Gustavo
Tapioca: O Evangelho do golpe, da tortura e do entreguismo
A
eleição presidencial de outubro de 2026 será mais do que uma disputa entre
nomes. O Brasil está diante de um confronto entre dois projetos históricos e
antagônicos. De um lado, Lula, que representa a reeleição de um campo
progressista comprometido com a democracia, a proteção social e a centralidade
dos mais pobres na vida nacional.
De
outro lado, o bolsonarismo, agora reorganizado em torno de Flávio Bolsonaro,
herdeiro político de um movimento que combina ultraconservadorismo moral,
fanatismo de mercado e agressividade antidemocrática.
Essa
disputa não surgiu de repente. Foi preparada durante décadas, num lento
deslocamento do eixo religioso-popular do Brasil. O país que conheceu a força
das Comunidades Eclesiais de Base, da Teologia da Libertação e da opção
preferencial pelos pobres foi sendo transformado por outra pedagogia: a da
prosperidade individual, da guerra espiritual, do empreendedorismo de si mesmo
e da demonização das pautas progressistas.
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Quando a fé dos pobres assustou o poder
Nos
anos 1960 e 1970, a Teologia da Libertação se tornou uma força real na América
Latina. Sua potência vinha justamente daquilo que ainda hoje assusta as elites:
a capacidade de ligar fé, consciência social, leitura crítica da realidade e
organização popular. A religião, nesse contexto, deixava de ser consolo passivo
e passava a funcionar como fermento de transformação histórica.
Foi
isso que alarmou os centros de poder. Em plena Guerra Fria, a emergência de um
cristianismo comprometido com a justiça social e a emancipação popular passou a
ser vista como um problema estratégico. Não era apenas uma divergência
doutrinária. Era a percepção de que a Igreja, em seus setores de base, podia se
converter em território de resistência ao autoritarismo, à miséria e à
dependência latino-americana.
Mas a
contenção dessa corrente não veio só de fora. Veio também de dentro. O cerco do
Vaticano à Teologia da Libertação enfraqueceu, ao longo do tempo, uma das mais
importantes experiências de politização popular do continente. Com isso,
abriu-se espaço para outra forma de ocupação religiosa das periferias e das
classes trabalhadoras.
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Da comunidade ao mercado
O
neopentecostalismo cresceu no vácuo deixado por esse enfraquecimento, mas não
apenas por isso. Soube responder, à sua maneira, às angústias de uma sociedade
marcada por urbanização caótica, precarização do trabalho, retração do Estado e
brutalização da vida cotidiana.
Onde
antes havia comunidade e leitura coletiva da opressão, passou a haver promessa
de vitória pessoal. Onde antes se falava em estruturas injustas, passou-se a
falar em mérito, disciplina, esforço individual e bênção divina.
Essa
mudança foi decisiva. A teologia da prosperidade não é apenas uma doutrina
religiosa. É uma gramática moral perfeitamente ajustada ao neoliberalismo.
Ensina que o sucesso é prova de fé, que o fracasso é responsabilidade do
indivíduo e que a superação da pobreza depende menos de direitos do que de
postura espiritual. Desse modo, a desigualdade deixa de ser problema político e
se converte em drama privado.
A
guerra espiritual cumpre papel semelhante. Ao substituir o conflito social pelo
combate entre Deus e o demônio, ela despolitiza o sofrimento e dissolve suas
causas históricas. O desemprego, a violência, o colapso familiar e a frustração
material deixam de ser lidos como produtos de uma ordem excludente e passam a
ser tratados como ataque maligno, fraqueza moral ou desvio de conduta.
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O berço moral do bolsonarismo
Foi
nesse terreno que o bolsonarismo encontrou sua base mais sólida. A extrema
direita brasileira não cresceu apenas pela internet, nem somente pela ação de
militares, empresários ou setores do agronegócio.
Cresceu
porque encontrou, em parcelas importantes do mundo evangélico conservador e
neopentecostal, uma infraestrutura moral pronta para acolhê-la e legitimá-la.
A pauta
dos costumes virou cimento ideológico. A defesa abstrata da família, o pânico
moral em torno da chamada “ideologia de gênero”, a demonização das esquerdas e
a transformação de adversários políticos em inimigos da fé ajudaram a construir
uma identidade emocional poderosíssima. Já não se tratava de disputar programas
de governo, mas de salvar o país de uma ameaça moral imaginada como total.
É por
isso que o bolsonarismo dialoga tão bem com esse universo. Seu lema — “Brasil
acima de tudo, Deus acima de todos” — não é mero slogan. É a síntese de uma
visão de mundo em que autoridade política, nacionalismo agressivo e legitimação
religiosa se fundem.
