terça-feira, 21 de abril de 2026

Gustavo Tapioca: O Evangelho do golpe, da tortura e do entreguismo

A eleição presidencial de outubro de 2026 será mais do que uma disputa entre nomes. O Brasil está diante de um confronto entre dois projetos históricos e antagônicos. De um lado, Lula, que representa a reeleição de um campo progressista comprometido com a democracia, a proteção social e a centralidade dos mais pobres na vida nacional.

De outro lado, o bolsonarismo, agora reorganizado em torno de Flávio Bolsonaro, herdeiro político de um movimento que combina ultraconservadorismo moral, fanatismo de mercado e agressividade antidemocrática.

Essa disputa não surgiu de repente. Foi preparada durante décadas, num lento deslocamento do eixo religioso-popular do Brasil. O país que conheceu a força das Comunidades Eclesiais de Base, da Teologia da Libertação e da opção preferencial pelos pobres foi sendo transformado por outra pedagogia: a da prosperidade individual, da guerra espiritual, do empreendedorismo de si mesmo e da demonização das pautas progressistas.

<><> Quando a fé dos pobres assustou o poder

Nos anos 1960 e 1970, a Teologia da Libertação se tornou uma força real na América Latina. Sua potência vinha justamente daquilo que ainda hoje assusta as elites: a capacidade de ligar fé, consciência social, leitura crítica da realidade e organização popular. A religião, nesse contexto, deixava de ser consolo passivo e passava a funcionar como fermento de transformação histórica.

Foi isso que alarmou os centros de poder. Em plena Guerra Fria, a emergência de um cristianismo comprometido com a justiça social e a emancipação popular passou a ser vista como um problema estratégico. Não era apenas uma divergência doutrinária. Era a percepção de que a Igreja, em seus setores de base, podia se converter em território de resistência ao autoritarismo, à miséria e à dependência latino-americana.

Mas a contenção dessa corrente não veio só de fora. Veio também de dentro. O cerco do Vaticano à Teologia da Libertação enfraqueceu, ao longo do tempo, uma das mais importantes experiências de politização popular do continente. Com isso, abriu-se espaço para outra forma de ocupação religiosa das periferias e das classes trabalhadoras.

<><> Da comunidade ao mercado

O neopentecostalismo cresceu no vácuo deixado por esse enfraquecimento, mas não apenas por isso. Soube responder, à sua maneira, às angústias de uma sociedade marcada por urbanização caótica, precarização do trabalho, retração do Estado e brutalização da vida cotidiana.

Onde antes havia comunidade e leitura coletiva da opressão, passou a haver promessa de vitória pessoal. Onde antes se falava em estruturas injustas, passou-se a falar em mérito, disciplina, esforço individual e bênção divina.

Essa mudança foi decisiva. A teologia da prosperidade não é apenas uma doutrina religiosa. É uma gramática moral perfeitamente ajustada ao neoliberalismo. Ensina que o sucesso é prova de fé, que o fracasso é responsabilidade do indivíduo e que a superação da pobreza depende menos de direitos do que de postura espiritual. Desse modo, a desigualdade deixa de ser problema político e se converte em drama privado.

A guerra espiritual cumpre papel semelhante. Ao substituir o conflito social pelo combate entre Deus e o demônio, ela despolitiza o sofrimento e dissolve suas causas históricas. O desemprego, a violência, o colapso familiar e a frustração material deixam de ser lidos como produtos de uma ordem excludente e passam a ser tratados como ataque maligno, fraqueza moral ou desvio de conduta.

<><> O berço moral do bolsonarismo

Foi nesse terreno que o bolsonarismo encontrou sua base mais sólida. A extrema direita brasileira não cresceu apenas pela internet, nem somente pela ação de militares, empresários ou setores do agronegócio.

Cresceu porque encontrou, em parcelas importantes do mundo evangélico conservador e neopentecostal, uma infraestrutura moral pronta para acolhê-la e legitimá-la.

A pauta dos costumes virou cimento ideológico. A defesa abstrata da família, o pânico moral em torno da chamada “ideologia de gênero”, a demonização das esquerdas e a transformação de adversários políticos em inimigos da fé ajudaram a construir uma identidade emocional poderosíssima. Já não se tratava de disputar programas de governo, mas de salvar o país de uma ameaça moral imaginada como total.

É por isso que o bolsonarismo dialoga tão bem com esse universo. Seu lema — “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” — não é mero slogan. É a síntese de uma visão de mundo em que autoridade política, nacionalismo agressivo e legitimação religiosa se fundem.

