301 da legislação americana.

Segundo ele, esse tipo de medida faz parte do padrão histórico de atuação dos EUA. “A gente não precisa encarar isso como uma adversidade inesperada. É o ‘modus operandi’”, disse.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já solicitou uma reunião com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que foi adiada em função da guerra no Irã. O encontro segue sendo considerado estratégico pelo governo brasileiro.

<><> Debate sobre política industrial e soberania

A agenda do governo para minerais críticos está alinhada à Nova Indústria Brasil (NIB), que busca fortalecer cadeias produtivas estratégicas, como saúde, defesa, bioeconomia e digitalização.

Para Márcio Elias Rosa, o país precisa definir uma política clara para o setor, sob risco de perder uma oportunidade histórica. “Quando a gente fala de mineral crítico, estamos falando de insumos absolutamente essenciais na nova indústria do mundo”, afirmou.

A diretriz do governo, segundo ele, é clara: garantir que a exploração desses recursos gere desenvolvimento industrial, empregos qualificados e soberania econômica, evitando a repetição de um modelo baseado na simples exportação de riquezas naturais.

 

Fonte: Brasil 247

 

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