As
pessoas com tipo raro de nanismo que podem guardar 'segredo' contra câncer e
diabetes
Para as
pessoas com síndrome de Laron, uma condição rara que impede o corpo humano de crescer
mais de 1,20 m de altura, o mundo é uma terra de gigantes. Nele, tudo é enorme, alto e inacessível: a
mesa da cozinha, os degraus dos ônibus, a roupa do varal, a entrada de um
consultório médico, o escritório de trabalho. Muitas delas tentam compensar
essa vida desproporcional com sonhos. Ou ilusões.
Sara
Espinoza, por exemplo, deseja medir 1,70 m. Paola Boada quer ter uma família.
María
Gabriela García sonha em ter um trabalho que permita que ela compre a passagem
aérea para presenciar o casamento da sua irmã, na Espanha. Já María del Cisne
Romero deseja ter uma fábrica de chocolate.
Todas
elas alimentam seus sonhos no Equador, país que possui uma
incidência bastante incomum da síndrome de Laron. É ali que se encontram cerca
de um terço das 840 pessoas com desta condição em todo o mundo, com especial
concentração nas províncias de El Oro e Loja, no sul do país. "O que acontece
é que o corpo não processa o hormônio do crescimento e as pessoas não atingem a
altura padrão", explica o endocrinologista Jaime Guevara, especialista no
tratamento desses pacientes. Ele estuda a condição há mais de duas décadas.
"Mas isso não os prejudica em nível físico, apesar da falta de
altura", prossegue Guevara. "Além disso, sua condição faz com que
eles tenham menos probabilidade de desenvolver câncer ou sofrer de
diabetes." Ou seja, a síndrome traz uma limitação e um benefício.
Muitos
dos pacientes equatorianos que receberam a reportagem da BBC News Mundo, o
serviço em espanhol da BBC, levam uma vida normal. Mas, quando falam dos seus
sonhos, às vezes, eles são vencidos pelo cansaço e pela frustração. "Uma
das coisas que mais me frustraram por ter o Laron é o relacionamento com os
homens", conta Paola Boada, em lágrimas, vestida de rosa e preto, no seu
apartamento projetado de acordo com o seu tamanho. "Eles me partiram o
coração porque existe um padrão de beleza no qual, aparentemente, eu não me
encaixo. Eles me descartam de todas as entrevistas de trabalho devido ao meu
tamanho", conta María Gabriela García. "Não vejo muitas opções para
mim. Quando passamos pela rua, as pessoas ficam olhando, mesmo que já nos
tenham visto muitas vezes", conta María del Cisne Romero.m"Esta é a
doença da solidão", destaca Guevara. "E este país não oferece muito
para que eles vivam melhor."
As
províncias onde mora a maioria das pessoas com a síndrome de Laron são
distantes dos principais centros urbanos do país (Quito e Guayaquil), onde
ficam as instalações médicas adequadas para o seu tratamento. Existe há 20 anos
um medicamento (chamado Increlex) que, se for aplicado durante a fase de
crescimento, pode ajudar a aumentar a altura. Mas nem todos os pacientes têm
acesso ao remédio, apesar das decisões judiciais da Corte Interamericana de
Direitos Humanos e do próprio Tribunal Constitucional do Equador.
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Da Europa para o Equador
Na
década de 1950, o pediatra israelense Zvi Laron começou a observar, em alguns
pacientes tratados por ele em Tel Aviv (Israel), uma condição que não permitia
que eles crescessem até os padrões mínimos de outros pacientes. O médico
acredita que estes genes tenham se originado na Indonésia há milhares de anos e
viajado para o Ocidente, através das rotas comerciais.m"Foi encontrado o
esqueleto de uma mulher de quase 18 mil anos", conta Laron, hoje com 99
anos. "Quando examinei o esqueleto, vi que ele se parecia muito com as
mudanças físicas apresentadas pelos nossos pacientes." Já havia na época
dezenas de causas de nanismo documentadas nos livros de medicina, como a acondroplasia ou falhas da tireoide. Mas Laron
observou que, nestes casos, havia algo mais incomum: o nível excessivo do
hormônio do crescimento. "Laron chegou à conclusão de que aquelas pessoas
produziam altas quantidades de hormônios do crescimento, mas não a insulina que
se encarrega de processar aquele hormônio, devido a uma mutação genética",
explica Guevara.
Nos
seus estudos, Laron também conseguiu determinar que a origem da mutação
procedia dos judeus sefarditas que habitaram a Península Ibérica.
