Pedro
Salomon Bezerra Mouallem: Um governo depois de tudo
Uma
curiosa dissonância entre autoimagem e práticas concretas marca a política
brasileira. No campo político conservador, isso não é novidade alguma. Há muito
tempo entiestatistas ganham a vida com recursos públicos, moralistas agem
apenas por puro interesse, meritocratas atuam para favorecer seu círculo
social, etc. Por isso, também não há surpresas – embora seja escandaloso e,
possivelmente, inédito quanto à explicitude – quando o patriota Flávio
Bolsonaro oferece terras raras brasileiras como solução para os Estados Unidos
em sua disputa com a China.
O
descompasso, contudo, alcança outras faixas do espectro político. Como não
estranhar a fala recente de Lula de que, se depender dele, “a gente fecha as
bets”? Após quatro anos de governo e do trabalho árduo de seu Ministério da
Fazenda para regulamentar casas de apostas online ainda no primeiro ano de
gestão (o que, vale dizer, ajudou a arrecadar R$ 9,95 bilhões em tributos
apenas em 2025), a manifestação soa como afterthought.
De
fato, há muitas razões para limitar severamente esse tipo de atividade
econômica, incluindo dinâmicas de vício e comprometimento financeiro de seus
usuários. Há ainda razões mais profundas. Empresas de apostas tiveram receita
de R$ 37 bilhões em 2025 no Brasil, e alcançaram 25,2 milhões de brasileiros. A
popularização massiva da atividade encontra afinidade com o ethos de uma
economia de empreendedores, que admira bilionários e rejeita a prisão de um
trabalho celetizado.
Essa,
por sua vez, alimenta os sonhos de milhões de indivíduos cujos postos precários
não os proíbem de sonhar com o enriquecimento. Com um patamar de 37,5% da
população na informalidade, sem direitos trabalhistas e previdenciários, a
esperança subir rapidamente na vida ganha um sentido não trivial. Como realizar
um governo capaz de ampliar direitos e reduzir a precaridade que se tornou o
eixo da vida econômica no país sem avançar em um debate público politizado
sobre o tema?
Isso
sem dizer o quanto a pervasividade das propagandas das bets, seu dinheiro
volumoso e sem propósito claro, ainda legitimam e fortalecem atividades
criminosas, incluindo lavagem de dinheiro do crime e evasão de divisas, o que
aprofunda sensivelmente o problema e o sentido de uma economia da aposta.
Obviamente, não foi o governo Lula que legalizou as bets e tampouco a economia
de especulação, mas por qual razão isso se tornou uma questão somente em 2026?
Aliás,
como o governo, “no que dependia apenas dele”, avançou na compreensão pública
(e não apenas de seus técnicos) do fenômeno: como a consistente
desindustrialização no país contribui e se intensifica a partir desse tipo de
economia, qual a participação das apostas no crescente endividamento das
famílias brasileira, quem tem ganhado e quem tem perdido com essa forma de
organização econômica e, mais importante, como o governo almejava construir
politicamente alternativas a ela? Nenhuma dessas perguntas, tampouco suas
respostas, orientaram a construção política do governo nos últimos quatro anos.
Em
sentido semelhante, ouvir Fernando Haddad falar sobre o futuro do socialismo
depois de três anos de ortodoxia econômica à frente do Ministério da Fazenda
gera algum assombro. É como se, assim como a proibição às bets, as alternativas
de uma esquerda radical pudessem ressurgir somente agora, antes de novas
eleições, momento em que a política precisa ir além das salas e dos corredores
de Brasília.
Estariam,
até então, interditadas nas salas oficiais onde somente adultos são autorizados
a falar? Onde estaria a “imaginação socialista” para ampliar, quem sabe, a
discussão política sobre a governança da moeda no país? Dizendo mais
diretamente, por que não aproveitar a janela da última eleição para ampliar o
debate público sobre o que hoje inclui o regime fiscal “sustentável”, do
próprio Haddad, a política monetária absolutamente conservadora de um Banco
Central independente, e um mercado de crédito caro e restrito ao curto prazo no
país.
Muito
mais excêntrica é a defesa por Gleisi Hoffmann, ex-presidente nacional do
Partido dos Trabalhadores e ministra-chefe da Secretaria de Relações
Institucionais da Presidência da República, nesse governo, de que passadas as
próximas eleições seria hora de pensar em uma reforma do Judiciário. Não havia
motivos suficientes para isso há quatro anos?
Os usos
seletivos e excepcionais de competências legais por juízes, ministros,
promotores e procuradores, para não falar nos muitos conluios, não
justificariam uma atuação política mais organizada ainda em 2023? Os
supersalários e privilégios incontáveis, os conflitos de interesse denunciados
aos quatro cantos da terra não criaram momentum ao menos para ampliar o debate
público de modo mais contundente? Aliás, vale dizer que esses elementos tiveram
papel decisivo na degradação política brasileira na última década e qualquer
tentativa de retomar o rumo democrático exigiria uma atenção particular. E esse
é um ponto central.
