Gustavo
Guerreiro: As duas grandes mentiras do 19 de Abril
Há algo
de profundamente brasileiro na coincidência que faz do 19 de abril,
simultaneamente, o Dia dos Povos Indígenas e o Dia do Exército Brasileiro. Não
é mera sobreposição burocrática: é sintoma.
No
mesmo quadradinho do calendário cívico, a República celebra aqueles que foram
historicamente destruídos e a instituição que, em vários momentos, participou
dessa destruição (e ainda se dá ao luxo de pedir, de ambos, a mesma
reverência).
O cocar
ao lado da farda, a pintura corporal divide espaço com o quepe. As páginas da
história oficial se enfeitam e uma pretensa harmonia nacional, uma convivência
que as memórias se encarregam de desmentir a cada página. O contraste entre o
gesto simbólico e a materialidade dos territórios não é um descompasso
eventual, mas a própria estrutura desse pacto.
O
conceito de “Brasil Oficial” versus “Brasil Real”, popularizado por Machado de
Assis e reforçado por Ariano Suassuna, diferencia a estrutura
governamental/privilegiada (oficial) da vivência cotidiana da maioria da
população (real) para perceber que o reconhecimento sem redistribuição se
converte em cosmético: uma estética da inclusão sobreposta a uma economia da
expropriação.
No
Brasil, aprendeu-se a pronunciar a palavra indígena com reverência cívica
justamente porque ela, desarmada do território, deixa de “ameaçar” qualquer
coisa.
A data
militar, porém, acrescenta uma camada adicional de mitologia que merece ser
desmontada com paciência. O Exército elegeu como marco fundacional a Batalha
dos Guararapes, travada em 1648 e 1649 nos montes pernambucanos contra a
ocupação holandesa, e a converteu em cena primitiva da nacionalidade.
Trata-se
daquele instante em que, supostamente, brancos, negros e indígenas teriam,
ombro a ombro, descoberto juntos o sentimento de pátria. É uma narrativa
comovente e inteiramente anacrônica.
Em 1648
não havia Brasil, não havia brasileiros, não havia projeto nacional a defender:
havia um império ibérico em disputa com um império batavo pela exploração do
açúcar, havia senhores de engenho protegendo seus escravos como se protegem
gados e máquinas, e havia, do outro lado, companhias mercantis calculando
margens de lucro.
Projetar
sobre esse cenário colonial o vocabulário romântico da nação, inventado um
século e meio depois pelos movimentos europeus oitocentistas, é operação de
charlatanismo histórico: puxa-se da cartola um país que só nasceria em 1822, e
ainda assim como empreendimento de uma elite muito específica, absolutamente
alheia aos negros escravizados e aos indígenas aldeados cujo sangue se
pretende, agora, cooptar retroativamente para a biografia da pátria.
Olhada
de perto, a composição do exército luso-pernambucano em Guararapes é menos um
poema cívico do que uma estrutura bruta de coerção colonial.
Henrique
Dias comandava um terço de homens negros em sua maioria escravizados, aos quais
se acenava com a miragem da alforria como prêmio pela disposição de morrer em
combate; Filipe Camarão, o Potiguara batizado e rebatizado, liderava indígenas
arregimentados pelo aparato missionário e militar português, num arranjo em que
se recusar a lutar significava, na prática, romper com a única estrutura de
sobrevivência possível naquele tabuleiro.
Não
havia pátria a amar; havia um conjunto de alternativas, todas atrozes, entre
senhores diferentes.
Chamar
isso de fraternidade das três raças é, para recorrer a Bourdieu, violência
simbólica em estado puro: a operação pela qual a relação de força, uma vez
vencedora, se traveste de consenso e se inscreve no manual escolar como destino
natural.
O
escravizado que empunhou a espingarda não inaugurou nenhuma nação, mas
negociou, no limite do desespero, alguns anos ou meses a mais de vida.
O
indígena que marchou sob o comando de Camarão não descobriu nenhum sentimento
de Brasil, mas defendeu, dentro das margens estreitíssimas que lhe restavam, a
parcela de autonomia que o jogo entre colonizadores rivais ainda lhe permitia
reivindicar.