E esse projeto se torna ainda mais sombrio quando lembramos que Jair Bolsonaro, hoje fora da disputa, foi condenado por participação na trama golpista que chegou a incluir o plano de assassinato de Lula, Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes.

A questão, portanto, não é apenas eleitoral. É civilizatória.

<><> O púlpito virou máquina de poder

O erro mais comum da análise progressista foi imaginar que essa transformação religiosa permaneceria confinada aos templos. Não permaneceu. Avançou sobre a mídia, a cultura de massas, as redes sociais e, de maneira decisiva, o sistema político.

As grandes igrejas neopentecostais construíram impérios de comunicação, formaram quadros, financiaram candidaturas, produziram linguagem e sedimentaram uma visão de mundo cotidiana, repetida à exaustão em cultos, programas de rádio, televisão e plataformas digitais. Enquanto isso, o campo progressista perdia capilaridade territorial, vocabulário popular e presença contínua na vida concreta das periferias.

Essa disputa chegou com força total ao Congresso Nacional. Hoje, a relação entre setores evangélicos conservadores e partidos da extrema direita já não é apenas de apoio externo. Trata-se de uma simbiose institucional. Pastores, bispos, missionários, comunicadores religiosos e parlamentares orgânicos desse universo compõem uma engrenagem estável de poder.

<><> O altar dentro do Estado

Na Câmara e no Senado, a força evangélica conservadora deixou de ser apenas um agrupamento temático. Passou a operar como bloco ideológico com capacidade de influir sobre costumes, orçamento, comissões, nomeações, legislação e agenda pública.

O que está em curso não é somente a presença legítima de religiosos na política, algo próprio de qualquer democracia plural. O que se vê é a tentativa de converter convicções confessionais em norma geral e de submeter a esfera pública à lógica permanente da guerra moral.

Essa é a verdadeira função estratégica da aliança entre neopentecostalismo e extrema direita. O púlpito fornece base social, disciplina simbólica, autoridade e mobilização. O mandato devolve às igrejas acesso ao Estado, proteção institucional e capacidade de ampliar seu poder material e político. A religião oferece massa; a política oferece máquina. Juntas, produzem hegemonia.

É por isso que essa presença no Congresso precisa ser lida com seriedade. Não estamos diante de uma simples bancada religiosa. Estamos diante de uma coalizão de poder que pretende moldar o país a partir de uma combinação explosiva: neoliberalismo para os pobres, moralismo para as famílias e autoritarismo para a democracia.

<><> Outubro decidirá mais do que um governo

A eleição de 2026, portanto, será o momento de definição entre duas concepções de Brasil. De um lado, a tradição que, com todas as contradições do lulismo, ainda preserva algo fundamental: a ideia de que o Estado deve proteger os vulneráveis, reduzir desigualdades e governar para a maioria social.

Uma ideia que, em chave histórica, dialoga com aquela antiga e poderosa noção das Comunidades Eclesiais de Base: a opção preferencial pelos pobres. De outro lado, a herança bolsonarista, agora recauchutada para sobreviver sem Jair, mas mantendo intacto seu núcleo duro.

O projeto de Flávio Bolsonaro, herdeiro direto do bolsonarismo condenado pelo golpismo, representa a tentativa de adaptar aos trópicos o modelo da extrema direita contemporânea: mercado sem freios, guerra moral permanente, captura religiosa da política e erosão sistemática da democracia.

Se esse bloco vencer, o Brasil aprofundará a fusão entre autoritarismo, fundamentalismo e desigualdade, transformando a fé em instrumento de disciplinamento social e o Estado em extensão de interesses privados e sectários.

A vitória de Lula e das forças democráticas, por isso, não significará apenas a escolha de um governo, mas a recusa de um projeto que usa o nome de Deus para legitimar exclusão, violência política e submissão dos pobres. Em outubro, o país decidirá entre o resgate da dignidade comum e a consolidação de uma ordem em que a religião deixa de ser esperança dos de baixo para se tornar a linguagem de seus algozes.

•        Os abolicionistas brancos do século 19 e os escravagistas do século 21. Por Moisés Mendes

O mundo iria acabar a partir do que aconteceria no Brasil em 1888, com o previsível fim da escravidão. Os jornais anunciavam: as fazendas e as cidades não terão trabalhadores, e os escravos não saberão o que fazer da vida quando libertos.

Mas pouco se fala hoje dos jornais criados por  abolicionistas, entre os quais muitos empresários sinceros. Essas publicações artesanais existiram em vários Estados e suas histórias nos conduzem a mais uma conclusão constrangedora: hoje, não há nada parecido.

