Os
fantasmas que inquietam integrantes dos
Três Poderes
Passado
o choque de, 134 anos depois, um nome indicado pelo presidente da República
para o Supremo Tribunal Federal ser rejeitado pelo Senado, governo, Congresso e
Judiciário analisavam, ontem, nos bastidores, as razões pelas quais foi nagada
a 11ª cadeira da Corte ao advogado-geral da União Jorge Messias. Do lado dos
governistas — que não digerem um "acordão" entre o presidente do
Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), a oposição bolsonarista e caciques do
Centrão — avaliava-se desde a hipótese de reinstalar o hoje AGU no Ministério
da Justiça e Segurança Pública — em cujo guarda-chuva está a Polícia Federal
(PF), que investiga, entre outros casos, o das fraudes do Banco Master — a um
eventual recurso ao STF contestando o resultado, conforme afirmou o líder do PT
na Câmara, Pedro Uczai (RS).
O fato,
porém, é que um conjunto de questões explicaria o veto e, por consequência, a
acachapante derrota imposta a Luiz Inácio Lula da Silva. Vão desde a
insistência do presidente no nome de Messias á manobras pela sobrevivência em
função sobre o que o caso do banco de Daniel Vorcaro pode trazer à tona, a
partir do momento em que os acordos de delação premiada comecem a ser fechados.
A seguir, alguns dos aspectos que contribuíram para a humilhação imposta ao
governo.
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Contaminação eleitoral
Mesmo
entre senadores da oposição, ninguém discute o "notório saber
jurídico" e a "reputação ilibada" de Messias para uma cadeira no
STF. Consideram-no gabaritado e, como bônus, ainda é evangélico. Mas era
preciso impor uma derrota maiúscula ao Palácio do Planalto, sobretudo nesse
momento em que, conforme apontam as pesquisas eleitorais, o risco de Lula
perder a reeleição para Flávio Bolsonaro (PL-RJ) é concreto. Além disso, o
governo, conforme apontam essas mesmas sondagenas, vai mal das pernas em
matéria de aceitação popular. Assim, barrar Messias é, por consequência,
humilhar o governo e desgastar Lula eleitoralmente. Não à toa o próprio Flávio
Bolsonaro, tão logo foi proclamado o resultado o resultado da votação, disse
com todas as letras que "o governo Lula acabou".
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Articulação desarticulada
Os
responsáveis pelos contatos e conversas para tentar emplacar Messias — o líder
do PT no Senado, Jaques Wagner (BA); e o líder do governo no Congresso, senador
Randolfe Rodrigues (PT-AP), além do ministro da Secretaria de Relações
Institucionais, José Guimarães — em momento algum enxergaram uma movimentação
no sentido contrário. Ao longo da quarta-feira, apresentaram cálculos que foram
piorando com o passar das horas, mas que, ainda assim, indicavam aprovação. Uma
cena chamou a atenção durante a votação: junto à mesa, Wagner indaga a
Alcolumbre — os dois estão com relações estremecidas exatamente por causa da
indicação de Messias — quantos senadores tinham votado. Ouviu a seguinte
resposta do presidente da Casa, vazada no microfone: "(A derrota) vai ser
de oito". O AGU obteve apenas 34 votos, exatos oito a menos do que os 42
para ser aprovado ao STF. Proclamado o resultado, Alcolumbre bate as mãos na
mesa, se levanta e diz algo ao ouvido de Wagner, ainda expressando desolação.
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Expectativa de Flávio no poder
Para
integrantes do governo, Alcolumbre, já de olho na recondução à Presidência do
Senado em 2027, acenou ao bolsonarismo no trabalho que fez para barrar Messias
no STF. Pelas recentes pesquisas eleitorais, Flávio Bolsonaro tem chances reais
de alcançar o Palácio do Planalto, mas o bolsonarismo tem um favorito para o
comando da Casa: o atual coordenador da pré-campanha do filho 01, senador
Rogério Marinho (PL-RN). Como ajudou a impor uma derrota humilhante a Lula,
Alcolumbre se reposiciona ante à possibilidade de um Congresso ainda mais à
direita a partir do próximo ano. E pode negociar os impeachments de ministros
do STF cobrados pela extrema-direita, algo que tem se recusado a fazer.
