terça-feira, 21 de abril de 2026

Pedro Salomon Bezerra Mouallem: Um governo depois de tudo

Uma curiosa dissonância entre autoimagem e práticas concretas marca a política brasileira. No campo político conservador, isso não é novidade alguma. Há muito tempo entiestatistas ganham a vida com recursos públicos, moralistas agem apenas por puro interesse, meritocratas atuam para favorecer seu círculo social, etc. Por isso, também não há surpresas – embora seja escandaloso e, possivelmente, inédito quanto à explicitude – quando o patriota Flávio Bolsonaro oferece terras raras brasileiras como solução para os Estados Unidos em sua disputa com a China.

O descompasso, contudo, alcança outras faixas do espectro político. Como não estranhar a fala recente de Lula de que, se depender dele, “a gente fecha as bets”? Após quatro anos de governo e do trabalho árduo de seu Ministério da Fazenda para regulamentar casas de apostas online ainda no primeiro ano de gestão (o que, vale dizer, ajudou a arrecadar R$ 9,95 bilhões em tributos apenas em 2025), a manifestação soa como afterthought.

De fato, há muitas razões para limitar severamente esse tipo de atividade econômica, incluindo dinâmicas de vício e comprometimento financeiro de seus usuários. Há ainda razões mais profundas. Empresas de apostas tiveram receita de R$ 37 bilhões em 2025 no Brasil, e alcançaram 25,2 milhões de brasileiros. A popularização massiva da atividade encontra afinidade com o ethos de uma economia de empreendedores, que admira bilionários e rejeita a prisão de um trabalho celetizado.

Essa, por sua vez, alimenta os sonhos de milhões de indivíduos cujos postos precários não os proíbem de sonhar com o enriquecimento. Com um patamar de 37,5% da população na informalidade, sem direitos trabalhistas e previdenciários, a esperança subir rapidamente na vida ganha um sentido não trivial. Como realizar um governo capaz de ampliar direitos e reduzir a precaridade que se tornou o eixo da vida econômica no país sem avançar em um debate público politizado sobre o tema?

Isso sem dizer o quanto a pervasividade das propagandas das bets, seu dinheiro volumoso e sem propósito claro, ainda legitimam e fortalecem atividades criminosas, incluindo lavagem de dinheiro do crime e evasão de divisas, o que aprofunda sensivelmente o problema e o sentido de uma economia da aposta. Obviamente, não foi o governo Lula que legalizou as bets e tampouco a economia de especulação, mas por qual razão isso se tornou uma questão somente em 2026?

Aliás, como o governo, “no que dependia apenas dele”, avançou na compreensão pública (e não apenas de seus técnicos) do fenômeno: como a consistente desindustrialização no país contribui e se intensifica a partir desse tipo de economia, qual a participação das apostas no crescente endividamento das famílias brasileira, quem tem ganhado e quem tem perdido com essa forma de organização econômica e, mais importante, como o governo almejava construir politicamente alternativas a ela? Nenhuma dessas perguntas, tampouco suas respostas, orientaram a construção política do governo nos últimos quatro anos.

Em sentido semelhante, ouvir Fernando Haddad falar sobre o futuro do socialismo depois de três anos de ortodoxia econômica à frente do Ministério da Fazenda gera algum assombro. É como se, assim como a proibição às bets, as alternativas de uma esquerda radical pudessem ressurgir somente agora, antes de novas eleições, momento em que a política precisa ir além das salas e dos corredores de Brasília.

Estariam, até então, interditadas nas salas oficiais onde somente adultos são autorizados a falar? Onde estaria a “imaginação socialista” para ampliar, quem sabe, a discussão política sobre a governança da moeda no país? Dizendo mais diretamente, por que não aproveitar a janela da última eleição para ampliar o debate público sobre o que hoje inclui o regime fiscal “sustentável”, do próprio Haddad, a política monetária absolutamente conservadora de um Banco Central independente, e um mercado de crédito caro e restrito ao curto prazo no país.

Muito mais excêntrica é a defesa por Gleisi Hoffmann, ex-presidente nacional do Partido dos Trabalhadores e ministra-chefe da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República, nesse governo, de que passadas as próximas eleições seria hora de pensar em uma reforma do Judiciário. Não havia motivos suficientes para isso há quatro anos?

Os usos seletivos e excepcionais de competências legais por juízes, ministros, promotores e procuradores, para não falar nos muitos conluios, não justificariam uma atuação política mais organizada ainda em 2023? Os supersalários e privilégios incontáveis, os conflitos de interesse denunciados aos quatro cantos da terra não criaram momentum ao menos para ampliar o debate público de modo mais contundente? Aliás, vale dizer que esses elementos tiveram papel decisivo na degradação política brasileira na última década e qualquer tentativa de retomar o rumo democrático exigiria uma atenção particular. E esse é um ponto central.

