Como
Kim Jong-un fez uma 'transformação milagrosa' da economia da Coreia do Norte e
se fortaleceu
A Coreia do Norte vive, há
décadas, o que especialistas internacionais chamam de crise de subsistência.
Segundo
dados da Organização das Nações Unidas (ONU), cerca de
11 milhões de pessoas, o equivalente a 45% da população, sofrem de desnutrição
em um país onde são denunciadas sistemáticas violações dos direitos humanos.
Anos de
controle estatal da economia, isolamento em
relação ao exterior e abandono dos serviços públicos em favor de um aparato de
segurança repressivo levaram ao que o chefe de direitos humanos da ONU, Volker
Türk, descreveu como uma "crise de direitos humanos".
Kim Jong-un, o terceiro
integrante da família Kim a governar essa república comunista desde sua
fundação, após a Segunda Guerra Mundial (1939-45), consolidou seu poder em um
dos países mais fechados e isolados do mundo.
Com a
pandemia de covid-19, em 2020, a situação se agravou ainda mais.
O
impacto econômico provocado pelo coronavírus atingiu o mundo inteiro, mas foi
especialmente duro para uma economia pouco desenvolvida e pouco integrada ao
exterior.
Em meio
a denúncias de escassez de alimentos e à pressão das sanções internacionais
impostas ao regime norte-coreano, o líder retratado pela propaganda oficial
como infalível apareceu na televisão visivelmente abatido para pedir desculpas
à população.
"Lamento
profundamente", afirmou Kim. "Meus esforços e minha sinceridade não
foram suficientes para livrar nosso povo das dificuldades."
Mas a
situação parece ter mudado desde então.
A
pandemia ficou para trás, a pressão das sanções internacionais diminuiu, e a
Coreia do Norte deu continuidade ao desenvolvimento de seu programa nuclear e
estreitou sua aliança com a Rússia de Vladimir Putin. Pela primeira vez
em décadas, a economia passou a dar sinais de recuperação.
Foi
nesse contexto que Kim fez, em março, um discurso ao país durante uma sessão da
Assembleia Legislativa, em tom bastante diferente do adotado anteriormente.
Kim
afirmou que a Coreia do Norte viveu "uma transformação milagrosa" e
declarou: "O nosso país já não é vulnerável às ameaças de outros".
Mas até
que ponto a situação econômica da Coreia do Norte realmente melhorou?
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A situação na Coreia do Norte
É
difícil saber o que realmente acontece na Coreia do Norte.
O
governo reprime com rigor qualquer vazamento de informações para o exterior, e
os meios de comunicação precisam recorrer aos relatos de norte-coreanos que
conseguem deixar o país, a relatórios de serviços de inteligência estrangeiros,
sobretudo os da Coreia do Sul, e aos depoimentos dos poucos ocidentais
autorizados a visitar o país, sempre sob rígida vigilância das autoridades.
Ainda
assim, essas fontes apontam uma recuperação recente em uma economia que
permaneceu estagnada por décadas.
De
acordo com estimativas do Banco Central da Coreia do Sul, o Produto Interno
Bruto (PIB, soma de todos os bens e serviços produzidos no país) da Coreia do
Norte cresceu 3,7% em 2024, a maior expansão em oito anos. Especialistas
acreditam que a economia norte-coreana vive seu melhor momento desde que Kim
Jong-un assumiu o poder.
"O
regime está mais rico do que nunca", afirmou Stephen Haggard, pesquisador
especializado na economia norte-coreana da Universidade da Califórnia em San
Diego, nos Estados Unidos, em entrevista à BBC News Mundo, serviço em espanhol
da BBC.
As
exportações de armas para a Rússia, destinadas à guerra na Ucrânia, o comércio
com a China, o maior controle sobre os mercados informais e uma aplicação menos
rigorosa das sanções internacionais contribuíram para encher os cofres do
regime comandado por Kim.
Mas os
analistas ressaltam que as duras condições de vida continuam marcando o
cotidiano da população que vive longe da elite dirigente e da capital,
Pyongyang.
Na
capital, por outro lado, já é possível perceber sinais dessa melhora.
