As
poderosas bactérias encontradas em cavernas profundas que desafiam a medicina
Nas
profundezas da Terra, 489 metros abaixo do deserto de Chihuahua, no sul do
Estado americano do Novo México, fica a caverna Lechuguilla.
"Você
pode ingressar por uma das entradas e percorrer 16 horas em uma única direção,
até chegar ao final", segundo a professora de ciências geológicas Hazel
Barton, da Universidade do Alabama, nos Estados Unidos.
"Por
isso, você fica muito, muito, muito longe da entrada, isolado. Mais pessoas
pisaram na Lua do que em algumas partes desta caverna."
Mas,
apesar da escuridão, existe em Lechuguilla uma assombrosa diversidade de vida
microbiana.
Como as
bactérias passaram milhões de anos isoladas, elas oferecem uma janela única
para o passado. E, mais do que isso, cada uma delas desenvolveu uma estratégia
diferente para sobreviver.
Algumas
delas extraem energia das rochas e da atmosfera. Outras são canibais e se
alimentam de outras bactérias.
"Como
na floresta tropical, observamos predadores que simplesmente saem correndo,
capturam, atacam e matam outros micróbios", explica Barton.
"Mas
também observamos micróbios que colaboram para obter nutrientes e energia de um
sistema que, de outra forma, não geraria energia suficiente para sua
sobrevivência."
As
bactérias também têm um ás na manga ainda mais surpreendente. Elas são
resistentes à maioria dos antibióticos, mesmo tendo ficado presas em uma
caverna formada há seis milhões de anos e totalmente isolada dos seres humanos
até 1986.
Esta
resistência não é apenas um fenômeno natural extraordinário. Ela também ajuda
os pesquisadores a encontrar substâncias capazes de resistir ao avanço da
resistência antimicrobiana na medicina moderna.
Mas é
preciso retroceder um pouco esta história.
Atualmente,
o surgimento de bactérias resistentes aos antibióticos — frequentemente
chamadas de "superbactérias" — constitui uma crise sanitária mundial
cada vez maior.
Estas
bactérias patogênicas causadoras de doenças desenvolveram resistência a
diversos tipos de antibióticos, o que dificulta o tratamento das infecções.
Ficou
determinado que a resistência aos antimicrobianos (RAM) foi diretamente
responsável por 1,14 milhão de mortes em 2021. E se estima que a RAM causará 39
milhões de mortes entre 2025 e 2050.
Calcula-se
ainda que milhões de crianças já morram anualmente devido a infecções
resistentes a antibióticos.
A causa
da crise da RAM costuma ser atribuída ao mau uso e ao consumo excessivo de
antimicrobianos em seres humanos, animais e plantas. Mas esta é apenas uma
parte da história.
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O fenômeno não é novo
Em
2006, o professor de Bioquímica e Estudos Biomédicos Gerard Wright, da
Universidade McCaster de Ontário, no Canadá, descobriu bactérias que vivem no
solo e estão repletas de genes de resistência a antibióticos.
Estes
micróbios que moram no lodo apresentaram exatamente os mesmos genes de
resistência que encontramos nas bactérias que causam doenças nos seres humanos.
"Não
se tratava de bactérias patogênicas", explica Wright. "Elas não
causavam doenças. Simplesmente estavam ali, sem gerar problemas."
Isso
sugere que a resistência aos antimicrobianos não é um fenômeno novo e que, de
fato, já estava integrada a muitas bactérias.
Esta
descoberta foi respaldada pelo fato de que também foram encontradas bactérias
resistentes em núcleos de gelo glacial extraídos da Antártida, além dos solos,
mares e rochas do continente isolado.
Também
foram descobertas bactérias resistentes aos antimicrobianos no permafrost
antigo e na microbiota intestinal dos habitantes de uma tribo yanomami isolada
da floresta amazônica.
Mas a
descoberta de Wright isoladamente não foi suficiente para convencer a
comunidade científica de que a resistência aos antimicrobianos havia surgido
sem contato humano.
Afinal,
o uso excessivo de antibióticos na agricultura é bem documentado. E as
bactérias do solo poderiam ter entrado em contato com os antibióticos desta
forma.
"Vivemos
na era antropogênica, de forma que não há lugar no mundo onde não haja
evidências da atividade humana, seja no topo do Everest ou no fundo da Fossa
das Marianas", explica Wright.
Era
necessário ter um ambiente prístino, isolado da atividade humana por milênios.
