Entre
a percepção e a realidade: como o camaleonismo político captura a insatisfação
social
O
camaleão é um réptil que por sua estrutura biológica altera sua aparência para
se adaptar ao ambiente e garantir sua sobrevivência. De modo análogo, certos
políticos mudam várias vezes de partido e relativizam o discurso conforme as
circunstâncias, adaptando suas posições não por convicção, mas por
conveniência. Ciro Gomes insere-se nessa categoria de comportamento político
essencialmente oportunista.
Contudo,
há uma diferença fundamental. O camaleão altera sua aparência como um mecanismo
natural de sobrevivência, uma resposta instintiva e necessária para preservar a
própria vida diante de ameaças do ambiente. Já no caso de certos políticos, a
exemplo de Ciro Gomes, essa mudança de posicionamento não decorre de uma
necessidade vital, mas de um cálculo estratégico orientado por um desmedido
projeto de poder. Enquanto o réptil se adapta para continuar existindo, o
político adapta seu discurso e suas alianças por conveniência, muitas vezes a
qualquer preço, visando manter ou ampliar sua influência no cenário político.
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Nesta
semana, o PSDB voltou ao noticiário. O deputado Aécio Neves convidou o
contraditório Ciro Gomes a considerar uma candidatura à Presidência. Aécio
justificou o convite como um apelo para que Ciro lidere um caminho
"liberal na economia e inclusivo no social". Trata-se de uma
formulação populista que esconde ambiguidades profundas, tentando conciliar um
projeto de mercado que historicamente amplia desigualdades com promessas de
justiça social.
Essas
razões são apenas uma construção discursiva para suavizar contradições
estruturais. Ao mesmo tempo em que privilegia o capital, o discurso reivindica
um compromisso social que suas próprias diretrizes econômicas tendem a
inviabilizar. Em síntese, é uma falácia neoliberal que se sustenta mais na
aparência do equilíbrio do que na viabilidade concreta da justiça.
Nesse
ambiente marcado por oportunismos, surge um personagem cuja trajetória recente
é definida por uma crescente descredibilidade. Desde 2018, Ciro constrói um
percurso permeado por inconsistências ideológicas. Sua longa peregrinação
passando por PDS (herança da ditadura), PMDB, PSDB, PPS, PSB, PDT e retornando
agora ao ninho tucano evidencia uma adaptação meramente ajustada às
conveniências do momento, e não um amadurecimento político.
Em
eleições presidenciais anteriores, apesar de manter uma pequena fatia
resiliente do eleitorado, Ciro se sustentou por meio de um discurso
desenvolvimentista que, à primeira vista, aparentava consistência. No entanto,
seus resultados eleitorais revelaram limites claros, pois jamais ultrapassou
12,47% dos votos válidos e, em 2022, obteve apenas 3,4%. Esse desempenho
decrescente não pode ser dissociado de sua inconstância política. Para agravar
o quadro, em 2025 buscou aliança com o PL no Ceará, partido associado ao
bolsonarismo, explicitando a elasticidade de seus princípios frente ao desejo
de poder. Ao manter uma indecisão calculada sobre o convite de Aécio, Ciro
preserva capital em múltiplas frentes, convertendo o dilema ético em
instrumento de autopromoção. Sua candidatura, caso se concretize possivelmente
acirrará mais ainda a corrida eleitoral.
O
quadro se agrava ao se constatar que os demais candidatos da direita e extrema
direita estão profundamente alinhados a agendas neoliberais, ultra privatistas
e submissos a interesses estrangeiros. É alarmante que figuras como Flávio
Bolsonaro apareçam nas pesquisas de intenção de voto, com pontuações elevadas,
beirando um empate técnico com Lula, apesar de uma trajetória marcada por
denúncias de "rachadinhas", patrimônio incompatível com a renda e uma
postura política submissa e entreguista a interesses externos, especialmente
aos Estados Unidos.
É nessa
materialidade que se aprofunda o contraste entre a proposta progressista de
reeleição e a alternativa da extrema direita. De um lado, Luiz Inácio Lula da
Silva, cuja trajetória transcende o plano interno e se projeta
internacionalmente como a de um estadista. Além desses atributos, seu governo
tem se projetado por um desenvolvimento econômico sustentável, com indicadores
relevantes traduzidos por níveis consistentes de emprego, controle
inflacionário dentro de parâmetros administráveis e retomada de políticas
redistributivas, com maior incidência tributária sobre as camadas mais ricas.
Do
outro lado, emerge o legado do bolsonarismo, que fragilizou instituições e
deteriorou a economia. Esse estilo deletério de governar desdobra-se em figuras
como Romeu Zema. Sua atuação em Minas Gerais foi marcada pelo enfraquecimento
de políticas para grupos vulneráveis e cortes na saúde e educação, enquanto
ampliava gastos com publicidade.
Esse
cenário tornou-se ainda mais preocupante diante de declarações públicas que
colocaram em xeque marcos históricos e direitos básicos. Ao relativizar a
existência da ditadura militar no Brasil, tratando-a como uma “questão de
interpretação” e afirmando desconhecimento sobre o tema, Zema evidenciou não
apenas lacunas significativas em sua formação política, mas também um discurso
que tangencia o revisionismo histórico. Seu plano de governo, caso seja eleito
para presidir o país, propõe mudanças estruturais no STF. Fica clara sua
intenção de "fazer média" com o eleitor em meio a críticas
recorrentes à instituição, potencializadas pela mídia corporativa no sentido de
descredibilizar o STF junto à opinião pública. Também prevê a anistia a Jair
Bolsonaro, a privatização absoluta das empresas públicas e aprofundamento das
reformas trabalhista e previdenciária.
