A
bizarra história da primeira viagem de LSD do mundo
"No
final da síntese, tive uma situação psíquica muito estranha. Surgiu meio que um
mundo de sonhos, uma sensação de unicidade com o mundo."
O
químico suíço Albert Hofmann (1906-2008) trabalhava em um experimento de rotina
em uma empresa farmacêutica na Basileia (Suíça), quando fez, por acaso, uma
descoberta que mudou o mundo.
Ele foi
o primeiro a experimentar, de forma suave e misteriosa, a substância que
ficaria conhecida como LSD. E sua decisão de tomar a droga psicodélica três
dias depois trouxe visões terríveis e um dos passeios de bicicleta mais
estranhos da história.
Tudo
começou na sexta-feira, 16 de abril de 1943. Ele preparava um novo lote de
dietilamida do ácido lisérgico, um composto que ele próprio havia sintetizado
pela primeira vez cinco anos antes.
O
químico tinha, na época, 37 anos e estudava plantas medicinais. Hofmann fazia
experiências com cravagem, um tipo de fungo que cresce no milho. Seu objetivo
era tentar produzir um medicamento que pudesse ajudar as parturientes a evitar
o sangramento pós-parto.
O nome
da substância em alemão é Lysergsäurediethylamid, que levou ao seu nome mais
conhecido: LSD.
A BBC
entrevistou Hofmann em 1986. Ele declarou que sua inesperada experiência com a
droga fez com que ele relembrasse momentos "místicos" da infância,
passados em bosques e florestas.
A
sensação de "observar os verdadeiros aspectos da natureza, a beleza"
encheu o cientista de alegria.
Hofmann
se perguntava se aquele estado agradável de sonho, de alguma forma, estaria
ligado aos cristais de LSD que ele estava purificando. Ele não havia ingerido o
composto deliberadamente, mas talvez tivesse uma pequena quantidade da
substância nos dedos.
Isso
indicaria que se tratava de algo muito potente e o químico decidiu descobrir
experimentando em si próprio, quando voltasse ao trabalho na segunda-feira.
Cauteloso
por natureza, ele começou com o que imaginava ser a menor dose que poderia ter
algum efeito.
"Comecei
com 0,25 miligramas", relembrou Hofmann. Ele planejava aumentar a dose
apenas se nada acontecesse.
"Mas
mesmo esta dose muito pequena, a primeira planejada dos meus experimentos, foi
muito, muito forte", ele conta.
Depois
de tomar a droga, Hofmann começou a se sentir mal e foi para casa cambaleando
pelas ruas da Basileia, na sua bicicleta.
Ao
longo do trajeto, tudo ia ficando estranho. Sua visão ficou distorcida, como se
ele estivesse olhando para um espelho deformador. E, quando chegou em casa, seu
senso de realidade havia se desintegrado.
Quando
entrou na sua sala de estar, Hofmann ficou surpreso ao observar como ela
parecia ter mudado completamente.
"A
sala em si e os objetos no seu interior tinham uma forma muito diferente, cor
diferente, significado diferente", contou ele à BBC.
Até uma
cadeira comum parecia ser um "objeto vivo", como se estivesse se
movendo. "Era tão incomum que realmente temi que tivesse ficado
louco", relembra Hofmann.
As
bizarras alucinações prosseguiram por toda a noite. Uma vizinha teve a
gentileza de levar leite para ele como antídoto, mas ela parecia ter se
transformado em uma bruxa.
"Às
vezes, Hofmann se sentia como se tivesse morrido e chegado ao inferno",
explica o repórter da BBC. O químico só sentiu que estava voltando ao mundo
normal cerca de seis horas depois de tomar a droga.
Sem se
deixar abalar por esta alarmante experiência, Hofmann tomaria LSD várias outras
vezes nas décadas que se seguiram, para observar seus efeitos.
Seu
trajeto de bicicleta do laboratório até em casa, naquela segunda-feira de 1943,
é celebrado todos os anos, no dia 19 de abril, por pessoas inspiradas pelo LSD,
seja científica ou criativamente.
Em
1985, o professor Thomas B. Roberts, de Illinois, nos Estados Unidos, cunhou a
expressão "Dia da Bicicleta", para designar o aniversário.
Hofmann
contou sua descoberta para seu chefe na companhia farmacêutica, a Sandoz.
Pelo
efeito do LSD sobre ele, o químico calculou que uma colher de chá seria
suficiente para 50 mil pessoas. Ele e seus colegas "perceberam rapidamente
que se tratava de um agente muito importante, que poderia ser útil na
psiquiatria e em pesquisas".
A
Sandoz começou a distribuir LSD para hospitais psiquiátricos, em um medicamento
experimental chamado Delysid. Alguns psiquiatras o administraram a pacientes,
devido aos seus efeitos sobre a mente subconsciente, que permitiam que eles
liberassem recordações suprimidas e conflitos mentais.