E esse
projeto se torna ainda mais sombrio quando lembramos que Jair Bolsonaro, hoje
fora da disputa, foi condenado por participação na trama golpista que chegou a
incluir o plano de assassinato de Lula, Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes.
A
questão, portanto, não é apenas eleitoral. É civilizatória.
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O púlpito virou máquina de poder
O erro
mais comum da análise progressista foi imaginar que essa transformação
religiosa permaneceria confinada aos templos. Não permaneceu. Avançou sobre a
mídia, a cultura de massas, as redes sociais e, de maneira decisiva, o sistema
político.
As
grandes igrejas neopentecostais construíram impérios de comunicação, formaram
quadros, financiaram candidaturas, produziram linguagem e sedimentaram uma
visão de mundo cotidiana, repetida à exaustão em cultos, programas de rádio,
televisão e plataformas digitais. Enquanto isso, o campo progressista perdia
capilaridade territorial, vocabulário popular e presença contínua na vida
concreta das periferias.
Essa
disputa chegou com força total ao Congresso Nacional. Hoje, a relação entre
setores evangélicos conservadores e partidos da extrema direita já não é apenas
de apoio externo. Trata-se de uma simbiose institucional. Pastores, bispos,
missionários, comunicadores religiosos e parlamentares orgânicos desse universo
compõem uma engrenagem estável de poder.
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O altar dentro do Estado
Na
Câmara e no Senado, a força evangélica conservadora deixou de ser apenas um
agrupamento temático. Passou a operar como bloco ideológico com capacidade de
influir sobre costumes, orçamento, comissões, nomeações, legislação e agenda
pública.
O que
está em curso não é somente a presença legítima de religiosos na política, algo
próprio de qualquer democracia plural. O que se vê é a tentativa de converter
convicções confessionais em norma geral e de submeter a esfera pública à lógica
permanente da guerra moral.
Essa é
a verdadeira função estratégica da aliança entre neopentecostalismo e extrema
direita. O púlpito fornece base social, disciplina simbólica, autoridade e
mobilização. O mandato devolve às igrejas acesso ao Estado, proteção
institucional e capacidade de ampliar seu poder material e político. A religião
oferece massa; a política oferece máquina. Juntas, produzem hegemonia.
É por
isso que essa presença no Congresso precisa ser lida com seriedade. Não estamos
diante de uma simples bancada religiosa. Estamos diante de uma coalizão de
poder que pretende moldar o país a partir de uma combinação explosiva:
neoliberalismo para os pobres, moralismo para as famílias e autoritarismo para
a democracia.
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Outubro decidirá mais do que um governo
A
eleição de 2026, portanto, será o momento de definição entre duas concepções de
Brasil. De um lado, a tradição que, com todas as contradições do lulismo, ainda
preserva algo fundamental: a ideia de que o Estado deve proteger os
vulneráveis, reduzir desigualdades e governar para a maioria social.
Uma
ideia que, em chave histórica, dialoga com aquela antiga e poderosa noção das
Comunidades Eclesiais de Base: a opção preferencial pelos pobres. De outro
lado, a herança bolsonarista, agora recauchutada para sobreviver sem Jair, mas
mantendo intacto seu núcleo duro.
O
projeto de Flávio Bolsonaro, herdeiro direto do bolsonarismo condenado pelo
golpismo, representa a tentativa de adaptar aos trópicos o modelo da extrema
direita contemporânea: mercado sem freios, guerra moral permanente, captura
religiosa da política e erosão sistemática da democracia.
Se esse
bloco vencer, o Brasil aprofundará a fusão entre autoritarismo, fundamentalismo
e desigualdade, transformando a fé em instrumento de disciplinamento social e o
Estado em extensão de interesses privados e sectários.
A
vitória de Lula e das forças democráticas, por isso, não significará apenas a
escolha de um governo, mas a recusa de um projeto que usa o nome de Deus para
legitimar exclusão, violência política e submissão dos pobres. Em outubro, o
país decidirá entre o resgate da dignidade comum e a consolidação de uma ordem
em que a religião deixa de ser esperança dos de baixo para se tornar a
linguagem de seus algozes.
• Os abolicionistas brancos do século 19 e
os escravagistas do século 21. Por Moisés Mendes
O mundo
iria acabar a partir do que aconteceria no Brasil em 1888, com o previsível fim
da escravidão. Os jornais anunciavam: as fazendas e as cidades não terão
trabalhadores, e os escravos não saberão o que fazer da vida quando libertos.
Mas
pouco se fala hoje dos jornais criados por
abolicionistas, entre os quais muitos empresários sinceros. Essas
publicações artesanais existiram em vários Estados e suas histórias nos
conduzem a mais uma conclusão constrangedora: hoje, não há nada parecido.
