terça-feira, 21 de abril de 2026

Bahia: Ex-diretora de presídio diz que Geddel receberia R$ 1 milhão, segundo afirmou ex-deputado preso

A ex-diretora do Conjunto Penal de Eunápolis, Joneuma Silva Neres, disse que facilitou a fuga de 16 detentos da unidade, em dezembro de 2024, a pedido do ex-deputado federal Uldurico Júnior (PSDB). A revelação foi feita em delação premiada assinada com o Ministério Público da Bahia (MP-BA). As investigações do órgão culminaram na prisão do político, na quinta-feira (16). Ele nega o crime.

<><> Durante a delação, Joneuma Neres:

•        assumiu que tinha conhecimento da negociação e do plano realizado para a fuga dos internos, e agiu com negligência;

•        confirmou que foi nomeada como diretora do Conjunto Penal de Eunápolis por indicação de Uldurico Júnior, com quem teve um relacionamento amoroso.

Joneuma contou para o Ministério Público que conheceu Uldurico Júnior quando trabalhava na Unidade Prisional de Teixeira de Freitas. No local, ela ocupava um cargo administrativo.

Conforme o relato de Joneuma, Uldurico já havia indicado diretores para o comando da unidade. Ela afirmou que o político costumava conversar com os internos e, por vezes, levava outras pessoas nessas visitas, como alguns vereadores. As conversas com os internos eram feitas "de portas fechadas" e eram tidas como "normal", segundo a ex-diretora.

Joneuma foi nomeada como diretora do Conjunto Penal de Eunápolis em 14 de março de 2024. Ela lembrou que, no dia seguinte, Uldurico compareceu ao presídio acompanhado de várias pessoas, entre elas o candidato a vereador Alberto Cley Santos Lima, conhecido como Cley da Auto Escola, então filiado ao PSD.

Assim como fazia na unidade prisional de Teixeira de Freitas, Uldurico Júnior teria solicitado uma conversa com os chefes de todas as facções custodiados no presídio de Eunápolis. Joneuma contou que atendeu ao pedido após se sentir pressionada.

Informou ainda que, uma semana depois, Uldurico Júnior retornou à unidade, com as mesmas pessoas, para conversar com os mesmos internos. Entre os detentos estavam "Ednaldo", mais conhecido como Dada, chefe da facção criminosa Primeiro Comando de Eunápolis (PCE); "Sirlon", o Saguin, apontado como sub-líder da facção; "Luquinhas", "Juan Pablo" e "Cascão", que seriam os representantes de cada ala.

Joneuma confessou que liberou regalias aos internos a pedido do ex-deputado federal, como apontado pela investigação do MP-BA. A lista contava com cardápio especial e um freezer.

<><> Adiantamento da fuga

Ainda na delação, Joneuma Neres ressaltou que tinha conhecimento da fuga, relatou que os internos do núcleo principal da facção Primeiro Comando de Eunápolis (PCE) já ficavam na mesma cela, e que os detentos Ednaldo Pereira Souza (Dada) e Sirlon Risério Dias Silva (Saguin) tinham as chaves da cela em que ficavam.

Ela acrescentou ter conhecimento de que os internos estavam com uma furadeira e que iriam fazer um buraco na cela. Quando ouviu o barulho, tentou acobertar.

A fuga, que aconteceu em 12 de dezembro de 2024, estava combinada para ser realizada no último dia do ano. Joneuma tinha, inclusive, pedido férias a partir do Natal, para que não estivesse presente quando o plano ocorresse.

No entanto, de acordo com a delação de Joneuma Neres, Ednaldo foi informado por um policial que haveria fiscalização no presídio e que ele seria transferido. Com isso, a fuga foi adiantada.

A ex-diretora do presídio detalhou que, ainda em 2024, encontrou um buraco na cela de Dada e uma arma com munição no local. Para ela, o homem teria contado que tinha comprado o revólver por R$ 100 mil através do mesmo policial.

Joneuma ressaltou que não recebeu dinheiro para facilitar a fuga dos internos.

Ela também foi questionada sobre a liberação de um velório dentro do presídio. O corpo velado era do parente de um dos detentos.

Nesse caso específico, Joneuma pontuou que deu o aval após descobrir que cerimônias semelhantes já haviam sido feitas no local, e por entender que a entrada do caixão na unidade não seria algo ilícito, mas sim uma "atitude humanitária".