É aqui que entra a caverna de Lechuguilla.
Ela se
formou milhões de anos atrás, a partir da infiltração da água da chuva até
grandes profundidades. A água se combinou com sulfeto de hidrogênio nas
profundezas da Terra, gerando ácido sulfúrico.
O ácido
subiu sob grande pressão, dissolvendo a pedra calcária durante sua passagem.
Por fim, a água rica em ácido se chocou contra uma camada de arenito insolúvel.
"Esta
camada de rocha faz com que nada possa entrar na caverna", explica Barton.
"As
cavernas se formaram há milhões de anos e a água superficial leva cerca de 1
mil anos para chegar à região de onde estávamos tirando amostras. Além disso,
era uma passagem recém-descoberta à qual, pelo que sabemos, nenhum ser humano
havia tido acesso antes."
Em
outras palavras, não há possibilidade de que os antibióticos tenham chegado às
cavernas.
Barton
estuda a vida microscópica em cavernas há mais de 20 anos. Ele é uma das poucas
pessoas com acesso à caverna de Lechuguilla.
Por
isso, em 2012, ela se uniu a Wright para investigar se aqueles micróbios também
poderiam ser resistentes a antibióticos.
Barton
desceu até a caverna de Lechuguilla para recolher amostras. São mais de 366
metros de profundidade e, para isso, foi necessário descer de rapel por
diversas cordas. Mas o esforço valeu a pena.
"Como
era de se esperar, descobrimos que todos os micróbios presentes eram
resistentes a praticamente todos os antibióticos naturais empregados na prática
clínica", afirma Barton.
Tudo
isso faz sentido do ponto de vista da evolução.
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Milhões de anos de concorrência
"Os
mecanismos e as vias que levam à resistência aos antibióticos não se formam
rapidamente", segundo Barton.
"Se
observarmos a estrutura de um antibiótico, vemos que se trata de uma molécula
que, provavelmente, levou centenas de milhões, talvez bilhões de anos para se
formar. Por isso, é provável que a resistência a estes antibióticos seja tão
antiga quanto eles próprios."
Mas as
bactérias continuavam sendo eliminadas por antibióticos sintéticos ou
semissintéticos, já que elas nunca haviam sido expostas a eles.
Um
micróbio, uma cepa bacteriana não patogênica denominada Paenibacillus sp.
LC231, era resistente a 26 dos 40 antibióticos analisados — incluindo a
daptomicina, uma substância relativamente nova e considerada último recurso
contra bactérias resistentes a medicamentos, como Staphylococcus aureus
resistente à meticilina (SARM).
Os
pesquisadores sequenciaram o genoma completo de Paenibacillus sp. LC231 e
descobriram que muitos dos genes de resistência eram idênticos aos encontrados
em bactérias resistentes a antibióticos conhecidas. Mas a equipe também
identificou cinco genes de resistência que nunca haviam sido detectados antes.
Curiosamente,
uma espécie relacionada ao Paenibacillus antigo e isolado (uma espécie
formadora de esporos amplamente distribuída na superfície) também possui os
mesmos mecanismos de resistência. Isso significa que a resistência aos
antibióticos evoluiu antes que as bactérias ficassem capturadas na caverna, não
depois.
"A
principal conclusão para nós, e a razão por que tentávamos fazer este estudo, é
demonstrar que a resistência a antibióticos faz parte da história natural dos
micro-organismos do planeta", explica Wright.
"A
maioria dos antibióticos provém de bactérias e fungos. Por isso, eles continuam
produzindo e competindo entre si por centenas de milhões, talvez bilhões de
anos."
Segundo
Wright, durante a maior parte da história da Terra, a resistência aos
antibióticos se limitou a cepas bacterianas não patogênicas, ou seja, que não
causam doenças.
Mas o
uso generalizado de antibióticos pelo ser humano, para o tratamento de
infecções, exerceu forte pressão seletiva, que impulsionou os micróbios
patogênicos a também adotar essas defesas.
Como as
bactérias podem transmitir genes rapidamente entre si, a resistência
antimicrobiana se propagou com rapidez. Mas é possível que algo no ambiente
hostil das cavernas tenha incentivado as bactérias a conservar e aperfeiçoar
suas defesas.
Como os
nutrientes e os recursos são muito escassos, as bactérias precisam competir
entre si para sobreviver, segundo Barton. E é provável que esta situação gere
uma guerra microbiana.