A
possibilidade de fim da escala 6 X 1 criou a mesma reação hegemônica do fim do
século 19. O Brasil irá quebrar se acabar com um modelo de trabalho cruel e
superado. Mas não há contraponto organizado de parte da elite, como aconteceu
em 1888.
Não há,
pelo ponto de vista dos empresários, nada semelhante aos jornais que apoiavam o
fim da exploração de pessoas escravizadas. Nenhuma entidade empresarial tem
posição categórica pela abolição da escala quase escravagista.
Um
exemplo do que não temos hoje. Em 1882, na região do latifúndio gaúcho, um
grupo de fazendeiros, comerciantes e profissionais liberais criou a Gazeta de
Alegrete. Eram liderados pelo advogado e também fazendeiro Luis de Freitas
Vale, o Barão do Ibirocay. A Gazeta surge um ano antes da publicação de ‘O
Abolicionismo’ por Joaquim Nabuco.
Foram
criados, além do jornal, clubes emancipatórios por lideranças da cidade. A
sociedade se organizou para a libertação muito antes da abolição. Em 7 de
setembro de 1884, a Gazeta anunciava: por decisão da Câmara de Vereadores, não
há mais escravizados em Alegrete. Faziam festas nas fazendas e na cidade.
A
escravidão é dada como encerrada no Rio Grande do Sul naquele ano de 1884. Era
uma medida imperfeita, que possibilitava desvios provocados pelos interessados
em ganhar dinheiro com a perspectiva do fim do trabalho cativo.
Muitos
anunciaram a libertação, mas continuaram explorando o escravismo sob outros
disfarces. Mas, no que importava, havia o gesto político com o aviso: não
queremos mais transformar pessoas em escravos.
O
importante é que a Gazeta de Alegrete, na terra dos bois e das ovelhas, é
contemporânea da Gazeta da Tarde, o jornal que José do Patrocínio transforma em
voz do abolicionismo. Mas a Gazeta de Patrocínio circulava entre iluministas do
Rio de Janeiro. A Gazeta de Freitas Valle, no sul do Brasil agrário e atrasado.
Alegrete
é a terra de Luiza de Freitas Vale Aranha, sobrinha do barão e mãe de Osvaldo
Aranha. E terra do próprio Osvaldo e, depois, de Mario Quintana, João Saldanha,
Paulo Cesar Pereio, Aldo Fagundes, Walmor Chagas, Laci Osório.
Ali, no
meio do campo, o movimento abolicionista ganha impulso e inspira outras ações
na mesma direção no resto do Estado. Com o predomínio de lideranças brancas,
porque elas mandavam, aliadas a líderes negros emergentes.
Alguém
imagina algo parecido hoje, em qualquer parte do Brasil, diante da reação quase
escravocrata dos brancos ricos e da classe média que se negam a extinguir a
escala 6 X 1?
Onde
pode ser encontrado alguém do porte de um Barão do Ibirocay, que ganhou o
título do Império por ser um
abolicionista? Há abolicionistas hoje na elite brasileira, que ainda é flagrada
explorando trabalho escravo?
Que
essa elite escravista, se não quer ler o negro José do Patrocínio, leia o
branco Fernando Henrique Cardoso em seu grandioso ‘Capitalismo e Escravidão no
Brasil Meridional’, de 1963, sobre os escravocratas gaúchos.
Que
leia os historiadores mais jovens Jônas Marques Caratti (autor de ‘O solo da
Liberdade’, Editora Unisinos) e Marcelo Santos Matheus (‘Fronteiras da
Liberdade’, da mesma editora), com histórias de gente, e não com as
controvérsias de novas teses sobre a escravidão. Dois livros com a palavra
liberdade nos títulos.
Leiam
os arquivos das Gazetas do Alegrete e do Rio e o jornal A Federação, o mais
importante do Rio Grande do Sul na época, o jornal de Júlio de Castilhos,
também abolicionista.
Leiam
os jornais dos positivistas e os folhetos e panfletos de cariocas, paulistas,
baianos, produzidos em defesa da
abolição. Não se atrapalhem com as acusações, repetidas hoje, de que tudo que
partia dos brancos era uma farsa. Não era.
Mas não
procurem nada parecido nos jornais das elites do século 21. Lembrem-se disso
que não é detalhe: A Província de São Paulo foi um jornal abolicionista, com
opiniões incisivas sobre o fim da escravidão.
Saibam
que A Província é o nome original do que se chama hoje O Estado de São Paulo, o
Estadão, que sabota o fim da escala 6 X
1, porque pode causar desagregação entre capital e trabalho. A elite branca
antes liberal foi absorvida pelo fascismo bolsonarista.