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O LSD se espalha pelo mundo
Os
efeitos desta nova e poderosa substância chamaram a atenção do Exército
americano, que deu início a um programa de pesquisa altamente secreto,
conhecido pelo codinome MK-Ultra.
Ken
Kesey (1935-2001) foi um dos civis expostos ao LSD durante esta pesquisa. Ele
escreveria posteriormente o livro Um Estranho no Ninho (Ed. Record, 1976), que
deu origem ao filme homônimo protagonizado por Jack Nicholson.
"Decidi
que era algo importante demais para deixar nas mãos do governo", contou
ele à BBC.
Impressionado
com o poder alucinógeno da droga, na época ainda legal, Kesey começou a
distribuí-la aos seus amigos. E, em 1964, ele reuniu um grupo de pessoas com
pensamento parecido.
Eles se
autodenominaram Merry Pranksters ("Alegres Brincalhões", em tradução
livre) e saíram viajando pelos Estados Unidos, em um ônibus pintado com cores
brilhantes.
Foi
assim que o LSD saiu dos laboratórios e chegou a todo o país, alimentando a
experiência da contracultura.
Na
época, já se sabia que os usuários de LSD se arriscavam a enfrentar as chamadas
viagens ruins — espirais de medo e pânico aterrorizantes, que podem causar
danos psicológicos permanentes. Ainda assim, muitas pessoas que tomavam a droga
defendiam seu potencial de mudar o mundo para melhor.
Um dos
mais ativos promotores do LSD foi o ex-psicólogo da Universidade Harvard, nos
Estados Unidos, Timothy Leary (1920-1996). Sua famosa frase de efeito
"turn on, tune in, drop out" (algo como "ligue-se, sintonize e
caia fora") se tornou um slogan que definia a era psicodélica.
Leary
escreveu para a farmacêutica suíça em 1963 com um pedido de 100 g de LSD,
suficiente para dois milhões de pessoas. A carta foi endereçada a Hofmann.
Já
alarmado pelo abuso da sua descoberta fora do campo da medicina, Hofmann
recomendou à Sandoz que não atendesse à encomenda de Leary.
"Percebi
imediatamente que seria perigoso porque uma substância com um efeito tão
profundo deve ser usada com cuidado", contou ele à BBC.
Hofmann
observou que culturas antigas e comunidades indígenas usaram os alucinógenos
por séculos, mas apenas em ambientes religiosos e sempre "nas mãos do
xamã, não em público".
Ele
destacou que, na sociedade moderna, o equivalente mais próximo do xamã, neste
caso, é o psiquiatra e que essas drogas "deveriam permanecer nas mãos do
xamã".
Foi por
isso que ele receou desde o princípio que "coisas ruins poderiam
acontecer" com o uso imprudente e descontrolado do LSD. E ele sentiu que
seu temor foi posteriormente confirmado.
Calcula-se
que mais de um milhão de americanos tenham tomado LSD em 1969, sem supervisão
médica.
Muitos
acharam insuportável o lado sombrio dos seus efeitos sobre a mente. Mas Hofmann
contou que nunca se sentiu culpado porque "não é o LSD que é ruim".
Ele
defendia que, se consumido adequadamente, o LSD não é uma substância
prejudicial. Ele só se torna "muito, muito perigoso" quando é tomado
de forma imprudente e sem respeito pela sua "profunda influência sobre a
sociedade e até sobre a consciência".
Mas,
com tantas pessoas tomando a droga descuidadamente, em meio a um número cada
vez maior de reportagens na imprensa sobre os seus efeitos prejudiciais, a
regulamentação logo se tornou inevitável.
A
Convenção das Nações Unidas sobre Substâncias Psicotrópicas de 1971 impôs
rigoroso controle internacional sobre o LSD, que seria proibido em muitos
países.
Atualmente,
o LSD é ilegal em quase todo o mundo e permanece sob rígido controle nos países
que permitem seu uso para pesquisas médicas.
O
poderoso efeito da substância sobre a mente e o risco de flashbacks de longo
prazo fizeram com que ela fosse classificada ao lado da cocaína e da heroína,
devido ao seu alto potencial de abuso.
Albert
Hofmann morreu em 2008, com 102 anos de idade. Ele contou à BBC que a principal
percepção obtida na sua experiência com o LSD é que "a realidade não é
algo fixo, mas sim um tanto ambígua".
"Antes,
eu sempre pensei que só existisse uma realidade, uma realidade verdadeira. E,
então, percebi que existem outras dimensões", contou ele.
O
título da sua autobiografia, LSD: My Problem Child ("LSD: meu
filho-problema", em tradução livre) reflete sua postura ambivalente em
relação à droga. Mas ele manteve sua fé no potencial terapêutico do LSD.
"Acredito
que, se as pessoas aprendessem a usar a capacidade indutora de visões do LSD
com mais sabedoria, sob condições apropriadas, durante a prática médica e em
conjunto com a meditação, este filho-problema, no futuro, poderia se tornar uma
criança-prodígio."
Fonte:
BBC Culture

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