A possibilidade de fim da escala 6 X 1 criou a mesma reação hegemônica do fim do século 19. O Brasil irá quebrar se acabar com um modelo de trabalho cruel e superado. Mas não há contraponto organizado de parte da elite, como aconteceu em 1888.

Não há, pelo ponto de vista dos empresários, nada semelhante aos jornais que apoiavam o fim da exploração de pessoas escravizadas. Nenhuma entidade empresarial tem posição categórica pela abolição da escala quase escravagista.

Um exemplo do que não temos hoje. Em 1882, na região do latifúndio gaúcho, um grupo de fazendeiros, comerciantes e profissionais liberais criou a Gazeta de Alegrete. Eram liderados pelo advogado e também fazendeiro Luis de Freitas Vale, o Barão do Ibirocay. A Gazeta surge um ano antes da publicação de ‘O Abolicionismo’ por Joaquim Nabuco.

Foram criados, além do jornal, clubes emancipatórios por lideranças da cidade. A sociedade se organizou para a libertação muito antes da abolição. Em 7 de setembro de 1884, a Gazeta anunciava: por decisão da Câmara de Vereadores, não há mais escravizados em Alegrete. Faziam festas nas fazendas e na cidade.

A escravidão é dada como encerrada no Rio Grande do Sul naquele ano de 1884. Era uma medida imperfeita, que possibilitava desvios provocados pelos interessados em ganhar dinheiro com a perspectiva do fim do trabalho cativo.

Muitos anunciaram a libertação, mas continuaram explorando o escravismo sob outros disfarces. Mas, no que importava, havia o gesto político com o aviso: não queremos mais transformar pessoas em escravos.

O importante é que a Gazeta de Alegrete, na terra dos bois e das ovelhas, é contemporânea da Gazeta da Tarde, o jornal que José do Patrocínio transforma em voz do abolicionismo. Mas a Gazeta de Patrocínio circulava entre iluministas do Rio de Janeiro. A Gazeta de Freitas Valle, no sul do Brasil agrário e atrasado.

Alegrete é a terra de Luiza de Freitas Vale Aranha, sobrinha do barão e mãe de Osvaldo Aranha. E terra do próprio Osvaldo e, depois, de Mario Quintana, João Saldanha, Paulo Cesar Pereio, Aldo Fagundes, Walmor Chagas, Laci Osório.

Ali, no meio do campo, o movimento abolicionista ganha impulso e inspira outras ações na mesma direção no resto do Estado. Com o predomínio de lideranças brancas, porque elas mandavam, aliadas a líderes negros emergentes.

Alguém imagina algo parecido hoje, em qualquer parte do Brasil, diante da reação quase escravocrata dos brancos ricos e da classe média que se negam a extinguir a escala 6 X 1?

Onde pode ser encontrado alguém do porte de um Barão do Ibirocay, que ganhou o título do Império  por ser um abolicionista? Há abolicionistas hoje na elite brasileira, que ainda é flagrada explorando trabalho escravo?

Que essa elite escravista, se não quer ler o negro José do Patrocínio, leia o branco Fernando Henrique Cardoso em seu grandioso ‘Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional’, de 1963, sobre os escravocratas gaúchos.

Que leia os historiadores mais jovens Jônas Marques Caratti (autor de ‘O solo da Liberdade’, Editora Unisinos) e Marcelo Santos Matheus (‘Fronteiras da Liberdade’, da mesma editora), com histórias de gente, e não com as controvérsias de novas teses sobre a escravidão. Dois livros com a palavra liberdade nos títulos.

Leiam os arquivos das Gazetas do Alegrete e do Rio e o jornal A Federação, o mais importante do Rio Grande do Sul na época, o jornal de Júlio de Castilhos, também abolicionista.

Leiam os jornais dos positivistas e os folhetos e panfletos de cariocas, paulistas, baianos, produzidos  em defesa da abolição. Não se atrapalhem com as acusações, repetidas hoje, de que tudo que partia dos brancos era uma farsa. Não era.

Mas não procurem nada parecido nos jornais das elites do século 21. Lembrem-se disso que não é detalhe: A Província de São Paulo foi um jornal abolicionista, com opiniões incisivas sobre o fim da escravidão.

Saibam que A Província é o nome original do que se chama hoje O Estado de São Paulo, o Estadão, que  sabota o fim da escala 6 X 1, porque pode causar desagregação entre capital e trabalho. A elite branca antes liberal foi absorvida pelo fascismo bolsonarista.