Alguns deles haviam chegado ao Oriente Médio. Outros portadores do gene
viajaram para o continente americano, especialmente àquele remoto local que
passaria a formar o sul do Equador. "Eles chegaram a este país, se
instalaram em áreas isoladas e começaram um processo de relações endogâmicas,
que fizeram com que a população de pessoas com síndrome de Laron atingisse
especial incidência no Equador", segundo Guevara.
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As três amigas
O
consultório de Jaime Guevara é um quarto amplo, repleto de quadros com diplomas
de medicina, em uma zona residencial da capital equatoriana, Quito. Na manhã da
entrevista, cinco mulheres com a síndrome se consultam com ele. Elas não param
de rir e brincar entre elas, enquanto falam da sua saúde com o médico.
Uma
delas é María Gabriela García. Ela mostra com orgulho sua tatuagem de três
corações. Um deles tem o lado interno pintado, representando a ela, ao lado das
suas duas grandes amigas, María José e Lugarda. Elas se conheceram por meio do
médico, um dos poucos especialistas que estudam como é viver com a síndrome.
"Não é fácil viver sabendo que você não tem o tamanho de uma pessoa
normal", ela conta.
García
menciona um exemplo das suas dificuldades no dia a dia: pegar ônibus.
"Precisamos subir de joelhos. E precisamos subir rápido, como todos fazem,
mas, para nós, é muito mais difícil. Temos dificuldade para subir os degraus.
Muitas vezes, nós caímos dos ônibus", relata ela. García explica que
existem outros obstáculos silenciosos e constantes, como não conseguir emprego
com facilidade.
Ela
trabalha como cuidadora de crianças e recebeu, pouco tempo atrás, o convite de
casamento da sua irmã na Espanha, no ano que vem. "O dinheiro que ganho
cuidando de crianças não chega para viver com tranquilidade, que dirá para
economizar para a viagem", lamenta ela, chorando. María José e Lugarda, as
duas outras pacientes, a abraçam imediatamente. E Lugarda, especificamente, a
confronta. "Não vamos desistir", afirma ela à amiga. Afinal, ser de
baixa estatura em um mundo "enorme" já é bastante difícil para que as
pessoas ainda as rotulem de choronas. "Meu sonho é poder viajar para a
Espanha", relata María Gabriela. "Por isso, vim do sul do Equador até
Quito. Lá, não existem oportunidades para mim."
No sul
do Equador, dividida entre El Oro e Loja, vive a maior comunidade de pessoas
com síndrome de Laron. Lá só se chega por terra depois de oito horas de viagem.
Nenhuma das principais linhas aéreas do país oferece serviços regulares e
apenas uma chega aos aeroportos locais de Loja e Santa Ana. "A doença da
solidão", como diz Jaime Guevara.
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22 anos de estudo
O sul
do Equador é dominado por uma cadeia de montanhas azuis e nuvens esponjosas.
Encravada nesta paisagem, está Piñas, uma cidade de 18 mil habitantes que moram
em casas dispersas, na parte baixa de um vale. Ali, em um sobrado com paredes
de cor creme e janelas verdes, moram María del Cisne Romero e sua irmã gêmea
María Luisa, ambas engenheiras industriais, ambas com síndrome de Laron. A casa
tem cheiro de hortelã e café. As gêmeas preparam chocolates para vender na
Páscoa. A ordem na cozinha é tanta que a impressão é que elas estão se
preparando para uma cirurgia. O lugar é amplo, repleto de mesas auxiliares e
bancos, que permitem a elas alcançar as mesas da cozinha para produzir os
bombons. E, antes de começar a preparação, as irmãs compareceram a uma aula de
dança de uma hora.
Uma das
principais recomendações médicas para as pessoas com síndrome de Laron é manter
atividade física frequente. Mais que uma recomendação, esta é uma exigência. Os
altos níveis do hormônio do crescimento influenciam a produção de insulina pelo
corpo, o que pode gerar sobrepeso.
Guevara
indica que mais de 90% das pessoas com a síndrome também sofrem de obesidade. E
especialistas destacam que o esporte permite controlar o peso e os níveis de
insulina. "Estamos preparando uma caixa especial para levar para Meche,
uma amiga que também tem Laron", conta María Luisa, enquanto coloca os
chocolates na caixa. Meche não é apenas uma amiga. É uma espécie de
fada-madrinha, conhecida por todos em Piñas, Balsas e Loja.
