segunda-feira, 20 de julho de 2026

TariFlávio: Trump exigiu que Brasil barrasse China e eliminasse taxas aos EUA

O governo de Donald Trump exigiu que o Brasil barrasse investimentos chineses no setor de terras raras e minérios, além de abrir de forma plena o mercado nacional para bens americanos, como forma de negociar uma eventual redução nas tarifas que poderiam impor sobre o Brasil.

O ICL Notícias obteve com exclusividade a proposta enviada ao governo brasileiro pela equipe de Trump, apresentada ainda no início de 2026, quando as investigações contra o Brasil estavam em andamento. Nela, a gestão Trump exige uma espécie de capitulação de diversos setores da economia nacional, em troca apenas de uma redução de tarifas que poderiam ser impostas sobre produtos brasileiros.

Os americanos exigiam que políticas digitais consultassem, primeiro, as empresas americanas. Também queriam compromissos radicais do país em setores como plataformas, carros e produtos industriais.

Para observadores, o gesto era uma espécie de chantagem. Ou o Brasil se alinhava aos EUA, ou seria punido. A proposta se choca com as ideias apresentadas nas últimas horas pela Fiesp ou por ex-embaixadores, como Roberto Azevedo, que sugeriam que o Brasil deveria negociar nos termos apresentados pelos EUA.

A proposta americana ainda contrasta com a narrativa de Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, que teria sido o governo Lula que não agiu de boa-fé nas negociações.

No texto, o representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, afirma que recebeu a proposta do Brasil sobre comércio – na forma de um rascunho de Declaração Conjunta, no início de novembro de 2025.

Mas rejeitou as ideias e fez questão de exigir uma suspensão praticamente da soberania nacional em diversos temas de interesse dos EUA.

“Estou desapontado que não tenhamos chegado mais perto, a despeito das nossas várias interações. Eu enfatizo que nos falamos múltiplas vezes, incluindo discussões iniciais em março, e outras em outubro e novembro depois dos avanços feitos pelos nossos líderes”, disse o embaixador, em 9 de janeiro de 2026.

“Meu time também discutiu prioridades dos EUA com contrapartes deles ao longo desse período, destacando as tarifas altas do Brasil em etanol e outros produtos, barreiras não-tarifárias, medidas de comércio digital e outras práticas injustas que limitam nossa relação econômica”, explicou.

“Como eu e meu time comunicamos verbalmente nessas várias ocasiões, nossa política não irá mudar sem melhoria significativa de acesso ao mercado e de proteção para os negócios dos EUA”, alertou.

Segundo ele, a proposta do Brasil não endereça especificamente ou substancialmente a gama de preocupações dos EUA levantada ao longo do último ano e vem com condições relativas à imediata suspensão de tarifas.

“Nós avançamos unilateralmente para reduzir taifas sobre certas importações chave do Brasil com Ordem Executiva do Presidente Trump de 20 de novembro de 2025. No contexto de potencial futura negociação, eu convido o Brasil a dar os passos necessários para endereçar as preocupações dos EUA como uma demonstração de boa vontade para recomeçar uma discussão comercial abrangente”, insistiu.

Na carta de três páginas, os EUA sugerem um acordo-quadro interino que contempla a redução de tarifas em troca da eliminação de tarifas e barreiras não-tarifárias especificas que mantêm empresas americanas fora do mercado brasileiro e prejudicam o ambiente no Brasil para comércio digital.

<><> Eis o que os EUA exigiam do Brasil

>>> Agricultura/tarifas

Eliminar tarifas sobre etanol dos EUA

Comprometer-se a não restringir o acesso ao mercado para os EUA em razão do mero uso de certos temos para carne e queijo

Estabelecer, com o USTR, um grupo de trabalho sob o ATEC para discutir estabilidade no comércio global de produtos agrícolas

>>> Comércio digital

Apoiar a adoção multilateral de uma moratória permanente de tarifas aduaneiras sobre transmissões eletrônicas na OMC imediatamente e sem condições

Garantir tratamento justo para empresas dos EUA com relação a medidas relacionadas a concorrência e sua aplicação no setor digital, incluindo consultas aos atores relevantes no desenvolvimento de novas medidas

Garantir que medidas relacionadas a conteúdo de mídias sociais e a aplicação de tais medidas sejam justas para os fornecedores de serviços digitais dos EUA

>>> Industrial

Eliminar tarifas sobre bens industriais dos EUA, incluindo químicos, veículos e autopartes, produtos médicos e frutos do mar.

