A
vergonhosa apropriação privada das emendas parlamentares
O
orçamento público brasileiro tornou-se refém de um fisiologismo sem
precedentes. Sob a aparência de prerrogativas legislativas, bilhões de reais em
emendas impositivas passaram a ser distribuídos segundo interesses eleitorais e
clientelistas. Em vez de promover melhorias nas condições de vida da população,
esse modelo aprofunda desigualdades sociais e regionais. Ao privatizar, na
prática, parcelas do dinheiro público para perpetuar a devoção de seus currais
eleitorais, significativa parte dos integrantes do Centrão e da extrema direita
sequestra a soberania do voto e transforma o dinheiro arrecadado dos
contribuintes em combustível para o toma lá dá cá.
Atualmente,
o orçamento federal conta com três modalidades de emendas parlamentares: as
individuais, as de bancada e as de comissão.
As
individuais são indicadas de forma direta por deputados e senadores para
atender a demandas específicas de suas bases eleitorais. Elas subdividem-se em
transferências com finalidade definida e nas polêmicas Emendas Pix, que enviam
recursos diretamente ao caixa dos municípios de forma impositiva, sem a
necessidade de convênios prévios.
As
emendas de bancada são decididas coletivamente pelos parlamentares de um mesmo
estado para financiar projetos regionais de grande porte, como rodovias e
hospitais.
Por
fim, as emendas de comissão são indicadas pelos colegiados temáticos do
Congresso para ações setoriais amplas, como saúde ou educação. Embora estas
últimas sejam tecnicamente discricionárias, sem a obrigatoriedade legal de
pagamento pelo Executivo, elas costumam ser executadas rotineiramente por meio
de acordos políticos no dia a dia do orçamento.
Vale
destacar que no Orçamento da União de 2026, o Congresso Nacional passou a
exercer influência direta sobre a destinação de aproximadamente R$ 61 bilhões.
Desse total, R$ 26,6 bilhões correspondem a emendas individuais, R$ 11,2
bilhões a emendas de bancada estadual e R$ 12,1 bilhões a emendas de comissão.
Cerca de R$ 49,9 bilhões desses recursos possuem caráter impositivo, o que
significa que sua execução é obrigatória por determinação constitucional e
legal, cabendo ao Poder Executivo efetuar os pagamentos, salvo impedimentos
técnicos. A parcela remanescente depende da disponibilidade orçamentária e de
negociações administrativas com o governo federal.
Essa
evolução não foi fortuita. Ao longo dos governos de Michel Temer e Jair
Bolsonaro, observou-se uma ampliação progressiva da influência do Congresso
sobre a execução do Orçamento da União. Sob o pretexto de assegurar
governabilidade e estabilidade política, o Legislativo passou a concentrar
fatias cada vez maiores dos recursos orçamentários.
Nessa
perspectiva, a apropriação do orçamento público pelo Poder Legislativo pode ser
comparada ao avanço de um câncer agressivo de grau 4, com metástases espalhadas
por um número expressivo de órgãos e tecidos do Congresso brasileiro.
No
governo Temer, a execução das emendas individuais ganhou centralidade nas
negociações entre o Executivo e o Congresso. Esse mecanismo ficou evidente em
2017, quando o então presidente enfrentou duas denúncias criminais apresentadas
pela Procuradoria-Geral da República, a primeira por corrupção passiva e a
segunda por organização criminosa e obstrução de justiça.
À
véspera da votação na Câmara dos Deputados que decidiu pelo arquivamento das
acusações, a liberação massiva de emendas foi amplamente apontada por analistas
como o principal instrumento de consolidação da base aliada. Embora legal, o
emprego dessas verbas naquele contexto denunciou o uso de recursos públicos
como moeda de troca para blindar o mandato de Temer, de investigações no
Supremo Tribunal Federal (STF).
No
governo Jair Bolsonaro, o poder do Congresso Nacional sobre a execução do
orçamento foi excessivamente ampliado. Em 2019, as emendas de bancada estadual
tornaram-se impositivas por meio da Emenda Constitucional – EC nº 100, e foram
criadas as transferências especiais, conhecidas como Emendas Pix, pela EC nº
105, que simplificaram o repasse direto de recursos a estados e municípios.
