Democracia
em risco: organização e enfrentamento ao neofascismo
"Diante
desse fascismo híbrido — que é espoliativo, genocida e visceralmente
anti-inteligência —, a resistência exige a defesa intransigente da universidade
e do pensamento crítico. É fundamental a articulação de uma frente antifascista
mediada pelos Direitos Humanos em uma perspectiva emancipatória, que resgate a
dignidade irreduzível de corpos negros, femininos, indígenas e
camponeses", escreve José Geraldo de Sousa Junior, professor titular na
Faculdade de Direito e ex-reitor da Universidade de Brasília (UnB).
Eis o
artigo.
Com
esse tema, a Frente da Advocacia Progressista de Pernambuco convoca um diálogo
com amplos setores da sociedade civil e dos movimentos sociais, partindo do
entendimento de que a democracia não se defende sozinha; ela exige coragem,
organização e consciência coletiva. É exatamente isso que esteve em pauta neste
encontro. Juntamente com Teresa Mansi, Elisa Lucena e Cláudio Ferreira, núcleo
ativo da advocacia progressista, participei no dia 15 de abril, em Recife, no
Auditório do Sintepe, de uma mesa de diálogo que se configurou não apenas como
mais um evento, mas como um espaço de disputa de ideias e de construção de
futuro com quem acredita, defende e reinventa permanentemente a democracia.
Para
abrir o diálogo sobre o tema proposto, recorro ao ensaio de 1995, O Fascismo
Eterno (ou Ur-Fascismo), do filósofo e semiólogo italiano Umberto Eco, no qual
ele argumenta que o fascismo não foi uma ideologia monolítica e coerente, mas
sim uma “colagem” de diferentes ideias políticas e filosóficas. Ao empregar o
prefixo alemão Ur — que significa “original” ou “primitivo” —, Eco argumentou
que o fascismo não é apenas um fenômeno histórico específico, como o regime de
Mussolini, mas um conjunto de características e tendências que podem se
manifestar em diferentes contextos e épocas. Ele lista 14 características que
advertem para uma atemporalidade profunda e ressurgente, capaz de se manifestar
fora de seu lugar e tempo originais.
Para
Eco, o fascismo pode retornar sob diferentes roupagens, contanto que mantenha
alguns desses pilares: o culto da tradição, que mistura ritos arcaicos com a
rejeição ao avanço do conhecimento; a recusa do modernismo e do espírito
iluminista; o culto da ação pela ação, onde a cultura é vista com suspeita; o
entendimento de que o desacordo é traição; o medo da diferença, que alimenta o
racismo; o apelo à frustração social das classes médias; a obsessão pela
conspiração; a retórica de que o inimigo é simultaneamente forte e fraco; a
ideia de que o pacifismo é conivência; o desprezo pelo fraco através de um
elitismo popular; o culto ao herói e à morte; o machismo e o armamento; o
populismo qualitativo, que trata o povo como entidade monolítica sob um líder intérprete;
e a novilíngua, que empobrece o vocabulário para limitar o raciocínio crítico.
Numa
atualização global contemporânea, testemunhamos o ressurgimento dessas
características em movimentos de extrema-direita e regimes híbridos. A
configuração da pós-verdade, manifestada na simplificação do discurso político
em slogans de redes sociais e no ataque à imprensa profissional, espelha a
rejeição ao pensamento crítico. Esse identitarismo excludente, nítido no
nacionalismo cristão nos EUA, no nacionalismo hindu na Índia e nos movimentos
anti-imigração na Europa, utiliza o medo da diferença e a obsessão pela
conspiração para mobilizar as massas.
O
cenário no Brasil também se desenha com registros nítidos dessa atualização. O
neofascismo ganhou força nos últimos anos, inscrevendo-se especialmente em
governos de matriz necropolítica, no sentido conferido por Achille Mbembe.
Alguns elementos são perfeitamente identificáveis em paralelo com as
caracterizações de Eco: o culto às armas e o machismo na flexibilização do
acesso a armamentos; o desprezo pelas instituições culturais e científicas; o
populismo qualitativo que tenta sobrepor a vontade do líder às instituições
como o STF e o Congresso; e a construção do “inimigo interno”, onde o comunismo
é uma ameaça fantasmagórica que justifica medidas de exceção ou a
criminalização de movimentos sociais como o MST.