Aceitar a importação de veículos produzidos nos EUA que sigam as Normas Federais de Segurança de Veículos Motorizados dos EUA

Aceitar certificados eletrônicos e autorização prévia de comercialização do FDA (Food and Drug Administration dos EUA) para dispositivos médicos e produtos farmacêuticos produzidos nos EUA sem exigências adicionais

>>> Minerais críticos

Adotar medidas que limitem investimentos por atores não-orientados pelo mercado e entidades estrangeiras de preocupação nos setores de mineração, refino e outros setores industriais críticos.

(Atores não orientados pelo mercado é a forma pela qual o governo norte-americano se refere aos chineses, sem cita-los).

Revisar a venda da operação de níquel da Anglo-American e garantir um processo justo para empresas dos EUA investirem no Brasil no setor de minerais críticos

>>> Tecnologia segura

Endereçar riscos de segurança com respeito a tecnologia de comunicações, serviços públicos, infraestrutura e equipamentos de inspeção de segurança

>>> Aeroespacial

Remover todas a tarifas e barreiras não-tarifárias sobre a venda de jatos comerciais dos EUA no Brasil

>>> Trabalho

Propor legislação para proibir a importação de bens produzidos por trabalho forçado ou compulsório.

>>> Ações propostas para os EUA

Reduzir a tarifa aplicada a produtos do Brasil incluidos na Ordem Executiva 14323 de 30 de julho para [XX] porcento ad valorem para os produtos.

Trump oficializa ingerência na eleição brasileira com tariFlávio

A manobra adotada por Donald Trump para iniciar uma ingerência na eleição brasileira foi a de impor um prejuízo ao setor privado nacional e tentar mostrar que, com Lula no poder, esses empresários perderão dinheiro e espaço no maior mercado do mundo, os EUA.

Nesta semana, ao iniciar a aplicação de tarifas de 25% contra o Brasil, a Casa Branca agiu em duas frentes. Numa delas, sintonizou as barreiras para criar dano a setores específicos do Brasil no valor de US$ 11 bilhões e, imediatamente, acusar deliberadamente o governo Lula de ser o responsável pelas perdas.

Foi por isso que, minutos depois do anúncio oficial, Marco Rubio foi às redes sociais para denunciar o “ego” de Lula e sinalizar que não há como negociar com o atual governo. Em outras palavras, o chefe da diplomacia americana rasgou a diplomacia e anunciou: queremos um novo governo no Brasil, mais dócil aos interesses de Trump.

Imediatamente e como se estivessem praticamente combinados, Flávio Bolsonaro e seus cúmplices foram às redes sociais para disseminar as palavras do que mais parece ser o diretor internacional da campanha bolsonarista.

O que Rubio não explicou é que, de fato, não era uma questão de ego. Mas de soberania. Para não taxar, os EUA exigiam uma interferência no STF, a abertura do Pix e até o fim da autonomia do Brasil para fechar acordos com parceiros pelo mundo.

De fato, a própria tarifa foi uma construção. Nas investigações realizadas pelos americanos, os argumentos usados iam muito além de barreiras evidentes aos interesses dos EUA.

Um dos aspectos usados para justificar as tarifas foram as decisões tomadas pelo ministro Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal contra plataformas digitais e a remoção de conteúdo político.

Outro ponto destacado foi o impacto do Pix na receita dos cartões de crédito dos EUA. A Casa Branca diz que não quer o fim do sistema de pagamentos do Brasil. Mas insiste em garantir que seus serviços tenham o mesmo tratamento que sistema estatal. O governo brasileiro já avisou que não há qualquer chance de rever o PIx.

A queixa americana se refere ainda ao tratamento preferencial dado pelo Brasil para produtos do México e Índia. O governo norte-americano quer que suas empresas tenham as mesmas tarifas que os parceiros de países em desenvolvimento. Segundo a Casa Branca, desde que os acordos entraram em vigor, produtos desses dois países passaram a ter maiores benefícios que os americanos.

O desmatamento que beneficia a agricultura nacional, a luta ineficiente contra a corrupção e violações de propriedade intelectual também pesaram na decisão final.

Todos esses argumentos envolvem um só tema: soberania. A sinalização do governo americano é de que toda essa autonomia de Lula está sendo um obstáculo para a estratégia de Trump na região.

A esperança é de que, com o pacote de maldade, um caminho seja aberto para que Flávio possa ser eleito.