Quem
visitou a cidade recentemente relata que há mais ruas iluminadas e que voltaram
a operar algumas horas por dia os elevadores em prédios altos que antes não
funcionavam por falta de eletricidade.
A
análise de imagens de satélite realizada pelo Grupo de Observação da Terra da
Escola de Minas do Colorado, nos EUA, equipe de pesquisa dedicada ao estudo da
iluminação elétrica a partir do espaço, mostrou um aumento contínuo da
iluminação da cidade de Pyongyang nos últimos anos.
Os
poucos ocidentais que conseguiram entrar na Coreia do Norte também relataram
mudanças que apontam para um aumento do consumo e da riqueza, como a
proliferação de telefones celulares, carros elétricos importados e aplicativos
de entrega de comida e de transporte.
O
agente de viagens australiano Rowan Beard contou ao jornal americano Wall
Street Journal que, em sua última visita a Pyongyang, depois de alguns anos sem
ir ao país, ficou surpreso quando seu intérprete chamou um táxi por um
aplicativo, e o veículo chegou em poucos minutos. "Tudo isso era
completamente novo. Fiquei impressionado", disse Beard.
Outro
indício de uma recuperação da economia, ainda que limitada, é o fato de o
regime ter conseguido concluir alguns dos projetos que Kim transformou em
bandeiras de seu governo, como a construção de grandes complexos turísticos,
entre eles o de Wonsan Kalma, na província costeira de Kangwon.
Kim
também anunciou iniciativas ambiciosas, como a chamada 20x10, que prevê a
construção de 20 fábricas em todo o país ao longo de dez anos para estimular o
desenvolvimento fora de Pyongyang.
O
regime também conseguiu se consolidar de fato como uma potência nuclear.
Nem as
sanções internacionais nem a estratégia de aproximação adotada pelo presidente
dos EUA, Donald Trump, em seu primeiro mandato convenceram Kim a abandonar o
programa de armas nucleares, que ele considera crucial para garantir a
sobrevivência do regime diante de "ameaças" externas, como os EUA.
Com
isso, a Coreia do Norte passou a contar com uma nova geração de mísseis.
Analistas ocidentais acreditam ainda que o país trabalha no desenvolvimento de
submarinos de propulsão nuclear e de mísseis balísticos intercontinentais
capazes de atingir o território continental dos EUA.
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A dura realidade dos norte-coreanos
Os
norte-coreanos estão acostumados às dificuldades.
Entre
1994 e 1998, o país enfrentou uma grave crise humanitária conhecida no meio
acadêmico como a "Grande Fome" e chamada pela propaganda estatal de
"Marcha Árdua".
Embora
o governo nunca tenha reconhecido oficialmente a tragédia, estima-se que
centenas de milhares de pessoas tenham morrido de fome e de doenças
relacionadas, em uma catástrofe provocada pela combinação da perda do apoio da
União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), da má gestão econômica e de
desastres naturais.
Naquela
época, assim como hoje, os norte-coreanos viviam sob o que organismos
internacionais e ativistas descrevem como um Estado policial responsável por
violações dos direitos humanos.
Relatos
de desertores que conseguem fugir para a Coreia do Sul afirmam que as
autoridades atiram para matar em quem tenta escapar e impõem punições severas,
que podem chegar à pena de morte, por atos como ouvir K-pop ou assistir a
séries sul-coreanas.
Qualquer
forma de dissidência ou desobediência pode ser punida com a morte por
fuzilamento, como ocorreu com Jang Song-thaek, tio de Kim, executado por ordem
do líder em 2013.
Durante
a pandemia, o controle foi endurecido e passou a alcançar também o mercado
informal de importação de produtos chineses, privando muitos norte-coreanos de
sua última forma de sustento.
"O
mais difícil no governo de Kim Jong-un era que não podíamos ganhar
dinheiro", disse ao jornal americano New York Times Kim Yu-mi, uma
norte-coreana que conseguiu fugir para a Coreia do Sul.