Este é o título de um editorial recente do Estadão sobre o projeto: “Uma PEC feita para palanque”. No melhor estilo do jornalismo usado como trincheira pelos escravagistas. E que o Estadão, na sua origem, combatia.

A elite brasileira e o jornalismo das corporações por ela produzido retrocederam ao que existia de pior no começo do século 19, com chamadas como essa, para artigo de Malu Gaspar no Globo: ‘PEC que acaba com escala 6 x 1 tem potencial para emparedar o governo Lula’.

Quem teria emparedado Lula, conforme a versão da direita? Está lá no texto de Malu Gaspar: Erika Hilton, a autora da ideia considerada desastrosa. Erika é a abolicionista do século 21. Uma ativista atrevida, articulada, transgressora, negra e trans. E com mandato.

O texto da colunista do Globo poderia estar em qualquer jornal defensor do escravismo em 1888. Tentem, sem muito esforço, ver como jornalistas do século 21 abordariam em suas colunas as campanhas contra a escravidão no final do século 19.

(Tenho a honra e a ostentação de dizer que, entre 1970 e 1973, trabalhei na Gazeta de Alegrete, o jornal criado em 1882 para lutar pelo abolicionismo. Comecei minha lida de repórter num jornal criado para lutar pela abolição. A Gazeta circula até hoje.)

•        . A Cruzada democrática com seus fantoches e capitães do mato. Por Valéria Guerra Reiter

As Cruzadas Medievais foram movimentos militares e religiosos que surgiram como respostas ao apelo do Papa Urbano II em 1095, durante o Concílio de Clermont, para libertar a Terra Santa do domínio muçulmano. As Cruzadas nunca defenderam um Jesus que deu a outra face. O número de mortos oriundos da cruenta marcha por Jesus Cristo foi estimado entre 1 e 3 milhões de pessoas ao longo de todo o período, incluindo cristãos, muçulmanos e judeus.

“Thawanna da Silva Salmázio, 31 anos, foi morta com um tiro no peito pela policial militar Yasmin Cursino Ferreira, 21, durante abordagem na Cidade Tiradentes, Zona Leste de SP, na madrugada de 3 de abril de 2026. Imagens de câmera corporal registraram o disparo após uma briga e uma espera de mais de 30 minutos por socorro".

“Um vídeo de uma mulher negra sendo contida e colocada à força dentro de uma viatura, pela Polícia Militar, tem causado comoção nas redes sociais. O caso ocorreu na Avenida Paulista, na tarde de sexta-feira".

Os dois casos frisados acima são “os visíveis” do momento, ou seja, duas gotas no mar da truculência exercida pelos novos capitães do mato da nossa República democrática, especialmente no Estado de São Paulo. Este é o modus operandi que controla e inibe a população periférica no Brasil.

Enquanto bilhões voavam das mãos de corruptos — vide o caso do RIOPREVIDÊNCIA, MASTER, INSS —, o trabalhador brasileiro é tratado a pontapés por um braço forte do Estado: a polícia.

A democracia é um totem conjuntural, ou funciona como uma rainha que prende e arrebenta os súditos reclamantes e mal remunerados dentro de sua estrutura? Acho que, muito pelo contrário, ela possui um códex promulgado, chamado Constituição, que, em seu artigo 5º, garante igualdade a todos. Não é?

Ao longo da história do Brasil republicano, tivemos a alternância de poderes democráticos e ditatoriais. A Independência brasileira, por sinal, legou uma Constituição (1824) constituída por um poder moderador, que dava plenitude de ação a D. Pedro I, até mesmo para dissolver o parlamento à época. Era uma prerrogativa pessoal e inviolável do soberano, exercida com o auxílio de um Conselho de Estado.

E o que temos para hoje?

Um povo que ainda é “público”, como disse Lima Barreto, uma população que flutua na torpeza, no mar de políticos que representam uma elite burguesa, que só pensa em maximizar ganhos, seja por meio de fraudes milionárias, como o caso do banco Master, INSS e outros escândalos, ou por meio da sonegação de políticas reais que estimulem a mobilidade social dos menos favorecidos.

O Projeto de Lei 1424/26, da deputada Tabata Amaral (PSB-SP), por exemplo, equipara o antissemitismo ao crime de racismo, com pena de reclusão de 2 a 5 anos e multa, e sem possibilidade de prescrição ou fiança. O texto está em análise na Câmara dos Deputados.

São atitudes como esta que comprovam que há uma involução regimental na estrutura dos poderes constituídos, que coloca no poder “mentes fantoches” advindas de um torpe imperialismo abjeto

 

Fonte: Brasil 247

 

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