O
problema de saúde que pode matar até 10 milhões em 2050 se o mundo não agir
Louis
Pasteur disse que a sorte só favorece as mentes preparadas (le hasard ne
favorise que les esprits préparés).
Talvez
seja por isso que Alexander Fleming não se resignou quando, ao voltar de
ferias, descobriu que um fungo havia contaminado seu cultivo de estafilococos.
Em vez
de jogá-los no lixo, ele observou que, perto do fungo, as colônias de
estafilococos haviam morrido.
Essa
observação levou à descoberta da penicilina, que deu início à era dos
antibióticos.
E posso
dizer que aqueles que vivem nesta era são privilegiados na história da nossa
espécie.
Os
antibióticos são substâncias com a extraordinária capacidade de matar bactérias
sem fazer mal ao paciente infectado.
São
provavelmente, junto com as vacinas, um dos avanços científicos mais
importantes da medicina.
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As bactérias podem voltar a ser a principal causa de morte da humanidade
Antes
da era dos antibióticos, as infecções bacterianas eram a principal causa de
morte no planeta.
É por
isso que doenças como a peste, tuberculose, lepra ou cólera fazem parte da
nossa história.
Isso
pareceu ter chegado ao fim quando os antibióticos entraram em cena.
Mas não
era tão simples. O primeiro a avisar foi o próprio Fleming.
Em
1945, em seu discurso de ganhador do Prêmio Nobel de Medicina, ele alertou que
o uso indevido dessas moléculas poderia selecionar bactérias resistentes.
No
entanto, durante as primeiras décadas da era dos antibióticos, uma infinidade
de novas moléculas foi encontrada, e os tratamentos funcionaram sem problemas.
Por
isso, os antibióticos foram usados de maneira despreocupada e em grandes
quantidades.
Hoje as
coisas mudaram muito. Há décadas não encontramos novos antibióticos, e as
bactérias multirresistentes (que resistem a várias famílias de antibióticos
diferentes) são um problema diário nos hospitais.
Na
verdade, em 2014, estimou-se que a resistência aos antibióticos causava 700 mil
mortes a cada ano e que esse número aumentaria para 10 milhões de mortes por
ano até 2050.
Se não
conseguirmos frear a resistência, as bactérias serão novamente a principal
causa de morte da humanidade, e também se cumprirá a profecia de Louis Pasteur
de que os micróbios terão a última palavra (Messieurs, c'est les microbes qui
auront le dernier mot).
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O erro de subestimar as bactérias
Como é
que não conseguimos prever o aparecimento da multirresistência e a perda de
eficácia dos nossos tratamentos?
Bem,
fundamentalmente, porque subestimamos a capacidade de evolução das bactérias.
Longe
do modelo simples de mutação e seleção que acreditávamos no início do século 20
reger o surgimento das resistências, as bactérias possuem várias estratégias
muito mais poderosas para superar situações adversas.
Uma
delas é a transferência horizontal de genes, que faz com que bactérias de
diferentes espécies troquem DNA que pode ser útil para elas.
Isso
conecta qualquer bactéria que enfrenta uma ameaça (como, por exemplo, aquelas
dos hospitais quando tratadas com antibióticos) com soluções que se originaram
em outros micro-organismos de qualquer outra parte do planeta.
A outra
estratégia que não fomos capazes de prever é a existência de um acelerador
evolutivo em bactérias chamado integron.
O
integron é uma plataforma genética que permite às bactérias capturar genes que
fornecem novas funções, agindo como memórias que armazenam funções úteis para a
bactéria.
Um dos
elementos chave para o integron é que os genes que foram úteis em um dado
momento, mas já não são mais, se expressam muito pouco. Em outras palavras,
representam um baixo gasto de energia para a bactéria.
Isso é
fundamental porque uma das razões pelas quais acreditávamos que as bactérias
nunca seriam multirresistentes é que pensávamos que a resistência implicaria um
custo energético alto. O integron resolve isso expressando pouco os genes que
não o interessam.
Mas
esta situação não é estática: se a bactéria é atacada por antibióticos, o
integron é ativado e reorganiza seus genes para encontrar o gene de resistência
ao antibiótico que agora vai matá-la.
Em
suma, o integron é como uma memória bacteriana que permite aprender novas
funções, reduzindo o gasto energético quando essas funções não são utilizadas e
lembrando delas quando voltam a ser necessárias.
Isso
nos levou a postular a teoria de que o integron proporciona à bactéria
adaptação sob demanda.
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O integron em ação
Em
nosso último trabalho, pesquisadores da Universidade de Oxford, no Reino Unido,
e da Universidade Complutense de Madri, na Espanha, puderam ver o integron em
ação e confirmar essa teoria.
Para
isso, construímos dois integrons quase idênticos na bactéria patogênica
Pseudomonas aeruginosa (uma bactéria que causa infecções respiratórias).
Ambos
integrons possuem três genes de resistência na mesma ordem, de modo que o
último gene não confere resistência à gentamicina porque se expressa pouco (mas
se o colocássemos na primeira posição do integron, esse gene proporcionaria
resistência).
A única
diferença entre os dois integrons é que a integrase não funciona em um deles. A
integrase é justamente a proteína responsável por capturar e reorganizar os
genes do integron.
Usando
duas bactérias idênticas, exceto pelo gene da integrase — em uma o integron
funciona, e na outra não —, é possível comparar a capacidade de desenvolver
resistência proporcionada por um integron.
Para
fazer isso, forçamos em laboratório várias populações dessas duas bactérias a
crescer em concentrações cada vez maiores desse antibiótico.
Assim,
podemos avaliar sua capacidade adaptativa medindo o número de populações que
sobrevivem e são extintas quando a concentração do antibiótico aumenta.
Além
disso, sequenciamos os genomas das populações em concentrações baixas de
antibióticos e em concentrações muito elevadas.
O que
nossos experimentos demonstram claramente é que, quando o integron funciona,
permite a sobrevivência de mais populações em altas concentrações de
antibiótico do que quando ele não funciona.
O
sequenciamento mostrou que, no início dessa corrida evolutiva, o integron
reorganiza aleatoriamente seus genes de resistência, gerando variabilidade
genética muito rápido. E a seleção pelo antibiótico pode atuar sobre esta
variabilidade.
Isso é
fundamental em concentrações mais altas, nas quais encontramos exclusivamente
bactérias que moveram o gene de resistência à gentamicina para a primeira
posição do integron e, assim, conseguiram aumentar sua resistência.
No
futuro, nossa pesquisa ajudará a desenvolver intervenções que diminuam a
resistência e nos ajudem a conter esta pandemia silenciosa.
Fonte:
Por José Antonio Escudero, para The Conversation

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