A
partir de 2020, as emendas de relator (RP9) passaram a movimentar volumes
astronômicos de recursos. Esse arranjo ficou conhecido como orçamento secreto
devido à deliberada falta de transparência na identificação dos padrinhos
políticos das verbas e na definição dos critérios de distribuição.
Na
análise de cientistas políticos, esse modelo consolidou uma transferência
inédita de poder orçamentário do Executivo para o Legislativo. Bolsonaro optou
por entregar as chaves do cofre à cúpula inescrupulosa do Congresso para
garantir sua própria sobrevivência política, uma vez que sua gestão desastrosa
e temerária gerou 158 pedidos de impeachment, todos plenamente justificados ao
rigor da lei, mas que permaneceram ironicamente engavetados pela presidência da
Câmara exercida até 21/02/2021 por Rodrigo Maia (DEM-RJ) e após, de 2021 a
2025, pelo cacique Arthur Lira (PP-AL).
Em
dezembro de 2022, o ministro do STF, Flávio Dino, barrou o avanço do orçamento
secreto em duas etapas decisivas. Em agosto de 2024, ao exigir uma auditoria
detalhada e aplicar normas rígidas de transparência às emendas parlamentares,
depois, em dezembro de 2025, ao vetar trechos de propostas que buscavam reviver
o mecanismo pelas sombras. Finalmente essa anomalia foi declarada
inconstitucional por violar os princípios da publicidade, transparência,
impessoalidade e moralidade administrativa. A Corte não extinguiu as emendas,
mas exigiu o fim do anonimato.
Em
resposta, o Congresso articulou uma manobra ardilosa, migrando o esquema para
as emendas de comissão. Em vez de registrar o nome do deputado individual, o
recurso passou a ser carimbado genericamente sob a rubrica de lideranças
partidárias (por exemplo, “Liderança do PL” ou “Liderança do Republicanos”).
Dados
divulgados pela organização Transferência Brasil revelam que, apenas na Câmara
dos Deputados, cerca de R$ 1,3 bilhão foi distribuído a partir desse artifício
de anonimato partidário. Esse expediente foi amplamente utilizado por partidos
do Centrão e da extrema-direita, como: o PP de Arthur Lira, o União Brasil do
presidente do Senado, Davi Alcolumbre, o Republicanos do governador de São
Paulo, Tarcísio de Freitas, e o PL do senador Flávio Bolsonaro.
É nessa
brecha que líderes sem cargo eletivo conseguem operar. Usando sua influência de
bastidor, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, tornou-se alvo de
investigação da Polícia Federal por suspeita de interferência política e desvio
de verbas em pelo menos 21 emendas, que totalizam R$ 119,2 milhões. Apurações
respaldadas pelo STF apontam que o dirigente exercia controle total sobre os
recursos que os deputados de sua bancada entregavam à “Liderança do PL”,
direcionando-os a prefeituras parceiras e agindo como o autor oculto do
dinheiro público, mesmo sem possuir mandato popular. Ficam expostos os esquemas
que fizeram do PL de Bolsonaro a maior bancada do Congresso, formada por
deputados e senadores desqualificados, cujas práticas legislativas primam por
sustentações carregadas de preconceito, intolerância e discriminação. Por
práticas de lacração de mentiras nas redes sociais e pela falta de projetos
capazes de melhorar a vida do eleitorado iludido que os elegeu.
Em
entrevista ao programa Estúdio i, da GloboNews, Valdemar tentou normalizar o
absurdo ao alegar que a cúpula dos partidos possui uma visão nacional, em
contraposição ao foco local dos deputados. Sem qualquer constrangimento, o
dirigente confessou a prática contumaz do uso de emendas parlamentares como
mera barganha eleitoreira. Com a desculpa de ajudar parlamentares sem inserção
municipalista, Valdemar revelou ter se apropriado das emendas do Tiririca, sob
a justificativa de que o deputado eleito pelo voto de opinião e sem bases
locais simplesmente não sabia onde alocar os recursos. Segundo o cacique do PL,
o próprio Tiririca o teria procurado em busca de rumo para as verbas, abrindo
caminho para que a cúpula do partido assumisse o controle do dinheiro e o
transferisse entre prefeituras parceiras e Santas Casas.