O g1 e a TV Bahia obtiveram acesso ao documento da delação, registrada no dia 9 de fevereiro deste ano. Nele, Joneuma Neres, que ficou presa por mais de um ano, mas deixou o presídio há um mês para cumprir prisão domiciliar, detalhou a participação dela e de outras pessoas no crime.

O ex-ministro Geddel Vieira Lima (MDB) é um dos políticos citados na delação premiada da ex-diretora do Conjunto Penal de Eunápolis, Joneuma Silva Neres. Ela firmou um acordo de colaboração com o Ministério Público da Bahia (MP-BA), detalhando como facilitou a fuga de 16 detentos do presídio em dezembro de 2024.

No documento a que o g1 e a TV Bahia obtiveram acesso, Joneuma disse que a negociação foi feita pelo ex-deputado federal Uldurico Júnior (PSDB), que previa o recebimento de R$ 2 milhões para favorecer a fuga de dois líderes criminosos. Ele teria dito que metade desse dinheiro seria para Geddel.

À época, Uldurico estava filiado ao MDB, partido que tem Geddel como uma de suas lideranças na Bahia. O ex-ministro, que não é investigado na ação, negou qualquer envolvimento com o caso.

"Ela diz coisas não sobre mim, mas que ele disse para ela. No fundo, ele estava vendendo meu nome descaradamente para acalmar ela, como se eu fosse protegê-lo. O inquérito da polícia mostra quem recebeu o suposto dinheiro. O pai dele, outros vereadores, com PIX, e não faz nenhuma referência a mim", disse Geddel em entrevista ao g1.

De acordo com a delação de Joneuma, Uldurico se referia a Geddel como "chefe" e encaminhava mensagens supostamente enviadas pelo correligionário, cobrando o repasse dos valores.

Geddel disse que recebeu com "profunda indignação" a notícia de que foi citado no caso. "Fui colega do pai e dos tios desse rapaz, ele foi candidato a prefeito de Teixeira de Freitas, o partido [MDB] tentou ajudar... Sempre tratei ele com carinho e fui surpreendido com a delação dessa mulher, que eu nunca vi, não sei quem é, nunca tive relação", ressaltou.

Para Geddel, Uldurico é "irresponsável, inconsequente e leviano". Ele disse que se sentiu "apunhalado" pelas supostas declarações do ex-aliado político. "Trata-se de uma conversa entre dois criminosos. Ele certamente vendendo meu nome para tentar acalmar a cúmplice dele nesse crime horrível que cometeram", acusou.

Uldurico também negou o crime. A defesa dele afirmou que todas as alegações da delação são falsas, com intuito de se livrar da responsabilidade.

"Uldurico jamais teve conhecimento de plano algum de fuga, nem recebeu dinheiro nenhum por tal fato, o que pode ser facilmente comprovado. Tanto a defesa quanto o acusado estão colaborando com a Justiça para que a verdade prevaleça", disse a defesa do ex-deputado.

O g1 tentou contato com a defesa de Joneuma, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.

<><> Passo a passo da negociação com criminosos

Joneuma disse ao MP-BA que facilitou a fuga dos detentos a pedido de Uldurico. O político foi preso na quinta-feira (16) em meio às investigações do órgão.

Já Joneuma ficou presa por mais de um ano, mas deixou o presídio há um mês para cumprir prisão domiciliar. Na delação, registrada em 9 de fevereiro deste ano, ela detalhou a participação dos envolvidos no esquema da fuga.

A ex-diretora relatou que os internos do núcleo principal da facção Primeiro Comando de Eunápolis (PCE) já ficavam na mesma cela, e que os detentos Ednaldo Pereira Souza, o Dada, apontado como chefe da facção Primeiro Comando de Eunápolis (PCE), e Sirlon Risério Dias Silva (Saguin), o subchefe, tinham as chaves da cela em que ficavam.

Ela acrescentou ter conhecimento de que os internos estavam com uma furadeira e que iriam fazer um buraco na cela. Quando ouviu o barulho, tentou acobertar.

A fuga, que aconteceu em 12 de dezembro de 2024, estava combinada para ser realizada no último dia do ano. Joneuma tinha, inclusive, pedido férias a partir do Natal, para que não estivesse presente quando o plano ocorresse.

