Doença
de Parkinson ainda possui limitações de tratamentos no Brasil
Com
mais de 10 milhões de pessoas impactadas em todo o mundo, incluindo cerca de
500 mil brasileiros¹, a doença de Parkinson apresenta prevalência crescente,
fenômeno que está diretamente relacionado ao envelhecimento da população, já
que a condição é mais comum em indivíduos com mais de 60 anos.
Ainda
assim, também há registros de diagnóstico em pessoas jovens, sendo que o início
precoce costuma estar associado a quadros mais graves. No Brasil, estima-se que
aproximadamente 36 mil novos casos² surjam a cada ano, reforçando a importância
de atenção, diagnóstico precoce e estratégias de cuidado voltadas a essa
população.
Segunda
condição neurodegenerativa mais comum do mundo, a enfermidade é um distúrbio do
movimento progressivo e crônico, decorrente da perda de neurônios que produzem
dopamina. Embora o tremor seja o sinal mais conhecido, ele representa apenas
uma parte da complexidade do Parkinson.
"A
doença é neurodegenerativa e progressiva, envolvendo uma série de sintomas
motores e não motores, como rigidez, lentidão de movimentos, distúrbios do
sono, alterações cognitivas, problemas gastrointestinais e perda do
olfato", explica Fernando Mos, diretor médico AbbVie Brasil, empresa
biofarmacêutica global.
Do
ponto de vista neurológico, o Parkinson envolve diversos sistemas do organismo.
Delson José da Silva, membro titular e atual presidente da Academia Brasileira
de Neurologia, informa que além da perda de neurônios, há também o acúmulo
anormal de proteínas, especialmente a alfa-sinucleína, que leva à formação dos
chamados corpos de Lewy, uma das principais características da doença.
“Outros
neurotransmissores, como noradrenalina, serotonina e acetilcolina, também estão
envolvidos, o que explica a ampla variedade de sintomas não motores. Por isso,
trata-se de uma condição complexa, com manifestações que vão muito além do
movimento. Com a progressão da doença, surgem as flutuações motoras, quando o
paciente passa a alternar períodos de boa resposta ao tratamento com momentos
de piora dos sintomas”, informa.
O
especialista indica que a progressão do Parkinson ocorre de forma gradual. No
início, os sintomas são mais leves e costumam responder bem ao tratamento
medicamentoso, permitindo que o paciente mantenha sua autonomia. Com o avanço
da doença, surgem limitações. A resposta à medicação também passa a ser menos
previsível, com períodos de melhora alternados com fases de piora, conhecidas
como flutuações motoras.
“Podem
surgir discinesias, que são movimentos involuntários associados ao uso
prolongado da medicação, e o congelamento da marcha, quando o paciente sente
como se os pés estivessem presos ao chão. Esses fatores aumentam o risco de
quedas e comprometem progressivamente a autonomia, exigindo maior suporte e
acompanhamento especializado”, aponta.
Delson
ressalta que a perda progressiva da autonomia, especialmente nas fases mais
avançadas, exige uma abordagem terapêutica integrada e multidisciplinar. Nesse
âmbito, o diretor médico AbbVie Brasil, Fernando Mos, corrobora a ponderação
feita por Delson. “A contribuição da indústria vai além do desenvolvimento de
medicamentos. No Parkinson, é fundamental considerar a doença de forma ampla,
levando em conta seu impacto progressivo na autonomia do paciente e na rotina
de familiares e cuidadores”, destaca.
Sabe-se
que o tratamento padrão da doença de Parkinson baseia-se na reposição de
dopamina, realizada por meio de seu análogo, a levodopa administrada por via
oral, com o objetivo de controlar os sintomas motores característicos da
condição.
Entretanto,
com a progressão da doença, a levodopa oral pode ter a eficácia reduzida e
levar a efeitos adversos como as discinesias, causando flutuações motoras e
discinesias. Nesses casos, a única opção atualmente disponível no Brasil quando
a medicação oral falha é a cirurgia de estimulação cerebral profunda (DBS), que
não é indicada para todos – até 34% dos pacientes são inelegíveis e, entre os
elegíveis, 25% recusam o procedimento por considerá-lo invasivo.
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Lacunas no Brasil
Rubens
Cury, médico assistente do Grupo de Distúrbios do Movimento e doença de
Parkinson do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de
São Paulo (USP), enxerga duas grandes lacunas no Brasil no que diz respeito ao
cuidado do Parkinson: a neuroproteção e o acesso à estimulação dopaminérgica
contínua.
"Atualmente,
não dispomos de terapias capazes de reduzir ou interromper a progressão da
doença. A evolução do Parkinson é inevitável", lamenta. O profissional
explica que, na prática, são oferecidas terapias essencialmente sintomáticas.
"Tentamos, com algumas abordagens, alcançar um efeito neuroprotetor, mas
esse ainda é um dos grandes desafios no tratamento do Parkinson e representa
uma lacuna importante", informa.
Essas
terapias ajudam a reduzir o chamado “on-off”, em que o paciente alterna entre
momentos de bom controle dos sintomas e períodos de grande limitação motora. A
estimulação contínua, segundo Rubens, permite manter o paciente em um estado
motor mais estável ao longo do dia e da noite.
“Esse
tipo de abordagem inovadora já existe em outros países, mas ainda não está
disponível no Brasil. Hoje, no mundo, já contamos com terapias dopaminérgicas
contínuas capazes de oferecer esse controle mais uniforme, o que representa um
avanço significativo e, ao mesmo tempo, uma lacuna importante no cuidado dos
pacientes brasileiros pois ainda não dispomos dessa alternativa de tratamento
para a doença de Parkinson”, diz.
Embora
ainda não exista uma cura definitiva, a ciência tem avançado de forma
consistente no entendimento e no tratamento do Parkinson, abrindo caminhos
promissores para o futuro. Ao mesmo tempo, inovações já adotadas em outros
países indicam que há um horizonte de possibilidades a ser explorado no Brasil.
Por essa razão, a comunidade médica defende que investir na incorporação dessas
tecnologias e ampliar o acesso a terapias mais modernas são passos importantes
para transformar o cenário da doença no país.
Fonte:
Correio Braziliense

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