Este é
o título de um editorial recente do Estadão sobre o projeto: “Uma PEC feita
para palanque”. No melhor estilo do jornalismo usado como trincheira pelos
escravagistas. E que o Estadão, na sua origem, combatia.
A elite
brasileira e o jornalismo das corporações por ela produzido retrocederam ao que
existia de pior no começo do século 19, com chamadas como essa, para artigo de
Malu Gaspar no Globo: ‘PEC que acaba com escala 6 x 1 tem potencial para
emparedar o governo Lula’.
Quem
teria emparedado Lula, conforme a versão da direita? Está lá no texto de Malu
Gaspar: Erika Hilton, a autora da ideia considerada desastrosa. Erika é a
abolicionista do século 21. Uma ativista atrevida, articulada, transgressora,
negra e trans. E com mandato.
O texto
da colunista do Globo poderia estar em qualquer jornal defensor do escravismo
em 1888. Tentem, sem muito esforço, ver como jornalistas do século 21
abordariam em suas colunas as campanhas contra a escravidão no final do século
19.
(Tenho
a honra e a ostentação de dizer que, entre 1970 e 1973, trabalhei na Gazeta de
Alegrete, o jornal criado em 1882 para lutar pelo abolicionismo. Comecei minha
lida de repórter num jornal criado para lutar pela abolição. A Gazeta circula
até hoje.)
• . A Cruzada democrática com seus
fantoches e capitães do mato. Por Valéria Guerra Reiter
As
Cruzadas Medievais foram movimentos militares e religiosos que surgiram como
respostas ao apelo do Papa Urbano II em 1095, durante o Concílio de Clermont,
para libertar a Terra Santa do domínio muçulmano. As Cruzadas nunca defenderam
um Jesus que deu a outra face. O número de mortos oriundos da cruenta marcha
por Jesus Cristo foi estimado entre 1 e 3 milhões de pessoas ao longo de todo o
período, incluindo cristãos, muçulmanos e judeus.
“Thawanna
da Silva Salmázio, 31 anos, foi morta com um tiro no peito pela policial
militar Yasmin Cursino Ferreira, 21, durante abordagem na Cidade Tiradentes,
Zona Leste de SP, na madrugada de 3 de abril de 2026. Imagens de câmera
corporal registraram o disparo após uma briga e uma espera de mais de 30
minutos por socorro".
“Um
vídeo de uma mulher negra sendo contida e colocada à força dentro de uma
viatura, pela Polícia Militar, tem causado comoção nas redes sociais. O caso
ocorreu na Avenida Paulista, na tarde de sexta-feira".
Os dois
casos frisados acima são “os visíveis” do momento, ou seja, duas gotas no mar
da truculência exercida pelos novos capitães do mato da nossa República
democrática, especialmente no Estado de São Paulo. Este é o modus operandi que
controla e inibe a população periférica no Brasil.
Enquanto
bilhões voavam das mãos de corruptos — vide o caso do RIOPREVIDÊNCIA, MASTER,
INSS —, o trabalhador brasileiro é tratado a pontapés por um braço forte do
Estado: a polícia.
A
democracia é um totem conjuntural, ou funciona como uma rainha que prende e
arrebenta os súditos reclamantes e mal remunerados dentro de sua estrutura?
Acho que, muito pelo contrário, ela possui um códex promulgado, chamado
Constituição, que, em seu artigo 5º, garante igualdade a todos. Não é?
Ao
longo da história do Brasil republicano, tivemos a alternância de poderes
democráticos e ditatoriais. A Independência brasileira, por sinal, legou uma
Constituição (1824) constituída por um poder moderador, que dava plenitude de
ação a D. Pedro I, até mesmo para dissolver o parlamento à época. Era uma
prerrogativa pessoal e inviolável do soberano, exercida com o auxílio de um
Conselho de Estado.
E o que
temos para hoje?
Um povo
que ainda é “público”, como disse Lima Barreto, uma população que flutua na
torpeza, no mar de políticos que representam uma elite burguesa, que só pensa
em maximizar ganhos, seja por meio de fraudes milionárias, como o caso do banco
Master, INSS e outros escândalos, ou por meio da sonegação de políticas reais
que estimulem a mobilidade social dos menos favorecidos.
O
Projeto de Lei 1424/26, da deputada Tabata Amaral (PSB-SP), por exemplo,
equipara o antissemitismo ao crime de racismo, com pena de reclusão de 2 a 5
anos e multa, e sem possibilidade de prescrição ou fiança. O texto está em
análise na Câmara dos Deputados.
São
atitudes como esta que comprovam que há uma involução regimental na estrutura
dos poderes constituídos, que coloca no poder “mentes fantoches” advindas de um
torpe imperialismo abjeto
Fonte:
Brasil 247

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