Calcula-se
que, nesta região do país, morem cerca de 100 pessoas com a síndrome, que tem
caráter recessivo, ou seja, só ocorre com a presença do gene da linhagem do pai
e da mãe. "Não é uma vida fácil", destaca a terapeuta. "Temos
muitos desafios, mas, como onde moramos há mais pessoas com esta síndrome,
podemos ajudar uns aos outros, quase como outra família." É também o que
pensam as gêmeas Romero. Conviver com outras pessoas que têm a mesma síndrome
permitiu que elas se olhassem no espelho, sabendo que não estão sozinhas. É uma
conspiração contra a solidão. "Cresci em um mundo de gigantes",
descreve María Luisa. "Quando fomos estudar em Cuenca [a terceira maior
cidade do Equador, também no sul do país], nunca haviam visto alguém com tão pouca
altura como nós e todos nos achavam estranhas. Elas apontavam para nós", prossegue
ela. "Foi estranho. Mas, aqui, é diferente."
Os
moldes dos bombons têm formato de coração. Ao lado da mesa, estão seus filhos
Matías e Lucía, um de cada irmã, com apenas oito anos de idade. Eles já são
mais altos que elas. As crianças observam com atenção para ver se algum pedaço
de chocolate se solta para ser comido. "A gravidez da minha filha foi de
risco", conta María Luisa. "Como pessoas de pouca estatura, não
podemos ter parto natural e, além disso, ela atrasou. Achei que minha pele não
conseguiria se esticar mais", em referência à sua barriga proeminente e
aos receios da primeira gravidez.
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Sem diabetes ou câncer
As
gêmeas, Meche, María Gabriela e Lugarda se conhecem há anos. Elas se esforçam
para tentar recordar mais ou menos quando foi a primeira vez em que se
encontraram. Elas se conheceram quando Jaime Guevara as reuniu em Piñas para
iniciar um estudo, perto de 1988. Existem duas fotos daquele encontro. Ali
estão elas, ainda meninas, ao lado de Guevara com aspecto juvenil e do médico
Walter Longo, da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos.
Quando
se formou em medicina, Guevara se especializou em diabetes. Ele começou a
notar, pouco a pouco, que a incidência de doenças como câncer e diabetes era
menor entre os pacientes com Laron do que na população em geral. Inicialmente,
ele pensou que sua condição os ajudava a ter saúde cardiovascular invejável,
mas os resultados posteriores não foram tão claros a este respeito. "O que
observamos é que o excesso de hormônio do crescimento os protege contra este
tipo de doenças", explica Guevara.
Nos
seus 22 anos de estudos, Guevara e Longo não documentaram casos de diabetes
entre equatorianos com síndrome de Laron e houve apenas um caso de câncer.
Guevara e Longo replicaram o que ocorre no corpo de uma pessoa com síndrome de
Laron, sob parâmetros específicos. O resultado foi parecido com o encontrado
posteriormente na população em geral com a síndrome, a que Guevara teve acesso
nos anos que se seguiram. Existem cada vez mais evidências apoiando a teoria de
que o hormônio IGF-1, produzido principalmente no fígado em resposta ao
hormônio do crescimento (GH) e que promove o crescimento dos ossos, músculos e
cartilagens, impede a morte das células cancerígenas. Ou seja, pacientes com
baixos níveis de IGF-1, como as pessoas com síndrome de Laron, teriam menor incidência de câncer.
"A
ideia é poder reproduzir em pessoas sem a síndrome, com um medicamento, o que
ocorre naturalmente nas pessoas com Laron", explica Guevara. "Seria
uma grande colaboração desta bela comunidade para o mundo." Mas Zvi Laron
acredita que o baixo nível de IGF-1 é um "fator importante", mas não
explica sozinho a baixa incidência de câncer.
Guevara
e Longo publicaram os resultados da pesquisa em 2011. Na ocasião, aquelas
crianças (que, hoje, são adultos) deixaram claro que não eram apenas casos
vivos de uma síndrome rara que pode causar transtornos, mas que poderiam
oferecer algo para o avanço da ciência. As descobertas os levaram a pensar, por
alguns anos, que seriam imunes ao câncer e outras doenças. Mas, há dois anos,
María Luisa foi diagnosticada com câncer do cólon. Ela passou por cirurgia e
tratamento com quimioterapia. "Isso nos conscientizou de que não éramos
totalmente imunes a estas doenças, como pensávamos", relembra María Luisa.