As eleições de 2022 foram vividas socialmente como uma espécie de redemocratização, após o país ver o abismo autoritário sob Jair Bolsonaro. A vitória de Lula, embora repleta de compromissos, só poderia produzir o efeito de renovação democrática se tratasse a excepcionalidade de seu mandato como tal. Não seria, era evidente, um governo qualquer. Sendo assim, seria momento de discutir todas as questões sugeridas acima (e muitas outras), não apenas como objetos de políticas públicas pontuais, mas como temas a serem compreendidos, disputados e pactuados pública e politicamente.

Ao não fazê-lo, o governo viu-se nas cordas do início ao fim do mandato, encontrando-se agora sob o risco de entregar o poder ao patriota Flávio. Não era obrigação consertar toda a destruição de direitos promovida com afinco desde a remoção de Dilma Rousseff do poder, mas era obrigação tematizar constantemente e construir consciência política sobre o processo limítrofe vivido pelo país.

Contudo, parece haver ainda no governo uma confiança inabalável de que policies determinam a politics, como sintetiza o jargão das ciências sociais. Isto é, de que políticas públicas criam sua própria dinâmica política e que seus beneficiários, a partir de então, as defenderão politicamente. Foi assim que se construiu o reformismo fraco lulista nos últimos governos. Mas em um país com instituições fragilizadas, com ódio político em alta, e com muito mais poderes de veto do que antes, a estratégia tornou-se pouco realista. Ainda menos em um mundo de muitas crises simultâneas, no qual seria ingênuo supor que os efeitos inesperados de guerras, tarifas ou eventual catástrofe natural em alguma parte do mundo não afetaria políticas locais.

Há também uma leitura essencialmente estática das possibilidades conjunturais diante do poder conservador no país. É como se os limites institucionais da relação com o congresso, o viés permanentemente liberal da imprensa e a própria polarização política que vem dividindo o país ao meio fossem dados da realidade e não, eles próprios, sujeitos à transformação política.

Não existe, contudo, uma balança objetiva que sopese os recursos políticos do governo diante de opositores, e cujo resultado seja a aferição inequívoca de sua vitória ou derrota. É a própria matéria da política estabelecer a gramática pela qual as disputas serão travadas, criar oportunidades e interesses, e assim por diante.

Por isso também, ampliar a compreensão sobre determinada questão, formular saídas criativas, estabelecer compromissos legítimos demandam a construção e fortalecimento de uma consciência política popular, o que esteve fora do radar do governo. Quando membros do governo dissociam sua autoimagem das políticas existentes ajudam a obstar uma discussão a sério sobre o que fazer para reconstruir a democracia brasileira.

Tudo isso se torna dramático quando se vê a extrema direita dobrando a esquina mais uma vez.

•        “Estamos reconstruindo o Estado”, diz Lula em Hannover

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil está retomando sua capacidade de planejamento e investimento público, ao destacar a importância da indústria, da inovação e da cooperação internacional durante a abertura da Hannover Messe 2026, na Alemanha.

Ao relembrar sua trajetória pessoal e a história recente do país, Lula ressaltou que, enquanto tecnologias brasileiras eram exibidas na feira em 1980, ele estava preso por liderar uma greve operária durante o regime militar. “Nesse exato 19 de abril, há 46 anos, enquanto tecnologias brasileiras eram expostas aqui, eu era preso por liderar uma greve”, declarou.

O presidente destacou as transformações desde então, como a redemocratização do Brasil e a reunificação alemã, e afirmou que mudanças econômicas globais afetaram a indústria nacional. “Os dogmas do Estado mínimo fragilizaram nossa capacidade de planejamento e investimento”, disse.

Segundo Lula, a retomada da indústria e da inovação ocorreu a partir de seus primeiros mandatos e segue como prioridade. “Estamos reconstruindo a capacidade do Estado para impulsionar o crescimento econômico e a inclusão social”, afirmou.

<><> Críticas ao cenário global

O presidente apontou contradições no cenário internacional, com avanços tecnológicos convivendo com conflitos armados. “Enquanto astronautas sobrevoam a Lua, bombardeios matam de forma indiscriminada civis, mulheres e crianças”, disse.

Lula também criticou o uso da inteligência artificial em operações militares. “A inteligência artificial nos torna mais produtivos, mas também é utilizada para selecionar alvos militares sem parâmetros legais ou morais”, afirmou.

Ele destacou ainda os impactos econômicos das guerras. “As guerras causam prejuízos econômicos palpáveis”, disse, ao mencionar a alta no preço do petróleo e os efeitos sobre alimentos e transporte.