O
Exército, entretanto, especializou-se em decantar desses episódios falsos
heróis e falsos heroísmos, e esse trabalho de alquimia simbólica não é
ornamental: ele cumpre função política bem determinada.
Ao
erigir Guararapes como mito de origem, a instituição se autolegitima como
parteira da nacionalidade e, simultaneamente, sequestra biografias que
pertenciam a outras lutas, como a luta dos escravizados por liberdade e a luta
dos indígenas por território para subordiná-las ao enredo da unidade.
Não
basta ao poder reprimir, o Exército precisa narrar, precisa fabricar os
personagens e as cenas que retrospectivamente justifiquem seu próprio lugar.
Henrique
Dias é assim convertido em patrono honorário da mesma instituição cujos
sucessores, dois séculos depois, caçariam quilombos; Filipe Camarão é promovido
a herói fundador do mesmo Exército que, no século XX, operaria remoções
forçadas, abriria estradas sobre aldeias e fecharia os olhos, quando não
emprestaria a mão, à ditadura que tratou o Norte como território a ser ocupado
militarmente. A continuidade não é detalhe: é a tese.
Porque
a promessa, em todas as suas encarnações, não é falha do sistema, mas o próprio
sistema.
É
tentador narrar cinco séculos de política indigenista como uma sucessão de boas
intenções traídas por políticas ruins, como se houvesse, em algum lugar obscuro
da burocracia, um despacho ou ofício que deu errado. Aníbal Quijano nos lembra
que a colonialidade do poder sobrevive ao fim formal do colonialismo, porque,
entre outras coisas, se instala na gramática, nas categorias, nas datas.
A
promessa é, portanto, uma tecnologia: promete-se para legitimar o tempo da
espera, e a espera é o intervalo em que a espoliação se consuma.
O
indígena recebe a palavra empenhada do Estado e, enquanto espera seu
cumprimento, vê o rio se envenenar de mercúrio, a floresta recuar em linhas
retas, o gado ocupar a clareira que antes era roça.
A
genealogia dessa gramática é cruel. Do aldeamento jesuítico à catequese
imperial, do Serviço de Proteção aos Índios — cuja divisa rondoniana sobreviveu
melhor como slogan do que como prática — à FUNAI tutelar da ditadura, do
integracionismo desenvolvimentista aos programas contemporâneos de bioeconomia
inclusiva, mudam as embalagens e permanecem os conteúdos.
Civilizar,
integrar, desenvolver, sustentar: palavras de ordem distintas conjugadas no
mesmo modo imperativo, todas apontando para a mesma direção: a neutralização da
autonomia política e territorial dos povos originários.
Cada
geração inventa sua palavra nobre para o velho trabalho de conversão da terra
coletiva em ativo privado, e o “desenvolvimento” é, há pelo menos um século, a
mais eficaz dessas palavras.
Rodovias
que rasgam a Amazônia, hidrelétricas que afogam cemitérios ancestrais,
corredores minerários que convertem montanhas inteiras em rejeito; tudo se
apresenta, na retórica oficial, como benfeitoria. Essa acumulação por
espoliação é o mecanismo pelo qual o capital, esgotadas suas fronteiras
internas, volta a caçar recursos comuns para privatizá-los.
Achille
Mbembe ofereceu o conceito sombrio como necropolítica como a gestão calculada
de quem pode viver e quem pode morrer para que a acumulação prossiga.
No
centro de tudo, a terra. Não a terra como hectare em um cartório, mas a terra
como condição material de reprodução da vida, no sentido em que Marx a tomava,
e simultaneamente como tecido de relações cosmológicas, no sentido em que os
próprios povos a nomeiam.
Davi
Kopenawa insiste que a floresta não é paisagem nem recurso: é parente, é
memória, é política.
Quando
o Estado brasileiro trata a demarcação como questão fundiária menor, reduz à
propriedade aquilo que, para os povos, é a própria definição de existência.
