Roberto
Amaral: Fadiga de materiais — quando o desgaste enseja o fim de um ciclo
Na
mecânica estrutural, a chamada “fadiga de materiais” designa o processo
mediante o qual um corpo, submetido a solicitações cíclicas, não colapsa de
imediato, mas desenvolve, progressivamente, microfraturas até que, subitamente,
se rompe.
O decisivo não é o excesso momentâneo de carga,
mas a repetição prolongada de esforços menores, inclusive de determinados
valores-limite suportáveis. Daí rupturas radicais. A este processo alia-se a degradação das
propriedades mecânicas do material.
Certos
períodos da vida política da humanidade são marcados por longos momentos de
desgaste, às vezes imperceptíveis, que se resolvem mediante alternativas que,
conhecendo a ruptura, se operam como um simples desenvolvimento das forças
sociais.
Se
transpusermos a fórmula da fadiga de materiais para o mundo social — nosso
propósito –, o que emerge é uma espécie de lei não formulada da fadiga das
instituições e das formas políticas: regimes, ideologias, partidos, movimentos
sociais e lideranças não entram em crise apenas por choques externos ou erros
táticos ou estratégicos, mas pelo desgaste cumulativo de sua própria operação
cotidiana, sob a ação do processo histórico, que a tudo preside. Analogamente à
degradação das propriedades dos materiais, emerge a vulnerabilidade da
sociedade.
O
intento deste artigo é identificar um ponto de apoio teórico para entender a
exaustão progressiva dos sistemas institucionais.
Analisando
o plano histórico, podemos considerar a hipótese de que há momentos de fadiga
no processo social, que, ao contrário do que ocorre no mundo da física, não vêm
à luz como fato inesperado ou de eclosão súbita. Resultam, por regra, de um
longo processo de desgaste endógeno.
Regimes
políticos, partidos, lideranças carismáticas e sistemas ideológicos não se
esgotam apenas à força de crises agudas, mas pela deterioração cumulativa de
sua própria reprodução cotidiana.
Não é o
excesso de energia que os degrada, ou paralisa, ou os torna superados, mas a
simples repetição de seu modo de ser, donde a falência ou esgotamento da
capacidade de manter-se sempre contemporâneo e, ao mesmo tempo, inovador, isto
é, caminhando lado a lado do processo social, ou mesmo a ele se adiantando. Que
é a melhor receita.
Histórico,
todo projeto político tem seu tempo. Quando perde o passo, esgota-se.
Um dos
indicadores do que buscamos identificar como “fadiga de materiais” –
transportando para a vida social uma lei da mecânica –, é a perda progressiva
de liderança decorrente do esgotamento do projeto político e, a partir daí, do
discurso, da formulação ideológica que dirige as ações e faz o processo social
avançar. Assim se explicam grandes movimentos políticos que se esvaziam, ideias
que derretem, doutrinas que se deixam superar, às vezes sem explicação clara.
Um
exemplo é o fastio contemporâneo do positivismo, após dominar o pensamento
brasileiro e, nos seus primeiros tempos, dar as coordenadas doutrinárias da
República. No plano político é evidente o recuo do varguismo e do trabalhismo.
Max
Weber (Economia e sociedade) analisa a transformação do carisma em rotina, ao
nos dizer que mesmo as lideranças que nascem como força criadora – tanto o
dirigente carismático quanto o partido – tendem, com o tempo, a
institucionalizar-se. Weber percebeu que toda forma de dominação (não
necessariamente de liderança) tende a se burocratizar.
Sua
principal vítima são as estruturas de comando e organização. O que antes
organizava e mobilizava – como o carisma, a energia criadora e de iniciativa, a
capacidade de resistência e ruptura – o engenho e arte – , abre caminho para o
mando das estruturas corporativas e das lideranças burocráticas, enclausurando
o projeto político.
A
autodissolução do regime soviético, eis um bom estudo de caso, ao expor todos
os indicadores de “fadiga de materiais” , se dá como mero desdobramento da
burocratização dos organismos estatais e políticos.