A
afirmativa de que essa interferência seria uma função inerente ao comando
partidário, contudo, colide frontalmente com a legalidade. Em consonância com
esse entendimento, o Supremo Tribunal Federal fixou parâmetros inequívocos
sobre a matéria. O ministro Flávio Dino, relator da ADPF 854 no STF,
estabeleceu um limite claro, ao referir que as emendas não são propriedade
privada de congressistas ou partidos. A proposição e a deliberação sobre esses
recursos constituem prerrogativas exclusivas, intransferíveis e restritas a
quem foi eleito e está no exercício ativo de seu mandato.
Ao
tentar validar o controle dessas verbas, Valdemar Costa Neto defende uma
prática que subverte a lógica democrática. Delegar a indicação de verbas
públicas a quem não foi votado para o cargo como um ex-parlamentar ou um chefe
político, não é articulação partidária, é uma afronta direta aos princípios
constitucionais de moralidade, impessoalidade e legalidade.
Essa
prática, portanto, revela como o sistema foi corrompido em sua essência.
Parlamentares com mandato ativo passam a figurar como meros intermediários
formais ou laranjas institucionais para validar decisões de quem não deve
satisfações diretas ao eleitorado.
Esse
modo de operar também foi verificado em investigações da PF envolvendo o
ex-deputado cassado Eduardo Cunha. Mesmo sem mandato há anos, Cunha utilizou
sua influência nos bastidores da Câmara para ditar o destino de emendas de
comissão assinadas formalmente pela liderança do Republicanos. O ex-parlamentar
que pretende disputar uma vaga para deputado federal por Minas Gerais nas
eleições de outubro, acumulou um histórico de acusações de corrupção passiva,
lavagem de dinheiro e evasão de divisas, incluindo propinas em contratos da
Petrobras e ocultação de valores em contas secretas no exterior.
A
permanência de figuras com esse histórico na política evidencia que os
mecanismos de influência informal sobre a destinação de recursos públicos
permanecem presentes. A sobrevivência política de figuras obscuras como Cunha
demonstra que a falta de transparência das emendas de liderança continua ativa,
fragmentando as indicações sob assinaturas coletivas das bancadas justamente
para resguardar e ocultar os reais padrinhos do dinheiro.
Esse
processo revela uma distorção entre a justificativa apresentada para ampliar o
poder do Legislativo sobre o Orçamento e os efeitos concretos desse modelo. A
justificativa técnica para a transição do modelo autorizativo para o impositivo
era a de que deputados e senadores, por estarem mais próximos das bases
regionais, saberiam alocar os recursos com mais eficiência do que o Executivo.
A prática, contudo, provou o contrário, sendo instrumentalizada pelo
oportunismo de políticos como Arthur Lira, presidente da Câmara por quatro anos
e considerado o arquiteto do ápice do poder orçamentário do Congresso.
O
resultado desse mecanismo foi a transformação das emendas parlamentares em um
instrumento de forte disputa política e eleitoral. O Estado brasileiro,
financiado pela população por meio de uma das cargas tributárias mais complexas
do mundo, assiste à tomada do dinheiro público por elementos espúrios que
operam no âmbito do Legislativo à margem da soberania do voto. A
disponibilidade de uma vultosa parte do Orçamento Público para distribuição em
emendas, entregues sem planejamento e critérios técnicos de eficiência, sem
transparência, converteu-se numa prática sumariamente eleitoreira. Isso ajuda a
explicar por que há deputados e senadores que tornam seus mandatos praticamente
vitalícios no Congresso, tornando quase impossível uma renovação parlamentar
capaz de representar mudanças significativas.