Se isso ocorrer, o governo Trump sabe que não precisará negociar. As tarifas serão reduzidas no dia em que Flávio flexibilizar o Pix e impedir a ação contra plataformas digitais.

Flávio terá de pagar pelo apoio. Nada é grátis nos EUA. E a conta será a própria abertura do mercado brasileiro aos interesses americanos e até mesmo um acordo comercial com Washington para permitir que os EUA tenham as mesmas vantagens de México e Índia no mercado nacional.

Enquanto setores corriam para tentar entender a dimensão das tarifas, chamou a atenção da diplomacia brasileira uma confissão do negociador comercial dos EUA, Jamieson Greer, momentos antes do anúncio das tarifas. Numa palestra nos EUA na quarta-feira, ele admitiu que o Brasil sofreu um tratamento diferenciado em relação ao restante da América Latina.

O representante de Comércio da Casa Branca explicou que a lógica das tarifas impostas ao mundo era a de interromper o que Washington considera como um tratamento injusto aos produtos americanos e frear o avanço chinês pelo mundo.

Segundo ele, o comércio passou a ser visto como uma questão de segurança nacional, por parte de Donald Trump.

Uma das estratégias, portanto, era a de criar uma cadeia de fornecimento regional ao mercado americano, como parte da ofensiva dos EUA sobre a América Latina. Foi por esse motivo que, em abril de 2025, as tarifas aplicadas sobre as economias da região foram de cerca de 10%, enquanto as taxas para o resto do mundo eram mais elevadas.

Segundo ele, quanto mais longe do Hemisfério Ocidental, maior eram as tarifas.

“Se você está no Hemisfério Ocidental, você tinha o melhor negócio do planeta, pois queremos nossa cadeia de fornecimento aqui”, explicou.

“Quando mais chega perto da Asia e da China, onde existem muitas incertezas geopolíticas, maior eram as tarifas. Praticamente dava para ver o Hemisfério Ocidental com apenas 10% de tarifas ou menor”, disse.

Em sua fala, porém, Greer deixou escapar um comentário revelador. Ao citar o Hemisfério Ocidental e a boa posição que os países da região teriam com os EUA em termos de tarifas, ele interrompeu sua própria fala e disse: “bom, o Brasil é um caso a ser determinado”.

¨      Lula precisa transformar 25% de taxação em 4% de votos no primeiro turno. Por Fernando Horta

A conta é simples de enunciar e difícil de fazer. A pesquisa Genial/Quaest de 10 a 13 de julho (2.004 entrevistados, margem de dois pontos, registro BR-07161/26 no TSE) diz que Lula tem 49,4% dos votos válidos no cálculo mais generoso e 43,5% no mais avarento. Como se ganha no primeiro turno com metade mais um dos válidos, e não dos totais, o presidente precisa subir dos 40% declarados para algo perto de 46%. Faltam, conforme o humor de quem faz a conta, de um a quatro pontos. A oposição entendeu isso antes de muito aliado do governo: Flávio Bolsonaro já não disputa a eleição, disputa que exista um segundo turno. Joga na retranca, com o time rachado por dentro e a Polícia Federal rondando o vestiário, torcendo para segurar o empate até o apito. Quem precisa fazer o gol é o governo.

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Foi nesse jogo que Donald Trump entrou de sola. E repare que o tarifaço não foi um gesto bruto; foi um gesto calculado. Trump taxou em 25% os produtos brasileiros, mas tirou da lista mais de oitocentos itens, o café, o suco de laranja, o ferro, os minerais de que a indústria dele não abre mão. Tirou, em suma, tudo o que encareceria a vida do eleitor americano e cobraria a conta dele mesmo. Sobrou o resto, e o resto tem nome, cidade e folha de pagamento: setores exportadores localizáveis um a um, cadeia por cadeia, município por município. A crise que Trump criou não se espalha feito névoa; ela cai em lugares certos. E crise que cai em lugar certo é crise que a política consegue pegar com a mão.

Por isso a pior resposta seria a retaliação que gente do próprio governo chegou a acenar. Se o Brasil taxar de volta, pega uma bomba que hoje está confinada a alguns setores e a distribui para a economia inteira, e de quebra troca o culpado: hoje quem machuca é Trump, a pedido dos Bolsonaro; no dia seguinte à retaliação, quem encarece o supermercado passa a ser Lula. O caminho é outro e nem é novo. Roosevelt fez isso nos anos 1930 e Keynes explicou por que funciona: o Estado encampa a demanda que o mercado externo engoliu. Levantar, setor por setor, o que deixou de ser vendido aos Estados Unidos; comprar produção para a merenda escolar e para os estoques públicos; abrir crédito emergencial com contrapartida de emprego, para não repetir a desoneração sem cobrança que a Dilma tentou e virou lucro de bolso; oferecer à China, à Índia, aos parceiros do BRICS aquilo que Washington recusou. Nada disso exige genialidade. Exige decisão.