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O fantasma do Master I
Interlocutores
do Palácio do Planalto admitem que uma CPI para investigar os tentáculos de
Vorcaro com os mundos político e jurídico até poderia respingar em um
personagem ou outro ligado ao governo — como o próprio Wagner e o PT da Bahia
por causa do Credicesta —, mas têm a certeza de que acertaria o Centrão e o PL
em cheio. Indicativos para isso não faltam: 1) Alcolumbre indicou Jocildo Silva
Lemos para o Amapá Previdência, fundo que atende aos servidores do estado e que
aplicou R$ 400 milhões no Master; 2) o governo do Estado do Rio de Janeiro, na
gestão de Cláudio Castro (PL), permitiu que a Rioprevidência comprasse R$ 970
milhões em títulos do banco, entre novembro de 2023 e julho de 2024. Para
tentar conter o estrago, o ex-governador exonerou Deivis Marcon Antunes do
comando da fundação; e 3) e o senador Ciro Nogueira (PI), cacique do PP,
apresentou a "Emenda Master", que elevaria a garantia do Fundo
Garantidor de Crédito (FGC) dos atuais R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Proclamada
a derrota do governo e de Messias, alguns senadores do Centrão e da oposição
falavam, reservadamente, que a CPI do Master estava sepultada. Já a ex-ministra
da Secretaria de Relações Institucionais (SRI), deputada federal Gleisi
Hoffmann (PT-PR), cobrou a abertura da CPMI. E desafiou: “Não temos medo, não.
Quero fazer um pedido: instale a CPMI do Master”, cobrou, dirigindo-se a
Alcolumbre na sessão conjunta do Congresso que derrubou os vetos presidenciais
ao PL da Dosimetria.
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O fantasma do Master II
No dia anterior à sabatina de Messias, o
ministro Alexandre de Moraes, do STF, promoveu jantar em homenagem ao jurista
Mário Sarrubo, que até poucas semanas atrás era secretário nacional de
Segurança Pùblica no Ministério da Justiça e Segurança Pública na gestão de
Ricardo Lewandowski. Alcolumbre compareceu. Convidados presentes asseguram que
não se tratou da indicação de Messias. Porém, a amizade entre o presidente do
Senado e o magistrado é profunda. Moraes, hoje, é apontado como um dos mais
articulados integrantes de um grupo no Supremo — integrado também por Gilmar
Mendes, Flávio Dino e, eventualmente, Dias Toffoli — que se antagoniza a outro
no qual está André Mendonça, relator do inquérito do Master. Nos bastidores,
comentava-se que, na eventual ida de Messias para a Corte, ele se uniria à
corrente de Mendonça. Seria uma forma de agradecer ao empenho do ministro pela
aprovação e, também, porque a religiosidade os une —Mendonça classifica Messias
como "irmão de fé". A rejeição do AGU teve o condão de impedir que o
grupo do ex-ministro da Justiça de Bolsonaro se reforçasse.
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Alguém traiu. Quem?
Para os
petistas, os votos que faltaram para a aprovação de Messias foram devido às
traições. Senadores antes fechados com o AGU teriam cedido à pressão de
Alcolumbre, que manteve encontros pessoais para orientar a posição. esse
segredo desnorteou a articulação governista, que até a abertura da votação
continuava acreditando na aprovação, ainda que por estreita margem. Para
setores do PT, mais uma vez o MDB foi quem cedeu. Os emedebistas reagiram. “São
improcedentes as ilações sobre o MDB e mentirosas as especulações sobre o meu
voto, dos senadores Renan Filho e Eduardo Braga. Trabalhamos e votamos em Jorge
Messias. Derrotas devem ensinar e não gerar efeitos lisérgicos vindos do Cavalo
de Tróia dentro do governo”, escreveu o senador Renan Calheiros (MDB-AL). Esse
"Cavalo de Tróia", segundo alguns, seria Jaques Wagner.
• O ogro quer ter razão: o golpe
travestido de opinião. Por Emerson Barros Aguiar
Num
momento de ataque sistemático à democracia e às suas instituições, em que se
tenta converter ilegalidade em opinião legítima e crime em versão aceitável dos
fatos, é preciso abandonar qualquer pudor retórico. O que está em curso não é
um desacordo interpretativo. É uma tentativa deliberada de reescrever a
realidade para absolver o inaceitável e normalizar o que a Constituição
expressamente repudia.