Nesse
sentido, a esquerda progressista brasileira vê-se desprovida do quórum
necessário para aprovar avanços essenciais à qualidade de vida da maioria da
população. Exemplos concretos desses entraves podem ser observados na atuação
do senador Davi Alcolumbre, tradicional cacique do Centrão, que tem mantido sob
forte resistência projetos considerados prioritários pelo governo, como a
proposta de extinção da extenuante jornada de trabalho em escala 6×1, que
beneficiaria diretamente milhões de trabalhadores. Também permanecem sem
avanço, sob sua condução, a PEC da Segurança Pública, o Marco Legal das Terras
Raras e o projeto de lei voltado ao combate à misoginia, entre outras
iniciativas.
Em
suma, a farra das emendas obstrui a eficiência das políticas públicas
fundamentais. Setores vitais como a saúde e o saneamento básico deixam de
receber investimentos baseados em indicadores de necessidade técnica e passam a
depender da proximidade política do prefeito com o cacique da vez. Enquanto o
financiamento do Estado é socializado por meio dos impostos pagos pelo povo, os
benefícios da execução orçamentária são individualizados para garantir a
sobrevivência e o autofinanciamento de estruturas patrimonialistas de poder.
Nas
urnas de outubro, a resposta ao sequestro do orçamento público estará nas mãos
do eleitor. Além de escolher um presidente comprometido com a implementação de
políticas públicas efetivas em favor da população, que defenda de forma
soberana e altiva os interesses nacionais, sem qualquer vassalagem entreguista
a potências estrangeiras, será igualmente indispensável eleger deputados e
senadores comprometidos com esse mesmo propósito, capaz de resgatar o
Parlamento das mãos daqueles que transformaram o orçamento público em um
instrumento de barganha política em benefício próprio.
Também
caberá ao eleitor exercer o seu direito fundamental ao voto com consciência e
responsabilidade, para não incidir em escolhas que possam comprometer o
desenvolvimento sustentável do país. O votante deve levar em consideração a
trajetória, as atitudes e o compromisso dos candidatos com a nação brasileira.
Necessitará avaliar se está disposto a arriscar o destino do Brasil a alguém
que, obstinado em eleger-se a qualquer preço e a salvar a própria pele, seja
capaz de conspirar com um governo estrangeiro contra os interesses de seu
próprio país.
• Guerra das emendas: Valdemar resgata
traição a Dilma para atacar Kassab
crise
em torno das emendas parlamentares gerou um confronto direto entre dois
dirigentes partidários do campo da direita. Após Gilberto Kassab, presidente do
PSD, afirmar ao Supremo Tribunal Federal (STF) que jamais participou da
destinação de emendas parlamentares, Valdemar Costa Neto, presidente do PL,
partiu para o ataque pessoal.
“Que
credibilidade tem Kassab, que era ministro da presidente Dilma, pediu as contas
na véspera do impeachment e todo o PSD votou a favor do impeachment? É um
presidente que não prestigia as mulheres do partido, que só prestigia homem”,
disparou Valdemar, segundo a coluna de Bela Megale.
O duelo
verbal tem origem em uma declaração do próprio presidente do PL à GloboNews na
terça-feira (14), quando pontuou que tanto ele como outros dirigentes de
legendas com representantes no Congresso Nacional interferiam no envio de
emendas. “É lógico. A função do presidente é cuidar do partido”, disse
Valdemar.
A fala
foi usada pelo ministro do STF Flávio Dino para exigir explicações de
presidentes de 21 partidos sobre possíveis mecanismos que lhes permitam decidir
sobre o destino dos repasses públicos. “Caso procedentes, constituem uma
novidade relevante nestes autos”, escreveu Dino.
Kassab
respondeu em dois dias, se antecipando ao prazo de dez dias úteis concedido
pelo ministro. Em sua manifestação, declarou que “a presidência do PSD jamais
se imiscuiu, sugestionou ou tampouco participou de qualquer deliberação acerca
dos critérios que envolvem fatores relacionados à destinação de emendas
parlamentares”.
O
dirigente ressaltou ainda que a orientação aos líderes da bancada do partido no
Congresso Nacional é pelo “absoluto respeito às regras regimentais das Casas
Legislativas.”
Fonte:
Por Elisabeth Lopes, em Brasil 247/Fórum

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