Na
mesma direção, outras lideranças desse espectro político, como Ronaldo Caiado
(PSD), historicamente vinculado a interesses do latifúndio e a uma agenda
conservadora, privatista e de redução de gastos com políticas públicas. Durante
seu governo foi alvo de acusações de nepotismo e marcado por índices elevados
de letalidade policial, elementos que reforçam um padrão de gestão associado à
violência institucional e à fragilização de mecanismos de controle democrático.
Caiado também promete, entre suas propostas de governo, a anistia ampla, geral
e irrestrita não apenas a Jair Bolsonaro, mas a todos os envolvidos em
tentativas de ruptura institucional. Fica visível sua pretensão de angariar
votos da ala bolsonarista.
Nesse
sentido, a comparação entre trajetórias, capacidades de governança e
compromissos históricos expõe diferenças substantivas que não podem ser
obscurecidas por estratégias eleitorais, pela desinformação disseminada em
larga escala ou por discursos calculistas que se alimentam da instabilidade e
da confusão social.
Ao
retomarmos os dados mais recentes dos institutos de pesquisa, observamos que os
avanços do atual governo não estão se refletindo automaticamente em
estabilidade eleitoral, especialmente diante de uma guerra de narrativas
digitais impulsionada pela oposição. Diante desse fenômeno, surge uma indagação
recorrente acerca do crescente distanciamento político entre os jovens e
segmentos da classe média brasileira. Não se trata de um fenômeno superficial,
mas de um sintoma claro de desgaste na relação dessas parcelas da sociedade com
a política institucional.
No caso
da classe média, a insatisfação está fortemente associada ao custo de vida, ao
endividamento e à inadimplência, fatores que se mantêm mesmo diante de sinais
de recuperação da renda, produzindo um sentimento difuso de frustração. Soma-se
a isso o impacto de variáveis externas, como tensões geopolíticas que
pressionam preços estratégicos, e a manutenção de taxas de juros elevadas no
Brasil, que corroem o poder de compra e empurram famílias para mecanismos de
crédito oneroso, como o rotativo do cartão e o cheque especial. Esse conjunto
de fatores gera uma percepção contraditória: ainda que indicadores
macroeconômicos apresentem melhora, o orçamento doméstico segue pressionado,
diluído por dívidas acumuladas.
Entre
os jovens, o quadro é igualmente preocupante. Pesquisas indicam que mais de 70%
da chamada geração Z não se sente representada pelos políticos tradicionais, o
que alimenta apatia, descrença e afastamento do processo eleitoral.
Diferentemente de gerações anteriores, observa-se uma tendência maior de
identificação com posições de centro ou até de direita, acompanhada por um
ceticismo crescente à medida que avançam na vida adulta. Esse deslocamento está
diretamente relacionado à percepção de um futuro incerto, no qual a necessidade
de trabalhar por mais tempo, a instabilidade previdenciária e o enfraquecimento
de garantias sociais projetam um horizonte de insegurança permanente.
Todavia,
o ponto crítico, reside no fato de que essa insatisfação vem sendo
instrumentalizada por forças políticas que oferecem respostas fáceis para
problemas complexos, ao mesmo tempo em que defendem agendas que aprofundam
exatamente as condições que geram esse mal-estar. Há, portanto, um evidente
descompasso entre a causa da insatisfação e a direção do voto de parte do
eleitorado.
É nesse
panorama que a escolha eleitoral assume um caráter decisivo. Trata-se de uma
disputa entre propostas antagônicas de sociedade. De um lado, um projeto
progressista que, ainda que sob fortes pressões internas e externas, busca
recompor políticas públicas, reduzir desigualdades e preservar instrumentos de
proteção social. De outro, um projeto neoliberal que, sob o discurso de
eficiência e modernização, promove o desmonte do Estado, a privatização de
direitos com a transferência sistemática de renda para uma minoria privilegiada
financeiramente.
A
contradição é evidente. Ao canalizar sua insatisfação em direção a projetos que
aprofundam a desigualdade, parte significativa da população acaba votando
contra seus próprios interesses materiais. E é justamente aí que reside o risco
maior.
Ao
contrário do que sugerem as promessas de mudança apoiadas no ideário de
mercado, a evidência empírica recente indica que tais orientações não produzem
alívio distributivo, mas tendem a aprofundar assimetrias exponenciais.
Diferente do camaleão, que muda de cor para se proteger do predador, o
camaleonismo político muda de discurso para predar a esperança de quem está
insatisfeito. A experiência argentina sob Milei prova que ajustes radicais não
produzem alívio, mas precariedade perversa.
Diante
disso, a escolha que se impõe não se circunscreve ao plano estritamente
político eleitoral, mas na continuidade da busca de qualidade de vida dos
brasileiros. Ou se fortalece um projeto comprometido com inclusão,
redistribuição de renda e desenvolvimento social, ou se aprofunda um modelo que
transforma a frustração presente em precariedade permanente.
Fonte:
Por Elisabeth Lopes, em Brasil 247

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