Com as
consequências e desdobramentos conhecidos, é exemplo paradigmático de fadiga de
um regime político, a que se seguem – vítimas do mesmo mal (o burocratismo) – o
desmantelamento do Leste Europeu e a crise até aqui insuperada dos partidos
comunistas ocidentais, a começar pelos mais insignes, o PCI e o PCF. Frustração
que, como sabemos, chegou ao Brasil.
Nada
obstante a ausência de projeto, a debacle do mundo soviético promoveu transformações axiais que alterariam
a ordem de poder internacional.
Ainda
hoje.
Estagnado
historicamente, sem resposta para os fatos novos, pois o processo social se
renova incessantemente, o projeto que não se realimenta tende ao colapso, decai
em sua contemporaneidade, torna-se a-histórico. Lição pouco conhecida por
dirigentes contemporâneos, como nos informa o naufrágio da República
Bolivariana da Venezuela.
Não se
trata, em regra, de morte súbita, pois ela é antecipada por desgaste interno,
pela perda de espaço na ordem política, a perda de credibilidade, e, enfim, a
queda da ressonância social. Quando se trata de partidos políticos, eles colhem
as primeiras derrotas nas disputas eleitorais, e os líderes carismáticos
conhecem o declínio de sua popularidade. As massas não reconhecem mais seu
líder, nem seu discurso, nem seu partido.
Esse
processo, que Weber chamou de “rotinização do carisma”, equivale à perda
progressiva de vitalidade do material político.
Talvez
seja possível dizer que Gramsci, trabalhando com outras categorias que não as
do autor de A ética protestante e o espírito do capitalismo, se aproxima de
Weber, ao lembrar (nos Cadernos do Cárcere) que os regimes – dependem da
capacidade de produzir consenso ativo, o que ele chama de hegemonia, definida
como “a capacidade de uma classe dirigente
exercer direção moral, intelectual e política sobre a sociedade,
combinando coerção e, sobretudo, consenso ativo, de modo a universalizar seus
interesses como se fossem interesses gerais”.
Quando
essa capacidade se esgota, instala-se a crise orgânica: o sistema ainda
respira, mas já não convence. O líder já não comanda as massas. No plano da
institucionalidade, o poder persiste, formalmente, mas sob fadiga. A autoridade
perde sua base de reconhecimento. Uma ilustração é oferecida pelo frustrado
segundo mandato de Dilma Rousseff.
É o
momento em que a “ordem” já não resolve as tensões que antes absorvia. Gramsci
talvez seja o que mais se aproxima dessa visão da “fadiga de materiais”
presente no fenômeno social. Para ele, as crises não são necessariamente
explosões súbitas, mas longos processos de desgaste da hegemonia.
Quando
as classes dirigentes já não conseguem dirigir, mas apenas dominar – e é vasto
o leque dos instrumentos de dominação, materiais, formais e ideológicos –,
instala-se o que o teórico comunista identifica como crise orgânica: “O velho
está morrendo e o novo não pode nascer”, é sua síntese.
É o
momento típico da fadiga estrutural: o sistema existe, mas perdeu sua
capacidade de produzir consenso.
O
colapso abre as portas para a ruptura que não é necessariamente o parto do
novo: o colapso da URSS (relembre-se), anunciou um recuo histórico. O sistema
do PCUS funcionava formalmente e não se conheciam sinais de tensão. Mas, a
partir de 1991, o mundo seria outro.
A
imprensa internacional registrou, em dezembro de 1989, a surpresa que teria
sido, para os então dirigentes da Romênia, a transformação em anúncio de sua
queda de ato político por eles convocado para a sustentação do regime. Nicolae
Ceaușescu e sua coorte não haviam tido olhos para conhecer a fadiga do regime.
Aqui
temos o momento exato da ruptura de uma estrutura minada pela fadiga de
materiais: o sistema, aparentemente intacto, tomba, sem precisar ser atingido
por uma força adversa. Repetem-se, formalmente, a queda do Muro de Berlim e o
ocaso da URSS.
Exemplo
dessa hipótese é oferecido pela nossa história, por exemplo, com o lento
desgaste do Segundo Império brasileiro, que, ao final, se consome no 15 de
novembro de 1889, uma parada militar que mudou, sem traumas, o sistema político
do país, velho aos 67 anos!
