terça-feira, 21 de abril de 2026

Carros elétricos: Como escapar da “armadilha verde”?

“O que melhor define o transporte público hoje é o cansaço.” A frase abre o documentário Tarifa Zero: Cidade em Disputa e resume não só a experiência cotidiana de milhões de brasileiros, mas também a lógica brutal que estrutura as cidades brasileiras.

Trata-se de um sistema que consome tempo, energia, renda e saúde de quem depende do transporte coletivo para viver, além de evidenciar as profundas marcas da exclusão urbana e racial. No contexto da emergência climática, essa realidade se agrava. A transição energética passou a ser defendida como resposta à crise ambiental, e a eletrificação da frota individual tornou-se o símbolo dessa mudança.

Essa transição fundamenta-se, em teoria, em estabelecer uma matriz energética que não seja dependente de combustíveis fósseis na geração de energia, firmando um alto investimento em formas de “energia renovável”, “energia verde”, “de baixo carbono” e/ ou de “energia limpa” – em especial solar, eólica e veículos elétricos. (PAIM; FURTADO, 2024, p. 15).

A transição energética é apresentada como uma solução para enfrentar a emergência climática por meio da substituição das fontes fósseis por renováveis, da eletrificação de processos e da descarbonização da economia. No entanto, esse processo não é neutro. Ao contrário, sua materialização depende de conflitos sociais e ecológicos, particularmente nos territórios do Sul Global, onde a exploração de minerais críticos é intensificada para atender à nova demanda tecnológica.

A aposta no carro elétrico individual, descolada de uma mudança estrutural no modelo de mobilidade, desloca os impactos socioambientais para outras geografias, sem questionar os fundamentos de um urbanismo segregador. Ao mesmo tempo, reforça desigualdades já naturalizadas, como o racismo estrutural que organiza o acesso (ou a negação) à cidade. O transporte coletivo é central para o exercício do direito à mobilidade e à vida urbana. Mas, como mostram o livro Mobilidade Antirracista e o documentário citado, ele opera hoje como mecanismo de exclusão.

Nosso sistema de transportes no Brasil é racista, desigual, segregador e excludente, e as catracas são o principal símbolo do controle dos deslocamentos e da limitação forçada da circulação impostos aos setores mais empobrecidos, que dependem centralmente das estruturas de transporte público para ir e vir. (SAKRIKI; ALBERGARIA; SAKTARÉM, 2021, p. 9)

Romper com essa lógica exige reverter prioridades: investir em um sistema público de qualidade, limpo, acessível e gratuito — orientado pela justiça social, ambiental e racial. A Tarifa Zero, nesse contexto, é uma política pública eficaz para ampliar o direito de ir e vir, especialmente das populações de menor renda, e deve caminhar com a melhoria contínua da qualidade e da cobertura do transporte coletivo.

<><> O carro elétrico como armadilha verde: exclusão e extrativismo

A transição energética baseada em veículos elétricos individuais reforça a lógica do consumo privado e da exclusão social. Em vez de romper com os modelos que sustentam a crise climática e urbana, apenas desloca os custos sociais e ecológicos para outros territórios e corpos. Como afirmam Paim e Furtado (2024), “a demanda por novos minerais […] tende a aumentar para viabilizar a produção de equipamentos de alta tecnologia, como baterias […], carros elétricos” (p. 20). Essa demanda recai sobre populações negras, indígenas e camponesas, situadas em zonas de sacrifício nos países do Sul Global. O que se apresenta como inovação “limpa” traduz-se, na prática, em intensificação da mineração e de novos conflitos socioambientais.

O documentário Tarifa Zero: Cidade em Disputa denuncia esse processo como parte de um “colonialismo verde”, em que a retórica ambiental serve para justificar soluções técnicas centradas no transporte individual, sem enfrentar o modelo desigual de cidade. A crise ambiental, nesse sentido, é usada como pretexto para perpetuar interesses privados, ocultando que a verdadeira mudança exige a transição do individual para o coletivo.

Além disso, a priorização do transporte individual, mesmo quando rotulado como sustentável, aprofunda desigualdades históricas. Como discutido na coletânea Mobilidade Antirracista (2021), “o estilo de vida ocidental baseado na automobilidade é responsável pela crise climática. Uma crise que já começa a afetar duramente o Sul Global e transforma muitos em refugiados climáticos” (p. 375). A insistência nesse modelo urbano-climático evidencia que a liberdade de circulação permanece como privilégio, e não como direito.

O relatório Em nome do Clima: mapeamento crítico faz uma crítica robusta à centralidade dos carros elétricos e à intensificação da mineração no modelo atual de transição energética. O estudo alerta para o fato de que a substituição de carros a combustão por veículos elétricos não altera as estruturas centrais do modelo extrativista que alimenta a crise climática. Em vez disso, transfere os impactos:

• A adoção massiva de veículos elétricos requer minerais críticos como lítio, cobalto e alumínio, essenciais para baterias e estruturas leves.

• Essa nova demanda por minerais desloca os custos ambientais e sociais para territórios do Sul Global, intensificando conflitos socioambientais, racismo ambiental e violações de direitos.

• A “descarbonização” por eletrificação da frota, sem questionar o modelo de transporte individual motorizado, é chamada de “solução de mercado” incapaz de enfrentar as causas estruturais da crise climática.

Por fim, como alerta Luiza Erundina (2020), “o transporte coletivo controla tempos, usos, acessos e pode reforçar a estrutura social excludente”. A saída não está, portanto, na substituição de um tipo de veículo por outro, mas na transformação estrutural do paradigma da mobilidade urbana, com centralidade na justiça ambiental, social e racial.