A
Constituição de 1988 parecia romper essa gramática ao reconhecer direitos
originários anteriores ao próprio Estado e determinar a demarcação no prazo de
cinco anos. Trinta e oito anos depois, centenas de terras seguem sem
homologação, e o prazo transformou-se na mais longa das anedotas jurídicas da
República. A cidadania cínica reaparece aqui sob outra forma: direitos
preservados no papel como fósseis, perfeitamente inertes.
Seria
desonesto tratar o Estado contemporâneo como monólito. A criação do Ministério
dos Povos Indígenas, a retomada das demarcações, a presença inédita de
lideranças indígenas em espaços decisórios apontam para deslocamentos reais,
conquistados por décadas de mobilização que derrubam qualquer mito de
passividade. Mas esses avanços convivem, em contradição aberta, com um
Legislativo capturado pelo agronegócio e um Judiciário oscilante.
A Tese
do Marco Temporal não é um acidente: exigir que um povo prove ocupação física
em 5 de outubro de 1988 é exigir que as vítimas de remoções forçadas, massacres
e fugas produzam, do lado de fora da história, a prova documental de que
existiam. É a violência simbólica convertida em tese jurídica.
E
enquanto se disputam teses, a violência difusa faz seu trabalho silencioso. O
garimpo ilegal nos territórios Yanomami contamina rios e desnutre crianças; a
invasão em territórios Guarani Kaiowá se mede em emboscadas; o avanço do arroz
em terras Avá-Guarani desloca aldeias inteiras.
Não são
eventos esparsos: são manifestações regulares de uma mesma estrutura
necropolítica, atravessada pelo racismo estrutural, que não precisa de ódio
explícito porque opera na indiferença distribuída, na notícia que não vira
manchete, na morte que não vira luto nacional.
É nesse
ponto que o argumento liberal da segurança jurídica precisa ser interpelado.
Segurança para quem? A ficção da terra como mercadoria exige, para funcionar, a
destruição prévia das relações que a sustentavam como espaço comum.
A
“neutralidade” do direito, como há muito se sabe, é a neutralidade do vencedor.
E o mito correlato do desenvolvimento inclusivo, da parceria e da cadeia
produtiva sustentável tende a naturalizar uma desigualdade brutal, em que uma
das partes detém capital, tecnologia, advogados e a outra detém apenas o
direito de negociar sua própria dissolução. Chamar isso de parceria é o
eufemismo mais arrumadinho do colonialismo interno.
Reconhecer
esse quadro exige, antes de qualquer programa, um gesto ético: nomear as
fraudes históricas do indígena integrado e do soldado fraterno.
Há uma
continuidade, não uma série de acidentes, e ela precisa de nome. Inverter a
centralidade é a tarefa seguinte: não integrar os povos indígenas ao projeto
nacional dominante, como se o problema fosse de acesso, mas reconfigurar o
projeto nacional a partir das perspectivas que esses povos, resistindo há cinco
séculos, elaboraram sobre o que significa habitar esta terra.
A
plurinacionalidade, experimentada com ambiguidades pelos vizinhos andinos, não
é um simulacro constitucional: é a evidência, cada vez mais difícil de refutar,
de que o Estado-nação homogêneo — aquele mesmo cuja fundação mítica o Exército
insiste em ler em Guararapes — talvez seja um modelo esgotado por sua
incapacidade de pensar a diferença como estrutura, e não como concessão.
Enquanto
o Brasil insistir em tratar seus povos originários como entraves e seus
escravizados como patronos póstumos de uma nação que nunca lhes pertenceu,
seguirá prisioneiro de um modelo que já deu mostras suficientes de devorar as
próprias condições de sua existência.
A
ironia final do 19 de abril talvez seja esta: a data em que a República
celebra, ao mesmo tempo, os povos que destruiu e o exército que ajudou a
destruí-los pode vir a ser, se houver sobriedade para ouvir, a data em que o
país aprende enfim que não há pátria possível sobre a terra arrasada nem sobre
a memória falsificada.
Fonte:
Viomundo

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