O que
ocorreu em Brasília, em 8 de janeiro de 2023, não foi vandalismo. Vandalismo é
a casca, o ruído, o vidro quebrado que distrai. O núcleo é outro, mais grave e
juridicamente inescapável: tentativa de golpe de Estado. E aqui não há espaço
para metáforas indulgentes. O Código Penal brasileiro, após a Lei nº 14.197, de
2021, tipifica com precisão cirúrgica os crimes de abolição violenta do Estado
Democrático de Direito, no art. 359-L, e de golpe de Estado, no art. 359-M. Não
se exige sucesso. Não se exige tomada efetiva de poder. O Direito Penal
democrático pune a tentativa quando ela se orienta, de modo inequívoco, à
ruptura institucional. Basta o dolo. Basta a direção da conduta. E ambos
estavam escancarados.
A
invasão simultânea das sedes dos Três Poderes não foi obra do acaso nem de um
surto coletivo desorganizado. Houve coordenação, houve logística, houve
financiamento, houve propósito. Permanecer nos prédios públicos para
inviabilizar o funcionamento das instituições não é ato simbólico. É ação
dirigida.
Os
clamores explícitos por intervenção militar não eram metáforas poéticas. Eram o
objetivo político declarado. Isso, no léxico jurídico, tem nome e consequência.
Trata-se de ação coletiva dolosa voltada à subversão da ordem constitucional.
A
tentativa de reduzir esses fatos a uma manifestação que saiu do controle não é
apenas frágil. É funcional. Serve para dissolver responsabilidade, diluir
intenção e anestesiar a percepção pública. É a velha técnica de transformar o
extraordinário em banal, para que o intolerável se torne discutível.
No
plano probatório, o que se tem é um conjunto robusto e convergente de
evidências. Vídeos produzidos pelos próprios participantes, registros digitais,
mensagens, áudios, prisões em flagrante no interior das sedes invadidas,
identificação individualizada das condutas. Não há aqui narrativa construída.
Há materialidade. Há autoria. Há nexo. Tudo submetido ao contraditório, à ampla
defesa, à atuação da Procuradoria-Geral da República e ao julgamento colegiado
do Supremo Tribunal Federal. Isso não é exceção. Isso é o funcionamento normal
de um sistema de Justiça que decidiu não fechar os olhos.
A
chamada minuta do golpe não é um detalhe folclórico nem um papel perdido. É um
documento que revela intenção, planejamento e horizonte de ação. No Direito
Penal, isso integra o contexto probatório como elemento indiciário relevante.
Não se trata de prova isolada, mas de peça que, somada aos fatos, confere
coerência ao conjunto. Ignorá-la é escolher a cegueira como método.
A
atuação do ministro Alexandre de Moraes ocorreu dentro dos limites
constitucionais de sua função jurisdicional, com respaldo em decisões
colegiadas e na atuação independente do Ministério Público. O que se
convencionou chamar de excesso é, na verdade, a aplicação rigorosa da lei em um
cenário que exige exatamente isso. Desqualificar decisões judiciais sem
enfrentar o conteúdo probatório é expediente retórico, não argumento jurídico.
A
narrativa de que haveria presos políticos no Brasil não resiste a um exame
minimamente sério. Presos políticos são aqueles punidos por suas ideias. Aqui
houve responsabilização por atos concretos, tipificados como crime, comprovados
por provas e julgados com observância do devido processo legal. Invadir,
depredar, tentar impedir o funcionamento dos Poderes e aderir a uma ação com
finalidade golpista não é exercício de liberdade de expressão. É conduta
penalmente relevante. A Constituição protege o direito de discordar, não o
direito de destruir a ordem que garante essa própria discordância.
A
individualização das condutas e das penas foi observada conforme determina a
Constituição. Cada acusado respondeu pelos seus próprios atos, à luz de provas
específicas. Não houve julgamento coletivo. Houve responsabilização individual
em contexto coletivo, exatamente como exige o Direito Penal contemporâneo.
A
experiência internacional apenas confirma o óbvio. Após a invasão do Capitólio,
nos Estados Unidos, o sistema de Justiça atuou com firmeza. Houve investigação,
denúncia, condenação e cumprimento de pena. Democracias que se respeitam não
tratam tentativas de ruptura institucional como excentricidades políticas.
Tratam como crimes.
É nesse
cenário que surgem propostas de indulto para os envolvidos. Do ponto de vista
formal, o indulto é instrumento legítimo. Do ponto de vista material, seu uso
para apagar a responsabilização por atos golpistas representa uma distorção
grave. Não é gesto de pacificação. É sinalização de tolerância. É o tipo de
mensagem que ensina que a democracia pode ser atacada sem consequências
relevantes. É, em termos claros, um incentivo à repetição.