As
eleições de 2022 foram vividas socialmente como uma espécie de
redemocratização, após o país ver o abismo autoritário sob Jair Bolsonaro. A
vitória de Lula, embora repleta de compromissos, só poderia produzir o efeito
de renovação democrática se tratasse a excepcionalidade de seu mandato como
tal. Não seria, era evidente, um governo qualquer. Sendo assim, seria momento
de discutir todas as questões sugeridas acima (e muitas outras), não apenas
como objetos de políticas públicas pontuais, mas como temas a serem
compreendidos, disputados e pactuados pública e politicamente.
Ao não
fazê-lo, o governo viu-se nas cordas do início ao fim do mandato,
encontrando-se agora sob o risco de entregar o poder ao patriota Flávio. Não
era obrigação consertar toda a destruição de direitos promovida com afinco
desde a remoção de Dilma Rousseff do poder, mas era obrigação tematizar
constantemente e construir consciência política sobre o processo limítrofe
vivido pelo país.
Contudo,
parece haver ainda no governo uma confiança inabalável de que policies
determinam a politics, como sintetiza o jargão das ciências sociais. Isto é, de
que políticas públicas criam sua própria dinâmica política e que seus
beneficiários, a partir de então, as defenderão politicamente. Foi assim que se
construiu o reformismo fraco lulista nos últimos governos. Mas em um país com
instituições fragilizadas, com ódio político em alta, e com muito mais poderes
de veto do que antes, a estratégia tornou-se pouco realista. Ainda menos em um
mundo de muitas crises simultâneas, no qual seria ingênuo supor que os efeitos
inesperados de guerras, tarifas ou eventual catástrofe natural em alguma parte
do mundo não afetaria políticas locais.
Há
também uma leitura essencialmente estática das possibilidades conjunturais
diante do poder conservador no país. É como se os limites institucionais da
relação com o congresso, o viés permanentemente liberal da imprensa e a própria
polarização política que vem dividindo o país ao meio fossem dados da realidade
e não, eles próprios, sujeitos à transformação política.
Não
existe, contudo, uma balança objetiva que sopese os recursos políticos do
governo diante de opositores, e cujo resultado seja a aferição inequívoca de
sua vitória ou derrota. É a própria matéria da política estabelecer a gramática
pela qual as disputas serão travadas, criar oportunidades e interesses, e assim
por diante.
Por
isso também, ampliar a compreensão sobre determinada questão, formular saídas
criativas, estabelecer compromissos legítimos demandam a construção e
fortalecimento de uma consciência política popular, o que esteve fora do radar
do governo. Quando membros do governo dissociam sua autoimagem das políticas
existentes ajudam a obstar uma discussão a sério sobre o que fazer para
reconstruir a democracia brasileira.
Tudo
isso se torna dramático quando se vê a extrema direita dobrando a esquina mais
uma vez.
• “Estamos reconstruindo o Estado”, diz
Lula em Hannover
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil está retomando sua
capacidade de planejamento e investimento público, ao destacar a importância da
indústria, da inovação e da cooperação internacional durante a abertura da
Hannover Messe 2026, na Alemanha.
Ao
relembrar sua trajetória pessoal e a história recente do país, Lula ressaltou
que, enquanto tecnologias brasileiras eram exibidas na feira em 1980, ele
estava preso por liderar uma greve operária durante o regime militar. “Nesse
exato 19 de abril, há 46 anos, enquanto tecnologias brasileiras eram expostas
aqui, eu era preso por liderar uma greve”, declarou.
O
presidente destacou as transformações desde então, como a redemocratização do
Brasil e a reunificação alemã, e afirmou que mudanças econômicas globais
afetaram a indústria nacional. “Os dogmas do Estado mínimo fragilizaram nossa
capacidade de planejamento e investimento”, disse.
Segundo
Lula, a retomada da indústria e da inovação ocorreu a partir de seus primeiros
mandatos e segue como prioridade. “Estamos reconstruindo a capacidade do Estado
para impulsionar o crescimento econômico e a inclusão social”, afirmou.
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Críticas ao cenário global
O
presidente apontou contradições no cenário internacional, com avanços
tecnológicos convivendo com conflitos armados. “Enquanto astronautas sobrevoam
a Lua, bombardeios matam de forma indiscriminada civis, mulheres e crianças”,
disse.
Lula
também criticou o uso da inteligência artificial em operações militares. “A
inteligência artificial nos torna mais produtivos, mas também é utilizada para
selecionar alvos militares sem parâmetros legais ou morais”, afirmou.
Ele
destacou ainda os impactos econômicos das guerras. “As guerras causam prejuízos
econômicos palpáveis”, disse, ao mencionar a alta no preço do petróleo e os
efeitos sobre alimentos e transporte.