Jongkyu
Lee, especialista em Coreia do Norte do Instituto para o Desenvolvimento da
Coreia, centro de pesquisa sediado em Seul, na Coreia do Sul, disse em
entrevista à BBC News Mundo que, com o controle dos mercados informais,
"as autoridades parecem adotar uma estratégia para submeter todas as
atividades comerciais a uma supervisão mais rígida do Estado, dentro de um
modelo econômico que o coloca no centro".
"O
problema é que um maior controle do Estado não se traduziu em uma melhora das
condições de vida", acrescentou Jongkyu.
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O papel da Rússia e da China
A
aproximação com a Rússia foi um dos principais fatores por trás dos sinais
recentes de recuperação da economia norte-coreana.
Quando
Putin lançou a invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022, Kim viu na
guerra uma oportunidade.
Com os
EUA voltados para outras prioridades — Trump não retomou, em seu segundo
mandato, as tentativas de negociação com Kim —, o líder norte-coreano saiu em
socorro de Putin na expectativa de receber apoio em troca.
Segundo
diversos relatórios de serviços de inteligência ocidentais, a Coreia do Norte
enviou cerca de 15 mil soldados para combater ao lado da Rússia na Ucrânia ou
trabalhar na indústria russa, suprindo a escassez de mão de obra provocada pelo
esforço de guerra.
O
acordo com Putin fez com que fábricas norte-coreanas saíssem da estagnação e
retomassem a produção de munições e armamentos para a Rússia.
Como
demonstração da proximidade entre os dois países, Rússia e Coreia do Norte
assinaram, em junho de 2024, uma Parceria Estratégica Abrangente que inclui uma
cláusula de defesa mútua.
A
entrada de recursos, armamentos e tecnologia russos nos últimos anos permitiu a
Kim fortalecer sua capacidade militar e reativar alguns setores produtivos
abandonados durante décadas.
"A
recente expansão da cooperação militar com Moscou deu um impulso claro a
setores como mineração, indústria pesada, fabricação de máquinas e indústria
química. O aumento da demanda por munições e materiais também parece ter
estimulado a produção nas indústrias controladas pelo Estado, contribuindo para
uma recuperação expressiva do setor formal da economia", afirma Jongkyu,
do Instituto para o Desenvolvimento da Coreia.
Mas
Jongkyu vê limites para o que Putin pode fazer por Kim.
"A
Rússia pode aliviar algumas das restrições econômicas mais imediatas da Coreia
do Norte, mas sua capacidade de sustentar um desenvolvimento econômico amplo é
muito mais limitada do que a da China", afirmou.
A
recente visita — a primeira em sete anos — do presidente chinês, Xi Jinping,
foi interpretada como mais um sinal do fortalecimento da influência econômica e
geopolítica da Coreia do Norte sob Kim e como uma tentativa de contrabalançar
sua aproximação com Putin.
Em
2017, a China apoiou o endurecimento das sanções defendido pelos EUA na ONU
para conter o desenvolvimento do arsenal nuclear da Coreia do Norte. Desta vez,
Xi evitou pedir a "desnuclearização" da península coreana, se
afastando da posição que a China manteve durante anos e reduzindo a pressão
sobre Kim.
Na
prática, a confiança na eficácia das sanções começou a se dissipar após o
fracasso da cúpula entre Trump e Kim, realizada em Hanói, no Vietnã, em 2019.
"A
posição da China começou a mudar porque as sanções pareciam não estar
funcionando, uma avaliação compartilhada por parte dos EUA", disse
Haggard, da Universidade da Califórnia, em entrevista à BBC News Mundo.
Na
Coreia do Norte, Xi defendeu elevar a relação bilateral "a outro
nível" e reforçar a cooperação econômica.
"A
trajetória da economia norte-coreana no longo prazo provavelmente continuará
dependendo de sua relação com a China", conclui Jongkyu, do Instituto para
o Desenvolvimento da Coreia.
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Até onde a economia da Coreia do Norte pode chegar
Especialistas
internacionais afirmam que, durante os anos de maior dificuldade, a Coreia do
Norte desenvolveu mecanismos para abastecer os cofres do regime e continua
recorrendo a eles, como a apropriação de parte das remessas enviadas por
norte-coreanos que trabalham na China e a atuação de um exército invisível de
hackers que conseguiu acumular uma enorme quantidade de criptomoedas.