"Se
houver redução da quantidade de recursos disponíveis para uma comunidade, ela
se tornará muito mais agressiva e haverá uma luta interna muito maior entre os
micróbios", explica Barton.
Como
era de se esperar, os biólogos encontraram nas cavernas micróbios que liberam
antibióticos de forma descontrolada. Uma amostra produziu 38 compostos
antimicrobianos diferentes, com três estruturas antibióticas inovadoras.
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A utilidade da descoberta
A
questão é: podemos usar este novo conhecimento como auxílio na luta contra a
resistência aos antimicrobianos?
É
possível que a descoberta do valioso arsenal secreto das bactérias ajude os
cientistas a desenvolver novos tratamentos.
Tradicionalmente,
os cientistas descobriram novos antibióticos explorando a natureza, retirando
amostras de água e do solo e tratando minuciosamente de purificar e extrair os
compostos que podem ser benéficos.
Em
2025, Wright e seus colegas descobriram uma nova e promissora classe de
antibióticos no solo.
Encontrar
bactérias em áreas isoladas e inexploradas poderá ser útil, já que é possível
que os micróbios das cavernas produzam antibióticos ancestrais contra os quais
as bactérias da superfície tenham se esquecido de como se defender, ou que
nunca tenham nem mesmo encontrado.
A
microbióloga Naowarat (Ann) Cheeptham, da Universidade Thompson Rivers, no
Canadá, se propõe a fazer exatamente isso.
Durante
a última década, sua equipe explorou cavernas, retirou amostras de solo e
cultivou as bactérias resultantes em placas de Petri. E, posteriormente, eles
testaram estas bactérias contra superbactérias conhecidas, para determinar se
os micróbios das cavernas poderiam eliminá-las.
Cheeptham
já analisou mais de 2 mil bactérias e identificou muitos organismos
promissores.
Sua
equipe encontrou, por exemplo, duas espécies de bactérias na caverna Cortina de
Ferro, no Canadá, capazes de eliminar cepas multirresistentes de Escherichia
coli.
Ela
também descobriu cinco micróbios produtores de antibióticos eficazes contra
SARM na caverna do Coelho Branco, que fica na cordilheira de Monashee, na
província canadense da Colúmbia Britânica.
Mas a
falta de financiamento para a pesquisa de novos antibióticos levou Ann
Cheeptham a interromper sua busca de substâncias farmacêuticas, pelo menos por
enquanto.
"Encontramos
possíveis compostos, mas será necessário muito tempo e investimento financeiro
para chegarmos a um ponto em que as companhias farmacêuticas passem a colaborar
conosco", explica ela.
"Os
candidatos promissores permanecem na geladeira, de forma que retomaremos quando
tivermos fundos."
Alternativamente,
os micróbios das cavernas poderiam ajudar na luta contra a resistência aos
antimicrobianos, permitindo aos cientistas prever quando as bactérias poderão
desenvolver resistência a uma nova classe de antibióticos.
"Primeiramente,
é preciso saber quais são os mecanismos de resistência já existentes",
segundo Gerard Wright.
"Se
eu descobrir amanhã um antibiótico e quiser levá-lo para a clínica, seria uma
boa ideia compreender quais são suas limitações e quais são suas
vulnerabilidades frente ao que já existe, pois, assim, estaremos mais
preparados para o surgimento da resistência, não se, mas quando ela
ocorrer."
Os
mecanismos de resistência comuns incluem bombas simples, que expulsam o
antibiótico da bactéria. Outros incluem enzimas muito mais complexas, que
modificam ou degradam os antibióticos de alguma forma.
Saber
como uma bactéria destrói o antibiótico poderá ajudar os cientistas a projetar
novos produtos farmacêuticos para superar suas defesas.
A
penicilina sozinha, por exemplo, perde frequentemente sua eficácia porque
muitas bactérias possuem uma enzima que se une ao antibiótico e o desativa.
Mas, se acrescentarmos um composto chamado ácido clavulânico, esta molécula se
une à enzima e a inibe.
Por
isso, ao acrescentar o ácido clavulânico à penicilina, o mecanismo de
resistência é neutralizado e a penicilina volta a ser eficaz.
Espera-se
que a identificação de processos similares nas bactérias das cavernas possa
oferecer grandes vantagens aos pesquisadores.
"Se
descobrirmos qual mecanismo um micro-organismo pode usar para derrotar um
antibiótico, poderemos encontrar a forma de combatê-lo antes que ele chegue à
clínica", conclui Hazel Barton.
Fonte:
BBC Future

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