Só que tudo isso passa pelo Congresso. Espaço fiscal, crédito extraordinário, programa de compras, tudo pede votação. E o Congresso de hoje tem dono de porteira: Hugo Motta na Câmara, Davi Alcolumbre no Senado. A ciência política brasileira contou essa história inteira. Sérgio Abranches batizou de presidencialismo de coalizão a obrigação permanente de comprar maioria; Argelina Figueiredo e Fernando Limongi mostraram que os presidentes das casas e o colégio de líderes decidem o que vai a plenário, quando vai e o que apodrece na gaveta; Gary Cox e Mathew McCubbins deram a esse arranjo, estudando o caso americano, o nome de poder negativo de agenda: não é preciso derrotar o governo em votação nenhuma, basta não pautar. E a gaveta tem preço tabelado. Emendas, orçamento secreto, cargos. Comprar pauta no varejo ficou caríssimo e, pior, não fideliza ninguém: paga-se tudo de novo na votação seguinte.

Acontece que existe outro caminho, e quem o desenhou foi o próprio Lula. Em 2022, o candidato repetia pela campanha que, para governar, ia “buscar os governadores”. Na época a frase passou como gentileza federativa. Não era. Era estratégia, e das boas, com lastro na literatura: Fernando Abrucio chamou os governadores de barões da federação, gente capaz de fechar bancada inteira na mão; David Samuels mostrou que deputado no Brasil se elege no vácuo da candidatura a governador, e não no desempenho nacional do partido. Quem manda na pauta é o presidente da Câmara; quem manda no voto é quem manda no território. Quando o Planalto oferece ao governador um projeto econômico que interessa ao estado dele, é o governador que passa a cobrar convergência da sua bancada, e obstruir o governo deixa de sair de graça. No primeiro mandato essa rota ficou no papel, porque o entorno presidencial não a executou. O tarifaço acaba de reabri-la, e com uma urgência que ninguém consegue fingir que não vê.

Porque o socorro federal não vai cair no abstrato. Vai cair em Santa Catarina, no Paraná, no Espírito Santo, no interior de São Paulo. Governador nenhum, de partido nenhum, recusa o programa que salva a agroindústria, o setor moveleiro ou a fruticultura do seu estado; recusar seria brigar com as elites econômicas que o elegem. E o governador que aceita vira fiador do programa no Congresso. Aí o jogo inverte. Em vez de o Planalto mendigar pauta a Motta e Alcolumbre, é o empresário taxado que pergunta, em voz alta e em ano de eleição, por que o senador do seu estado votou contra o dinheiro que segura o emprego da sua cidade. Parlamentar pode desprezar o presidente à vontade; não pode desprezar quem financia e organiza a eleição dele. Motta e Alcolumbre seguem com a chave da pauta na mão, só que cada semana de gaveta passa a custar voto na base de cada um dos seus liderados. O drible não tira o veto dos presidentes das casas. Tira o lucro do veto.

No fundo, é uma operação de conversão. Trump, Marco Rubio e os Bolsonaro deram a Lula, de graça, o que campanha nenhuma compra: o papel de defensor do país contra uma agressão que brasileiros foram pedir lá fora. Cada setor socorrido é um grupo que muda de lado ou, no mínimo, se cala. Cada governador atendido traz junto uma bancada. Cada programa com endereço vira argumento que aparece no contracheque antes de aparecer no palanque. A inflação de alimentos cedendo e o juro sob pressão ajudam, claro, mas o ponto não é esperar a economia melhorar sozinha; é fazer política com a crise que o adversário fabricou. Transformar os 25% de Washington nos quatro pontos que faltam para a eleição no primeiro turno. A extrema direita reza pelo milagre do golpe com apoio estrangeiro e joga fechada atrás da bola. O governo tem a posse, tem o mapa dos setores atingidos e tem a jogada ensaiada, que o próprio Lula cantou em 2022. Falta bater para o gol. E o país todo agradeceria.

 

Fonte: Por Jamil Chade, no ICL Notícias/Brasi 247/Brasil 247

 

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