Segundo
um relatório da empresa americana Chainalysis, especializada na investigação do
uso ilícito de criptomoedas, o regime da Coreia do Norte alcançou, em 2025, o
recorde de US$ 2 bilhões (cerca de R$ 10,8 bilhões) roubados do ecossistema de
criptoativos, ao qual recorre há anos para driblar as sanções internacionais e
financiar seus programas de armamentos.
No
entanto, essas estratégias não foram suficientes para aliviar de forma
significativa a crise humanitária no país.
Enquanto
ainda se aguarda saber até que ponto a renovada cooperação com a China,
sinalizada pela recente visita de Xi, será benéfica para Kim, permanece a
dúvida sobre até onde vai essa prosperidade propagandeada pelo regime.
E,
sobretudo, se essa prosperidade chegará aos norte-coreanos que vivem longe de
Pyongyang e da elite do país.
Também
não se pode perder de vista o ponto de partida: a Coreia do Norte não divulga
seus dados de PIB, mas a ONU estima que em 2024 esse valor era de US$ 15,2
bilhões (cerca de R$ 77,5 bilhões).
Isso
colocaria a Coreia do Norte em números absolutos em patamar semelhante ao de um
Estado brasileiro como Rondônia, segundo os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE).
Se a
comparação for do PIB per capita (o PIB é dividido pelo total de habitantes), o
valor norte-coreano per capita estimado (cerca de R$ 2,900) estaria bem abaixo
do Estado brasileiro com o menor PIB per capita, o Maranhão, de cerca de R$ 22
mil.
Além
disso, a "transformação milagrosa" da qual Kim se orgulha ainda terá
de superar muitos obstáculos.
Haggard,
da Universidade da Califórnia, afirma que "há indícios de que o regime
está investindo em desenvolvimento rural e habitação. Mas a desigualdade entre
a capital e o restante do país continua muito grande. Além disso, permanece a
dúvida sobre o quão frágil é esse boom. O projeto 20x10 tem financiamento
suficiente? De onde virá a tecnologia necessária? E há ainda uma questão mais
ampla: qual será o impacto dos gastos militares e se eles provocarão efeitos
negativos no longo prazo".
Jongkyu,
do Instituto para o Desenvolvimento da Coreia, também se mostra cético: "A
situação atual se parece mais com um modelo de crescimento impulsionado pela
guerra do que com um modelo sustentável. Embora a demanda militar possa
sustentar a produção no curto prazo, sua sustentabilidade no longo prazo
continua sendo duvidosa."
O
analista faz ainda outro alerta importante: "Os benefícios desse
crescimento ainda não chegaram ao cidadão comum."
Acordo
norte-americano permite que Arábia Saudita enriqueça urânio sem restrições
nucleares
De
acordo com uma emissora norte-americana, os Estados Unidos deram à Arábia
Saudita permissão preliminar para enriquecer urânio. O acordo, em sua forma
atual, não inclui medidas para impedir o desenvolvimento de armas nucleares.
Conforme explicou a CNN,
a minuta do acordo, que prevê o apoio dos EUA ao programa nuclear pacífico da
Arábia Saudita, ainda aguarda a assinatura do presidente
norte-americano Donald
Trump, embora as negociações tenham sido concluídas em outubro de 2025.
O canal
observa que o chamado "acordo 123" sobre cooperação nuclear
EUA-Arábia Saudita é um acordo preliminar para a transferência de materiais
e tecnologia nuclear para Riad por
empresas norte-americanas ou pelo governo dos EUA. A proposta ainda não
foi submetida ao Congresso dos EUA para revisão.
Fontes
informaram ao canal que o atraso na aprovação do acordo se deve, em parte,
ao conflito em curso no
Oriente Médio.
Por outro lado, fontes do Congresso acreditam que o atraso pode ser devido
ao risco de parlamentares norte-americanos bloquearem o acordo.
Fonte:
BBC News Mundo/Sputnik Brasil

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