"Precisamos nos cuidar, temos que praticar esportes, precisamos cuidar do
que comemos."
As duas
irmãs terminam a preparação dos chocolates. Uma das caixas recebe uma folha
impressa com a imagem de um anjo e uma frase sobre a vida. Enquanto elas
embalam os bombons, surge uma pergunta: o medicamento Increlex existe há cerca
de 15 anos. Se for aplicado durante a fase de crescimento, ele pode ajudar a
desenvolver o corpo até atingir uma estatura padrão. As duas irmãs têm, agora,
40 anos de idade.
Pergunto
a elas se elas gostariam de ter crescido um pouco mais. "Claro que
sim", responde María Luisa. "As pessoas se perguntam sobre o que
gostariam de ter feito. Agora, nós nos aceitamos como somos e nos amamos assim,
mas o tratamento teria evitado muitos momentos ruins. Mas, se Deus nos mandou
assim, foi porque tinha uma missão para nós", destaca María del Cisne.
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A luta pelo Increlex
Sara
Espinoza, de 15 anos, tem olhos verdes vivos. Em cada uma das mãos, ela tem uma
baqueta que gira entre os dedos, enquanto se arruma para tocar a bateria que
está à sua frente. Ela está sobre o tablado do templo da Missão Carismática
Internacional, no centro de Machala, a cerca de 300 km a sudoeste de Quito.
Mais que um local de adoração e reflexão, o templo parece um teatro pronto para
um concerto de rock. Sara está concentrada, pronta para fazer o cenário vibrar.
Ela tem 15 anos e tem a síndrome de Laron. Mas sua aparência é muito diferente
das gêmeas Romero, de María Gabriela e de Lugarda. "Comecei a tomar o
medicamento cinco anos atrás e isso me permitiu crescer até 1,47 m", conta
ela, com uma timidez contrastante com o poder com que logo irá arrancar o som
da bateria. Sara ainda irá precisar de Increlex nos próximos três anos.
"Meu sonho é medir 1m70", ela conta, com olhos vivos, iluminando o
cenário com um golpe de baqueta sobre a caixa. Mas conseguir o medicamento é
uma batalha longa e pesada.
Na
primeira metade da década de 2000, várias famílias com filhos e filhas com a
síndrome já sabiam da existência do Increlex, um medicamento desenvolvido na
França. Seu ingrediente ativo, a mecasermina, tem a propriedade de ajudar no
crescimento das pessoas que não conseguem processar o hormônio do crescimento
humano. O medicamento tem uma série de limitações. Ele só pode ser administrado
entre 2 e 18 anos de idade. Em alguns casos, existem efeitos colaterais
delicados e o cada frasco pode custar mais de US$ 800 (cerca de R$ 4,1 mil),
pois apenas uma farmacêutica o produz.
Guevara
explica que um menor com Laron precisa de pelo menos três frascos por mês. São
US$ 2,4 mil mensais (cerca de R$ 12,3 mil). "Muitos de nós não tínhamos
dinheiro, nem plano de saúde, que nos permitisse adquirir o medicamento",
conta Patricia Álvarez. "Por isso, demos início a uma luta na Justiça para
nos garantir o direito de ter acesso a este remédio." O processo começou
perto de 2005. Na época, os dois filhos de Álvarez com Laron estavam dentro da
faixa de idade em que o medicamento poderia fazer efeito. Em 2010, um tribunal
especial da província de Pichincha, onde fica a cidade de Quito, ordenou ao
governo que passasse a ser o principal fornecedor do Increlex. Mas a decisão
foi ignorada. As famílias contam que, por 10 anos, não tiveram resposta ao
chamado da Justiça local. Por isso, elas precisaram levar suas petições para
instâncias superiores. "É um desespero muito grande ver a Justiça dar
razão a você e o governo se negar a nos dar algo que é fundamental para a saúde
dos nossos filhos", relembra Álvarez. "Precisamos continuar
lutando." O desacato do governo ao tribunal foi um dos argumentos
empregados por ela e por outros familiares que fizeram parte da petição
conjunta.
Eles
levaram o caso para a Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), onde
destacaram as constantes respostas negativas ao seu pedido e a desatenção às
medidas judiciais tomadas a este respeito. Em abril de 2020, a CIDH deu razão
às famílias. E, desta vez, o governo equatoriano respeitou a sentença. O
governo declarou a síndrome como "doença rara" e começou a fornecer o
medicamento, além de um tratamento integral para as pessoas afetadas. Mas,
mesmo com a ordem judicial, o fornecimento do remédio às pessoas com síndrome
de Laron, muitas vezes, sofreu interrupções ou atrasos. "Meu filho mais
velho só conseguiu receber o medicamento por dois anos", lamenta Álvarez.