Expandir
a análise de Eco para o presente exige observar como as estruturas de poder se
sofisticaram. Se o Ur-Fascismo era uma colagem do século XX, o fascismo do
século XXI é uma rede tecnofinanceira que se alimenta de feridas históricas
como o colonialismo e o patriarcado. No Sul Global, o necropoder opera sob a
lógica de que o Estado decide quem deve viver e quem pode morrer. O caráter
genocida manifesta-se na naturalização da morte de populações periféricas,
indígenas e quilombolas sob a justificativa da “segurança pública”. No Brasil,
o negacionismo sanitário e a prevalência dos negócios sobre a vida produziram o
descalabro de mais de setecentas mil mortes na pandemia de COVID-19. A CPMI
(Comissão Parlamentar Mista de Inquérito), criada em 2021, concluiu que houve
irregularidades e omissões graves, recomendando o indiciamento de diversas
autoridades por crimes contra a saúde pública, processo que hoje aguarda a
devida responsabilização jurídica.
Outra
configuração do fascismo eterno é seu processo espoliativo, aliado ao capital
financeiro internacional para desmantelar a soberania nacional em favor da
exportação de commodities. É um nacionalismo de fachada: a “Pátria” torna-se
mercadoria e as riquezas naturais são entregues a projetos neocoloniais. Esse
sistema se insinua por meio de uma algoritimização do ódio, capaz de fragmentar
a sociedade em bolhas que priorizam o medo e o asco, insuflados por uma
misoginia digital que ataca sistematicamente as mulheres no espaço público para
reafirmar um patriarcado violento.
Tudo
isso acentua o racismo estrutural como motor político. No Brasil, o fascismo é
inseparável do filtro da escravidão. Ele busca a preservação do status quo
colonial através da astuta negação do racismo, enquanto aparelha instituições
para manter a hierarquia racial e criminalizar corpos negros e religiões de
matriz africana. Percebe-se, ainda, a fusão entre religião e Estado em um novo
patamar, onde a “Guerra Espiritual” substitui o debate político e o moralismo
opera como cortina de fumaça para a pilhagem econômica.
Diante
desse fascismo híbrido — que é espoliativo, genocida e visceralmente
anti-inteligência —, a resistência exige a defesa intransigente da universidade
e do pensamento crítico. É fundamental a articulação de uma frente antifascista
mediada pelos Direitos Humanos em uma perspectiva emancipatória, que resgate a
dignidade irreduzível de corpos negros, femininos, indígenas e camponeses.
Já há
uma articulação nesses moldes e chama-se AIP (Assembleia internacional dos
povos). É uma iniciativa em construção que vem sendo impulsionada por
movimentos sociais, incluindo o MST, junto a organizações populares de
diferentes países. Ela surge como uma proposta de espaço global de articulação
anticapitalista, anti-imperialista, contra o neoliberalismo e pela soberania
dos povos, com foco em lutas comuns como direitos humanos, justiça climática,
reforma agrária, agroecologia, agricultura familiar, soberania alimentar e
democratização da comunicação.
A
proposta foi lançada publicamente durante o Fórum Social Mundial 2024
(realizado no Nepal), com participação de movimentos do Brasil (como o MST),
América Latina, Ásia e África. Seu objetivo é ser um espaço permanente de
deliberação popular, alternativo a instituições como a ONU, o FMI e o G20,
vistas como representantes dos interesses do capital global. E a inspiração vem
de processos como a Assembleia dos Povos do Caribe (que discute reparação
histórica e integração regional); Cúpula dos Povos (articulação paralela a
cúpulas oficiais como a Rio+20) e da própria Via Campesina (modelo de
organização transnacional de movimentos camponeses).
Nesse
embate, a advocacia popular desempenha um papel de vanguarda política e ética.
Ela rompe com a ilusão de neutralidade das normas e compreende que a
legitimidade jurídica nasce do pulsar das lutas sociais. Ao defender o direito
à vida contra a espoliação neocolonial, o advogado popular combate o
positivismo cego que serve de escudo para o autoritarismo. Essa atuação
torna-se um escudo de sobrevivência, internacionalizando a resistência em
cortes como a CIDH para enfrentar o racismo judiciário. Ao resistir ao lawfare
e proteger a autonomia universitária, a advocacia popular não apenas preserva
instituições, mas assegura que o futuro não seja asfixiado pelo ódio. Ela é, em
essência, a prática do Direito que não se conforma com a injustiça, convertendo
a resistência das ruas em conquistas civilizatórias permanentes e garantindo
que o Direito seja a expressão ressignificada da emancipação humana.
• Conspirações e vitimismo: as encarnações
atuais do fascismo eterno. Por Marco
Aime
O livro
de Umberto Eco intitulado O Fascismo Eterno pode ajudar-nos a compreender se
estamos perante um triste regresso do fascismo ou de um novo tipo que avança.
