Carros
elétricos: Como escapar da “armadilha verde”?
“O que
melhor define o transporte público hoje é o cansaço.” A frase abre o
documentário Tarifa Zero: Cidade em Disputa e resume não só a experiência
cotidiana de milhões de brasileiros, mas também a lógica brutal que estrutura
as cidades brasileiras.
Trata-se
de um sistema que consome tempo, energia, renda e saúde de quem depende do
transporte coletivo para viver, além de evidenciar as profundas marcas da
exclusão urbana e racial. No contexto da emergência climática, essa realidade
se agrava. A transição energética passou a ser defendida como resposta à crise
ambiental, e a eletrificação da frota individual tornou-se o símbolo dessa
mudança.
Essa
transição fundamenta-se, em teoria, em estabelecer uma matriz energética que
não seja dependente de combustíveis fósseis na geração de energia, firmando um
alto investimento em formas de “energia renovável”, “energia verde”, “de baixo
carbono” e/ ou de “energia limpa” – em especial solar, eólica e veículos
elétricos. (PAIM; FURTADO, 2024, p. 15).
A
transição energética é apresentada como uma solução para enfrentar a emergência
climática por meio da substituição das fontes fósseis por renováveis, da
eletrificação de processos e da descarbonização da economia. No entanto, esse
processo não é neutro. Ao contrário, sua materialização depende de conflitos
sociais e ecológicos, particularmente nos territórios do Sul Global, onde a
exploração de minerais críticos é intensificada para atender à nova demanda
tecnológica.
A
aposta no carro elétrico individual, descolada de uma mudança estrutural no
modelo de mobilidade, desloca os impactos socioambientais para outras
geografias, sem questionar os fundamentos de um urbanismo segregador. Ao mesmo
tempo, reforça desigualdades já naturalizadas, como o racismo estrutural que
organiza o acesso (ou a negação) à cidade. O transporte coletivo é central para
o exercício do direito à mobilidade e à vida urbana. Mas, como mostram o livro
Mobilidade Antirracista e o documentário citado, ele opera hoje como mecanismo
de exclusão.
Nosso
sistema de transportes no Brasil é racista, desigual, segregador e excludente,
e as catracas são o principal símbolo do controle dos deslocamentos e da
limitação forçada da circulação impostos aos setores mais empobrecidos, que
dependem centralmente das estruturas de transporte público para ir e vir.
(SAKRIKI; ALBERGARIA; SAKTARÉM, 2021, p. 9)
Romper
com essa lógica exige reverter prioridades: investir em um sistema público de
qualidade, limpo, acessível e gratuito — orientado pela justiça social,
ambiental e racial. A Tarifa Zero, nesse contexto, é uma política pública
eficaz para ampliar o direito de ir e vir, especialmente das populações de
menor renda, e deve caminhar com a melhoria contínua da qualidade e da
cobertura do transporte coletivo.
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O carro elétrico como armadilha verde: exclusão e extrativismo
A
transição energética baseada em veículos elétricos individuais reforça a lógica
do consumo privado e da exclusão social. Em vez de romper com os modelos que
sustentam a crise climática e urbana, apenas desloca os custos sociais e
ecológicos para outros territórios e corpos. Como afirmam Paim e Furtado
(2024), “a demanda por novos minerais […] tende a aumentar para viabilizar a
produção de equipamentos de alta tecnologia, como baterias […], carros
elétricos” (p. 20). Essa demanda recai sobre populações negras, indígenas e
camponesas, situadas em zonas de sacrifício nos países do Sul Global. O que se
apresenta como inovação “limpa” traduz-se, na prática, em intensificação da
mineração e de novos conflitos socioambientais.
O
documentário Tarifa Zero: Cidade em Disputa denuncia esse processo como parte
de um “colonialismo verde”, em que a retórica ambiental serve para justificar
soluções técnicas centradas no transporte individual, sem enfrentar o modelo
desigual de cidade. A crise ambiental, nesse sentido, é usada como pretexto
para perpetuar interesses privados, ocultando que a verdadeira mudança exige a
transição do individual para o coletivo.
Além
disso, a priorização do transporte individual, mesmo quando rotulado como
sustentável, aprofunda desigualdades históricas. Como discutido na coletânea
Mobilidade Antirracista (2021), “o estilo de vida ocidental baseado na
automobilidade é responsável pela crise climática. Uma crise que já começa a
afetar duramente o Sul Global e transforma muitos em refugiados climáticos” (p.
375). A insistência nesse modelo urbano-climático evidencia que a liberdade de
circulação permanece como privilégio, e não como direito.
O
relatório Em nome do Clima: mapeamento crítico faz uma crítica robusta à
centralidade dos carros elétricos e à intensificação da mineração no modelo
atual de transição energética. O estudo alerta para o fato de que a
substituição de carros a combustão por veículos elétricos não altera as
estruturas centrais do modelo extrativista que alimenta a crise climática. Em
vez disso, transfere os impactos:
• A
adoção massiva de veículos elétricos requer minerais críticos como lítio,
cobalto e alumínio, essenciais para baterias e estruturas leves.
• Essa
nova demanda por minerais desloca os custos ambientais e sociais para
territórios do Sul Global, intensificando conflitos socioambientais, racismo
ambiental e violações de direitos.
• A
“descarbonização” por eletrificação da frota, sem questionar o modelo de
transporte individual motorizado, é chamada de “solução de mercado” incapaz de
enfrentar as causas estruturais da crise climática.
Por
fim, como alerta Luiza Erundina (2020), “o transporte coletivo controla tempos,
usos, acessos e pode reforçar a estrutura social excludente”. A saída não está,
portanto, na substituição de um tipo de veículo por outro, mas na transformação
estrutural do paradigma da mobilidade urbana, com centralidade na justiça
ambiental, social e racial.