"Houve muitas pessoas que não conseguiram receber o remédio ao longo dos anos
em que ele deve ser administrado e que teria servido para que eles tivessem uma
vida mais normal."
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A nova geração
Camila
quer o balão roxo que seu pai tem na boca, inflando com todos os músculos
tensos e as bochechas cheias de ar. Mayra, a mãe, observa a cena com atenção.
Ela procura o momento certo para pegar sua filha e colocá-la no colo. Assim,
ela terá um plano com toda a família (ela, seu marido e as duas filhas), em uma
pose perfeita para a fotografia. Mas Camila quer o balão. E, assim que seu pai
o entrega, ela foge e começa a dar voltas com ele por toda a sala da casa.
"Ela não para quieta", conta a mãe.
Camila
Romero Loaiza tem pouco mais de dois anos e mora em Piñas. Ela é um dos casos
mais recentes conhecido de pessoas com síndrome de Laron no Equador. Mayra
recorda que a bebê nasceu com medidas padrão. Mas, como na maioria das
histórias destes pacientes, os números que marcavam seu crescimento começaram a
ficar estagnados aos seis meses de idade. "Como já haviam sido observados
muitos casos no Equador, os médicos me disseram rapidamente que era um possível
caso de síndrome de Laron", conta a mãe. Mas ela não tinha a menor ideia
do que se tratava e precisou começar a ver documentários no YouTube. "Eu
não sabia nem mesmo como alimentar minha filha", relembra ela. "Os
médicos que a atendiam também não sabiam muito sobre como tratar as crianças
com a síndrome. Quanto ela deveria medir por ano? Quando deveria andar? Quanto
deveria pesar? Não há muita informação."
Mayra
relembra com pesar aquele momento de incerteza. Mas ela recebeu ajuda de outras
pessoas, suas vizinhas, que haviam passado por experiências similares. Uma
delas disse que os bebês com Laron comem pouco. Outra, que eles demoram um
pouco para andar, mas, depois, não param quietos. Uma terceira explicou que
eles não têm problemas cognitivos, nem de fala. "E assim foi. As pessoas
de Piñas foram me orientando", destaca Mayra.
Chegou
o domingo de Páscoa. Por isso, todos os membros da família vestem roupas
elegantes para a foto conjunta. Eles irão depois para uma reunião na casa da
avó de Camila. Lá, eles irão comer locro e encebollado,
dois pratos típicos da região. Mas eles precisam voltar cedo, pois estão se
preparando para viajar a Guayaquil, que fica a seis horas de carro de Piñas.
Eles precisam fazer este trajeto a cada três meses, ida e volta, para que
diversos especialistas analisem o estado de saúde de Camila à medida que ela
for crescendo. "Felizmente, nós temos carro e tenho e uma irmã que nos
recebe", conta Daniel, o pai de Camila. "Mas muitas famílias precisam
pagar ônibus e hotel para receber o tratamento."
A
menina dá voltas pela casa com o globo roxo na mão, como se fosse um trem de
alta velocidade. Ela tem dois anos e meio. Há exatamente seis meses, ela
deveria ter começado seu tratamento com Increlex, mas não recebeu a primeira
dose até agora.
"Já
recebemos uma notificação do governo, garantindo que o medicamento de Camila
está pronto", conta a mãe. "Mas não deixo de pensar se o fato de não
termos recebido por seis meses pode prejudicar seu crescimento. São muitas
perguntas. E também tenho um pouco de medo." Este receio tem uma base
concreta. Em vários casos, surgiram muitos efeitos colaterais indesejados do
medicamento e os pacientes precisaram deixar de tomá-lo. "Quero que a vida
da minha filha seja a mais normal possível. Que não a olhem de forma diferente
na escola, que ela não seja discriminada pelo seu tamanho." "E isso
depende muito do medicamento. Tomara que ela consiga recebê-lo sem
problemas", prossegue Mayra.
Depois
de vários minutos, Camila para de correr e solta o balão, que cai em seguida. É
o momento perfeito para agarrá-la e tirar a foto. Mas a menina vê o carro da
Barbie estacionado em uma esquina da cozinha. E, em um ato de astúcia, foge da
perseguição a gargalhadas.
Fonte:
BBC News Mundo

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