Apanhados no fogo cruzado entre pedido de se declarar antifascista e embaraçosa
relutância em afirmá-lo, tento retomar nas mãos um livro intitulado O Fascismo
Eterno, no qual Umberto Eco elabora uma lista de características. Vamos tentar
ver se essas definições são úteis para entender se estamos diante de um triste
retorno ou de um novo tipo que está avançando (que muitas vezes é pior que o
antigo).
A
primeira característica é o culto da tradição, aspecto que remete a muitas
retóricas da Liga do Norte, em que são regularmente evocadas as raízes, mas
também os frequentes chamados à italianidade como característica fundadora e
decisiva, aliás expressa com um nada italiano "made in Italy".
A
rejeição do modernismo, entendido como pensamento racional, basta pensar nas
posições No-vax, que questionam a ciência, bem como na negação das mudanças
climáticas.
Atitudes
que remetem a outro ponto identificado por Eco, ou seja, uma desconfiança inata
em relação à cultura e ao mundo intelectual. Ao saber dos “professores” se quer
contrapor a retórica do “fazer”, da ação, sem a sombra de uma inspiração
futurista. O “fazer” se contrapõe ao “pensar”.
Ao
mesmo tempo, porém, de forma contraditória, a direita expressa uma forma de
inveja para com a esquerda, capaz de produzir aquela cultura tão detestada, mas
cobiçada e necessária. Se, conta-nos Eco, “os intelectuais fascistas oficiais
estavam sobretudo empenhados em acusar a cultura moderna e a intelectualidade
de terem abandonado os valores tradicionais”, os expoentes da direita atual nem
sequer têm essa aspiração: combatem a cultura, porque a temem.
O
desacordo é traição, esse é um ponto de contato extremamente evidente: o caso
Scurati, os protestos estudantis, os jornalistas que investigam, toda forma de
dissenso (Domani sabe alguma coisa sobre isso), embora civil, é atacada com
violência física e verbal. Muitas vezes ouvimos dizer, com inexplicável
condescendência, que não estamos no tempo das camisas pretas, mas será que isso
deveria bastar para nos tranquilizar? Um século se passou, as coisas mudaram,
talvez às vezes os meios, mas não os fins. Silenciar toda voz fora do coro e a
queda na classificação sobre a liberdade de imprensa é seu sinal alarmante.
Temeroso
da diferença, o General Vannacci é, em última análise, a ponta de um iceberg
muito maior, que encontrou voz nos delírios do candidato da Liga do Norte às
eleições europeias.
A
aversão aos homossexuais, aos estrangeiros e aos islâmicos é uma parte central
das retóricas desse governo e dos parlamentares a ele ligados. Tudo deve tender
para uma suposta “normalidade” correta, a única possível, tranquilizadora.
A
obsessão pela conspiração: da Europa que ameaça as nossas escolhas com as suas
regras aos tão evocados (mas nunca indicados) poderes fortes, aos magistrados
que investigam políticos corruptos. Em nível pessoal, então, a
primeira-ministra sempre evoca tramas obscuras contra ela, retratando-se como
excluída, marginalizada (azarão), como uma outsider, apesar do seu currículo
político.
O
pacifismo é conluio com o inimigo: como negar essa atitude? Do governo (e, cabe
dizer, até mesmo de uma grande parte da oposição) não chegaram instâncias de
paz, mas, pelo contrário, apelos ao rearmamento, ao envio de armas, mas toda
ideia de pôr fim às guerras foi regularmente mantida à devida distância, quando
não ridicularizada. Eco indica também a atitude machista, que não falta apesar
de uma primeira-ministra mulher, bem como a novilíngua de orwelliana memória,
hoje potencializada pelos numerosos canais de comunicação, mas sobretudo a
atitude que define populismo qualitativo, segundo o qual os indivíduos não têm
direitos, é só o “povo” o tem, cujo único intérprete é o líder, e não os
governos parlamentares.
O cargo
de primeiro-ministro é precisamente isto, a expressão de um populismo que se
reduz ao poder do líder. Uma falsa máscara democrática, que esconde um rosto
sombrio. “O Ur-Fascismo ainda pode voltar com aparência mais inocente”, conclui
Eco. “O nosso dever é desmascará-lo e apontar o dedo a cada uma das suas novas
formas – todos os dias em todas as partes do mundo”.
Fonte:
Por José Geraldo de Sousa Junior, no Jornal Brasil Popular/IHU

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