No entanto, de acordo com a delação, Dada foi informado por um policial que haveria fiscalização no presídio e que ele seria transferido. Com isso, a fuga foi adiantada.

A ex-diretora do presídio detalhou que, ainda em 2024, encontrou um buraco na cela de Dada e uma arma com munição no local. Para ela, o homem teria contado que tinha comprado o revólver por R$ 100 mil através do mesmo policial. Joneuma ressaltou que não recebeu dinheiro para facilitar a fuga dos internos.

Ela também foi questionada sobre a liberação de um velório dentro do presídio. O corpo velado era do parente de um dos detentos.

Nesse caso específico, Joneuma pontuou que deu o aval após descobrir que cerimônias semelhantes já haviam sido feitas no local, e por entender que a entrada do caixão na unidade não seria algo ilícito, mas sim uma "atitude humanitária".

<><> Negociação com Uldurico Júnior

Segundo Joneuma Neres, em 14 de outubro de 2024, após ter perdido a eleição para prefeito de Teixeira de Freitas, Uldurico Júnior compareceu à cidade de Eunápolis, pressionando-a para ter mais contato com Dada, chefe da facção PCE. O objetivo, de acordo com ela, seria conseguir recursos financeiros.

De acordo com Joneuma Neres, Uldurico Júnior afirmou que precisava de dinheiro com urgência para prestar contas e pagar determinadas pessoas com quem ele tinha dívidas. Em meio a isso, ela afirmou que Uldurico negociou a fuga com Dada por R$ 2 milhões.

<><> Entenda a negociação, conforme relato da ex-diretora ⬇️

•        Em 2 de novembro de 2024, Joneuma e Uldurico Júnior estavam em um hotel, em Eunápolis, quando o candidato a vereador Alberto Cley e a esposa dele trouxeram uma pessoa de confiança de Dada, que saiu do veículo de Cley e entrou no veículo do ex-deputado federal.

•        No veículo, estavam Uldurico Júnior (no volante), Joneuma ao seu lado, e a pessoa de confiança de Dada no banco traseiro. Essa pessoa ligou do celular dela para Dada e realizou uma chamada em modo viva-voz.

•        Na ocasião, foi firmado o acordo de facilitação da fuga em troca dos R$ 2 milhões.

•        O valor seria pago em espécie no dia 31 de dezembro, na cidade de Porto Seguro, quando um funcionário de Dada levaria o dinheiro para a casa de um primo de Uldurico.

•        No entanto, o ex-deputado federal informou que necessitava com urgência de um adiantamento de R$ 350 mil. Dada teria aceitado adiantar o pagamento de R$ 200 mil antes da data da fuga.

<><> Como foi feito o adiantamento?

Segundo a delação de Joneuma Neres, a entrega do dinheiro do adiantamento ocorreu da seguinte maneira ⬇️

•        Na noite de 4 de novembro de 2024, a ex-diretora foi sozinha a uma residência no bairro Juca Rosa, que tinha um adesivo com o nome “CLEY” colado no muro, parou o carro em frente à casa e uma pessoa da confiança de Dada a entregou o dinheiro em uma caixa de sapato.

•        No dia seguinte, ela entrou em contato com o pai de Uldurico Júnior, Uldurico Alves Pinto, via aplicativo de mensagens, perguntando onde deveria encontrá-lo para entregar o dinheiro.

•        Joneuma disse que ela entregou o dinheiro, na mesma caixa de sapato, na casa do pai do ex-deputado federal, em Teixeira de Freitas, conforme acertado com ele.

•        Informou que estavam presentes na residência o pai de Uldurico Júnior, a madrasta dele, uma funcionária doméstica e um assessor da família.

•        O assessor teria conferido o dinheiro e o pai de Uldurico ficou com R$ 150 mil.

Em relação ao restante do dinheiro, Joneuma disse que depositou R$ 21.600,00 na conta de Uldurico Júnior e realizou um PIX de R$ 24 mil para a conta de um outro homem.

Depois do pagamento do adiantamento de R$ 200 mil, Uldurico Júnior teria passado a pedir que Joneuma intermediasse a comunicação com Dada. A ex-diretora informou que as reuniões que teve sozinha com o detento no presídio tinham o objetivo de realizar esta negociação e ganhar a confiança do traficante para que ele adiantasse mais valores.