<><> Mobilidade antirracista e o direito à cidade

A mobilidade urbana é atravessada por estruturas históricas de desigualdade racial, econômica e territorial. No Brasil, o transporte coletivo não apenas reflete essas desigualdades. Ele as reforça. Trata-se de um campo onde se expressa, de maneira cotidiana e brutal, o racismo estrutural: longas jornadas, insegurança, sobrecarga física e emocional, falta de acessibilidade e altos custos tarifários recaem, sobretudo, sobre os corpos negros e periféricos.

O transporte coletivo é uma continuação do navio negreiro. Não é coincidência que suas principais características sejam tão parecidas: o tratamento desumano a quem é transportado, o veículo precário superlotado, a violência constante durante a viagem, o trajeto nunca estar de acordo com nossas vontades e sim a das elites brancas que enriquecem à custa do tráfico/transporte de pessoas. Uma maioria negra transportada para trabalhar em regiões de maioria branca.” (SAKTARÉM, 2021, p. 28).

Essa analogia não é meramente retórica: ela escancara as heranças coloniais presentes na estrutura urbana contemporânea.

No documentário Tarifa Zero: Cidade em Disputa, os efeitos dessa precariedade são visíveis não apenas na paisagem, mas no corpo e na psique de quem depende do transporte público: alimentação comprometida, sono insuficiente, dores crônicas, isolamento social e sofrimento psíquico são consequências invisibilizadas da desigualdade na mobilidade.

Romper com esse ciclo exige reconhecer o transporte como direito social e, portanto, como responsabilidade do Estado. Isso implica vontade política, financiamento público progressivo e participação ativa da sociedade na formulação das políticas de mobilidade. A proposta de mobilidade antirracista articula justiça ambiental e reparação histórica, com foco em um projeto de cidade mais democrática, acessível e viva.

<><> Gratuidade e eletrificação: por uma revolução na mobilidade pública

A política de Tarifa Zero nos convida a uma reflexão sobre o papel do transporte coletivo na sociedade brasileira. Trata-se de romper com a lógica da catraca como barreira ao direito de ir e vir, como símbolo da desigualdade urbana e como expressão do racismo institucionalizado nas cidades. Como sintetiza Petrone (2021, p. 24), “A Tarifa Zero é, pela forma como se estrutura a desigualdade no Brasil, um instrumento muito eficiente de enfrentamento ao racismo expresso na limitação do direito de ir e vir”.

No entanto, a gratuidade, por si só, não é suficiente. Ela precisa estar associada a investimentos públicos robustos e contínuos em infraestrutura, qualidade de serviço e expansão da cobertura, de forma a garantir um sistema de transporte coletivo eficaz, confortável, acessível e seguro. Nesse sentido, é preciso aprofundar o debate sobre os parâmetros e indicadores de qualidade que assegurem a efetividade dessa política, como tempo de espera, conforto nos veículos, acessibilidade universal, frequência e confiabilidade, entre outros critérios.

Além disso, o atual modelo de mobilidade, centrado no transporte rodoviário sob controle de empresas privadas, muitas vezes vinculadas a esquemas de corrupção e má gestão, reforça a exclusão social. Conforme argumentado no livro Mobilidade Antirracista, trata-se de um modelo caro, poluente, de péssima qualidade e altamente lucrativo para poucos (SAKRIKI et al., 2021, p. 21).

Nesse contexto, a eletrificação da frota deve estar no centro do planejamento urbano, com prioridade absoluta para o transporte público coletivo. A transição energética exige corredores exclusivos, integração entre modais, sistemas inteligentes de operação e participação popular nos processos decisórios. O transporte público, gratuito e eletrificado, deve ser concebido como infraestrutura essencial, orientada por critérios de justiça social, ambiental e racial.

O documentário Tarifa Zero: Cidade em Disputa evidencia essa articulação entre gratuidade, qualidade e transição energética justa. Ao mostrar os impactos da precariedade sobre a saúde, o tempo e a vida cotidiana das pessoas que dependem do transporte público, o filme afirma que a Tarifa Zero, integrada ao planejamento de um sistema público eletrificado, não é apenas uma resposta econômica, mas uma estratégia de cuidado, sustentabilidade e redistribuição do espaço urbano.

<><> Conclusão

A aposta nos carros elétricos individuais como símbolo da transição energética reforça um modelo de mobilidade centrado na exclusão. Ao deslocar os custos sociais e ecológicos para outros territórios e manter intactos os fundamentos do urbanismo segregador, essa proposta reproduz desigualdades já naturalizadas — como o racismo estrutural que organiza o acesso à cidade.

Como discutido ao longo deste artigo, não se trata apenas de substituir um tipo de veículo por outro, mas de inverter prioridades: colocar o transporte coletivo no centro do planejamento urbano e da agenda climática. A Tarifa Zero, articulada à melhoria contínua da qualidade e à eletrificação da frota pública, é uma política pública viável, concreta e urgente. Ela rompe com a lógica da catraca como barreira ao direito de ir e vir, reduz os impactos socioambientais e enfrenta diretamente a precarização imposta aos corpos negros e periféricos.

Garantir um sistema gratuito, limpo, acessível e bem planejado não é uma utopia: é uma exigência para qualquer projeto sério de justiça ambiental, urbana e racial. A transição energética só terá sentido se for também uma transição política — do individual para o coletivo, do mercado para o comum, da exclusão para a reparação.

 

Fonte: Por Katarine Flor, em Outras Palavras

 

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