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Defesa da cooperação internacional
O
presidente defendeu o fortalecimento do multilateralismo e criticou o
protecionismo. “O protecionismo ressurge como resposta falaciosa para problemas
econômicos e sociais complexos”, afirmou.
Lula
também apontou a necessidade de reformar instituições globais. “O novo
paradigma de desenvolvimento requer um multilateralismo justo e equilibrado”,
disse.
Ao
citar o acordo entre Mercosul e União Europeia, ele destacou seus impactos
econômicos. “Mais comércio e mais investimento significam novos empregos e
oportunidades dos dois lados do Atlântico”, afirmou.
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Energia limpa e papel do Brasil
O
presidente ressaltou o protagonismo brasileiro na transição energética.
“Produzimos biocombustíveis de forma sustentável, sem comprometer o cultivo de
alimentos ou derrubar florestas”, disse.
Lula
também reafirmou metas ambientais. “Temos um compromisso assumido de chegar ao
desmatamento zero na Amazônia até 2030”, afirmou.
Ele
destacou ainda o potencial do país em energia renovável. “Temos potencial para
produzir o hidrogênio verde mais barato do mundo”, disse.
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Economia, tecnologia e inovação
Lula
afirmou que o Brasil tem registrado crescimento econômico e avanços sociais
recentes. “Desde 2023, registramos crescimento superior à média mundial e
alcançamos o menor desemprego da nossa história”, declarou.
O
presidente também destacou investimentos em tecnologia e inovação. “A ciência
voltou ao centro do projeto de desenvolvimento nacional”, disse.
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Indústria 4.0 e futuro global
Ao
encerrar, Lula ressaltou a importância da cooperação internacional para o
avanço tecnológico. “A inovação é um esporte coletivo que se fortalece no
encontro de diferentes ideias e talentos”, afirmou.
Ele
concluiu defendendo a paz como base do desenvolvimento. “A paz e a cooperação
são os verdadeiros alicerces da prosperidade compartilhada”, disse.
• Em Hannover, Lula defende acordo
Mercosul-União Europeia e critica 'afirmativas falsas' contra o agronegócio
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defendeu o acordo entre União
Europeia e Mercosul e criticou restrições ao biocombustível brasileiro, ao
mesmo tempo em que rebateu questionamentos sobre a sustentabilidade da
agricultura nacional. A declaração foi feita neste domingo (19), durante a
abertura da Feira Industrial de Hannover, na Alemanha.
Em seu
discurso, Lula ressaltou que o acordo entre os blocos, com entrada em vigor
parcial prevista para 1º de maio, cria novas oportunidades comerciais, mas
alertou para os obstáculos impostos pelas políticas europeias.
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Acordo estratégico e impacto econômico
Durante
participação na abertura da Hannover Messe, em Hanôver, considerada a maior
feira industrial do mundo e que tem o Brasil como país de destaque nesta
edição,o presidente destacou a dimensão do acordo.
“Em
menos de duas semanas entra em vigor o acordo que cria um mercado de quase 720
milhões de pessoas e PIB de US$ 22 trilhões. Mais comércio, mais investimentos
significam novos empregos e oportunidades. Com maior integração produtiva
reforçamos a estabilidade das cadeias de suprimentos. Existem inúmeras
complementaridades ainda não exploradas. O Brasil pode ajudar a União Europeia
a diminuir o custo de energia e descarbonizar”, afirmou.
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Críticas a barreiras e defesa do biocombustível
Lula
também criticou medidas adotadas pela União Europeia que, segundo ele,
dificultam a entrada de biocombustíveis brasileiros. “É essencial que o bloco
leve em conta a matriz energética usada em nossos processos. Ainda combatemos
afirmativas falsas a respeito da sustentabilidade de nossa agricultura. Criar
barreiras de acesso a biocombustíveis é contraproducente do ponto de vista
ambiental e energético. Em 1970 vivemos choques do petróleo que evidenciaram os
perigos da dependência do petróleo”, declarou.
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OMC e papel do Sul Global
O
presidente ainda abordou o cenário do comércio internacional, criticando a
atual situação da Organização Mundial do Comércio (OMC). Para ele, é necessário
reformular a instituição. “A incorporação efetiva dos interesses do Sul Global
é condição essencial para que arranjos multilaterais sejam legítimos e
relevantes”, disse.
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Agenda internacional
Na
agenda na Alemanha, Lula se reuniu com o chanceler Friedrich Merz antes do
evento. Ele segue com compromissos na Hannover Messe e, posteriormente, viajará
para Lisboa, dando continuidade à agenda europeia.
O
presidente também afirmou que a presença do Brasil na feira reforça sua posição
global. “O convite do Brasil para a feira de Hannover consolida a posição do
Brasil como parceiro confiável em um mundo de instabilidade e incerteza”,
declarou.
Fonte:
A Terra é Redonda/Brasil 247

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