Joneuma afirmou ainda que o ex-deputado federal pediu mais R$ 100 mil de adiantamento, mas Dada negou e ressaltou que só faria o restante do pagamento após a fuga.

<><> O que dizem as defesas

O g1 e a TV Bahia entraram em contato com a defesa de Joneuma, mas não receberam resposta até a última atualização desta reportagem.

A defesa de Uldurico Júnior informou que todas as alegações da delação são falsas, com intuito de se livrar da responsabilidade.

"Uldurico jamais teve conhecimento de plano algum de fuga, nem recebeu dinheiro nenhum por tal fato, o que pode ser facilmente comprovado. Tanto a defesa quanto o acusado estão colaborando com a Justiça para que a verdade prevaleça", afirmou.

Em nota, a Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização (Seap) informou que tem colaborado "de forma irrestrita" com todas as informações necessárias à investigação, desde que a fuga em massa ocorreu.

O portal não conseguiu contato com as defesas de Alberto Cley Santos Lima, o Cley da Auto Escola, e de Uldurico Alves Pinto, também político e pai do ex-deputado preso.

•        Ex-deputado já foi o mais jovem eleito do país e queria ser presidente

O ex-deputado federal Uldurico Júnior (PSDB), preso nesta quinta-feira (16) por suspeita de negociar R$ 2 milhões para facilitar a fuga de 16 detentos na Bahia, já foi o mais jovem eleito para o cargo no país e sonhava em ser presidente.

Além do pai, o avô materno e dois tios de Uldurico estiveram no mundo da política também no cargo de deputado federal. Inclusive, foi quando a família morava em Brasília (DF) que ele nasceu.

Quando ocupou o cargo pela primeira vez, em 2014, o político tinha 22 anos. Chegou a se reeleger em 2018, mas abandou a função dois anos depois para se candidatar a prefeito de Porto Seguro.

Depois disso, tentou ainda ser deputado federal mais uma vez em 2022 e prefeito de Teixeira de Freitas em 2024, mas não obteve sucesso em nenhuma das ocasiões.

Foi exatamente nessa última tentativa que, segundo o Ministério Público da Bahia (MP-BA), Uldurico pode ter feito uma aliança com chefes de facções criminosas da região. O político negou qualquer irregularidade.

Antes de ser preso em um hotel localizado em Praia do Forte, distrito turístico de Mata de São João, na Região Metropolitana de Salvador (RMS), Uldurico já tinha sido alvo de uma operação da Polícia Federal (PF) na última terça-feira (14).

Conforme a investigação, o objetivo da suposta aliança seria conseguir votos entre os detentos, familiares e moradores de áreas controladas pelos criminosos.

Para isso, o político teria contado com a ajuda de Joneuma Silva Neres, que foi diretora do Conjunto Penal de Eunápolis.

As investigações apontam que a gestora mantinha um relacionamento com Ednaldo Pereira de Souza, o Dadá, que é apontado como chefe do grupo criminoso e está entre os homens que fugiram.

A denúncia detalha que ela começou a trabalhar politicamente a favor da organização criminosa e organizava encontros entre Dadá e Uldurico Júnior.

Uldurico seria padrinho político de Joneuma e a teria indicado para o cargo de diretora do presídio. A ex-diretora alega que Uldurico é pai da filha dela, cujo nascimento aconteceu enquanto ela estava presa em 2025.

Ela nega o relacionamento com Dadá e segue pedindo o reconhecimento da paternidade da filha pelo ex-deputado Uldurico. A defesa de Joneuma afirma que um exame de DNA, que está em poder da família, comprovaria o vínculo.

Em nota enviada à TV Bahia, a defesa de Uldurico Júnior informou que o cumprimento dos mandados de busca e apreensão foi recebido com surpresa. Afirmou ainda que está à disposição das autoridades para esclarecimentos, negou qualquer irregularidade e enfatizou que isso será provado.

Sobre a suposta paternidade da filha de Joneuma, a defesa do ex-candidato afirma que não foram informados do laudo em posse da família da ex-diretora. Além disso, informa que a realização de um teste em um laboratório de confiança do político já foi solicitada.

 

Fonte: g1

 

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