Outro
modelo de fadiga de materiais, o fim de um regime definido cronologicamente
pela sua própria exaustão, é oferecido pela derrocada da ditadura militar
brasileira. Vencedor no enfrentamento da resistência civil, vencedor na
repressão e no confronto com seus adversários, o regime dos fardados, na
culminância de um processo de desgaste progressivo — a fadiga acumulada do
próprio sistema —, engendra ele próprio, com a classe dominante, a concordata
que abriria caminho para a restauração democrática.
Também
aqui trata-se de colapso anunciado, a que se segue a Nova República. É o
período que se abre em 1985 para chegar à sua última estação dando inequívocos
sinais de cansaço. Termina seu tempo de governo antes de encerrar-se o mandato
do presidente José Sarney.
A
transição entre a promessa de futuro, a Nova República, e o retrocesso — a
eleição de Fernando Collor — deu-se de forma civilizada: segundo as regras da
República, que vem sobrevivendo com forças, até, para derrotar o assalto
neofascista de janeiro de 2023.
No
Brasil, a retomada da ordem como segundo tempo do colapso político parece
estribar-se numa das características de nosso processo político, uma projeção
do caráter das classes dominantes, afeitas, como escreveu José Honório
Rodrigues (Conciliação e reforma no Brasil), à conciliação para manter o poder
sob suas rédeas, o que não está longe da leitura de Raymundo Faoro.
O autor
de Os donos do poder sugere que as elites políticas brasileiras possuem grande
capacidade de adaptação — o que lhes permite sobreviver às crises, mas não
necessariamente superá-las. O resultado é uma espécie de continuidade do
desgaste: o sistema muda de forma, mas preserva tensões não resolvidas.
Neste
plano, pode-se inscrever a crise político-institucional que se instala com o
impeachment da presidente Dilma Rousseff e chega aos nossos dias perigosamente
marcada pela ascensão político-eleitoral da extrema-direita, ameaça que,
podendo ser a questão mais agônica do presente, é, ainda, tão-só, um dos
fantasmas que ameaçam a institucionalidade democrática, hoje.
Exemplo
clássico de falência de materiais no processo político vamos colher no colapso
da República de Weimar, ensejando, com a eleição de Hitler, a ascensão do
nazismo.
A
partir daí, a ordem constitucional é esvaziada por dentro, fornecendo exemplo
clássico de fadiga institucional cumulativa: crises econômicas, fragmentação
partidária, perda de legitimidade e uso reiterado de mecanismos de exceção
corroeram a estrutura, até o colapso.
A
história que segue é conhecida.
O
exemplo mais recente de fadiga vem da Hungria, com a derrota acachapante do
Fidesz (Aliança Cívica Húngara), partido do primeiro-ministro Viktor Orbán,
após 16 anos de governo onipotente. A lição é esta: sem escuta social e sem
renovação, regimes que pareciam sólidos podem, de repente, ruir, quando o
desgaste das instituições se torna insustentável.
Esta
lição parece não ter preferências ideológicas.
Assim
como os materiais físicos, os sistemas políticos possuem limites de
resistência. Quando submetidos a tensões contínuas que não conseguem
metabolizar, acumulam um desgaste às vezes exposto à luz do dia, às vezes
camuflado, , que compromete sua capacidade de adaptação-reação, preparando
rupturas que podem ser vistas como súbitas, embora historicamente construídas,
muitas vezes lentamente. A questão substantiva é uma, a identificação do
fenômeno depende do observador.
O
acúmulo, raramente imperceptível, promessa de colapso, é o que instala a fadiga
histórica, mãe e pai da ruptura, que se pode resolver tanto mediante a
conciliação, quanto mediante o choque. O colapso, na ordem social, raramente se
apresenta de forma abrupta; é precedido por
longa fase de funcionamento aparente — como na fadiga de materiais na
mecânica estrutural, em que a peça continua operando até o momento da ruptura.
É aí
que o extraordinário se torna possível. Quando as soluções de exceção,
violentas ou não, adquirem o caráter de necessidade.
Fonte:
Viomundo

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