<><> Defesa da cooperação internacional

O presidente defendeu o fortalecimento do multilateralismo e criticou o protecionismo. “O protecionismo ressurge como resposta falaciosa para problemas econômicos e sociais complexos”, afirmou.

Lula também apontou a necessidade de reformar instituições globais. “O novo paradigma de desenvolvimento requer um multilateralismo justo e equilibrado”, disse.

Ao citar o acordo entre Mercosul e União Europeia, ele destacou seus impactos econômicos. “Mais comércio e mais investimento significam novos empregos e oportunidades dos dois lados do Atlântico”, afirmou.

<><> Energia limpa e papel do Brasil

O presidente ressaltou o protagonismo brasileiro na transição energética. “Produzimos biocombustíveis de forma sustentável, sem comprometer o cultivo de alimentos ou derrubar florestas”, disse.

Lula também reafirmou metas ambientais. “Temos um compromisso assumido de chegar ao desmatamento zero na Amazônia até 2030”, afirmou.

Ele destacou ainda o potencial do país em energia renovável. “Temos potencial para produzir o hidrogênio verde mais barato do mundo”, disse.

<><> Economia, tecnologia e inovação

Lula afirmou que o Brasil tem registrado crescimento econômico e avanços sociais recentes. “Desde 2023, registramos crescimento superior à média mundial e alcançamos o menor desemprego da nossa história”, declarou.

O presidente também destacou investimentos em tecnologia e inovação. “A ciência voltou ao centro do projeto de desenvolvimento nacional”, disse.

<><> Indústria 4.0 e futuro global

Ao encerrar, Lula ressaltou a importância da cooperação internacional para o avanço tecnológico. “A inovação é um esporte coletivo que se fortalece no encontro de diferentes ideias e talentos”, afirmou.

Ele concluiu defendendo a paz como base do desenvolvimento. “A paz e a cooperação são os verdadeiros alicerces da prosperidade compartilhada”, disse.

•        Em Hannover, Lula defende acordo Mercosul-União Europeia e critica 'afirmativas falsas' contra o agronegócio

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defendeu o acordo entre União Europeia e Mercosul e criticou restrições ao biocombustível brasileiro, ao mesmo tempo em que rebateu questionamentos sobre a sustentabilidade da agricultura nacional. A declaração foi feita neste domingo (19), durante a abertura da Feira Industrial de Hannover, na Alemanha.

Em seu discurso, Lula ressaltou que o acordo entre os blocos, com entrada em vigor parcial prevista para 1º de maio, cria novas oportunidades comerciais, mas alertou para os obstáculos impostos pelas políticas europeias.

<><> Acordo estratégico e impacto econômico

Durante participação na abertura da Hannover Messe, em Hanôver, considerada a maior feira industrial do mundo e que tem o Brasil como país de destaque nesta edição,o presidente destacou a dimensão do acordo.

“Em menos de duas semanas entra em vigor o acordo que cria um mercado de quase 720 milhões de pessoas e PIB de US$ 22 trilhões. Mais comércio, mais investimentos significam novos empregos e oportunidades. Com maior integração produtiva reforçamos a estabilidade das cadeias de suprimentos. Existem inúmeras complementaridades ainda não exploradas. O Brasil pode ajudar a União Europeia a diminuir o custo de energia e descarbonizar”, afirmou.

<><> Críticas a barreiras e defesa do biocombustível

Lula também criticou medidas adotadas pela União Europeia que, segundo ele, dificultam a entrada de biocombustíveis brasileiros. “É essencial que o bloco leve em conta a matriz energética usada em nossos processos. Ainda combatemos afirmativas falsas a respeito da sustentabilidade de nossa agricultura. Criar barreiras de acesso a biocombustíveis é contraproducente do ponto de vista ambiental e energético. Em 1970 vivemos choques do petróleo que evidenciaram os perigos da dependência do petróleo”, declarou.

<><> OMC e papel do Sul Global

O presidente ainda abordou o cenário do comércio internacional, criticando a atual situação da Organização Mundial do Comércio (OMC). Para ele, é necessário reformular a instituição. “A incorporação efetiva dos interesses do Sul Global é condição essencial para que arranjos multilaterais sejam legítimos e relevantes”, disse.

<><> Agenda internacional

Na agenda na Alemanha, Lula se reuniu com o chanceler Friedrich Merz antes do evento. Ele segue com compromissos na Hannover Messe e, posteriormente, viajará para Lisboa, dando continuidade à agenda europeia.

O presidente também afirmou que a presença do Brasil na feira reforça sua posição global. “O convite do Brasil para a feira de Hannover consolida a posição do Brasil como parceiro confiável em um mundo de instabilidade e incerteza”, declarou.

 

Fonte: A Terra é Redonda/Brasil 247

 

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