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Mobilidade antirracista e o direito à cidade
A
mobilidade urbana é atravessada por estruturas históricas de desigualdade
racial, econômica e territorial. No Brasil, o transporte coletivo não apenas
reflete essas desigualdades. Ele as reforça. Trata-se de um campo onde se
expressa, de maneira cotidiana e brutal, o racismo estrutural: longas jornadas,
insegurança, sobrecarga física e emocional, falta de acessibilidade e altos
custos tarifários recaem, sobretudo, sobre os corpos negros e periféricos.
O
transporte coletivo é uma continuação do navio negreiro. Não é coincidência que
suas principais características sejam tão parecidas: o tratamento desumano a
quem é transportado, o veículo precário superlotado, a violência constante
durante a viagem, o trajeto nunca estar de acordo com nossas vontades e sim a
das elites brancas que enriquecem à custa do tráfico/transporte de pessoas. Uma
maioria negra transportada para trabalhar em regiões de maioria branca.”
(SAKTARÉM, 2021, p. 28).
Essa
analogia não é meramente retórica: ela escancara as heranças coloniais
presentes na estrutura urbana contemporânea.
No
documentário Tarifa Zero: Cidade em Disputa, os efeitos dessa precariedade são
visíveis não apenas na paisagem, mas no corpo e na psique de quem depende do
transporte público: alimentação comprometida, sono insuficiente, dores
crônicas, isolamento social e sofrimento psíquico são consequências
invisibilizadas da desigualdade na mobilidade.
Romper
com esse ciclo exige reconhecer o transporte como direito social e, portanto,
como responsabilidade do Estado. Isso implica vontade política, financiamento
público progressivo e participação ativa da sociedade na formulação das
políticas de mobilidade. A proposta de mobilidade antirracista articula justiça
ambiental e reparação histórica, com foco em um projeto de cidade mais
democrática, acessível e viva.
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Gratuidade e eletrificação: por uma revolução na mobilidade pública
A
política de Tarifa Zero nos convida a uma reflexão sobre o papel do transporte
coletivo na sociedade brasileira. Trata-se de romper com a lógica da catraca
como barreira ao direito de ir e vir, como símbolo da desigualdade urbana e
como expressão do racismo institucionalizado nas cidades. Como sintetiza
Petrone (2021, p. 24), “A Tarifa Zero é, pela forma como se estrutura a
desigualdade no Brasil, um instrumento muito eficiente de enfrentamento ao
racismo expresso na limitação do direito de ir e vir”.
No
entanto, a gratuidade, por si só, não é suficiente. Ela precisa estar associada
a investimentos públicos robustos e contínuos em infraestrutura, qualidade de
serviço e expansão da cobertura, de forma a garantir um sistema de transporte
coletivo eficaz, confortável, acessível e seguro. Nesse sentido, é preciso
aprofundar o debate sobre os parâmetros e indicadores de qualidade que
assegurem a efetividade dessa política, como tempo de espera, conforto nos
veículos, acessibilidade universal, frequência e confiabilidade, entre outros
critérios.
Além
disso, o atual modelo de mobilidade, centrado no transporte rodoviário sob
controle de empresas privadas, muitas vezes vinculadas a esquemas de corrupção
e má gestão, reforça a exclusão social. Conforme argumentado no livro
Mobilidade Antirracista, trata-se de um modelo caro, poluente, de péssima
qualidade e altamente lucrativo para poucos (SAKRIKI et al., 2021, p. 21).
Nesse
contexto, a eletrificação da frota deve estar no centro do planejamento urbano,
com prioridade absoluta para o transporte público coletivo. A transição
energética exige corredores exclusivos, integração entre modais, sistemas
inteligentes de operação e participação popular nos processos decisórios. O
transporte público, gratuito e eletrificado, deve ser concebido como
infraestrutura essencial, orientada por critérios de justiça social, ambiental
e racial.
O
documentário Tarifa Zero: Cidade em Disputa evidencia essa articulação entre
gratuidade, qualidade e transição energética justa. Ao mostrar os impactos da
precariedade sobre a saúde, o tempo e a vida cotidiana das pessoas que dependem
do transporte público, o filme afirma que a Tarifa Zero, integrada ao
planejamento de um sistema público eletrificado, não é apenas uma resposta
econômica, mas uma estratégia de cuidado, sustentabilidade e redistribuição do
espaço urbano.
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Conclusão
A
aposta nos carros elétricos individuais como símbolo da transição energética
reforça um modelo de mobilidade centrado na exclusão. Ao deslocar os custos
sociais e ecológicos para outros territórios e manter intactos os fundamentos
do urbanismo segregador, essa proposta reproduz desigualdades já naturalizadas
— como o racismo estrutural que organiza o acesso à cidade.
Como
discutido ao longo deste artigo, não se trata apenas de substituir um tipo de
veículo por outro, mas de inverter prioridades: colocar o transporte coletivo
no centro do planejamento urbano e da agenda climática. A Tarifa Zero,
articulada à melhoria contínua da qualidade e à eletrificação da frota pública,
é uma política pública viável, concreta e urgente. Ela rompe com a lógica da
catraca como barreira ao direito de ir e vir, reduz os impactos socioambientais
e enfrenta diretamente a precarização imposta aos corpos negros e periféricos.
Garantir
um sistema gratuito, limpo, acessível e bem planejado não é uma utopia: é uma
exigência para qualquer projeto sério de justiça ambiental, urbana e racial. A
transição energética só terá sentido se for também uma transição política — do
individual para o coletivo, do mercado para o comum, da exclusão para a
reparação.
Fonte:
Por Katarine Flor, em Outras Palavras

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