O caso
brasileiro é inequívoco. Houve tentativa de golpe de Estado, reconhecida
judicialmente, sustentada por provas materiais consistentes, inserida em um
contexto de articulação mais ampla e enfrentada por instituições que atuaram
dentro da legalidade. Negar isso não é apenas erro de interpretação. É
alinhamento com a lógica da impunidade.
A
democracia raramente desaparece de uma vez. Ela é corroída aos poucos, na
banalização do grave, na relativização do crime, na indulgência com aqueles que
testam seus limites. Quando a lei deixa de alcançar quem tenta destruí-la, o
que se rompe não é apenas a ordem jurídica. É a própria ideia de convivência
civil. Não há ambiguidade possível. O nome é golpe. E golpe, em um Estado de
Direito que ainda se pretende digno desse nome, é crime.
• Moisés Mendes: O chefão Alcolumbre
desafia: contem o que vocês sabem de mim
Davi
Alcolumbre tem uma excitação de fala e gestos que Eduardo Cunha não tinha.
Cunha encaminhou todo o processo do golpe contra Dilma como se estivesse com as
válvulas da sinapse cerebral só numa fase. Era lento, esquemático e penumbroso.
Já
Alcolumbre comandou a sessão que acabou com Jorge Messias como se tivesse feito
uma interação medicamentosa explosiva. Cortou o discurso de Mara Gabrilli,
avisou que era preciso ler com pressa o resultado já contabilizado, apostou na
bet de Jaques Wagner e acertou e depois entrou no elevador correndo e gritando
aos jornalistas: vocês sabem mais do que eu.
Mas não
só sobre as fofocas envolvendo pactos com Flávio Bolsonaro, Alexandre de Moraes
e outros interlocutores e articuladores daquela quarta-feira no Senado. Contem
o que vocês sabem pra trás, da minha vida nas sombras até aqui.
A
revista Piauí se esforçou para contar o que sabe do passado de Alcolumbre, mas
ficou pela metade. Folha, Globo e Estadão devem saber muito mais, mas evitam
que seus leitores também saibam. Alcolumbre desafiou o jornalismo covarde das
corporações: contem o que vocês sabem e escondem.
Deixem
de ser fofoqueiros de um episódio e procurem compreender a minha dimensão
histórica na afronta ao governo, a Lula e ao Supremo. Mostrem o que eu
represento como antigo borracheiro alegre da direita do Amapá e agora líder
eufórico da impunidade e do golpismo no Senado.
Me
descrevam me olhando no alto do lugar onde estou, como condutor da derrota de
Lula, das instituições e da democracia, para muito além das intrigas.
Expliquem, com fatos, o que eu significo nesse Congresso de facções viciadas em
rezas, louvores, chantagens, rachadinhas e emendas.
E
explicitem o papel de vocês da imprensa na estruturação desse ambiente podre em
que também a Justiça nos trata a pão de ló. Expliquem por que vocês jornalistas
das corporações também andam excitados.
Alcolumbre
sabe o que o diferencia de Cunha. Aquele era um esquartejador com método, que
anunciava seus próximos movimentos, mas era tão analógico e depressivo que
caminhava pelos corredores da Câmara olhando para o chão.
Cunha
carregava nas costas o peso do fascismo do Congresso explícito ou disfarçado em
todas as frações dos centrões hoje absorvidos pelos comandos da extrema
direita. Era um homem antevendo o que o esperava.
Alcolumbre
é ágil, altaneiro, fala alto, tem os cacoetes de pescoço dos acelerados, anda
de cabeça erguida por não precisar olhar para onde pisa. É festeiro,
interativo, o operador tiktoker extasiado pelo poder que vai ampliando como
agregador de todas as bandidagens da casa.
Cunha
agia na Câmara baixa que dizia dominar. Alcolumbre é chefão da Câmara alta e
conhece até as traças de cada gabinete, mesmo os que não lhe devem favores.
Cunha foi comido pelos próprios parceiros por não ter tamanho para ser
respeitado e preservado. Não valia a pena lutar por ele.
Alcolumbre
tem habeas. Ainda precisa cumprir sua principal missão em 2027. Será o ano em
que seus parceiros de Senado colocarão o travesseiro na cara de ministros do
Supremo, enquanto alguns desses ministros estiverem dormindo no mesmo quarto
com Alcolumbre.
Fonte:
Correio Braziliense/JB/Brasil 247

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